O mar que se escuta nos búzios

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Quem nunca encostou um búzio ao ouvido para ouvir o mar? Em Sopros do Mar Antigo, um velho conta a origem desse eco misterioso.

Uma história escrita há mais de 30 anos, quando a autora, Emília Ferreira, andava pelos 20 e poucos. Nela se relata poeticamente a relação entre as marés e a Lua e se dá a conhecer uma sereia que morreu de amor. Para salvar o mar.

O conto foi escrito cerca de 1984-85 (tinha eu 21-22 anos) e andava a experimentar escrever estórias que podiam ser para crianças ou adultos, mas que tinham uma vontade de explicar o surgimento de alguns fenómenos naturais (no caso, os búzios, que sempre me fascinaram), de algum modo influenciadas por leituras dos filósofos pré-socráticos e por Eliade, que li muito por essa época (a Lua como o primeiro morto, por exemplo)”, recorda ao PÚBLICO via email.

Actualmente directora do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (Lisboa), Emília Ferreira assume que a ideia trabalhada para este conto foi “inspirada num tom de tradição oral, mas sem qualquer base (que tivesse noção disso) em qualquer exemplo concreto de estória”.

Sobre a origem do conto, diz: “Não me lembro exactamente de como a ideia me surgiu, mas tenho uma vaga memória de esta ter sido uma estória construída com alguma simplicidade (não apenas de recursos, mas na ‘facilidade’ da sua lógica interna e do seu ‘surgimento’).” E acrescenta: “O mar e a Lua (como as águas, as árvores, os pássaros, etc.) são importantes para mim, por muitas razões — naturais, poéticas e simbólicas —, e pareceu-me lógica essa abordagem (a sereia vem direitinha dos gregos, claro está!).”

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A ilustrar Sopros do Mar Antigo, surge Ivone Ralhadesigner gráfica e ilustradora. Um projecto à volta de juntou-as no PÚBLICO em 1992. Ainda bem. Depois de uma tentativa frustrada de publicação deste conto, Teresa Noronha, editora da Escola Portuguesa de Moçambique-Centro de Ensino e Língua Portuguesa, aceitou editá-lo.

Ivone Ralha viveu em Moçambique entre 1977 e 1984, onde estudou História, na Universidade Eduardo Mondlane. “Trouxe de lá as cores”, dizem-lhe. Têm razão. As suas filhas, duas, nasceram em Maputo.

Começou a colaboração com a Escola Portuguesa de Moçambique em 2018 e este é o terceiro livro que lhe foi dado a paginar. Em todos, também se ocupou da ilustração. Antes de Sopros do Mar Antigo, foi editado O Pastor de Ventos, com texto de António Cabrita (2019) e destinado ao público juvenil, e O Coelho Que Fugiu da História, de Rogério Manjate (2018).

Não matar a fantasia

Quisemos saber como Ivone Ralha escolhe as imagens que vai desenhar e qual o seu modo de produção: “Nestes três livros para a escola, fiz a paginação também, o que me ajudou a planificar e a decidir. Sei o espaço que tenho disponível e posso distribuir conforme me agrada. Tento manter algum ritmo.”

A ilustradora acrescenta que aproveita as cenas “mais sugestivas” para o seu tipo de desenho. “Gosto de tirar partido das texturas, das cores, dos ambientes…”, descreve ao PÚBLICO por email. E prossegue: “Gosto mais disso do que dos heróis ou das cenas principais. O mais importante já está no texto e acho que não posso matar a fantasia de quem lê. Eu dou uns ambientes… Tento chamar a atenção para coisas em segundo plano, não sei se sempre consigo. Depois hiberno ali de pincelinho na mão, nos ‘bordadinhos’, uma temporada. Pinto dois ou três em simultâneo quando quero manter ambientes de cor…”

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A base do seu trabalho é acrílico sobre papel: “Escolho papel com textura tipo tela, gosto do efeito ‘linho’. Depois, posso meter em cima lápis de cera, caneta, carvão, o que me aprouver.”

