Arte, engenharia, arquitectura e mar, muito mar

BANDAS DEF

Um submarino em forma de baleia que nos é dado a observar, externa e interiormente, convocando toda a nossa atenção e imaginação. Um livro-acordeão que nos vai revelando cantos e recantos de uma espécie de robô altamente complexo mergulhado no fundo do mar.

Para os mais crescidos, é impossível não pensar em Júlio Verne ou em Leonardo da Vinci (com as suas maravilhosas caranguejolas…).

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A divulgação que nos chega deste livro-objecto é bem certeira: “Ao abrirmos o livro, a perspectiva dos leitores, que observam o interior deste artefacto, dividido em numerosos compartimentos, altera-se por completo, pois é aí que entra em jogo a imaginação, não só para recriar o que sucede na cabine do cetáceo mecânico; como também para tentar adivinhar o que preparam na cozinha ou de que falam os trabalhadores do jardim, ou em que trabalham os operários da casa das máquinas… E assim por aí fora, do ginásio aos dormitórios ou à despensa…”

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Por isso, cada leitor-observador estará na presença de um livro diferente, mais revelador de si próprio do que dos autores. Pode dizer-se que é assim em todos os livros, mas em Balea poderá ser um superior exercício de exploração de saberes e emoções com as crianças.

Ambos os autores são espanhóis e tiveram formação em Belas-Artes. Já receberam vários prémios artísticos, mas nesta parceria e produção conjunta temos de lhes agradecer a mistura de arte com engenharia, arquitectura e mar, muito mar. Obrigada.

Balea
Ideia original e desenhos: Federico Fernández
Cor: Germán González
Edição: Kalandraka
2 págs. (em fole), 16€

Texto divulgado na edição do Público de 2 de Setembro, na página Crianças.

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A página completa foi publicada assim, com as habituais sugestões de actividades em família vindas do Guia do Lazer.

Nada de errado com uma criança que brinca

DamiãoToupeira

Está tudo posto em sossego debaixo do bosque até que Damião acorda e se levanta. Enérgico, distraído, hiperactivo, inquieto, chato, nervoso, tonto. Toda a gente tem forma de o classificar. “Chamam-lhe tantas coisas que ele já nem sabe quem é.” Isto porque se distrai com tudo, seja a caminho da escola ou nas aulas. “Não consegue estar quieto e prestar atenção.”

Os pais da toupeira não sabem o que fazer, até que vêem um anúncio no jornal: “A feiticeira do bosque — terapias criativas para crianças difíceis (não fazemos milagres, mas tudo tem solução).”

Damião passou a visitar a “feiticeira” Berta todas as tardes: “Dá-lhe vários materiais e diz-lhe que todas as semanas poderá fazer uma coisa diferente.” Assim ficou combinado. “Nos primeiros dias, o Damião faz um pouco de tudo. Sobe, desce, vira, move, arruma, desarruma… Começa muitas coisas e nunca acaba nenhuma.”

Aos poucos, entre brincadeira, liberdade, atenção e descontracção, a pequena toupeira “começa a passar mais tempo quieto e sentado na cadeira, a fazer coisas mais complexas e elaboradas”.

Imagem retirada do site da autora: http://www.annallenas.com/index.html

Imagem retirada do site da autora

Mais adiante, a “feiticeira” explica-lhe que a sua energia é como a de um comboio, “só precisa de um carril, para não descarrilar”. Diz-lhe ainda que tem procurar o seu carril, ou seja, procurar aquilo que mais gosta de fazer. Para concluir: “Na verdade, não há nada de errado contigo.”

Damião acabará por descobrir o que o faz ficar concentrado e motivado. E surpreende toda a gente com o seu trabalho escolar de fim de ano: um bolo gigante para dividir por todos.

Um livro bonito, bem pensado e “sem Ritalina”, alertando para a necessidade de atenção e envolvimento das crianças. Há que lhes dar espaço e tempo para que se conheçam e apercebam das suas paixões, sem as empurrar para modelos nem criando expectativas à imagem dos adultos que as educam.

Em vez de gastarem energia a discutir, divirtam-se na cozinha e encantem-se com a magia de um bolo a crescer.

Damião, a Toupeira Furacão
Texto e ilustração: Anna Llenas
Edição:  Nuvem de Letras
56 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de 17 de Junho, na página Crianças. (Já foi há uns tempos... mas ainda vale.)

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A página completa foi publicada assim.

Homenagear os clássicos para crianças

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Uma homenagem à literatura clássica infantil, num livro muito bonito e cheio de referências bibliográficas felizes.

