Na cabeça de Fernando Pessoa

Capa

Acabámos o ano com um livro em grande.

Logo na capa se diz que é um livro para “imaginar, desenhar e colorir”. Um conselho que apetece logo acatar, conheça-se ou não a obra de Fernando Pessoa. Este é um livro de actividades muito especial, inspirado em quatro dos heterónimos do poeta: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. A cada um, o seu chapéu.

Miguel Neto, que concebeu o livro em parceria com André Carrilho, explica: “O poeta Fernando Pessoa usava sempre um chapéu na cabeça. Dentro da cabeça vivia a sua imaginação. E essa era tal que acabava por transformar o chapéu. Transformava-o em coisas várias, todas importantes, todas especiais. Às vezes, em chapéus de outros poetas (…) Poetas inventados por si, na sua cabeça de poeta, com vidas e escritas diferentes das suas. Era uma espécie de magia. No fundo, era poesia.

Partindo de cada um dos heterónimos, que é apresentado com um chapéu recheado de elementos que o caracterizam, a criança é convidada a preencher os chapéus das páginas seguintes. A ideia é que se inspire na filosofia de cada um, que também lhe é transmitida com excertos de poemas, mas apelando à própria criatividade, experiência e visão da criança.

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Exemplificando: “Quando o Fernando Pessoa usava o Chapéu do poeta Alberto Caeiro, amava a natureza e as coisas simples.” Na imagem, vê-se um chapéu com flores, pássaros e insectos. Segue-se um excerto de “Sou um guardador de rebanhos”: “Sou um guardador de rebanhos./ O rebanho é os meus pensamentos/ E os meus pensamentos são todos sensações./ Penso com os olhos/ E com as mãos e os pés/ E com o nariz e a boca. / Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la/ E comer um fruto é saber-lhe o sentido (…).”

Depois, há o desafio para que as páginas imediatas sejam preenchidas com “chapéus, todos diferentes, uns em cima dos outros”, com “um belo animal” ou com “um monstro, terrivelmente assustador!”

Quando se apresenta Álvaro de Campos, lembra-se que “adorava máquinas e maquinismos e coisas modernas e barulhentas e tudo muito intensamente”. Para Ricardo Reis, diz-se: “Tinha a filosofia de aproveitar o dia, o momento, o que o destino trazia. Mas tudo com calma, sem prejudicar a alma.”

A encerrar, Bernardo Soares é descrito assim: “Com o chapéu de Bernardo Soares, Fernando Pessoa não sabia muito bem quem era, o que pensava, o que sentia, e assim, num grande desassossego, sempre por Lisboa, a sua cidade, ele ia… e ia…

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Tudo isto em português e em inglês (as edições da Lisbon Poets & Co. são sempre bilingues).

Uma ideia de se lhe tirar o chapéu. Melhor, de o pôr em várias cabeças.

O Chapéu de Poeta de Fernando Pessoa / The Poet Hat of Fernando Pessoa
Texto: Miguel Neto
Tradução (para inglês): Austen Hyde e Martin D’ Evelin
Ilustração: André Carrilho
Edição: Lisbon Poets & Co.
74 págs., 12,90€

(Versão alargada do texto divulgado na edição do Público de 31 de Dezembro, na página Crianças.)

Para conhecer melhor o trabalho de André Carrilho, siga-nos.

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Aqui está a página completa, com sugestões de actividades culturais para as famílias. Mais informação no Guia do Lazer.

E todos salvaram o Natal

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Nas vésperas de Natal, divulgámos estes títulos no espaço Família e Relações (no site Life&Style do Público). Um texto a que chamámos “Livros de Natal (porque é Natal)”.

“Histórias sobre o Pai Natal, com renas e duendes, sobre a família, com presépios e espírito natalício, preenchem as páginas de livros que todos os anos por esta altura são editados ou reeditados. Nesta “montra”, cabem seis. Três de autores portugueses e três não. Todos querem salvar o Natal. E conseguem.”

