O ovo, o ninho e o voo. Depois, as nuvens

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Criado para a primeira infância, Aves — Trilogia para Bebés é uma viagem em três actos, com sons lá dentro. Palavras, música, palmas e duas línguas destravadas.

Um CD que começou por ser um espectáculo e que se apresenta como “um objecto sonoro para partilhar no casulo familiar”, brincando “com a sonoplastia e com as palavras para embalar a imaginação dos bebés e famílias”. Na certeza de que “tudo se inicia no ovo”.

São palavras de Dulce Moreira e Mariana Santos ao PÚBLICO, enquanto criadoras do projecto O Som do Algodão. E têm mais para dizer, quando se lhes pergunta porquê a escolha de aves: “Aves porque é um espaço de liberdade. A ideia de que tudo se inicia no ovo, no casulo primordial. Do ninho-casa e dos afectos que moldam os nossos sonhos e nos permitem ganhar asas para voar. Para nos reencontrarmos nesse espaço de liberdade, porque ‘sonhar é bom, é como voar suspensa por balões’, como escreveu Clarice Lispector.”

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Quando se passa para a segunda faixa, O ninho, é-se levado para a história do Urso Gaspar, da autoria de Inês Montalvão. Antes, já se experimentou a descoberta do ovo, “que é um bicho estranho”. E deparamo-nos com “essa estranheza de acontecer, de existir”.

O ninho somos nós que o fazemos

Gaspar “reúne os seus afectos, as suas conquistas e percebe que o ninho somos nós que o fazemos”. Mais: “O ninho é o lugar que escolhemos como nosso. Seja ele onde for.”

Depois, chega o momento de voar, a última parte da trilogia: “Uma viagem sonora e poética através do sonho, do desejo de voar, de subir no alto como um balão vermelho. De habitar ar. É a história de um apenas menino que ‘amou sempre a terra, viveu sobre as árvores e subiu para o céu’, nas palavras de Italo Calvino”, evocam as autoras.

Sobre a adesão das famílias ao espectáculo, recordam que a trilogia Aves teve a sua estreia no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, Porto, em 2017. Desde então “passou por palcos de todo o país, reunindo centenas de famílias”. Esteve no Teatro Municipal Constantino Nery (Matosinhos), na Reitoria da Universidade do Porto, no Festival i (Águeda) no Geão Mini Fest (Santo Tirso), no Festival Imaginário (Sintra) e em auditórios e bibliotecas na Guarda, Sever do Vouga, Albufeira, Macedo de Cavaleiros e Vila Nova de Cerveira. E passou ainda “por dezenas de instituições do ensino pré-escolar um pouco por todo o país”.

Internacionalmente, esteve “em destaque na edição de 2019 do Kolibrí Festivaali, em Helsínquia, um festival que celebra a multiculturalidade na Finlândia”. O trabalho foi apresentado a famílias em língua portuguesa. “Uma experiência que veio provar que a palavra existe para lá das fronteiras linguísticas e que nos permitiu partilhar o nosso trabalho artístico focado na primeira infância com famílias de portugueses, brasileiros, espanhóis, chilenos, argentinos ou finlandeses.”

Agora, O Som do Algodão alimenta o desejo de regressar aos espectáculos ao vivo o mais brevemente possível. “No imediato, o projecto mais próximo passa pela digressão que iremos realizar nos Açores com o apoio da Fundação GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas]. Iremos levar até às ilhas do grupo central a estreia da nova trilogia para bebés – Cumulus –, cuja criação contou com o apoio do Fundo de Fomento Cultural do Ministério da Cultura”, descrevem.

Cumulus são nuvens. Dulce Moreira e Mariana Santos explicam a nova viagem sonora, visual, sensorial e performativa: “Começamos no ar, como que resgatando o voo final da trilogia Aves, com o desejo de regressar à terra. De nos voltarmos a mover com os pés no chão. Do ar passamos à terra. À cor, ao calor, ao toque e à pele. Para nos reconectarmos. Em família.”

Mais um momento (e espaço) para partilhar a liberdade e as emoções com as famílias e os bebés. Com música embrulhada.

Texto divulgado na edição do Público de 10 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Altos voos…

Anda por aí um elefante a dar gelados às crianças

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Os autores não puseram o animal na tradicional loja de porcelanas, mas a passear pela cidade. E a distribuir gelados aqui e ali, onde houver crianças.

Estava um elefante tranquilo na sua vida estável, monótona e previsível que o jardim zoológico lhe facultava, quando um pequeno rapaz o desafiou a abandonar toda aquela paz e sossego.

Não foi muito difícil convencê-lo, já que a sua natureza rebelde ansiava em silêncio por uma oportunidade de se fazer ao mundo. A primeira paragem foi logo ali, no primeiro restaurante que avistou. “Pediu um bife com batatas fritas. Depois sentou-se à mesa e comeu tudo. E de sobremesa? Oh, comeu logo os pratos e os talheres.” Ainda houve tempo para outros estragos… entre muita água bebida, café, chávenas e pires ingeridos.

Certo é que, depois de algum receio dos pequenos (“as crianças começaram a ficar inquietas, porque não sabiam para onde voava o avião”) e do desejo de abraçarem os pais (“agarraram-se ao elefante mas não era a mesma coisa”), houve festa na cidade. Noutra.

Prevê-se que o futuro da chancela seja radioso e que passe por despertar nos jovens leitores a vontade de ver as outras cores que o mundo contém e que só os olhares mais atentos conseguem vislumbrar, como a cor de burro quando foge”, dizem-nos da editora, informando ainda que “o nome resultou de um divertido diálogo com a ilustradora”, Christina Casnellie.

O autor do livro é também o editor da chancela, assina com o pseudónimo Manuel Palaio, é natural de Ferreira do Zêzere, “sempre admirou a sabedoria das crianças e inspirou-se nelas para criar este livro”.

Christina Casnellie é ilustradora e designer gráfica. Trabalha em publicidade, impressão tipográfica, serigrafia, design de produto e design editorial. Na sua página, diz: “Fico entusiasmada com qualquer tipo de projecto em que possa sujar as mãos.” Na cidade ou não.

Um Elefante na Cidade
Texto: Manuel Palaio
Ilustração: Christina Casnellie
Edição: Cor de Burro Quando Foge
48 págs., 14€

Texto divulgado na edição do Público de 3 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira, que andam sempre à procura de actividades para a família. Ainda bem.

Monstros simpáticos que gostam de livros e de papas de aveia

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Uma história escrita para uma criança ainda por nascer conquistou o maior prémio de literatura infantil do país.

Monstros minúsculos vivem numa aldeia instalada nas molas do colchão de Olívia, mas o autor faz imediatamente saber que não é caso único: “Acontece em praticamente todas as casas, nas molas dos colchões daqueles que mais gostam de ler. Porque os monstros — e isso é que quase ninguém sabe — têm o vício das histórias.”

António Pedro Martins atribui-lhes nomes divertidos, Papa-Livros, Tira-Linhas, Tira-Teimas, Meia-Leca, Enche-a-Pança, Troca-Tintas, e características humanas, entre elas, a curiosidade. Por isso, ao descobrirem um livro de receitas, vão explorar os seus dotes culinários, enquanto toda a gente dorme.

Esta foi a história vencedora da 7.ª edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce (em 2020), que vale 25 mil euros a quem a escreve. O autor, na altura da atribuição do prémio, explicou o que queria defender: “A importância de ler e aprender com o que os livros têm para nos ensinar, e a ideia de que não podemos dizer que não gostamos das coisas sem as conhecer.” Quando tinha acabado de saber que iria ser pai, esforçou-se por escrever algo para a filha por nascer, Olívia.

Querer ser publicado

Os outros 25 mil euros ficam para o ilustrador que se revelar com mais talento para transfigurar o texto em narrativa visual. No caso, foi Duarte Carolino, com quem o PÚBLICO falou por estes dias, nas vésperas de se encerrar a candidatura para a 8.ª edição (2 de Abril).

Diz-nos ainda que a motivação principal para concorrer foi “tentar ser publicado”, sem deixar de acrescentar: “Claro que o valor em causa é uma motivação extra.” No entanto, desculpando-se pelo cliché, “estava longe de pensar que ia ganhar”. Mas ganhou. E ainda bem. As figuras simpáticas que desenhou, não só enriquecem o texto, como lhe conferem mais humor e até serenidade para as crianças mais medrosas. Consegue transformar monstros em seres afáveis e bem-dispostos. Amigos com quem nos apetece tomar o pequeno-almoço.

A nosso pedido, descreve o processo de trabalho: “Comecei no papel, com muitos esboços, depois passei para o computador, onde incorporei texturas que produzi manualmente.”

As seis ilustrações apresentadas a concurso (que correspondem a seis planos, páginas duplas) foram uma amostra feliz e representativa, não só do registo escolhido, como da atmosfera pretendida, da diversidade de elementos, escalas, perspectivas e cores.

Tornar contemporânea a arte popular

Duarte Carolino, que foi tomando em consideração a opinião da filha de oito anos à medida que criava as novas ilustrações, diz que “genericamente ficou satisfeito com o produto final”: “Depois de saber que tinha ganho, o processo é muito rápido, os prazos para finalizar as restantes ilustrações são apertados (bem mais curtos do que num livro de ilustração editado de forma convencional) por isso era difícil fazer melhor.