Logo nas guardas de abertura, encontramos uma mancha de caracteres que invocam dezenas de títulos e escritores que nos remetem para leituras de infância: As Aventuras de Pinóquio (Carlo Collodi), Um Conto de Natal (Charles Dickens), 20.000 Léguas Submarinas (Júlio Verne), Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol), só para citar alguns.

Disseram os autores, Oliver Jeffers e Sam Winston, sobre o livro que criaram juntos: “Desde o início sabíamos que queríamos criar um conto que celebrasse o nosso amor pela literatura clássica infantil com um toque moderno. Para nós, tratou-se de capturar alguma da magia que acontece quando alguém se perde ao ler uma história intemporal, mas de um modo que os leitores ainda não tinham visto.”

E a verdade é que a obra é muito original e poética. Por isso mereceu este ano o Prémio de Melhor Livro de Ficção atribuído pela Feira do Livro Infantil de Bolonha.

A história começa assim: “Eu sou a menina dos livros. Venho de um mundo de histórias. E na minha imaginação eu flutuo.” A menina atravessa um mar de palavras para ir ter com um rapaz e o convidar a entrar no mundo dos livros, e da imaginação.

Esse “mar de palavras” é representado de uma forma muito expressiva, com um conjunto de frases retiradas de outra obras e que formam ondas.

O humor também está presente, como no plano em que se vê um homem a ler o jornal. Há três títulos impressos: “Negócios”, “Coisas importantes” e “Coisas sérias”.

Reproduzimos parte da notícia sobre coisas importantes: “Uma importante companhia vai parar de produzir coisas importantes no final deste ano. Alegam que ninguém quer esta coisa particularmente importante. Alguém num website disse: ‘Não é nada importante que tenham deixado de produzir essa coisa. Talvez não seja assim tão importante. A coisa mais importante agora é descobrir outra coisa que seja importante.’”

O que é verdadeiramente importante neste livro pode resumir-se na frase: “A nossa casa é uma casa de invenção, onde toda a gente pode entrar.”

A Menina dos Livros
Texto e ilustração: Oliver Jeffers e Sam Winston
Tradução e edição: Editorial Presença
36 págs., 12,90€

Texto publicado na edição do Público de 26 de Agosto, página Crianças. 

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Aqui está a página impressa, com sugestões de actividades em família. Há mais no Guia do Lazer.

Diferença: uma questão de ritmo

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Um livro que nasceu com um propósito muito claro e que a autora faz saber logo na Introdução. Joana Soares, mãe de Tiago, um menino com paralisia cerebral, sabia que um dia teria de responder à pergunta: “Porque é que sou diferente dos outros meninos, mãe?”

Reflectiu e decidiu: “Chegaria o dia, sabia-o bem, em que seria confrontada com esta pergunta. Decidi que tinha de me preparar o melhor que podia e antecipar-me a ela tanto quanto conseguisse. E queria fazê-lo de uma forma mágica, leve, harmoniosa.” Conseguiu.

O Menino que Colecionava Estrelas começa assim: “Para lá do rio, e muito perto da enorme montanha, vivia o João, o menino que sonha colecionar estrelas.” Este menino irá encontrar outras crianças no cimo da montanha: uma menina que tinha “um andar desajeitado e empurrava um carrinho cheio de ferros”, um rapaz que apenas sorria e não lhe respondia, mas que lhe dera a mão, um pequenote “que tinha uns pés teimosos que não o deixavam andar”, outra ainda que sempre “tentava fazer uma enorme construção que teimava em desmoronar-se”.

Uma das crianças, cega, explicou-lhe onde estava: “Esta é uma terra diferente. (…) Temos todos um ritmo diferente.”

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As ilustrações de Ana Maymone enriquecem o texto e foram criadas com sensibilidade e criatividade, com algumas soluções visualmente poéticas, como a imagem que aqui se reproduz de um cérebro cheio de estrelas.

“Aceitação” é a palavra-chave da obra, que pretende que as crianças com problemas de desenvolvimento ou outros sejam aceites com naturalidade por aquelas a quem não se lhes deparam limitações.

É bom para todas a convivência com a diferença. “São só ritmos.” Central também é a ideia de “nunca desistir”, como o menino que constrói incessantemente, mesmo depois de tantos e tantos desmoronamentos.