A página Crianças (de Natal) foi assim

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Aqui está a reprodução da página Crianças da edição do Público de 24 de Dezembro de 2016.

Esperamos que a noite de Natal dos visitantes do Letra pequena tenha corrido bem. Entre a família e os amigos, com boa comidinha, as prendas desejadas e, mais importante que tudo, com muitos mimos e abraços. “Noite feliz, noite de amor…” como diz a canção.

Está a começar a parceria com a Rádio Miúdos

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Letra Pequena está na Rádio Miúdos para (também ali) divulgar livros para crianças e jovens. Uns são de escritores e ilustradores portugueses, outros não. Gostamos de ler e dar a ler e acreditamos que há um livro certo para ti. Juntos vamos encontrá-lo. A parceria começa nesta quinta-feira, dia 22 de Dezembro.

Letra Pequena está na Rádio Miúdos

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A partir de 22 de Dezembro vamos partilhar as nossas leituras com os ouvintes da Rádio Miúdos. Começamos com alguns títulos do painel Livros para Escutar, mas não ficaremos por aí.

Letra Pequena está muito contente por assim poder chegar a ainda mais crianças e jovens falantes de português espalhados por várias geografias deste nosso mundo. Sintonizem-se…

Um miúdo que explica (quase) tudo aos pais

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É sabido que as crianças fazem muitas e muitas perguntas. Nem sempre os pais sabem ou querem responder. Chegam a desesperar com o momento em que as questões lhes são postas. Seja porque lhes parece que a criança se está a antecipar às fases de desenvolvimento que os manuais ditam ou porque aparecem em contextos embaraçosos. Enfim, quem tem crianças por perto sabe do que falamos (e nem precisam de ser pais).

Neste livro, o protagonista é um desses miúdos, sempre com um ponto de interrogação à espreita. Não entende o céu (afinal, como é que as estrelas se seguram lá em cima?) nem o coração (com os seus disparos frente à Maria).

A ajuda que pede aos pais para esclarecer estas e outras dúvidas não o satisfazem. Decide então investigar por si só. “Não foi fácil, mas, ao fim de algum tempo, consegui perceber muitas coisas que não percebia.”

Uma das investigações decorreu da comparação entre o pequeno e o avô: “A cara com rugas, as costas curvadas, as mãos com pintas, a careca aonde me apetece fazer desenhos com marcadores e lápis de cera. A minha cara não tem rugas, não tenho as costas curvadas e até gostava de ter pintas nas mãos e desenhos na careca, mas não tenho.”

Depois de perguntar aos pais a razão destas diferenças, estes “apenas” explicaram que o avô era mais velho do que ele. Mas o rapaz chegaria a uma conclusão muito mais satisfatória, que lhe ocorreu enquanto o desenhava: “– O avô tem um relógio no pulso, e eu não. O tempo passa por ele, e por mim não.

Um livro poético na escrita e na ilustração, em que as duas linguagens denunciam, a seu tempo, quer a confusão das dúvidas quer a clareza possível das conclusões. Com talento.

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A ilustradora usa várias técnicas e escalas para representar o rapaz e os contextos, impelindo-nos a virar a página com vontade de descobrir a solução gráfica que escolheu para as questões que vão sendo formuladas pelo protagonista. Como no pensamento do rapaz, dos pais dele e do leitor, nada é óbvio, mas também nem tudo é totalmente enigmático.

Gostamos particularmente de uma das perguntas finais, que também formulámos em tempos e a que já nos submeteram mais recentemente. “Onde é que eu estava antes de ter nascido?

Os Pais não Sabem, mas Eu Explico será apresentado amanhã [dia 18] em Lisboa, por Carla Maia de Almeida, na Landeau Chocolate do Chiado, às 16h. As autoras Maria João Lopes (jornalista do PÚBLICO) e Teresa Cortez vão lá estar. Levem crianças e perguntas difíceis. Elas explicam tudo o que os pais não sabem.