Para chegar à estética dos monstros do colchão da Olívia, socorreu-se da arte popular portuguesa, sobretudo inspirando-se e investigando os trabalhos de Rosa e de Júlia Ramalho (Barcelos). Deu-lhes contemporaneidade e novos rostos.

Formado em Artes Plásticas pela Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha, Duarte Carolino interessa-se por tipografia e, nos últimos anos, tem realizado vários projectos de serigrafia, na companhia de Matilde Beldroega.

Sete anos, 130 mil livros

O Prémio de Literatura do Pingo Doce teve a sua primeira edição em 2014 e já revelou 14 novos talentos na literatura para a infância e na ilustração e design gráfico. O total de sete obras publicadas traduz-se em mais de 130 mil livros disponíveis em mais de 400 lojas e a preços baixos.

Para Maria João Coelho, directora de Marketing do grupo, “o Prémio de Literatura Infantil Pingo Doce vem reforçar o compromisso de promoção da literacia infanto-juvenil, através da democratização do acesso aos livros infantis, estimulando os hábitos de leitura em família, desde cedo”.

As candidaturas para a fase de texto terminam a 2 de Abril (Dia do Livro Infantil). Depois de conhecido o vencedor, a 5 de Maio (Dia Mundial da Língua Portuguesa), será a vez de os ilustradores terem o privilégio de conhecer a história em primeira mão e de a tentarem transpor para linguagem visual. Poderão então concorrer a partir de 13 de Maio e até 1 de Julho (Dia Mundial das Bibliotecas).

Se o leitor tem uma história na gaveta, está na altura de a tirar de lá. Se só a tem na cabeça, ainda vai a tempo de a escrever e de concorrer. Com ou sem monstros.

Leituras e Papas de Aveia
Texto: António Pedro Martins
Ilustração: Duarte Carolino
Revisão: Alice Araújo
Design e edição: Livros Horizonte
Produção: Livros Horizonte, Lda para Pingo Doce — Distribuição Alimentar, SA
50 págs., 3,99€

Texto divulgado na edição do Público de 27 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta linda página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda.

Uma homenagem feliz aos mais velhos

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A autora reencontra o avô através da memória do banco de madeira em que ele se sentava. A ilustradora vai aos “bolsos das recordações” e também dá de caras com os seus avós.

A Geração dos Bancos de Madeira foi escrita, segundo Sara Brandão, numa tentativa ingénua de reencontrar o avô nas coisas mais simples. “Recordo-o muitas vezes sentado na cozinha, num desses bancos em madeira, e foi a partir dessa imagem que a história fluiu num tom infantil e ficcional”, conta ao PÚBLICO.

Diz ainda: “Queria abordar a perda, carinhosa e indirectamente, sobretudo aquilo que permanece. Acho que, à medida que vamos crescendo, tudo nos pesa e perdemos uma certa facilidade em recordar aqueles que nos deixaram por aquilo que foram e centramo-nos, em excesso, na sua ausência física.”

Com uma escrita fluente e imaginativa, Sara Brandão consegue criar uma voz verosímil para uma criança de 12 anos. “Vivo numa casa que não é grande nem é pequena, em frente à casa dos meus avós, que mesmo sendo do mesmo tamanho da minha, é sempre muito maior. A minha casa é branca e sonolenta, porque a maioria do tempo que lá passo estou a dormir.”

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Os nomes dados aos capítulos são bem escolhidos. Desde “Aprender a comer” a “Aprender a lidar” ou a “Aprender a fugir”.

Para a ilustradora, Luísa Coelho, começou por ser difícil dar corpo à narrativa: “Honestamente, quando comecei, não conseguia ver onde a ilustração poderia caber na história, sendo já um texto tão descritivo e poético, não queria que a ilustração viesse dizer o mesmo que as palavras, parecia-me redundante.”

Por isso andou uns tempos com tudo às voltas na sua cabeça, a esboçar ideias, mas sem nunca gostar do que estava a fazer, conta ao PÚBLICO. “Até que um dia, no Verão, decidi desligar-me parcialmente do texto e pensar no imaginário da criança, desde os amigos imaginários da personagem principal às confusões de pensamentos e emoções que esta menina sentia. Acabei por mergulhar nesse universo.”

Valeu-lhe identificar-se com a protagonista: “Muito! Acho que qualquer neto/a que tenha tido a sorte de conhecer os avós e a oportunidade de usufruir disso se identificará com esta história. Eu tenho o prazer de ser neta e ter os bolsos cheios de recordações dos meus avós, facilmente revejo os meus ‘bancos de madeira’. Assim como esta noção de vermos o tempo a passar e sabermos o quão importante é guardar estes momentos na memória.”

Colagens e um dedo partido

Luísa Coelho não seguiu uma regra rígida na escolha dos momentos a ilustrar. “Depois de ter percebido onde é que a ilustração iria existir nesta história, foi simplesmente anotar tudo o que dizia respeito ao imaginário da menina, o cavalo cor de beringela Manel, as confusões de vocabulário, as aventuras pontuais que iam acontecendo paralelamente à história principal. E a partir daí, foi passar tudo para o papel e começar a ilustrar as situações que me pareciam mais engraçadas e dinâmicas. No fundo, até ter terminado o livro, não fazia ideia de quantas ilustrações iriam ser, sabia só que pelo menos uma por capítulo tinha de existir.”

Inicialmente, apresentou três ilustrações quase finalizadas à autora do texto, “para poder exemplificar o que andava a magicar e como o queria fazer”. Depois, Sara Brandão deu-lhe “total luz verde para fazer o que quisesse” e então criou “de rajada as outras todas”.

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Sobre a técnica, descreve: “As ilustrações são todas analógicas, numa mistura de acrílicos, pastel seco, marcadores e colagem (talvez haja um lápis de cor aqui ou acolá também).”

E conta, bem-humorada, as vicissitudes do processo: “Quando finalmente percebi como iria fazer as ilustrações e com que materiais, nessa mesma semana, parti o dedo anelar da mão esquerda a surfar.” Sendo canhota, ficou atrapalhada, pois não conseguia desenhar como queria. “Não conseguia arranjar posição para a mão a segurar o pincel. Então foi aí que surgiu a colagem, veio por necessidade e no final acabou por resultar bastante bem.”

Truz Truz já editou online Disse o Mário e O Baile, sendo A Geração dos Bancos de Madeira o primeiro livro materializado.

“Vou e venho a pé da escola, sozinha. Gosto especialmente das quartas e sextas-feiras. Por não ter aulas à tarde, regresso guiada pelos cheiros que voam da cozinha da minha avó. Sigo numa caminhada de narinas, até à mesa que tem preparada para mim. Um banquete requintado com o carinho do Natal. Até aos meus onze anos almocei todas as quartas e sextas-feiras com os meus avós, sentada num banco de madeira e empoleirada sobre a mesa. Era esta a única vida que conhecia. A única vida que conheço. Hoje tenho apenas doze e mais um ano é coisa pouca para se falar em viver.”

Os dois últimos capítulos são “Aprender a aceitar” e “Aprender a honrar”. Seja.

A Geração dos Bancos de Madeira
Texto: Sara Brandão
Ilustração: Luísa Coelho
Edição: Truz Truz
104 págs., 14€

Texto divulgado na edição do Público de 20 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda. Obrigada a todos. (E não se esqueçam de agradecer aos mais velhos. O que quer que seja.)

Zangada com o mar

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Uma criança deixa de falar quando perde os pais num naufrágio. Noa é uma história triste, mas também de superação e de reconciliação com a vida. A luz e calor das ilustrações atenuam o drama.

Uma tragédia entra pela vida adentro de uma criança. Foi o mar que a trouxe e o avô que a anunciou. E logo ali Noa perdeu a voz. “Eles mentiram-me. Abandonaram-me. Desistiram de mim. Será que me portei mal?

Um naufrágio de pesca leva-lhe os pais e a vontade de falar. Sobre a mãe: “Ela disse que eu não precisava de ter medo do escuro, porque nunca me deixaria sozinha. Mas agora está escuro, e ela não está aqui…” Sobre o pai: “Ele disse que vinha a correr, se eu chamasse. Mas eu estou farta de chamar, e ele não vem… Não deve ouvir a minha voz a tanta água de distância.”

A autora do texto, Susana Cardoso Ferreira, disse ao PÚBLICO, quando o livro foi publicado, no Verão de 2020: “Ter feito isto à Noa, matar-lhe os pais, foi dificílimo. Ela começou a sofrer e eu também. Não me apetecia usar palavras supérfluas, tal como Noa, apetecia-me ficar em silêncio.”

A menina foi viver com o avô, mas acabou por se ver rodeada de outras pessoas na “casa mais alta do que larga”, com jardim e de onde se avista o mar. Mas ela não quer olhar para ele.

Um corvo, uma ex-professora, um amigo do avô e uma miúda tagarela preenchem agora os dias de Noa. A pouco e pouco, a vida reformula-se. “Tenho esperança de ter passado a mensagem de que a vida continua e que é possível reconstruí-la, ter novas famílias. O mundo continua, é diferente, mas não é mau”, disse então a autora, que é também tradutora de literatura infanto-juvenil.

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Dar luz e calor à história

Agora, foi a vez de escutarmos a ilustradora, Raquel Costa, que nos diz: “Não queríamos que fosse um livro sombrio e triste. A ilustração funcionou como contraponto, com luz, calor e textura.” Formada em Artes Plásticas – Escultura, conta como a leitura do texto teve em si “uma ressonância emocional forte” e que o processo criativo foi muito “guiado pelo instinto”. Fala ainda “na sintonia feliz com a Susana”, já que ambas estavam “à procura de uma voz autoral genuína, espontânea e livre”.