Termina assim a Introdução ao livro: “(…) Nunca se desiste, mesmo quando é difícil e aparentemente impossível. Era esta a dimensão da diferença que queria transmitir. Tentei então engendrar maneiras de demonstrar que ela tem esta capacidade maravilhosa de nos fazer parar para aprender, de nos fazer olhar para ela com respeito e grandeza. Foi esta a forma que encontrei para explicar a diferença ao Tiago. Que também ela sirva para outros meninos, outras mães.”

Não se duvida de que servirá.

O Menino Que Colecionava Estrelas
Texto: Joana Soares
Ilustração: Ana Maymone
Edição: Esfera dos Livros
48 págs., 13,20€

(Texto divulgado na edição do Público de 19 de Agosto, na página Crianças.)

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A página completa ficou assim, onde se dá também sugestões de actividades em família. Há mais no Guia do Lazer.

Fernando Pessoa em mais um Livro para Escutar

Afinal o Caracol: um livro que é um espectáculo. Em sentido literal e no outro. A actriz Cristina Paiva, da Andante Associação Artística, leu-nos o poema Havia um menino e disse ao PÚBLICO que Fernando Pessoa pode ser dado a conhecer aos bebés e fazê-los rir. E assim aumentámos a nossa galeria de Livros para Escutar do Letra Pequena.

Ter 25 bebés à nossa frente a rir ao mesmo tempo é maravilhoso”, conta Cristina Paiva. E acrescenta divertida: “É uma espécie de droga. Dá para o dia todo.” A actuação, destinada a crianças dos seis meses aos três anos (e noutra adaptação dos três aos cinco), inclui mais dois poemas de Pessoa, dura 25 minutos e tem percorrido creches, bibliotecas e vários espaços culturais em todo o país.

Fernando Ladeira, sonoplasta da companhia, explica: “O livro que aqui lemos só foi editado no ano passado, mas o espectáculo já foi lançado há cinco anos.

Para as actuações, criou-se uma obra, exemplar único, com peças e elementos que se retiram e transformam (execução de Armando Chainho). No final, todas as crianças querem ver o seu rosto emoldurado numa das últimas páginas, que é destacável. A música que os bebés escutam durante o espectáculo tem a assinatura de Joaquim Coelho.

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Brincar com as palavras

As ilustrações (de ambos os livros) são de Mafalda Milhões e a edição comercializável d’O Bichinho de Conto. Há ainda um CD com o poema musicado e cantado.

Assim se faz a divulgação da Andante: “A história de um caracol, das cócegas que ele fazia, de como ele virava e girava, e de como acabou por não cair. Brincamos com as palavras. São o nosso brinquedo favorito. Brincamos com a música das palavras, com a leveza das palavras, com o tamanho das palavras, com a pressa e a lentidão das palavras e também… com o silêncio.”

O poema começa assim: “Havia um menino/ que tinha um chapéu/ para pôr na cabeça/ por causa do sol.// Em vez de um gatinho/ tinha um caracol (…)”. O resto é para escutar (e ver) no vídeo (ou ao vivo).

Também pode ser visto aqui.

Fátima Afonso vence Prémio Nacional de Ilustração com um sonho voador

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O conjunto das ilustrações de Fátima Afonso para Sonho com Asas (texto de Teresa Marques, edição da Kalandraka) venceu a 21.ª edição do Prémio Nacional de Ilustração, atribuído pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

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As menções especiais foram para Catarina Sobral, pelas ilustrações da obra Tão, tão Grande (com texto da própria e edição da Orfeu Negro), e para Tiago Albuquerque e Nádia Albuquerque no livro Sou o Lince-Ibérico (texto de Maria João Freitas e edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda).

Fizemos parte do júri, na companhia de Susana Lopes Silva, da Escola Superior de Educação do Porto, e Vera Oliveira, técnica superior da DGLAB.

Parabéns aos premiados e às editoras que neles apostam!

Para ler mais noticiário (da agência Lusa) sobre o assunto, siga-nos.

É proibido estar triste (durante muito tempo)

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Não se estranhe que este livro seja editado pela Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa, mais conhecida como EMEL. A Rua dos Sinais Diferentes faz parte de um conjunto de quatro obras criadas com o objectivo de sensibilizar os mais novos “para a mudança de mentalidades e comportamentos nas ruas da cidade”.

Integram por isso o programa escolar de educação Pela Cidade Fora. Para que no futuro sejamos todos mais civilizados. Lembram como há muitos adultos que “ainda não sabem atravessar devidamente uma estrada, respeitar os semáforos, os peões e condutores, ou circular em segurança nos transportes públicos”.