Os Pais não Sabem, mas Eu Explico
Texto: Maria João Lopes
Ilustração: Teresa Cortez
Editora: Máquina de Voar
28 págs., 10,60€

(Texto divulgado na edição do Público de 17 de Dezembro, pág. Crianças.)

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Para conhecer melhor (no Facebook) o trabalho da ilustradora Teresa Cortez, é este o caminho.

Uma bancada de cozinha ou um livro?

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Um livro de receitas, em que se aprende a fazer salada, caldo de feijão, pão de frigideira (“um pão-quase-pizza”), limonada, molho de iogurte, guacamole, vinagrete, sopa de tomate com ovos, bolo de maçã e, claro, batata chaca chaca. Do abastecimento da despensa ao momento em que chegam os convidados para a refeição, o leitor vai sendo desafiado a identificar ingredientes e utensílios de cozinha.

Para adivinhar as primeiras quatro iguarias são dadas estas pistas: “1. É feito de leite e pode ser fatiado, cortado aos cubos… 2. É um vegetal e faz chorar. 3. Os coelhos adoram-na… crunch crunch. 4. É verde e há quem o confunda com a curgete.” Seguem-se depois orientações para o procedimento na confecção dos vários pratos que se pretende oferecer aos amigos que hão-de chegar, “lá para o final do livro (mas não vale espreitar)”.

Batata Chaca Chaca é o novo título  da Colecção de Cantos Redondos, que a editora define assim: “Livros em papel interactivos e digitais? Nem mais.” E é o que Yara Kono faz com este manual de culinária, em que põe os miúdos a mexer no livro como se estivessem mesmo a cozinhar. “Levanta ligeiramente esta página e abana-a com cuidado, para passares tudo para a tigela da página ao lado” ou “… dá duas pancadinhas no topo do livro, para a limonada passar melhor no coador”.

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Todas as descrições e informações são acompanhadas por imagens muito coloridas, com uma grande profusão de elementos, como a capa do livro deixa antever. Como se diz na contracapa este é um livro “transformado em bancada de cozinha”. Toca a lavar as mãos e a pôr um avental.

Batata Chaca Chaca
Texto e ilustração: Yara Kono
Edição: Planeta Tangerina
40 págs., 13,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 10 de Dezembro, na página Crianças.)

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Em papel, foi assim.

Não adianta roubar o Natal…

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… ele celebra-se sempre. De uma maneira ou de outra.

Esta é uma daquelas histórias a que os adultos passaram a chamar, a partir de certa altura, “um clássico”. Seja ou não seja, a verdade é que este roubo do Natal por alguém que não gosta de o celebrar encontrou eco em milhares de miúdos, leitores ou “apenas” espectadores do que se mostra nos ecrãs.

Já faz 16 anos que Jim Carrey interpretou no cinema uma criatura verde e mesquinha que odiava o espírito de Natal, de seu nome Grinch, inspirada no livro que aqui se traz e que começa assim: “Todos os Quem no vale da Vila-Quem gostavam do Natal a valer… Mas o Grinch, que vivia a norte da Vila-Quem, nem o podia ver!” Está feita a apresentação do malandro que irá roubar o Natal mesmo na véspera da festa.

Mais: “O Grinch odiava o Natal! Odiava toda a estação! Por favor, não perguntem porquê. Ninguém sabe bem a razão. Talvez fossem os sapatos a apertar-lhe o calcanhar. Mas eu acho, afinal, que a razão principal é que ele tem um coração bem mais pequeno que o normal.” Parece ser uma justificação plausível. Todos conhecemos alguém assim.

O plano diabólico de Grinch consiste em disfarçar-se de Pai Natal, com rena e tudo, mas, em vez de levar presentes para as casas das famílias, vai retirá-los. Nem as árvores e enfeites hão-de escapar.