Alguns pormenores das ilustrações não constam da história, “gosto de acrescentar elementos na transfiguração em narrativa visual”, mas Raquel Costa não quis criar imagens demasiado pormenorizadas. “Procurei desenhar sem excesso de detalhes. É preciso saber quando parar e evitar melhoramentos. Só estraga. Há que ser contida na metáfora visual.”

No início, foi preciso “partir muita pedra”, diz. “A fase inicial nunca é fácil. Demora a sentirmo-nos confortáveis dentro do desconforto das páginas em branco.” Depois de ambas se sentirem “alinhadas”, foi mais fácil e fluente.

À medida que ia desenhando, ia mostrando os esboços para aprovação. “O trabalho faz-se por avanços e recuos. Podemos aperceber-nos de que o fluxo tem de ser transformado e algumas ilustrações reconfiguradas ou mesmo excluídas”, descreve a também professora na Escola Superior de Design, do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave.

Noa foi desenhado “exclusivamente com técnicas digitais”. Uma opção que teve que ver com o confinamento e com a possibilidade de se “saltar passos, como digitalização e pormenores de artes finais”. Assim, foi mais rápido e prático.

Ainda que goste de “sentir o lápis a riscar a folha”, defende que o digital permite igualmente “criar camadas e simular a pintura e fluidez” das imagens. Já não consegue imaginar Noa criado de outra forma.

Com este livro, Raquel Costa integrou a lista de 303 ilustradores seleccionados pela Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha (de entre 3235 candidaturas de 68 países). Não passou ao escrutínio seguinte, em que foram escolhidos os 77 que irão expor na próxima edição da feira, em Junho.

“Estaria mais feliz se tivesse sido seleccionada para a fase seguinte, mas estou muito orgulhosa por estar tão bem acompanhada nesta lista”, disse ao PÚBLICO no dia em que se soube que os portugueses a integrar a mostra em Bolonha seriam Catarina Gomes e Tiago Galo.

Quanto a Noa, já não afasta o olhar da nesga de mar que avista do jardim da casa. Mas é preciso deixar o tempo fazer o seu trabalho.

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Texto: Susana Cardoso Ferreira
Ilustração: Raquel Costa
Edição: Oficina do Livro
112 págs., 12,50€

Texto divulgado na edição do Público de 13 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo ainda online por causa do confinamento, que está quase a acabar…). Obrigada por se manterem aí e por nos visitarem.

A gritar é que a gente se desentende

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Discórdia é um livro que também pode ser entendido por crianças, mas que se destina a todos. Fala, sem palavras, da urgência de se criar pontes de entendimento. Com esperança.

Integrado na colecção Imagens Que Contam, esta narrativa visual, explica-nos a autora, brasileira, começou assim: “Achei intrigante brincar com a ideia de fazer um ‘livro silencioso’ bem barulhento. Nessa pesquisa, me dei conta de que uma das maiores ‘gritarias’ que me rondavam há um certo tempo era justamente quando a política entrava no meio. Por ser brasileira e ter morado recentemente nos EUA e Inglaterra, presenciei de perto as transições para o ‘Brexit’, Trump e Bolsonaro. Era impossível fugir de discussões e opiniões questionáveis, desde motoristas de Uber a posts intermináveis no Facebook e WhatsApp.”

Fica assim explicado o título: Discórdia.

O que começam por ser pequenas nuvens de desacordo passam a tempestades de conflito, algumas irreversíveis. Nani Brunini, natural de São Paulo, conta ao PÚBLICO: “Vi muitos amigos afastando-se de seus familiares e amigos porque, conversar, sobre qualquer assunto, tinha-se tornado intolerável. Essa angústia ficou ainda maior quando percebi que pessoas que respeito estavam do ‘outro lado’. Era uma situação incompreensível, inesperada, bizarra e parecia que não iria acabar bem.”

A ilustradora, que agora reside em Portugal, diz ainda: “Tenho a impressão de que desaprendemos a discutir – o que, aliás, é um terrível exemplo para as crianças. Aprendemos muito quando estamos perto de opiniões e experiências diferentes das nossas.”

Mas o livro acaba por trazer esperança, já que haverá alguém que conseguirá ajudar as personagens a encontrar “pontes de entendimento” e a relembrar “que é possível discordar de forma respeitosa e construtiva”.

Desafiámo-la a fazer uma legenda única no livro: o que escreveria e onde? “Acho que não colocaria legenda em qualquer lugar… Apesar de ter sido um desafio ter falado sobre um tema tão complexo sem ajuda de um texto, fez-me ver o assunto de uma forma diferente.”

Recorre à expressão, de que gosta muito: “Não entendeu? Quer que eu desenhe?” (o equivalente ao nosso “é preciso fazer um desenho?”) e esclarece: “Parece bobo, e muitas vezes diminuímos o papel das ilustrações, mas o facto de não termos um texto como suporte exige do leitor um esforço, na minha percepção, positivo, para que ele chegue a uma narrativa própria.”

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Escutar o outro

No livro, há uma espécie de salvador, um rapaz. Quisemos saber quem era: “A priori, não houve uma razão muito clara para escolher aquele personagem. Realmente poderia ter sido qualquer um deles. O engraçado é que só me dei conta depois de terminado o livro de que ele é o personagem que tem as orelhas grandes, ou seja, uma óptima metáfora/solução para um grupo de pessoas que precisam de parar de gritar e ouvir-se uns aos outros.”

O rapaz conta a ajuda de um cavalo para orientar os humanos a encontrar uma saída, mas podia até nem ser um animal, como explica a autora: “Ao serem engolidos pelo monstro, os personagens continuam o caos – alguns discutem, outros se desesperam. Um deles, no entanto, sai da bagunça e percebe que consegue moldar a sua fala em qualquer formato. Ele, então, cria um cavalo (poderia ter sido um skate, uma bicicleta, um dragão…) como uma maneira de procurar uma saída daquele lugar escuro e cavernoso.” Resultou.

Dos pincéis ao digital

Sobre a técnica usada, descreve: “A maioria dos desenhos começou à mão com pincel e tinta-da-china e depois passou por um vaivém entre Photoshop, Procreate e às vezes de volta para os pincéis.” Também nos dá conta do ambiente: “Escutei muita música clássica e voltei a desenhos da minha infância, como a Pantera Cor-de-Rosa e o Fantasia da Disney, para me ajudar a traduzir o que seriam manchas de fala mais ríspidas e outras mais calmas. Foi bastante desafiante, mas muito divertido.”

Na escolha das cores, Nani Brunini quis fugir às convenções cromáticas da política: “O azul e o laranja servem apenas para diferenciar um grupo do outro. No geral, procurei fugir de referências a grupos específicos, como vermelho para a esquerda e azul para a direita, por exemplo.”

Apesar de Discórdia ter nascido por observação e vivência de conflitos ligados à vida política, “não é necessariamente um livro sobre brigas entre grupos políticos”, esclarece. E acrescenta: “Como as falas são manchas abstractas e não ícones, não sabemos sobre o que exactamente estão contra ou a favor, nem de onde são ou mesmo que língua falam. Só sabemos que são dois grupos antagónicos e que estão muito zangados.” Vê-se. Aliás, quase se consegue escutar a gritaria que as imagens transpiram.

Querer ganhar pelo grito

Não tem dúvidas de que, “nos dias de hoje, há muita gente querendo ganhar no grito, tentando desesperadamente convencer o outro de que o seu lado está certo, geralmente com boas intenções. No entanto, esse caos barulhento só ajuda a aumentar o gap”.

A esperança que se vislumbra no livro não surgiu logo à partida, apareceu durante o processo criativo, como recorda a autora, que se estreia com este livro depois de um curso realizado na escola ArCo, leccionado por Catarina Sobral e Tiago Guerreiro, com a orientação de André Letria, editor da Pato Lógico. “Fazer o Discórdia, para mim, foi uma experiência extremamente catártica. Como eu estava vivendo aquela situação em tempo real, não tinha ideia de como o livro iria acabar. A história foi mudando junto comigo. Eu, na verdade, comecei bastante negativa. Não conseguia ver uma solução para um impasse tão grande.”

Com o avançar do tempo, Nani foi perdendo o pessimismo: “Aos poucos, lendo mais sobre empatia e conversando com mais pessoas, comecei a ver uma luz no fim do túnel – o que não quer dizer que o fim do livro foi algo estilo Hollywood, em que todos chegam a um ponto comum ou mesmo ao contrário, dizendo: ‘OK, não tem jeito mesmo, cada um para o seu lado. Agora só conversamos sobre se vai chover ou não’.” E concluiu: “A situação é muito complexa e não há uma única solução – às vezes até ouvir o outro lado não é suficiente – mas penso que é nossa responsabilidade procurar de forma proactiva reverter esse cenário.”

Discórdia é, portanto, um livro “para quem está cansado de gritaria”. Afinal, ganha quem grita mais alto ou perdem todos? Chiu!

Discórdia
lustração: Nani Brunini
Edição: Pato Lógico
40 págs., 13,50€

Texto divulgado na edição do Público de 6 de Março de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta bela página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo ainda online por causa do confinamento). Obrigada por se manterem aí e por nos visitarem.