Um projecto que abrange crianças do pré-escolar e chega até aos jovens do ensino secundário. Não se pense, no entanto, que só há lições rodoviárias e nada de imaginação ou poesia. Pelo contrário.

Neste livro, José Fanha conta com o seu talento a história do poeta Jeremias. Vive na Rua General Sarmento, mas a que preferiu chamar Rua de Todos os Espantos, com a aprovação dos moradores. “Ninguém sabia quem fora o tal General Sarmento.” Só passaram a saber “porque o Professor Edgar, que morava no n.º 5, foi à biblioteca pública estudar quem era esse general e descobriu que se tratava de um herói da República”.

Depois de ao leitor serem apresentados os habitantes (peculiares) da rua, ficamos a conhecer melhor o tal Jeremias (o mais peculiar de todos). Este, ao se dar conta de que na sua rua não existiam sinais de trânsito, “não passavam por ali carros nem autocarros nem motorizadas”, resolveu inventar “novos sinais de trânsito”.

Assim, nasceram, à medida de cada habitante, sinais como “É proibido estar triste” (para a Dona Choramincas Pingona) e vários de perigo, para que todos os animais da vizinhança tivessem direito a um sinal: “perigo de gato”, “perigo de periquito”, “perigo de porquinho-da-índia”, “perigo de cão” e “perigo de caracóis”.

Conclusão: “A Rua General Sarmento e de Todos os Espantos ficou muito mais divertida.” E bem ilustrada por Maria Remédio. Seguiram-se os “sinais de obrigação”, que se transformaram em “sinais de alimentação”: todos saberiam onde encontrar “croquetes”, “bolas de Berlim”, “pudim flan”, entre outras delícias.

No final, há uma festa, a celebrar a amizade entre os vizinhos. Um bom sinal.

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A Rua dos Sinais Diferentes
Texto | José Fanha
Ilustração | Maria Remédio
Direcção de arte | Pato Lógico
Edição | Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa
40 págs., 13,90€

 

 

(Texto divulgado na edição do Público de 27 de Maio, página Crianças.)

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Aqui fica a página completa (e linda!). Como habitualmente, com sugestões de actividades em família (via Guia do Lazer).

Em Setúbal, a ilustração é uma festa

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Foto de Misé Pê

A terceira edição da Festa de Ilustração de Setúbal — É Preciso Fazer Um Desenho? decorre até dia de 2 Julho. António Jorge Gonçalves ocupa a Casa da Cultura e Manuel Ribeiro de Pavia, a Galeria do 11. Mas há mais espaços ilustrados na cidade.  (Artigo divulgado no Público.)

Desde o início do mês de Junho que há festa em Setúbal. Abriu, como habitualmente, numa sexta-feira à meia-noite, na Casa da Cultura. Desta vez com a inauguração dos trabalhos de António Jorge Gonçalves, organizados em três núcleos: Subway Life, Desenhos Efémeros e A Minha Casa Não Tem Dentro.

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Foto de Misé Pê

O segundo núcleo da exposição é audiovisual (Desenhos Efémeros) e mostra diferentes participações do autor em espectáculos de teatro, música e dança, em que vai projectando no palco ou em edifícios o que desenha ao vivo digitalmente. António Jorge Gonçalves fez uma demonstração desse tipo de trabalho na noite da inauguração, com uma sessão com diferentes apontamentos musicais, no Pátio Dimas, a que chamou Eterópolis.

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Por último, A Minha Casa Não Tem Dentro. Exposição de trabalhos que resultaram de uma experiência de “quase morte”. Nas palavras do artista, “morri, voltei e durante aquele período só pensava em conseguir desenhar aquilo que me estava a acontecer e a passar pela cabeça”. Dois registos podem ser observados: um a preto e branco e outro colorido.

Houve ainda espaço para cobrir uma parede da Casa da Cultura (antes de abrir a exposição) com alguns desenhos acompanhados de frases irónicas, filosóficas e desafiadoras.

As mostras na Casa da Cultura podem ser vistas de terça a domingo, a partir das 10h.

 

Pavia: um alentejano neo-realista

 

Foto de Misé Pê

Foto de Misé Pê

Por ali perto, a Galeria Municipal do 11 (Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal) acolhe uma exposição-retrospectiva de Manuel Ribeiro de Pavia. “Uma lenda, uma figura muito particular e uma referência na ilustração neo-realista”, segundo o curador Jorge Silva.