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O autor desta história já morreu, em 1991, mas continua a ser um autor de livros infantis reconhecido e muito querido pelos leitores, alguns que entretanto cresceram. Vendeu até hoje mais de 650 milhões de obras em todo o mundo e foi traduzido para mais de 30 línguas, ultrapassando a publicação de 60 títulos.

Quanto a Grinch, acabou por sentir e ver o seu coração crescer. Isto porque, mesmo sem presentes ou peru, todos celebraram felizes aquela noite e aquele dia.

Reflexão final do protagonista: “Talvez o Natal não seja algo que está à venda. Talvez o Natal… quiçá… seja mais do que uma prenda!

A festa da família e dos amigos acabou por chegar a Vila-Quem. E também há-de chegar aqui e aí.

Como o Grinch Roubou o Natal
Texto e ilustração: Dr. Seuss
Tradução: José Dias Pires
Edição: Booksmile
64 págs., 12,99€

(Texto divulgado na edição do Público de dia 3 de Dezembro, página Crianças.)

Para conhecerem melhor Dr. Seuss e a personagem Grinch, venham connosco.

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Aqui fica a página completa com sugestões de férias de Natal ocupadas. (Atenção que para algumas actividades é preciso inscreverem-se com antecedência.) Mais informação no Guia do Lazer.

Mais um Livro para Escutar

O livro Medo do Quê? desafia e desfia os receios das crianças e dos adultos. O autor, Rodrigo Abril de Abreu, trouxe a pequena Madalena até ao PÚBLICO e juntos leram para nós. É mais um dos Livros para Escutar do Letra Pequena.

Já tínhamos escrito sobre ele na edição do PÚBLICO de 22 de Outubro, na página Crianças, e aqui.

Somos o que sentimos

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Uma abordagem poética e verdadeira sobre os nossos sentimentos. Os bonitos e os outros. Sem qualquer hierarquia ou julgamento, descrevem-se por comparações, metáforas, alegorias e imagens aquilo que se sente no coração e na cabeça, qualquer que seja a idade que se tiver.

Ponto de partida: “Dentro do meu coração, habitam inúmeros sentimentos, que vão tornando os meus dias ora risonhos ora cinzentos./ Por vezes quero chorar, bater o pé e fazer uma grande fita; outras, não consigo parar de rir – o que é que isto significa?/ Visto de fora, sempre igual posso parecer, mas dentro de mim há muitas coisas a acontecer.”

A reflexão começa pela coragem, depois a tristeza, a raiva, a alegria, a “nveja, a solidão, a vergonha, o entusiasmo, o medo e, por fim, a calma – descrita assim: “Num mar calmo e azul, o teu pequeno barco flutua suavemente e tu contemplas a vista, balançando para trás e para a frente./ Belas aves marinhas passam por ti a esvoaçar enquanto suspiras em paz navegando pelo mar.”

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O texto é acompanhado pela imagem que aqui se reproduz, mas que se estende por duas páginas, dando uma perspectiva de horizonte mais alargada e serena. Um livro bonito que convida a olhar para dentro, sem no entanto ignorar o que se provoca por fora.

A fechar, um convite e uma certeza: “Põe-te na pele de outra pessoa para perceberes o que está a sentir, as emoções não se vêem, mas são fortes e reais – posso garantir.” Por isso somos o que sentimos.

Sentimentos – Dentro do meu coração e na minha cabeça
Texto: Libby Walden
Tradução e adaptação: Catarina Florindo
Ilustração: Richard Jones
Edição: Edicare
28 págs., 13,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 26 de Novembro, página Crianças.)

Um dos caminhos possíveis para ver mais ilustrações de Richard Jones é este.

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Aqui fica a página completa, com destaque para o espectáculo Do Bosque para o Mundo (no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa). Mais sugestões de actividades culturais para toda a família no Guia do Lazer.