A seguir, vem a parte técnica final: “Digitalizo e trato no Photoshop e pagino no Indesign. Seguem-se os PDF das provas e emendas, para cá e para lá as vezes que for preciso, preparo para a tipografia, exijo ver as provas e, finalmente, lá dou o ‘imprima-se’. Entrega de chave na mão! Fico em pulgas até receber um e confirmar se está tudo mesmo bem…” E está.

O livro é distribuído pela livraria Snob e está à venda nas livrarias moçambicanas e na própria Escola Portuguesa de Moçambique.

A história começa assim: “Sentados na praia. Dos velhos sobe uma voz. Vai-se erguendo, gorda e branca. Enche a noite. Pára lá em cima, no vidro onde a lua está pregada. Ela branca e gorda. Um velho fala. E diz: — Contaram-me os antigos, no meu tempo de rapaz e é certo que é verdade. Há coisas que levam anos a aprender até serem sabidas pelo coração (…)”

Para ler junto ao mar ou com um búzio por perto.

Sopros do Mar Antigo
Texto: Emília Ferreira
Ilustração: Ivone Ralha
Edição: Escola Portuguesa de Moçambique-Centro de Ensino e Língua Portuguesa
32 págs., 12€; 500 meticais (Moçambique)

Texto divulgado na edição online do Público, no dia 28 de Novembro, no Ímpar (com mais ilustrações).

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Na edição impressa, saiu assim, com sugestões de agenda do Guia do Lazer e paginação de Sandra Silva.

Da orquestra à música electrónica

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É difícil imaginar o mundo sem música. O álbum ilustrado A Orquestra mostra-nos isso mesmo.

O ponto de partida é a orquestra sinfónica, mas lá mais para diante fica-se a conhecer compositores e salas de concertos, fala-se de ópera e tecnologia adaptada à música e ainda se revela a arte de compor para o cinema ou para o teatro.

Um álbum que nos lança na história da música, nos ensina o nome e função dos instrumentos e acaba a convidar os leitores a também tocar um: “Seja qual for tua opção, o  mais importante é escolheres um instrumento de que gostes e começares a tocar… Depois, é só praticares, praticares, praticares! Tocares música com outras pessoas é uma óptima forma de fazeres novos amigos, melhorares as tuas aptidões e alargares a tua cultura musical.”

A autora começa por lembrar que “as pessoas sempre fizeram música”. Explicando em seguida que “o que começou por ser uma forma de comunicação entre nativos de diferentes locais do mundo acabou por se transformar numa forma de entretenimento à escala global”.

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Seguiu-se a formação de grupos para cantarem e tocarem em conjunto, “transpondo emoções e as suas próprias ideias para as composições”. Em cada lugar, o seu estilo de música. “Diferentes regiões e grupos criaram as suas próprias melodias tradicionais, bem como distintos tipos de instrumentos.”

Lançado o mote, Avalon Nuovo descreve a disposição da orquestra sinfónica, “organizada em quatro grupos principais ou famílias: cordas, sopros de madeira, sopros de metal e percussão”. O importante papel do maestro merece também uma explicação logo nas primeiras páginas.

Ilustrações inclusivas

Há algumas curiosidades: “Uma orquestra sinfónica pode ter de mais de cem músicos a tocar vários instrumentos diferentes”; “a sala de concertos com a melhor qualidade de som do mundo é a Wiener Musikverein, em Viena, Áustria, projectada pelo arquitecto dinamarquês Theophil Hansen em 1870”; “a abadessa Hildegard von Bingen (1098-1179) foi um génio musical, numa época em que as mulheres, em geral, não podiam sequer falar em público” e “as bandas sonoras de vários filmes emblemáticos do nosso tempo (Star Wars, Parque Jurássico, O Tubarão, E.T.) têm todas a mesma autoria: o compositor americano John Williams.”