Quem disse que não sabes desenhar?

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Um livro que convida a riscar, pintar, recortar. Sem complexos. O virtuosismo não é para aqui chamado.

Uma frase recorrente, “não sei desenhar”, é escutada por Nic e Inês durante as formações de expressão plástica que dão a crianças e adultos. “É comum a todos, mesmo a quem sabe efectivamente desenhar. Para nós, é importante realçar que todos sabem ‘desenhar’, ‘expressar’”, dizem ao PÚBLICO via email, os também autores de Em Casa, publicado em Março de 2020.

Os ex-professores Nic (Nicholas Carvalho) e Inês (Inês Almeida), formados na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, contam ainda: “No início dos confinamentos, percebemos a importância e relevância da publicação deste livro, dada a necessidade de as crianças se entreterem, criarem e fazerem algo longe do ecrã. Pensando logo em todos os nossos alunos, grandes e pequenos.”

Assim, nasceu a ideia de criar um livro de “exercícios que estimulam e desenvolvem, passo a passo, a habilidade para o desenho”. A protagonista começa por dizer que não sabe desenhar, mas depois embarca numa espécie de viagem. “Em cada página, são sugeridos exercícios e técnicas que a vão desbloqueando e fazendo ganhar confiança. No final, a personagem já se sente capaz por já ter desenhado tanto.”

Os desafios vão desde “desenhar de olhos fechados ou utilizar materiais menos comuns” até usar “a ponta do lápis como se fosse um pincel” ou ainda “desenhar com lápis de cera branco sobre uma folha branca”. Não se vai ver nada, até que se faça uma mancha com aguarela sobre o desenho invisível. “Parece magia!”

Uma semana para angariar 2500 euros

Para Nic e Inês, “ensinar as pessoas a desenhar e provar-lhes que toda a gente consegue fazer qualquer coisa é quase uma missão”. Por isso, no início de Junho de 2020, lançaram uma campanha de crowdfunding na plataforma portuguesa PPL, com o objectivo de financiar a publicação de mil exemplares de Não Sei Desenhar. “A meta foi fixada nos 2500 euros, que nos permitia publicar um livro de capa dura. A campanha tinha duração de dois meses e ficámos estupefactos quando atingimos o objectivo em apenas uma semana”, contam satisfeitos. E acrescentam: “Houve, inclusive, apoios de vários outros países. Como ultrapassámos largamente o objectivo, fizemos um livro com dimensão maior e melhores acabamentos do que inicialmente previsto.”

Difícil foi, depois do crowdfunding, personalizar mais de 300 exemplares com dedicatória, enviados pelo correio. “Ufa!”, concluem, divertidos. Associado ao livro, criaram também o workshoponline Não Sei Desenhar (em vídeo gravado) que percorre os principais exercícios. Também o realizam presencialmente, quando for possível, nas escolas que o solicitarem.

Sobre as técnicas e materiais usados nas ilustrações, descrevem: “Recorremos a várias técnicas sugeridas pelos exercícios, como desenho a grafite, lápis de cor, esferográfica, aguarela, pastel de óleo, mas também à fotografia, ao recorte de revistas antigas. Há até bilhetes de cinema, fotos antigas do nosso arquivo pessoal e fotografias dos materiais e ferramentas entre si: réguas, borrachas, lápis, lápis de cera, canetas… entre outros.”

Para a composição e paginação, recorreram à manipulação digital. “O texto é todo manuscrito. Quisemos dar uma sensação de liberdade e de descontracção. Há pouca rigidez – isto é o que combatemos e queremos desfazer”, concluem.

Antes, há ainda que dizer: “Com tudo isto, reforçamos a ideia de que todos conseguem desenhar e que as artes e a criatividade não supõem um talento inato e não são para uma elite. Está ao alcance de todos. É esta a nossa missão em todo o nosso trabalho.”

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A registar ainda um elogio às livrarias independentes, onde têm o livro à venda“São estas livrarias que compreendem este tipo de projecto, o verdadeiro amor aos livros e a singularidade desse universo.”

Agora, toca a ir buscar os lápis e os pincéis abandonados na gaveta. Quem disse que não sabes desenhar?

Não Sei Desenhar
Texto, ilustração e edição: Nic e Inês 
32 págs., 12€

Texto divulgado na edição do Público de 27 de Fevereiro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, foi publicada uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página (e sabe desenhar…) foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento, que nunca mais acaba :( ).

 

O pescador, o golfinho e as crianças de Aniki-Bobó

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Um passeio num porto de pesca algarvio fez nascer uma personagem e uma história. Quem a desenhou reenvia-nos para as crianças do filme Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira.

A história é narrada por António, que nasceu “numa aldeia de pescadores, junto à foz de um rio muito grande”. Diz-nos o rapaz que vivia “numa casa que tinha chão de areia e sabor a maresia. Uma terra com gaivotas a decorar os telhados e os barcos, ruas com palmeiras, mulheres de canastras à cabeça e saias compridas, rodadas”.

António era fascinado pelas aventuras de Pirilampo: “Um velho pescador que, já sem forças para se fazer às marés, passava os dias e muitas vezes parte das noites, sentado num canto do cais, perdido nos céus do oceano, como quem espera ainda um grande sonho. Pirilampo era agora um pescador de estrelas e de gentes.”

A alcunha “Pirilampo” ganhou-a em resultado do cachimbo sempre aceso, a iluminar a noite e o sorriso sábio. Será este ex-pescador de alto-mar que irá ajudar as crianças da aldeia a salvar um golfinho-bebé que se perdeu da mãe e foi dar à praia.

O autor do texto, Carlos Canhoto, que não vive perto do mar, contou ao PÚBLICO que esta história nasceu no Algarve, em Quarteira: “Num passeio nocturno junto ao molhe do porto de pesca, encontrei um velho pescador com os olhos postos no negro do mar, fumando o seu cachimbo. Estava só, ao vento e ao frio, e o negro-ébano da sua pele levou-me a imaginar que estaria sonhando com outras paragens, que teria os pensamentos noutros cais.”

Quando decidiu que o conto iria destinar-se ao público escolar, acrescentou-lhe o salvamento de um golfinho protagonizado por crianças. Outra decisão foi a de que as ilustrações seriam de Paulo Galindro. Como a editora que estava interessada na publicação “não seria capaz de rentabilizar economicamente a edição”, o autor publicou o livro através de uma marca editorial própria que, entretanto, tinha criado: Garatuja – Semeando Afectos.

Dos clássicos às tatuagens

O ilustrador também contou ao PÚBLICO o seu processo criativo: “Desde o primeiro momento, tive muita vontade de que o livro fosse beber inspiração às ilustrações dos velhos clássicos da literatura como Robinson Crusoe e Moby Dick. Ilustrações que ocupavam uma página, muitas vezes executadas em técnica de xilogravura.”

Revelou que ainda lhe “passou pela cabeça” fazer as ilustrações “de um modo purista, recorrendo ao linóleo e à sua posterior impressão, que depois seria digitalizada e trabalhada em ambiente digital”. Mas o tempo, como diz, “é sempre uma variável diabólica nestas coisas dos livros”. Optou então pela “ilustração digital de raiz, numa reinterpretação gráfica dos velhos clássicos”.

Esse olhar para os clássicos também ditaram a escolha da fonte do livro (Century Schoolbook) e a utilização de letras capitulares no início de cada página ou capítulo, uma solução a que diz recorrer muitas vezes. Esta “perseguição” aos velhos clássicos resultou também numa incursão ao universo das tatuagens.

Para estes lobos-do-mar – como o velho Pirilampo –, as tatuagens eram vistas como protecção, um diário de viagem e até memorabilia de paixões fortuitas”, descreve Paulo Galindro, que é também arquitecto. E acrescenta: “Eu queria que o livro fosse como uma tatuagem. E por isso investiguei também a estética da tatuagem old school e também a denominada Sailor Jerry, que acaba por marcar muito as ilustrações do livro.”

Assim, ficou a saber, pela iconografia e simbologia das tatuagens dos marinheiros, que estas eram “muito mais do que um adorno decorativo”. Exemplos de representação: “Uma andorinha marcava cinco mil milhas náuticas; uma estrela náutica era uma bússola mística para encontrarem sempre o caminho para casa; uma tartaruga assinalava o ritual de iniciação de quem atravessava pela primeira vez a linha do equador; uma âncora registava a travessia do Atlântico, uma sereia marcava um amor num porto.”

Sobre as personagens infantis do livro, conta: “Trouxeram-me à memória as personagens do filme Aniki-Bobó, de Manoel de Oliveira.” E garante: “Qualquer semelhança com elas não é mera coincidência (quem fala a verdade não merece castigo).”

Diz ainda ter aproveitado para “prestar uma homenagem sentida ao mestre David Bowie”, mas não revela onde. “Vão ter de comprar o livro para descobrir.”

Abelhas, fantoches e marionetas

Carlos Canhoto só viu o trabalho do ilustrador depois de terminado. Ficou satisfeito. “Achei que tinha valido a pena ter escrito o texto só para ver as fantásticas ilustrações do Paulo.”

O autor do texto é apicultor e vive num monte no Alentejo: “Tenho também uma horta e um pequeno pomar com árvores que eu mesmo plantei e trato.” No entanto, ocupa-se de outras actividades: “Gosto muito de inventar histórias e de dar vida a fantoches e marionetas.” Leva-os até a escolas, bibliotecas e lares, onde há muito tempo dinamiza sessões de leitura e conta histórias.