Animais com tiques humanos

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Há inúmeras versões destas fábulas escritas pelo francês Jean de La Fontaine (1621-1695), que se tornou célebre com histórias de animais que satirizam as características dos humanos.

A obra que aqui se divulga reúne 35 fábulas a partir da edição de 1886, traduzidas e adaptadas por poetas portugueses e brasileiros do século XIX. Estes autores aparecem identificados no final de cada história. Por exemplo, A Cigarra e a Formiga e A Raposa e as Uvas são as versões adaptadas pelo poeta Bocage. Mas podem encontrar-se nomes como Couto Gurreiro (Os Dois Amigos e o Urso), Curvo Semedo (O Leão e o Rato), Avelino Abrantes (O Faceto e os Peixes), Luís de Macedo (O Lobo e a Raposa), J.I. de Araújo (A Lebre e a Perdiz), Acácio Antunes (A Panela de Ferro e a Panela de Barro) e ainda Malhão (A Lebre e o Cordeiro).

Outra particularidade são as notas de rodapé, que ajudam as crianças a entender significados de palavras em desuso. No caso de “Tendo a cigarra em cantigas/ Folgado todo o verão/ Achou-se em penúria extrema/ Na tormentosa estação”, dão-se sinónimos para “folgado” (divertido), “penúria” (pobreza) e explica-se “tormentosa estação” (Inverno).
Estas notas estão descritas de forma simples não quebrando o ritmo da leitura, antes permitindo ao leitor inteirar-se de todo o sentido das fábulas, sem deixar de recuar à linguagem de outros tempos.

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Já as ilustrações têm um traço contemporâneo, expressivo e bem-humorado, como o tom irónico de La Fontaine. Há uma escolha feliz das cores, que conquistam com facilidade a atenção dos mais novos. Reproduzimos nestas páginas as personagens de A Raposa e a Cegonha: “Quis a raposa matreira, / Que excede a todas em ronha/ Lá por piques de outro tempo/ Pregar um ópio à cegonha.” Uma fábula de maldosos convites para jantar.

Moral da história: “Enganadores nocivos,/ Aprendei esta lição:/ Tramas com tramas se pagam,/ que é pena de Talião. // Se quase sempre os que iludem/ Sem que os iludam não passam,/ Nunca ninguém faça aos outros/ O que não quer que lhe façam.”

“Pena de Talião” ou “olho por olho, dente por dente”.

Fábulas de La Fontaine
Texto: Jean de La Fontaine
Ilustração: Fatinha Ramos
Tradução e adaptação: Vários
Edição: Porto Editora
112 págs., 13,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 19 de Novembro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para o primeiro aniversário da Rádio Miúdos. Parabéns!

A alegria de fazer de conta

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“Hoje acordei a fazer de conta que estava a dormir. A mãe chegou ao quarto, e eu a fazer de conta que não a senti chegar.”

Qualquer criança (ou adulto) se revê nesta descrição. E noutras que se seguem ao longo da narrativa, em que a protagonista se imagina num castelo, “transforma” o seu cão em urso (que “mede mais de dois metros e tem uma grande cabeçorra”), vai para a escola num pónei, viaja de foguetão, tem uma nave que encolhe e entra no corpo humano para o estudar.

Enfim, tudo lugares e situações possíveis numa criança que tenha a hipótese de ver solta a criatividade e livre a imaginação. Este não é o primeiro livro da autora e já nos anteriores (O Cuquedo e Feliz Natal Lobo Mau) se denota a facilidade de Clara Cunha em pôr-se na pele dos miúdos, pensando e agindo como eles.

Por isso, durante a leitura das suas histórias às crianças, apercebemo-nos de que ficam presas à narrativa e se identificam com as personagens e os enredos.

Acompanhada neste livro com o traço e talento de Rachel Caiano, mais fácil será ainda captar a atenção dos miúdos. A ilustradora extravasa em vários sentidos a imaginação da protagonista, alargando e colorindo o imaginário dos leitores. O urso gigantesco e com ar amável é um bom espelho disso mesmo.