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O ilustrador, David Doran, cria ambientes diversificados e expressivos, seja no desenho de músicos à volta de uma mesa e que remete para o Renascimento, seja na representação de um músico de boné frente a um teclado electrónico e rodeado de ecrãs. Há também algumas paisagens bem conseguidas e a preocupação de serem ilustrações inclusivas, com figuras de várias etnias e origens, assim como um miúdo numa cadeira de rodas a tocar flauta transversal.

São imagens elegantes e sóbrias, em que predominam o azul e o laranja.

O ilustrador vive em Falmouth, Reino Unido, e  numa entrevista à revista Intern, em 2016, falou do seu método: “Sempre admirei a estética dos pósteres de viagem vintage e das técnicas de impressão tradicionais. Às vezes, mudo o meu processo e trabalho com recortes de papel ou experimento em cadernos de desenho, mas a minha linguagem visual continua consistente.” David Doran tem colaborado com publicações como The New Yorker, New York Times e Wall Street Journal, diz-se “abençoado por trabalhar com pessoas incrivelmente criativas” e valoriza o trabalho dos directores de arte junto dos artistas free lancers.

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Curiosamente, a autora do texto de A Orquestra também é ilustradora. Avalon Nuovo nasceu em Los Angeles (EUA) e já desenhou para The New York Times e Natur Och Kultur. Vive em Amesterdão, faz olaria e sabe música. No final do livro, sugere: “Por que é que não tentas criar a tua própria orquestra?”

A Orquestra
Texto: Avalon Nuovo
Ilustração: David Doran
Tradução: Pronto a Editar Atelier
Edição: Fábula
80 págs. 17,69€

O texto também foi divulgado aqui.

♪♫ Viva a música! ♫♪

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Na edição impressa, saiu assim. Com a ajuda do Guia do Lazer e da Ana Fidalgo, Valter Oliveira e Paulo Lopes.

Para conhecer outros trabalhos de David Doran, siga-nos.

Histórias que são canções

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Formiga Duma Figa reúne 51 textos que são letras de canções. Nuno Markl “embaraça” o autor no início, Rita Redshoes canta-o no final. João Vaz de Carvalho ilustra-o do princípio ao fim.

Será difícil encontrar alguém em Portugal que nunca tenha escutado, visto, lido ou cantado trabalhos e produções do autor de Formiga Duma Figa: António Avelar de Pinho. Na música, grupo Banda do Casaco, as Doce, Rui Veloso, os Heróis do Mar, o Avô Cantigas; no humor, textos para Herman José; na televisão, série Claxon. Só para citar alguns exemplos que Nuno Markl invoca no prefácio ao livro, a que deu o título “Algumas palavras para embaraçar o autor” e em que o considera “um tesouro nacional”. Nos livros para a infância, António Avelar de Pinho escreveu a colecção Os Super 4 (Editorial Presença), inicialmente em parceria com Pedro de Freitas Branco.

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Numa apresentação de Formiga Duma Figa divulgada pela Porto Editora, o autor diz de si próprio: “Dedico-me à escrita em verso, digamos assim, letras para canções. Gosto de ver as crianças ‘a consumir’ essas canções, a divertirem-se, a aprenderem, a brincarem com os amigos e familiares. Isso é imparável. Não consegui pôr um ponto final nessa actividade.” Decidiu então criar um livro com algumas dessas “histórias”, que são canções (um total de 51). “Não pus todas, são centenas.”

Todos iguais para mim

Começa com a Marca da nossa infância: “Os filhos de fulano/ De sicrano ou de beltrano/ Não importa o nome que levam no fim./ São todos iguais para mim/ Altos ou baixinhos/ Gorduchos ou magrinhos/ Mais ou menos bonitos/ São como são, é mesmo assim/ Todos iguais para mim (…)”