Foi numa animação que fez em Ílhavo, no Museu do Bacalhau, que transformou o Pirilampo num dos heróis da Terra Nova. Inicialmente, no Algarve, a figura do pescador tinha-o levado para outros destinos: “Levou-me ao sofrimento dos velhos trabalhadores cabo-verdianos em São Tomé, às saudades com que vão morrendo das suas ilhas, onde não conseguiram voltar.”

Vencedor do prémio Maria Rosa Colaço 2006 com O Monte Secou, escrito com Zé Gandaia (editado pela Pé de Página em 2007), tem mais de uma dezena de títulos publicados, fazendo parte do Plano Nacional de Leitura.

Sobre este livro, diz, numa reflexão sincera: “Nunca vivi junto a uma praia, não sou marinheiro. Aprendi as artes da pesca com o meu pai e acho que o Pirilampo é mais uma das histórias que acabei por viver sem ter vivido – uma história que hoje já vive naquela área das memórias em que não temos a certeza se terão sido inventadas ou vividas.”

Quanto ao velho pescador, continuou por algum tempo no cais à espera da sereia que o salvou de um cardume de bacalhaus nas águas gélidas da Terra Nova.

António, o narrador, cresceu, partiu e regressou. O Pirilampo já não estava no cais, mas o seu cachimbo continua até hoje a iluminar-lhe a memória.

Pirilampo, o Velho Pescador de Estrelas
Texto: Carlos Canhoto
Ilustração: Paulo Galindro
Edição: Edições Garatuja
32 págs., 12€ (10,80€ online)

Texto divulgado na edição do Público de 20 de Fevereiro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento).

Ler não engorda

Foto Rui Gaudêncio

Mesmo que ler engordasse, haveria por aí muitos trinca-espinhas alérgicos a livros, livrarias e bibliotecas.

Ficámos a conhecer a frase do título há mais de duas décadas, quando conseguimos, pela primeira vez, “tempo de antena” no jornal para a literatura infanto-juvenil. Foi o escritor António Mota que a disse, ao recordar ao PÚBLICO uma máxima de um encontro literário em Cáceres. “Ler não engorda” estava inscrito num cachecol. O autor, um dos que mais vendem neste segmento, repete a frase ainda hoje sempre que visita escolas. Um sucesso junto dos miúdos.

Desde esse primeiro trabalho, batemo-nos por criar novos leitores e por dar a conhecer o que de melhor se faz e publica para os mais novos. Cirandando de suplemento em suplemento, secção em secção e em diferentes espaços no PÚBLICO, sempre incentivámos as famílias a frequentar livrarias e a deixar as crianças escolher os livros que mais lhes agradassem. Mesmo que não fossem os preferidos dos adultos.

Acreditamos que há um livro certo para cada um de nós. Aquele que nos faz querer ler outro e mais outro e outro ainda. Mas há que explorar. As livrarias e as bibliotecas são os melhores espaços para essa prática e esse prazer. O Plano Nacional de Leitura sabe disso, mas ainda não lhe escutámos a voz.

Nunca nos incomodou a venda de livros nas grandes e médias superfícies, ao lado dos legumes e de outros bens de primeira necessidade, nem nas agências dos Correios ou outros lugares. Gostamos que os livros se vendam em todo o lado e que as famílias tropecem neles, mesmo nos momentos em que não estão a procurá-los.

No entanto, é nas livrarias independentes que há mais diversidade, melhor qualidade, maior liberdade. Os grandes grupos editoriais convivem com as pequenas editoras, há livros de autor, álbuns ilustrados maravilhosos, edições estrangeiras, livros antigos e, mais importante ainda, há livreiros. Pessoas que nos aconselham, que nos conhecem e conhecem também os livros que ali têm para nós. Se não os tiverem, tudo farão para os encontrar. Também são leitores.

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A importância de cada um de nós no mundo

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Só por existirmos já somos importantes. É isso que Christian Robinson quer mostrar às crianças.

Todos contamos, todos somos importantes, todos valemos. “Uma coisa mínima que mal se vê”; “quem apanha a onda ou quem nada contra a maré”; “o último a ir e o primeiro a chegar”. Todos. Não importa o tamanho, a proveniência, a escolaridade, o desempenho, os bens.

Pode ser um dinossauro ou uma formiga, um adulto ou uma criança, um meteorito ou uma célula. “Quando pareces estar a mais”; “quando achas que não és capaz”; “quando ninguém te pode ajudar”: “És importante.”

Christian Robinson questionou-se sobre o que queria transmitir aos leitores. Chegou à conclusão de que gostava de dizer a todos eles que “cada um é importante só por existir”. Sempre que fala neste livro, repete: “Em casa, na escola, no mundo, todos podemos fazer a diferença.”

Animador e realizador da Pixar e Rua Sésamo

O autor vive em São Francisco, Estado Unidos da América, e dedica-se à ilustração e ao cinema de animação. Trabalhou nos estúdios da Pixar e colaborou na realização da Rua Sésamo. Acredita que as crianças devem escutar e sentir desde cedo que são importantes. Por isso convida os leitores a dizerem isso mesmo a quem está à sua volta, aos adultos também.

Robinson diz que as árvores são dos seres vivos que mais o deslumbram. Ao comentar para o Read-Along PBS Kids uma das ilustrações do livro em que aparece uma grande árvore (de tronco muito largo), duas crianças, um cão e dois homens (um de bengala, outro não), questiona os leitores: “Quando estou a falar dos mais novos e dos mais velhos, estou a referir-me a quem?”

Há que estar atento aos pormenores das ilustrações deste livro (dos outros também), só assim se perceberá a ligação entre as personagens representadas. O cão que parece estar sozinho à beira da estrada, mas que surge mais adiante com alguém a segurar-lhe a trela; a criança que brinca à janela com um foguetão e se assemelha à da foto que uma mulher astronauta segura na mão quando olha para Terra, numa outra página mais à frente.

Questões universais, emoções individuais

“Podes às vezes sentir-te só e achar que não és capaz. Mas és importante. (…) Mesmo se caíres e tiveres de começar tudo outra vez…”, vai escrevendo e mostrando o autor.

Recebeu, em 2016, a Menção Honrosa da Medalha Caldecott, com o livro A Última Paragemeditado em Portugal pela Minotauro/Grupo Almedina. Na Orfeu Mini, tem publicados outros dois títulos: Gaston (com texto de Kelly DiPucchio) e Outro (com texto e ilustração de Christian Robinson), que foi considerado o Melhor Livro Infantil Ilustrado em 2019 pelo New York Times e pela New York Public Library.

Tem ilustrado muitos livros para crianças e recebido vários prémios. Quando lhe perguntam quais as fontes de inspiração, tem dificuldade em parar de falar, mas começa por estas: “Livros ilustrados e artes gráficas dos anos 1950/60, natureza, simplicidade, cidades, ciência, história, música…

Conta que desde cedo adorava desenhar, pintar, esculpir, enfim, todas as actividades que lhe ocupassem as mãos. Hoje, diz ser obsessivo em coleccionar imagens que o inspiram. E é habitual frequentar museus e livrarias, quando precisa de “recarregar… e de encontrar uma centelha de inspiração”, pode ler-se numa entrevista do autor no site Brightly.

As mudanças de escala e de perspectiva em És Importante ajudam a consolidar o que é dito, traduzindo também por imagens questões universais e emoções individuais. Todas válidas e importantes. Como cada um de nós.

És Importante
Texto e ilustração: Christian Robinson
Tradução: João Berhan
Revisão: Nuno Quintas
Edição: Orfeu Negro
40 págs., 14€ (12,60€ online)

Texto divulgado na edição do Público de 13 de Fevereiro de 2021, no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer voltou a ocupar-se da parte de agenda (tudo online por causa do confinamento). Todos importantes! (para nós e para quem está aí desse lado).

Carmen Garcia explica às crianças como se espalha o vírus da pandemia

(Texto divulgado no site-satélite Ímpar no dia 9 de Fevereiro.)

Rimas com vírus, narizes, sabão e vacinas transformam um livro numa ferramenta de educação para a saúde. Era Uma Vez… Um Vírus, de Carmen Garcia e Tiago Leal, quer combater a desinformação desde cedo. 

O que começou por ser uma conversa entre mãe e filho, para o informar e sossegar, acabou por resultar num livro de rimas simples sobre o coronavírus. Era Uma Vez… Um Vírus foi escrito por Carmen Garcia, enfermeira e cronista do PÚBLICO, e ilustrado por Tiago Leal, da Ego Editora. Está a partir de segunda-feira disponível online no PÚBLICO e será distribuído gratuitamente, na sexta-feira, 12 de Fevereiro, em suporte papel com a edição impressa do jornal.

Carmen Garcia revela o processo de construção do livro: “Comecei a contar esta história muito antes de pensar transformá-la em livro. Foi a forma que encontrei de falar com os meus filhos sobre o coronavírus porque o mais velho (quatro anos), de um momento para o outro, começou a ficar muito assustado com a pandemia.” Passava o tempo a perguntar-lhe se ele ou o irmão, mais novo, tinham coronavírus.

