Quintanilha – 25 anos

No dia 27 de Junho de 1987, falecia Aurélio Quintanilha. Explorando novamente o percurso desta importante figura, que também vai integrar a série documental No trilho dos Naturalistas,vamos recordar parte do seu percurso como investigador e professor da Universidade de Coimbra.
Já aqui falámos da sua vinda para a cidade de Coimbra, no ano lectivo de 1919/1920, a convite de Luís Wittnich Carrisso, para prosseguir uma carreira académica na docência e investigação.
Carrisso, à altura Director do Jardim Botânico, convida-o formalmente para concorrer ao lugar de 1.º assistente do grupo de Botânica da Faculdade de Coimbra, colaboração que muito iria enriquecer o então Instituto Botânico, e permitiria a Quintanilha prosseguir os seus trabalhos em Citologia Vegetal assim como organizar e desenvolver um centro de estudos em Biologia Experimental.
Esta mudança para Coimbra marca também um período de intensa actividade científica na sua vida. Entre outras responsabilidades, é a Quintanilha que cabe a regência dos cursos teóricos de Botânica Médica e Morfologia e Fisiologia dos Vegetais e respectivas aulas práticas. Paralelamente ao seu trabalho como assistente conclui o curso da Escola Normal Superior. Faz exame de Estado em 1921 com a apresentação da tese “Educação de hoje – Educação de amanhã” (avaliada em 18 valores) em que expõe ideias pioneiras e bastante ousadas para a época sobre o ensino das Ciências da Natureza. Designadamente, defende que:

a educação sexual dos jovens deve fazer-se principalmente nas escolas, aproveitando para isso os conhecimentos adquiridos no estudo da Botânica e da Zoologia.

Esta circunstância mostra as suas preocupações enquanto cientista, pedagogo e também cidadão – uma busca constante pela sua própria evolução e melhoramento, mas também uma tentativa de abrir e mudar mentalidades, especialmente das gerações mais jovens.
Em 28 de Maio de 1926 conclui o seu doutoramento em Ciências Histórico-Naturais com a dissertação “Contribuição ao estudo do Synchytrium e ainda nesse mesmo ano concorre a professor catedrático da Universidade de Coimbra com “O problema das plantas carnívoras: estudo citofisiológico da digestão do Drosophyllum lusitanicum, ambas as etapas ultrapassadas com distinção.
Apesar da publicação e do reconhecimento destes trabalhos científicos, não se considerava ainda preparado como investigador. Por essa razão, aceitou o lugar de leitor português na Universidade de Berlim, proposta que surgiu em 1928. Viveu três anos na Alemanha, onde trabalhou primeiro no Pflanzenphysiologisches Institut, sob a direcção de Hans Kniep, e mais tarde, no Kaiser Wilhelm Institut für Biologie, sob a alçada de Max Hartmann. No decurso destes estágios teve a possibilidade de se especializar em técnicas de genética dos fungos, assim como de adquirir conhecimentos em vários domínios da Biologia e conhecer figuras de referência da investigação europeia.
Regressa à Universidade de Coimbra no final de 1931, aplicando no Instituto Botânico o conhecimento e a experiência obtidos no estrangeiro. Mais precisamente, fê-lo montando o laboratório e biblioteca desta instituição e formando colaboradores nas técnicas aprendidas.
As investigações que iniciou na Alemanha prosseguem através da publicação, em 1932, da obra “Le problème de la sexualité chez le Champignons”, dedicada ao seu mestre e amigo Hans Kniep.
Os seus discípulos recordam-no como um verdadeiro mestre e um professor exigente, mas simultaneamente muito próximo dos seus alunos. Abílio Fernandes (que foi seu discípulo no ano lectivo de 1926-1927) recorda o seu comportamento junto daqueles que a quem leccionava da seguinte forma:

A camaradagem que estabelecia com os alunos tornava-se ainda mais intensa durante os trabalhos de campo, pois que, terminados estes, organizava-se quase sempre uma partida de futebol, andebol, luta de tracção ou qualquer outra competição desportiva em que ele próprio participava com grande entusiasmo.

No entanto, esta sólida carreira científica, assente num empenho e trabalho árduos, é abruptamente interrompida quando Aurélio Quintanilha é afastado compulsivamente do serviço e reformado, em 1935.
Desse episódio falaremos em novo post, muito brevemente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>