Alentejano, Pavia nunca pintou uma tela, só pintava e desenhava em papel. “Nunca quis ser aquilo que se designava na época como um artista plástico convencional. Tinha o sonho de fazer murais”, contou o designer na inauguração da mostra, no dia 10 de Junho.

A exposição divide-se em várias áreas: o Alentejo, as mulheres, “o Pavia era nessa matéria um sonhador, não se lhe conhecem amores, era um solitário, mas desenhou mulheres ideais às centenas”, e os livros que ilustrou, “durante os anos em que viveu em Lisboa, dos anos 1930 até 1957, tornou-se uma espécie de talismã de intelectuais e escritores portugueses. Todos os grandes e pequenos escritores, prosadores e poetas neo-realistas da época tiveram as capas dos seus livros ou até o miolo dos seus livros ilustrados pelo Pavia”.

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Contos com ética

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Um conjunto tranquilo de contos budistas adaptados de versões tradicionais, em que os animais são quase sempre protagonistas. Explica-se no final do livro o que são jatakas, informando-se os leitores de que se trata de ensinamentos de Buda partilhados “através de contos, metáforas e lições que foram passando de mestres a discípulos ao longo dos anos”.

Diz-se ainda que: “As jatakas fazem parte da colecção de obras que preservam os princípios do budismo mais primitivo. Não pretendem dar lições, apenas inspirar uma conduta consciente e ética.”

Centremo-nos no primeiro conto: O veado dourado. Ali se conta como um veado especial pela sua cor e beleza, mas sobretudo pelo olhar, era protegido do rei Manu e esposa. “Esses olhos contêm todo o Universo”, disse a rainha.

Passaram a chamar-lhe Príncipe Dourado do Bosque. Mas o rei gostava de carne de veado e a manada que vivia perto do palácio ia perdendo os seus animais. Alguns ficavam feridos e em sofrimento porque era o cozinheiro e os seus ajudantes que os tentavam caçar, mas eram muito desajeitados.

Os veados decidiram então oferecer-se voluntariamente para serem mortos e cozinhados, um em cada dia. Até que chegou a vez de uma fêmea grávida, que pediu ao veado dourado que adiassem a sua execução até ter o filho e este se tornar crescido.

O Príncipe Dourado do Bosque ofereceu-se em seu lugar, “deitou-se no chão, inclinando o pescoço comprido sobre a pedra de execução”. Mas o rei não autorizou que o matassem, nem a mais nenhum animal da sua espécie, isto depois de conhecer a história da fêmea com um filho por nascer e de se comover com a compaixão do veado dourado.

No final do livro, há uma proposta de “jogo” em que se sugere ao leitor que imagine ser rei e depois veado. E que conversem os dois. Um exercício que ajuda a pormo-nos no lugar do outro. Para se concluir que, assim, podemos compreendê-lo “e, quando o compreendemos, podemos amá-lo”.

A cada conto, todos com bonitas ilustrações, corresponde um sentimento ou uma reflexão: Cabeça-deAmeixa (interdependência); O urso azul dos Himalaias (generosidade); O mocho que comia figos (impermanência); A Avó Pirilampo (sabedoria, único conto criado expressamente para este livro); A macaca e o crocodilo (amor).

Jatakas — Seis Contos Budistas
TextoMarta Millà
Tradução | Inês Castel-Branco
IlustraçãoRebeca Luciani
EdiçãoPequena Fragmenta
40 págs., 13,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 20 de Maio, página Crianças.)

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A página completa ficou assim. (Obrigada, Sandra Silva.)

Mi anda à procura do que não sabe se perdeu

O pequeno Mi deu-se conta de que perdera algo e foi procurar — sem saber muito bem o quê. Sandro William Junqueira conta-nos A Grande Viagem do Pequeno Mi e junta a sua voz à nossa galeria de Livros para Escutar.

Quem não teve já a sensação de ter perdido algo? Sem saber exactamente o quê, de repente apercebe-se de que lhe falta qualquer coisa essencial. E o mais acertado é partir à sua procura. Enfrentando desconforto, obstáculos, tempestades, mistérios, desconhecidos, medos e tudo o mais.

Foi exactamente isso que fez o pequeno Mi nesta sua grande viagem à procura do que suspeitava ter perdido. “Mi deu-se conta de que perdera algo. Não estava no quarto. Nem no bolso das calças. Espreitou dentro da torradeira e abriu uma janela e três portas. O que procurava não estava.”

Depois deste arranque, o leitor fica não só curioso por saber o que foi que a criança perdeu, como se enche de vontade de a ajudar a encontrar o que, mesmo sem o saber, decerto lhe faz falta. Agora, depois e sempre.