“Entretanto”, continua, “quando decidi voltar a trabalhar – porque eticamente não me pareceu aceitável não ajudar como enfermeira nesta fase –, foi o pânico absoluto. Passava o tempo a fazer-me perguntas, preocupado… E esta história serviu para falarmos sobre o coronavírus e a covid-19 de uma forma positiva, mas sem fugir à realidade.”

Por isso, deseja que o livro sirva “de porta à conversa que pais e filhos precisam de ter sobre a pandemia. A ideia é que, a partir da informação dada no livro, as crianças consigam expor aos adultos as suas dúvidas, medos e inseguranças”. Diz ainda: “O livro é de fácil leitura e, por ser em verso, tem ritmo. O ritmo que é suposto mantermos depois de chegar à última página.”

Aliviar a ansiedade e o medo

O ilustrador e editor do livro, Tiago Leal, conta ao PÚBLICO o primeiro contacto da autora: “Tudo começou com uma proposta da Carmen que, num telefonema, me disse que achava que era necessário fazer algo para melhor comunicar a pandemia às crianças, porque, em termos de comunicação, as via um pouco esquecidas. Essa preocupação vinha de relatos de pais que lhe confidenciavam que sentiam os filhos perdidos no meio deste mar de informação apenas para adultos e a começarem mesmo a apresentar sinais de ansiedade e medo.”

A ideia inicial era fazer apenas um folheto, em PDF, para distribuição gratuita no site da Ego Editora, com o texto e duas ou três ilustrações. “À medida que fomos trabalhando o texto e as ilustrações, tornou-se evidente que faria mais sentido fazer um verdadeiro livro infantil digital, também ele gratuito, com mais páginas e mais ilustrações, para que a experiência de leitura fosse proveitosa, tanto para pais como para crianças, e que ajudasse a passar da melhor forma a mensagem.”

A enfermeira diz, assertivamente: “Este livro não é para ser vendido. De todo. A ideia foi sempre que esta história pudesse chegar gratuitamente a toda a gente. Não faz sentido cobrar por uma ferramenta de educação para a saúde. E felizmente o Tiago (ilustrador e editor) é da mesma opinião.”

Inicialmente, apresentaram o projecto à Direcção-Geral da Saúde (DGS) “e tentar que eles patrocinassem a impressão para ser distribuído gratuitamente a todas as crianças do pré-escolar e 1.º ciclo”. Como não obtiveram resposta da DGS, decidiram avançar sozinhos. “Combinámos que faríamos o e-book e que o colocaríamos numa plataforma digital onde pudesse ser descarregado gratuitamente.” Entretanto, PÚBLICO e a Multicare associaram-se à iniciativa.

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Um conto feliz da tradição judaica

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José ganhou uma manta assim que nasceu. Feita à mão pelo avô, que era alfaiate, a coberta vai acompanhá-lo por muito tempo.

O autor português da adaptação de A Manta do José, Miguel Gouveia, encontrou uma versão deste texto há cerca de dez anos, no livro Joseph Had a Little Overcoat, de Simms Taback. “Esse texto usa uma estrutura semelhante, mas começa com um sobretudo, em vez da manta, e o Joseph é um adulto”, conta ao PÚBLICO, via email. E acrescenta: “Esta é uma das muitas versões que existem. Se não estou em erro, também existe uma canção por aí.”

Nesta, um alfaiate faz uma bonita manta à mão para o berço do seu primeiro neto, José. Como a manta não cresce com ele, à medida que o calendário avança, o avô arranja sempre novas soluções para que o tecido não se perca. Nem a ligação e afecto entre ele e o neto.

Um casaco, primeiro (“sabes, José, acho que ainda temos aqui material suficiente para te fazer um casaco”); um colete, depois (“sabes, José, acho que ainda temos aqui material suficiente para te fazer um colete”), um lenço, mais adiante (“sabes, José, acho que ainda temos aqui material suficiente para te fazer um lenço”); um botão forrado, por último (“sabes, José, por incrível que pareça, acho que ainda temos aqui material suficiente para te forrar um botão”). Por último ou talvez não…

O calendário também avançou para Miguel Gouveia: “Entretanto, o tempo passou e foi quando comecei a pesquisar repertório para sessões de narração oral, prática na qual tenho estado cada vez mais envolvido, que me deparei com esta história uma vez mais em algumas antologias”, recorda. “A partir daí, comecei a construir e a contar uma versão, que ao longo do tempo foi evoluindo e acabou por se plasmar na versão que sai no livro”, conclui o ex-professor, com mestrado em Livros e Literatura Infanto-Juvenil, pela Universidade Autónoma de Barcelona.

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Igualmente editor da Bruaá, coube-lhe escolher quem ilustraria as suas palavras: “Foi mero acaso. Tínhamos descoberto o trabalho dela [Raquel Catalina] mais ou menos quando achei que o texto estava ‘fechado’ e achámos que seria a ilustradora mais indicada. Ficámos muito contentes com o resultado final.” Quando fala no plural, refere-se à designer Cláudia Lopes, sua “cara-metade”, com quem fundou a editora em 2008.

Diz ainda: “Temos recebido um retorno muito positivo e a prova disso é que o livro chegou já à 2.ª edição e foi traduzido para polaco, coreano e inglês.”

O prazer de ilustrar textos bons

A ilustradora, Raquel Catalina, também aceitou contar-nos como foi ilustrar esta história feliz da tradição judaica: “Desde logo, o tema do conto pareceu-me tão intrínseco ao ser humano, tão universal, que não quis ser muito concreta quanto a uma época ou lugar em que este se passa. A pouca informação dada a esse respeito é deliberada.”

Disse ainda: “Por outro lado, só existem três personagens: o José, o avô e a mãe. Eu reduzi-as a duas, o José e o avô, para me focar na sua relação. Então, acabei por ter muito poucos elementos num conto que joga com a repetição. Essa foi sem dúvida a maior dificuldade que encontrei.”

Quisemos saber se tinha gostado deste trabalho: “Gostei muito de ilustrar esta história por duas razões: uma é a adaptação maravilhosa do Miguel Gouveia. O passar do tempo, o envelhecer, a perda… é impossível não nos sentirmos tocados pelo tema, que está contado de uma forma muito bonita. A outra é que a Bruaá é uma editora que trabalha os seus livros com muito carinho e tem um catálogo cheio de verdadeiras pérolas. Senti-me muito honrada por quererem trabalhar comigo.”

A ilustradora, madrilena a viver em Valência (onde fez mestrado em Ilustração), diz que lê e relê os textos antes de desenhar. “Então, em algum momento do processo, deixo-os em ‘quarentena’, para depois a eles regressar.” E afirma: “Trabalhar com textos bons é um prazer.”

Nas primeiras leituras, explica, vai “delineando algumas imagens que o texto sugere, guiada sobretudo pela intuição”. Vai também sublinhando palavras que se lhe afiguram evocativas. “Depressa decido sobre o que incluir no meu storyboard”, conta. Para concluir: “O livro é, na sua essência, uma sequência de imagens e texto e tem de funcionar como um todo.”

Já quanto à técnica, revela: “Neste livro, usei guache, lápis, lápis de cor, colagens e Photoshop. Tenho tendência para misturar materiais.” O processo de escolha das cores foi assim: “Fiz bastantes provas e custou-me muito a decidir. A verdade é que o resultado tem muito que ver com a minha paleta pessoal.” Funcionou bem.

Para descobrir a última ideia do avô do José no perpetuar da manta, já que o botão forrado desapareceu, terá de ler o livro. Vai gostar.

A Manta do José
Texto: Miguel Gouveia
Ilustração: Raquel Catalina
Edição: Bruaá Editora
32 págs., 14€ (online 12,60€)

Texto divulgado na edição do Público de 6 de Fevereiro de 2021, no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta bonita página foi Sandra Silva. O Guia do Lazer ocupou-se da parte de agenda.

Virginia Woolf para menores

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O conto A Cortina da Senhora Lugton foi encontrado entre as páginas do manuscrito do romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Data de 1924, mas não se nota.

A senhora Lugton adormeceu com um tecido azul sobre os joelhos. “Estava a ressonar muito alto. Deixou cair a cabeça; os óculos haviam-lhe subido para a testa. Estava sentada perto do guarda-fogo, com o dedo indicador voltado para cima e protegido com um dedal. Uma agulha com fio de algodão descia-lhe pela mão. Ela ressonava e ressonava.”

Aproveitando o sono da governanta, os animais que cobriam o pano azul, destinado a uma cortina para a sala de visitas, começaram a sua caminhada até ao lago.

Depois de escutarem cinco vezes o ressonar da senhora Lugton, “o antílope fez um aceno de cabeça para a zebra, a girafa cravou os dentes na folha mais alta da árvore e todos os animais começaram a agitar-se e a fazer cabriolas”. Começava a festa.

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Era sempre assim quando ela adormecia, a “poderosa ogra” que tinha feito um encantamento aos animais selvagens “e os prendia nas suas teias”. Até a velha rainha da cidade Millanmarchmantopolis o sabia. Por isso, “ninguém fazia mal aos belos animais selvagens”. Assim que Lugton acordava, retomavam os seus lugares. E ela a sua agulha.

Uma história simples, imaginativa e muito bem descrita. Foi publicada pela primeira vez em 1965. Esta edição bilingue (português e inglês) é de 2019 e conta com as coloridas e envolventes ilustrações de Magali Attiogbé, natural do Togo, mas a viver em França desde a infância.