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“Os meus amigos aprenderam a gostar do urso. O pior foi a professora Mizé! Foi muito difícil para ela aceitar a presença dele. Sempre que ele se levantava para ir à casa de banho, ela desmaiava. Ensinámos o urso a pôr a pata no ar antes de se levantar, e a professora Mizé deixou de desmaiar.

Faz-de-Conta é dedicado a uma professora, “que existe mesmo” e se chama Mizé.

Rachel Caiano vai estar neste fim-de-semana [12 e 13 de Novembro] no festival de ilustração Braga em Risco. Hoje, entre as 11h00 e as 17h00, no Mercado Riscado, nos Claustros da Rua do Castelo, com mais ilustradores. Amanhã, às 11h00, na Casa dos Crivos, com uma oficina de ilustração à volta da obra De Umas Coisas Nascem Outras (Editorial Caminho), que assina com o poeta e escritor João Pedro Mésseder. Às 12h30, apresenta um outro livro recente que ilustrou para uma história de Sandro William Junqueira. Juntos vão dar a conhecer A Grande Viagem do Pequeno Mi (Editorial Caminho).

Vão até lá, não façam de conta…

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Texto Clara Cunha
Ilustração Rachel Caiano
Edição Livros Horizonte
28 págs., 12,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 12 de Novembro, página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para o Museu do Oriente, em Lisboa, e o seu programa de férias de Natal ocupadas. Há mais sugestões de actividades em família no Guia do Lazer.

Para conhecer melhor a ilustradora Rachel Caiano, siga-nos.

No rasto de Moby Dick

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Quem é que nunca ouviu falar de Moby Dick? Mesmo se não leu a obra de Herman Melville, que viria a tornar-se um clássico, certamente “tropeçou” na baleia branca que se revoltou contra os baleeiros e apaixonou tantos leitores de muitas idades e geografias.

Agora, é tempo de dar a conhecer aos mais novos que tiver por perto a história inspirada no naufrágio do navio Essex, que foi atingido por uma baleia e se afundou.

Nesta versão de Manuel Marsol, um autor sempre com “o mar na cabeça”, o verdadeiro protagonista é mesmo o mistério do mar. E começa assim a história que escreve e desenha: “Sou o mais hábil caçador de baleias de todos os mares, capitão do barco Pequod e habitante da ilha de Nantucket. Tratem-me por Ahab. Toda a vida procurei a grande baleia branca. Sempre que havia notícias de Moby Dick, pois era esse o seu verdadeiro nome, lançava-me ao mar sem demoras.”

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Marsol também se lançou nas artes e na ilustração depois de se cansar do mundo da publicidade, em que trabalhou durante alguns anos. Fez bem. Tem sido premiado pelo seu trabalho e nunca se esquece de referir que “foi descoberto” pela editora portuguesa que nos faz chegar os seus livros, a Orfeu Negro.

Sobre este livro, Manuel Marsol disse ao PÚBLICO, em 2015: “Eu sabia que queria falar do mar, das emoções que tinha na infância quando mergulhava e ficava deslumbrado a ver as algas debaixo de água. Isso para mim era claro, era isso que queria mostrar.” Mais: “Fui buscar a história da Moby Dick e as minhas memórias na praia com a minha irmã.” Por isso o livro é-lhe dedicado: “Para a minha irmã Maripaz, que dava mergulhos e pintava comigo quando éramos pequenos.”

No ano passado, O Tempo do Gigante (de Marsol e Carmen Chica) recebeu o Prémio Amadora BD para Melhor Ilustração de Livro Infantil, na categoria de Autor Estrangeiro, por isso as ilustrações estão expostas nesta edição do evento. Mas também as deste livro, que ganhou em 2014 o Prémio Internacional Edelvives.
Tudo bons motivos para hoje [5 de Novembro] às 16h30 ir conhecer e escutar o autor no Auditório do Amadora BD.