Passa por Era uma vez: “Era uma vez alguém/ Só tinha uma casa/ quis mais uma casa/ mais duas ou três/ quis uma mão-cheia/ comprou mais e mais/ e por tuta-e-meia/ comprou uma aldeia/ nunca era de mais/ já queria uma vila/ e ao ter essa vila/ em boa verdade/ ficou com vontade/ de ter outra vila/ e até uma cidade/ comprou a cidade/ sentiu-se infeliz/ pois na realidade/ já queria um país/ comprou um país/ depois um segundo/ e muitos mais quis/ comprou todo o mundo/ é dono do mundo/ tem tudo, porém,/ não se sente bem/ pois bem lá no fundo/ foi uma vez alguém/ que teve tudo/ e não teve ninguém.” A ilustração de João Vaz de Carvalho, para este texto, que aqui se reproduz faz lembrar esse alguém…

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Termina com Joana Maria Cabeça de Vento: “(…) Vejam lá o nome que ela tem/ Joana Maria Cabeça de Vento/ O Vento é da parte do Pai, Cabeça da parte da Mãe/ A quem será que ela sai quando voa a mais de cem?/ Talvez saia à Mãe, ou talvez ao Pai/ Pensando bem, vendo onde já vai/ Eu aposto que a Joana sai aos dois/ Aonde irá chegar? Isso já é saber de mais/ Deixá-la crescer e havemos de ver depois.” Para transformar esta “história” (aqui incompleta) numa canção original, o autor convidou Rita Redshoes. O resultado pode ser ouvido através de um QR Code na última página.

Títulos como Come a sopa, vá lá, Não há direito, Malfamagrifada, Quando eu for grande, Assembleia dos peixes, Saricoteco, A minha galinha e a da minha vizinha ou o Dente do pente, entre outros, denotam uma ímpar capacidade de brincar com o som e o significado das palavras. Um exercício de liberdade com vários níveis de leitura e que conquista leitores de diferentes gerações.

Diz Nuno Markl:São letras de canções, poemas, histórias, um pé na inocência infantil e outro na matreirice irresistível que o caracteriza.” Tem razão.

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A reforçar o humor e a crítica, surgem as ilustrações de João Vaz de Carvalho, que atraem os miúdos por uns motivos e os adultos por outros. Também na leitura das imagens há diferentes níveis — mas ninguém deixará de sorrir.

António Avelar de Pinho escreve, com graça, uma nota prévia acerca da sua relutância em usar o novo acordo ortográfico: “Idealizei este livro para quatro gerações. Escrevo e sempre escrevi segundo as normas do antigo Acordo Ortográfico. Com algumas reticências (bastantes, até) e muitos pontos de interrogação, acedi a que convertessem estas letras para o novo Acordo, porque compreendi que, se não o fizesse, os mais novos poderiam tropeçar nalgumas palavras e até cair. Não ficaria de bem comigo se alguém caísse por minha causa.”

Formiga Duma Figa
Texto: António Avelar de Pinho
Ilustração: João Vaz de Carvalho
Prefácio: Nuno Markl
Voz: Rita Redshoes
Edição: Porto Editora
70 págs., 13,30€

Podem ver mais imagens do livro aqui.

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Na edição em papel, saiu assim. Com a ajuda do Guia do Lazer, de Sandra Silva e de Valter Oliveira.

Depois do desvio, seguir em frente

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Miguel escolheu ficar sozinho em casa durante parte das férias de Verão. Namoro interrompido, amigos num festival de música e família longe. Era mesmo isso que ele queria. Ou talvez não.

Um livro que poderá conquistar leitores jovens, por se identificarem com o protagonista; mas também adultos, por lhes dar um breve vislumbre do que se passa na cabeça (e na vida) de um adolescente de hoje.

Mesmo sem o dizer explicitamente, o protagonista impele-nos a seguir em frente depois de qualquer desvio.

Espreitem imagens e mais prosa num texto a que demos o título “A solidão voluntária de um adolescente”. Venham por aqui, sem desvios.

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Texto: Ana Pessoa
Ilustração: Bernardo P. Carvalho
Edição: Planeta Tangerina
200 págs., 18,90€

Os livros não azedam

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Sem prazo de validade, podemos consumir os livros muito tempo depois de terem sido criados e produzidos. Melhor ainda, podemos “devorá-los” uma e outra vez. Sem problemas para a saúde.