Com vários livros em que representa animais, a ilustradora e artista plástica dá-lhes sempre uma configuração e expressão originais, tornando simpático e amistoso qualquer bicho selvagem.
 

Costurar e cantar

No site, Magali Attiogbé revela um pouco da sua biografia, o que ajuda a perceber a facilidade com que terá ilustrado uma narrativa desta natureza. “Nasci em Atakpamé, Togo, na década de 1980, cheguei a França com três anos de idade. A partir daí, herdei o animal sagrado da minha família: a pitão.”

Depois de concluir um bacharelado em Literatura, estudou Artes Aplicadas em Lyon e em Paris. Em 2002, obteve um diploma de ilustração na escola Estienne.

“Desde então, tenho trabalhado em projectos tão variados como cartazes, livros, jornais, cartões postais, pratos, brinquedos, camiões…”, descreve. Diz ainda que pratica “costura e canto, às vezes até os dois ao mesmo tempo”. Ilustrar A Cortina da Senhora Lugton deve ter mesmo vindo a calhar…

Revela também alguns dos seus clientes: Milan, Djeco, Amaterra, Mango, Flammarion, Rue du monde, La Martinière jeunesse, Gallimard Jeunesse, Larousse, Edições Bayard, Nathan, Magnard, Hazan o papelão, La Maison est en carton, Retz, Bordas, Fondation Cartier. Não são poucos.

Escrita inovadora

Virginia Woolf nasceu em Hyde Park Gate, Londres (Reino Unido) em 1882. O seu pai, Sir Leslie Stephen, era crítico literário. A partir de 1904, a escritora foi viver para Bloomsbury, com o irmão, Thoby, e a irmã, Vanessa Bell, pintora. As reuniões que mantinham com outros escritores e artistas deram origem ao conhecido Bloomsbury Group. Foi aí que conheceu o que seria seu futuro marido, Leonard Woolf, com quem fundou a Hogarth Press. Publicavam, além dos livros de Virginia Woolf, obras de T. S. Eliot, E. M. Forster e Katherine Mansfield, assim como traduções de Freud.

Informa a editora: “O primeiro romance de Virginia Woolf, A Viagem, foi editado em 1915, mas seria O Quarto de Jacob (1922) a suscitar o seu reconhecimento como uma escritora inovadora. Essa evolução seria confirmada em Mrs. Dalloway, onde a sua escrita captou a evanescente matéria da vida e as fugidias experiências de Clarissa, através de um tempo psicológico e reversível.”

Foi entre as páginas do manuscrito deste livro que foi encontrada a história A Cortina da Senhora Lugton, mas Virginia Woolf escreveu ainda outro conto para os sobrinhos, A Viúva e o Papagaio, editado em Portugal pela Porto Editora.

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Morreu perto dos 60 anos porque quis. Atirou-se ao rio Ouse a 28 de Março de 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Já tinha publicado nove romances, sete volumes de ensaios, duas biografias, um diário e vários contos.
Descreve a editora nas orelhas do livro (dobras da capa e da contracapa): “Antes escrevera ao seu marido: ‘Tenho a certeza de que vou enlouquecer outra vez. E sinto-me incapaz de enfrentar de novo um desses terríveis períodos. Começo a ouvir vozes e não consigo concentrar-me (…). Se alguém pudesse salvar-me serias tu (…). Não posso destruir a tua vida por mais tempo.’ E, finalmente, uma frase inesperada, que retoma a que Terence diz a Rachel morta, em A Viagem, o seu primeiro romance: ‘Não creio que dois seres pudessem ser mais felizes do que nós o fomos’.”
Talvez possamos adiar por uns tempos dar às crianças a informação destes dois últimos parágrafos.
“A Cortina da Senhora Lugton /Nurse Lugton’s Curtain”
Texto: Virginia Woolf
Tradução: Manuel Alberto
Revisão: Anabela Prates Carvalho
Ilustração: Magali Attiogbé
Capa: Carlos César Vasconcelos
Edição: Relógio d’Água
48 págs., 14€ (12,60€ online)
Texto divulgado na edição do Público de 30 de Janeiro de 2021, no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Ana Fidalgo. O Guia do Lazer ocupou-se da parte de agenda.

Galo Gordo: a cantar desde 2009

01CapaGaloGordo Pág. Crianças 23Janeiro 

Um projecto que junta palavras, música e ilustração e anda há mais de dez anos por aí a alegrar famílias. Galo Gordo já voou até à Austrália e à Índia.

Lançado no final do ano passado, Galo Gordo É Uma Festa! assinala a passagem de mais de uma década sobre o início deste projecto literário e musical. Inês Pupo, autora do texto, conta ao PÚBLICO, via e-mail, como tudo começou: “Nasceu quando o Gonçalo Pratas dava aulas de Música a crianças e me pediu letras para poder compor canções para os alunos. Pedia-me poemas que falassem do dia-a-dia e dos dias importantes do ano, como o São Martinho, o pão-por-deus, a mãe, o pai, os avós, entre tantos outros temas que marcam os nossos dias.”

Começaram a viajar pelas escolas do país e novas ideias foram surgindo. Já somam quatro livros e 52 poemas-canções, sempre ilustrados por Cristina Sampaio. Excertos do texto que dá título ao livro: “(…) Quando eu olho para os teu olhos/ e vejo os meus à procura/ estar contigo é uma festa,/ Ser feliz é uma aventura!”, “Faça chuva ou faça sol,/ sabes que a verdade é esta:/ sempre que nós estamos juntos/ não há dúvida; é uma festa!
04Enquanto a roda andaPág. Crianças 23Janeiro

O livro ficou pronto durante a quarentena do ano passado. “Impressionou-nos, na altura, o facto de vários dos poemas parecerem ter sido escritos a pensar neste tempo estranho que estamos a viver, embora não tenham sido. Falamos do facto de cada dia ser uma festa só por estarmos juntos e de nos olharmos olhos nos olhos, falamos das mudanças e de como tudo muda num segundo, falamos da roda da vida e das perguntas para as quais nem sempre temos resposta”, descreve a autora, que também interpreta as canções, em conjunto com Gonçalo Pratas.

Para o lançamento, estava agendado um concerto, em Novembro de 2020, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. A pandemia obrigou a que fosse adiado para Junho deste ano, mas ainda não há confirmação, informa o músico Gonçalo Pratas.

Para este CD, convidaram Vitorino, “para cantar uma canção que foi quase escrita e feita para ele” (faixa 6). É prática comum chamarem “músicos talentosos”. “Sabemos que há músicos extraordinários que acreditam, como nós, que as crianças são um público exigente, que merece ouvir, cantar e dançar boa música.”

Inês Pupo aproveita para recordar nomes com quem já colaboraram: “Temos belas memórias de momentos de estúdio ou de palco com Filipe Raposo, António Quintino, Diogo Duque, Celina da Piedade, Luís Peixoto, Ricardo Toscano, Cristina Branco, entre muitos outros.”

Cada livro nasce de uma conversa entre a autora e o músico, momento em que definem os temas a abordar. Depois, Inês Pupo escreve os poemas e entrega-os a Gonçalo Pratas e a Cristina Sampaio. “Enquanto a Cristina ilustra, o Gonçalo compõe. Só há duas excepções, ambas no segundo livro, Galo Gordo. Este Dia Vale a Pena!, em que a canção A banda da minha terra tem música e letra do Gonçalo, por ser um poema autobiográfico, e em que o poema Até vejo estrelas!… é escrito e musicado por mim, dedicado a um grande e velho amigo chamado Rafael.”
Sobre a articulação com a ilustradora, conta: “É difícil descrever o que sentimos quando recebemos os esboços da Cristina e mais tarde as ilustrações. Parece que os poemas ganham vida. E se às vezes, enquanto escrevo, imagino como é que a Cristina poderá vir a ilustrar uma ou outra ideia, outras vezes parece que ela vê coisas nos poemas que eu própria ainda nem tinha visto.”

Melhor ilustração para livro infantil em 2009

Cristina Sampaio, por seu lado, diz ao PÚBLICO que gosta de ilustrar este tipo de livro, com poemas-canções: “Até acho que prefiro, cada quadro é um quadro, o que me permite uma grande variedade de representações. E os poemas da Inês, que eu adoro, são muito coloridos e, portanto, inspiradores.

A ilustradora e cartoonista recorda que o primeiro livro foi publicado pela Caminho, editora com que já tinha feito diversos livros. “A sugestão partiu do editor, José Oliveira. Só conheci os autores posteriormente, quando o livro Canta o Galo Gordo foi premiado no Festival de BD da Amadora 2009 [melhor ilustração para livro infantil].” E descreve o processo para esse trabalho: “Só recebi o texto. Fiz os esboços, que enviei ao editor, que por sua vez enviou aos autores, que gostaram, e eu avancei com os finais.”

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Nos livros seguintes, já foi diferente: “Eu ia recebendo os poemas à medida que a Inês os ia fazendo, o Gonçalo enviava algumas músicas e cheguei a ir ao estúdio assistir às gravações. E íamos trocando impressões sobre os desenhos.”
Cristina Sampaio continua a fazer “esboços à maneira ‘antiga’: papel e lápis”. Diz ainda: “Como também sou eu quem faz a paginação, jogo com os desenhos e a mancha de texto.”

Tournées e Plano Nacional de Leitura

Gonçalo Pratas não quer deixar de referir as “três tournées” que realizaram “na rede nacional de auditórios, associadas a cada um dos livros, e o facto de os quatro livros fazerem parte do Plano Nacional de Leitura”.