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Assim ficará a perceber melhor como se lança alguém “numa perigosa aventura, contra todos os riscos e obstáculos, enfrentando monstros marinhos, grutas habitadas por canibais e ilhas vulcânicas”. Mas não é garantido que se encontre o verdadeiro rasto de Moby Dick. Porque “o mar é um mistério”.

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Texto e ilustração: Manuel Marsol
Tradução: Carla Oliveira
Edição: Orfeu Negro
48 págs., 14,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 5 de Novembro, página Crianças.)

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Aqui fica a página completa com destaque para as actividades na Livraria Gambiarra (Porto). Mais sugestões no Guia do Lazer.

Bruxas e papões à portuguesa

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Cerca de 40 criaturas fantásticas da tradição portuguesa estão reunidas neste livro, em que os autores quiseram “dar rosto, forma e imagem” a personagens do imaginário popular. “Cristalizá-las”, resume Nuno Matos Valente. “Quando nos falam de um duende, imediatamente nos surge uma imagem. Sobre os nossos seres míticos, não há essa representação imediata”, explica ao PÚBLICO.

A amostra resultou de uma escolha “entre 120 criaturas”. Depois de pesquisar textos de Leite de Vasconcelos, Consiglieri Pedroso, Júio Dinis, Alexandre Herculano, entre outros, mas também após falar com pessoas do meio rural que nasceram há muito tempo e trazem com elas “memórias antigas da tradição oral”, chegou a este “bestiário”. No entanto, diz que não é um trabalho definitivo e pode até ser discutível. “É uma escolha e uma interpretação possíveis.”

O autor diz nada ter contra as comemorações do Halloween, mas gostava que as tradições e referências da nossa história tivessem um papel e peso iguais às que se foram importando com a globalização. “Falta-nos apelo para as nossas tradições. Temos de criar actividades mais apelativas à volta do que nos distingue e identifica.”

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Há muito para saber (e assustar) entre Maruxinhos, Olharapos, Trasgos, Marimantas, Moiras Encantadas ou o Homem do Saco, bem desenhadas e representadas por Natacha Costa Pereira. No livro, as categorias das “bestas” estão divididas em Medos e Papões, Corredores de Fado, Animais, Fadas, Moiras e Bruxas, Espíritos, Fantasmas, Bruxos e Demónios, Criaturas Diminutas e Gigantes.

A nossa escolha foi para Maria Gancha, que é reproduzida na página 13… “Quando uma criança se abeira do poço, a Maria Gancha lança-lhe os ganchos ao pescoço, arrastando-a consigo para o fundo.”

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Além desta sugestiva… descrição, há um mapa que cartografa o limite geográfico da sua influência. Também se acrescenta informação sobre o seu habitat (fundo dos poços) e alimentação (crianças).

Relata-se ainda o seu procedimento perante o lançamento de uma pedra ao poço: “Ao ser incomodada pelo impacto da pedra, a Gancha desperta, trepa rapidamente pela corda do poço e lança-se à pessoa sem piedade.”

O livro será lançado a 31 de Outubro, véspera do Dia de Todos os Santos, no Mosteiro de Alcobaça, às 21h30, junto ao cemitério dos monges. Buuuuuu!

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Pesquisa e texto: Nuno Matos Valente
Ilustração: Natacha Costa Pereira
Edição: Edições Escafandro
64 págs., 13,6€

(Texto divulgado na edição do Público de 29 de Outubro, páginas Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com mais umas quantas bruxarias… Outras actividades no Guia do Lazer.

Para conhecerem melhor a ilustradora, que é também marionetista, sigam-nos. A página no Facebook das Edições Escafandro é esta.

(Obrigada à Paula Paço pelo recorte da imagem e à Sandra Silva pela paginação. É muito bem ter destas bruxas… por perto. :) )