 

Continuar a ler

Tudo o que nos passa pela cabeça

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Comecemos pela contracapa, que nos diz: “Na Antiguidade julgava-se que o órgão responsável pelos nossos pensamentos e emoções era o coração. Hoje já sabemos que tudo o que somos – pensamentos, emoções, decisões, ideias – acontece dentro do cérebro, em conversa contínua com o resto do corpo.

“Mas como nasce um pensamento? Como funciona o cérebro? Como é que o cérebro guarda o que aprende? Como se emociona, cria, inventa e faz de cada um de nós uma pessoa única e irrepetível?” Um resumo sedutor para que se entre no livro (e em nós).

Logo no arranque, há uma frase feliz no sentido da consciência: “Cá dentro tens um cérebro. Mas só sabes que tens porque tens um cérebro cá dentro.” Seguem-se explicações sobre o funcionamento do cérebro numa linguagem simplificada, mas sem descurar o rigor científico do que é explicado. À medida que se avança nas páginas, a complexidade dos temas aumenta.

As autoras fizeram-se acompanhar dos saberes (neurociências, psicologia, filosofia) de vários investigadores, a que chamaram “revisores”, e que no final são entrevistados.

Cá Dentro nasceu como contraponto ao Lá Fora (2014), um guia de descoberta da natureza. No início do livro, conta-se como surgiu a ideia e como poderia ter sido, entre outros temas, “sobre os segredos do centro da Terra”.

As ilustrações de Madalena Matoso, vermelhas e azuis, são ora mais concretas e descritivas, ora mais metafóricas e criativas, sem nunca deixarem de manter a ligação com o que é dito e num registo que cativa o leitor e o mantém agarrado ao livro. Foi assim que funcionou cá dentro…

Cá Dentro — Guia para Descobrir o Cérebro
Texto: Isabel Minhós Martins e Maria Manuel Pedrosa
Ilustração: Madalena Matoso
Edição: Planeta Tangerina
368 págs., 24,60€

(Texto divulgado na edição do Público de 13 de Maio, na página Crianças.) 

Para folhear o livro, leve os dedos (e o pensamento…) até ao Planeta Tangerina.

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A página completa foi esta, com as habituais sugestões do Guia do Lazer.

Um livro-roteiro sobre Lisboa

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Eu Li Ali! foi imaginado e criado por uma jovem de 20 anos e é sobretudo por isso que o trazemos aqui — para motivar outros jovens a escrever e a desenhar. É um livro-roteiro.

À entrada, convida-se o leitor a entrar numa viagem por Lisboa e pelas palavras de autores portugueses: “Psiu! Pega neste livro com muito cuidado, pois o que tens na mão é algo que te pode despertar para um imenso mundo de fantasias, sonhos e de criatividade.

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Seguem-se poemas de Luís de Camões, José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Fernando Namora, David Mourão Ferreira, Eugénio de Andrade, Reinaldo Ferreira, Afonso Lopes Vieira, Fernando Pessoa, Alberto de Oliveira, Augusto Gil, Antero de Quental e Eugénio de Andrade. Todos ilustrados e onde aparecem pequenos fantasminhas.

Chamam-se Anima (alma em latim)”, começa por explicar a ilustradora, e prossegue, “existem para te ajudar a perceber que às vezes não é necessário dizer o que sentimos ou pensamos, pois tudo aquilo que não se vê converte-se em emoções e em códigos que só quem está atento é que os entende”.

No final, algumas páginas são dedicadas a desafios e actividades à volta da cidade de Lisboa. Identificar lugares, pintar a rua do roteiro do autor preferido, uma sopa de letras, convites para desenhar no Cais das Colunas e fotografar no Parque das Nações, entre outras propostas.

Há ainda um mapa solto com a indicação das ruas, avenidas e largos com os nomes dos autores, correspondendo a cada um uma cor.

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Uma ideia engraçada e bastante completa de uma jovem que está a estudar ilustração na Universidade de Norwich no Reino Unido, mas que não esquece Lisboa.

(Imperdoável o erro na Introdução, em que se escreve “à” em vez de “há”. Responsabilidade que deve ser partilhada por autora e editora.)

Eu Li Ali!
Texto: vários
Concepção, ilustração e paginação: Alexandra Marguerita
Edição Chiado Editora
72 págs., 15€

(Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 6 de Maio.) 

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Página completa, com as habituais sugestões de actividades culturais em família. Mais informação no Guia do Lazer.