O Galo Gordo foi ainda convidado pelo Instituto Camões para representar Portugal “em duas situações marcantes”. “Fomos à Austrália, em 2017, apresentar os livros aos alunos das escolas portuguesas, e à Índia, em 2019, participar no festival literário Bookaroo, com alguns dos nossos livros e projectos musicais.”

Inês Pupo diz que o projecto “ganhou vida própria”, sentem-no sobretudo quando estão em palco e este “se enche de crianças de várias idades a cantar Às seis da manhã canta o Galo Gordo”.
O desejo de toda a equipa é o de continuar a fazer companhia a muitas famílias. “Trazem livros com marcas [nódoas] de papa para assinar (que nos enchem de orgulho), ouvem-nos no carro e dançam connosco nos concertos.” Uma festa!

Galo Gordo É Uma Festa
Texto: Inês Pupo e Gonçalo Pratas
Ilustração e design gráfico: Cristina Sampaio
Revisão: Rosa Machado
Edição: Livros Horizonte

CD
Música, arranjos e direcção musical: Gonçalo Pratas e João Fragoso
Produção: Constróisons, Edição e Produção Multimédia, Lda
Livro+CD: 10,90€

Texto divulgado na edição do Público de 23 de Janeiro de 2021, no site-satélite Ímpar.

Página.Crianças23Janeiro2021GaloGordo

Na edição impressa, sai sempre uma versão mais curta do texto. Quem desenhou esta página foi Sandra Silva. Guia do Lazer ocupou-se da parte de agenda. (Em papel, é outra música…)

A magia do riso (e da amizade)

01CapaPág.Crianças16Janeiro2021

Rir é bom, fazer rir também. Filipe ria que se fartava, Luís não. Isso não os impediu de se tornarem bons amigos.

O título do livro causa estranheza, atrapalha a dicção e provoca logo um sorriso: Síul, Epilif e o Grande Zigomático. Descodificando, Síul é “Luís” ao contrário, Epilif é “Filipe” de trás para diante, Zigomático é o músculo principal responsável pelo riso.

Os dois protagonistas descobriram-no num manual de Anatomia. O mesmo aconteceu ao autor, Nuno Artur Silva, que conta ao PÚBLICO como se lembrou de escrever esta história: “A ideia surgiu há vários anos, quando descobri que o músculo que é o principal responsável pelo riso se chama Zigomático, Zigomático Maior. Sempre me soou a nome de mágico. Como trabalhava em comédia e com comediantes, cheguei a pensar fazer uma série que cruzasse o humor e a magia (cheguei a falar nisso ao Luís de Matos), mas não chegámos a fazer.”

No entanto, algo ficou a germinar: “Fiquei sempre com a ideia na cabeça, como acontece muitas vezes, à espera de encontrar a forma certa para se concretizar”, recorda o actual secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media. E acrescenta: “Com o tempo, senti que poderia ser o ponto de partida para uma história para crianças, uma história sobre a magia do riso, a capacidade que o riso tem de nos transformar, nem que seja por um momento. O riso como o truque que a alegria faz quando se manifesta, até no meio da tristeza, nem que seja por um instante só.”

 

Os dois rapazes que protagonizam a história, escrita no Verão de 2019, são uma brincadeira com os seus filhos, Luís e Filipe, a quem dedica o livro. “Queria muito escrever uma história que lhes pudesse ler enquanto ainda são crianças. Tinha de ser agora.”

No livro, um dos rapazes é fascinado pelo universo e o espaço-tempo e tem muita dificuldade em rir; o outro quer ser mágico e ri com facilidade. Tudo muda quando Filipe consegue fazer sair da sua cartola, não um coelho, mas um cão. “O Luís esboçou um sorriso. Sim, um sorriso, a estreia absoluta de um sorriso.” A partir daí, “o Luís brincava com o cão e ria, ria como se tivesse aqueles risos guardados há muito, muito tempo”.
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Nuno Artur Silva falou na história a António Jorge Gonçalves, “grande amigo e parceiro de aventuras desenhadas”, que lhe mostrou os trabalhos de Pierre Pratt. “Disse-me que ele poderia ser o desenhador ideal para a história. E foi. Foi o parceiro perfeito, quer pela forma como desenhou quer pela maneira como fomos trabalhando em conjunto.”

Parar a narrativa com uma imagem sem texto

Pierre Pratt explica ao PÚBLICO que, quando lhe entregam um texto, passa inicialmente muito tempo naquilo a que chama “escolhas narrativas”, porque considera muito importante esse momento do processo: “É o primeiro desafio quando se começa a trabalhar num livro. Faz parte do meu trabalho decidir como dividir o texto e a acção e criar a direcção narrativa e o ritmo da história.”

No caso, o primeiro desafio era estar perante um texto longo, “isso quer dizer menos espaço para as imagens”, e o ilustrador quer “sempre que as imagens sejam importantes, não por terem mais importância de que o texto, como é óbvio, mas num primeiro tempo para atrair o jovem leitor (e os seus pais)”.
A meio do livro, quis parar a narrativa com uma imagem sem texto. “É uma forma de pontuação, rítmica, mas também fica assim uma porta aberta para a imaginação do leitor”, descreve. “O Nuno gostou da ideia. A nossa relação de trabalho foi muito fácil e fluida. Ele deixou-me muito espaço, o que agradeço. Ele sabe que um autor deve deixar o texto ir para outros lados, tanto como um músico deixa intérpretes seguir outro rumo.”

Diz ainda o ilustrador: “Foi a nossa primeira experiência juntos, correu lindamente, temos uma sensibilidade muito próxima.” Deseja que ocorram novos projectos e aproveita para “agradecer ao grande António Jorge Gonçalves pela boleia, foi ele que [me] sugeriu”.

 Sobre a técnica usada, esclarece: “Vou chamar-lhe ‘guache (sobre papel)’. Na verdade, usei guache sim, mas misturei com um produto português da Viarco que tenho usado muito nesses últimos tempos, uma espécie de pastilha de grafite ‘aguarelável’ de cores básicas, cuja textura e opacidade me agradam imenso.” Para concluir: “Esta técnica permite-me muita liberdade e improvisação e acho que assim o resultado contém mais emoção e calor.” Tudo verdade.
Pierre Pratt nasceu em Montreal, Canadá, onde se formou em Design Gráfico. Nos anos 1980, publicou algumas bandas desenhadas, mas a ilustração acabou por se impor como trabalho. Já publicou cerca de 50 livros para crianças. Vive em Portugal há mais de dez anos, tendo leccionado Ilustração e BD no ArCo (Centro de Arte e Comunicação Visual), em Lisboa. Recebeu vários prémios internacionais e foi finalista do Prémio Hans Christian Andersen em 2008.

Mais ideias para histórias para crianças

Nuno Artur Silva, inicialmente conhecido sobretudo pela fundação e direcção das Produções Fictícias, recorda-nos trabalhos dirigidos ao segmento infantil: “É a minha quarta incursão no mundo das crianças e dos muito jovens (ou a quinta, se contar com a peça infantil, Anoitecendo, que fiz num colectivo para a comunidade timorense do vale do Jamor, no Natal de 1984). A segunda foi a banda desenhada À Procura do F.I.M., com António Jorge Gonçalves, sobre Lisboa através dos tempos, para a Lisboa-94; a terceira foi o disco/livro/peça de teatro Bom Dia, Benjamim em 1995 e 1998, com Luís Miguel Viterbo [guionista], Rui Cardoso Martins (escritor), Cristina Sampaio [ilustradora] e um colectivo de excepcionais músicos, encabeçado por José Peixoto (músico) e dirigido por José Mário Branco; a quarta foi a peça de teatro desenhada O Rapaz de Papel, com João Fazenda, editada em 2000.”

Pelo meio, desenvolveu ainda outros, “como produtor, director criativo ou editor (da série Inspector Max à revista Kulto [distribuída com o PÚBLICO]), mas, como escritor, é a quinta vez que ensaio o ‘era uma vez’”.

O também ex-administrador da RTP, responsável pelos Conteúdos (2015-2018), tem mais ideias para histórias para crianças, mas diz: “Não sei se as vou conseguir escrever nos intervalos das minhas funções actuais. (Vou tentar.).”
Sobre este livro, revela: “À medida que fui escrevendo esta história, percebi que estava a escrever sobre várias coisas, não só sobre o riso, a magia, a curiosidade ou o encantamento, mas, talvez mais do que tudo, sobre a amizade.” Acabou por chegar a uma outra conclusão: “Percebi também que das muitas coisas que fui fazendo na minha vida de escritor ou argumentista, esta foi, sem dúvida, das mais pessoais.”
(Nestes tempos difíceis que novamente nos aguardam e a que não podemos fugir, o truque… é ter amigos. E saber mantê-los, mesmo que já não sejamos crianças.)

Síul, Epilif e o Grande Zigomático
Texto: Nuno Artur Silva
Ilustração: Pierre Pratt
Edição: Bertrand Editora
40 págs., 12,20€

Texto divulgado na edição do Público de 16 de Janeiro de 2021, no site-satélite Ímpar.

PáginaCrianças16Janeiro2021Pratt

Na edição impressa, saiu uma versão mais curta do texto. A página ficou assim, desenhada por Ana Fidalgo e com a colaboração do Guia do Lazer na parte de agenda. (Obrigada, amigos.)