Sugerimos pois que “espreitem com os ouvidos” as sugestões (de há algum tempo) em podcast do Letra pequena na Rádio MiúdosPorque os livros não azedam.

Agora, é mais fácil conseguir chegar até eles bastante tempo depois de abandonarem as prateleiras de novidades das livrarias (onde ficam muito pouco tempo). Sites de editoras, de escritores, de ilustradores e das próprias livrarias facilitam a aquisição de títulos “antigos”. E são até mais baratinhos…

Por isso, toca a ler e a dar a ler.

(Na Rádio Miúdos, há outras rubricas sobre leituras. E mais actualizadas…)

Partir a janela com um poema

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Para divulgar mais uma colectânea de poesia internacional, a Bruaá inspirou-se na frase de Daniil Harms: “Os versos devem ser escritos de tal modo que, se se atirar um poema pela janela fora, o vidro parte-se.” 

Roubámos… a ideia e partimos um vidro. Escolham um poema deste livro e transformem a vossa janela em cacos. Alegremente.

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O poema que dá título ao livro é de Lewis Carrol, mas há por lá mais talentos: Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Carlos Queiroz, Tóssan, Bertold Brecht, Federico García Lorca, Robert Desnos, entre outros.

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A ilustração é assinada por Andrea Antinori. A colectânea anterior da Bruaá,  O Tigre na Rua, tinha sido desenhada por Serge Bloch.

Espreitem aqui em baixo. Vão gostar.

Destravar a(s) língua(s) no Dia da Europa

Para assinalar o Dia da Europa, que hoje se comemora (dia 9 de Maio), recuperamos um Livro para escutar que muito nos divertiu a realizar, com vários colegas da redacção do PÚBLICO.

Foi em 2008 que ficámos a conhecer este livro. Trava-Línguas, Trabalenguas, Virelangues, Tonguetwisters, Scioglingua é (escreve-se na contracapa) “um livro para quem gosta de… trocar de língua… enrolar a língua… trincar a língua… deitar a língua de fora… ter várias línguas”. Espreite aqui.

Todos os anos, no Dia da Europa, comemorado a 9 de maio, festeja-se a paz e a unidade do continente europeu. Esta data assinala o aniversário da histórica «Declaração Schuman». Num discurso proferido em Paris, em 1950, Robert Schuman, o então ministro dos Negócios Estrangeiros francês, expôs a sua visão de uma nova forma de cooperação política na Europa, que tornaria impensável a eclosão de uma guerra entre países europeus.

A sua visão passava pela criação de uma instituição europeia encarregada de gerir em comum a produção do carvão e do aço. Menos de um ano mais tarde, era assinado um tratado que criava uma entidade com essas funções. Considera-se que a União Europeia actual teve início com a proposta de Schuman.”

Se não conseguiu ver o vídeo até ao fim, tem aqui (em baixo) mais uma oportunidade. :)

O lobo não é mau como se diz

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Todos querem saber/ Da fama do lobo.// Ninguém quer saber/ Da fome do lobo”, pode ler-se na página 10.

Antes, um poema, feito de perguntas e respostas, interpela-nos sem cerimónia: “O homem não brinca? O lobo brinca!/ O homem não ensina os filhos? O lobo ensina os filhotes!/ O homem não protege a família?/ O lobo protege a alcateia!/ O homem não fala?/ O lobo uiva!/ O homem não organiza?/ O lobo organiza!/ (…)”

É difícil não se ficar a pensar nas diferenças e semelhanças entre as duas espécies e na forma como temos maltratado estes mamíferos, na realidade e na ficção.

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Dizem os autores que Lobo Bullying é “contra os mal-entendidos”: “Neste livro, revisita-se o lobo e a memória viva da sua perseguição. E também da sua protecção, do seu direito à vida, da sua importânica no ecossistema. Parte-se de lendas e fábulas, de histórias de vida e de morte, de velhas notícias e novos estudos, de crenças e factos, de problemas e soluções, para reescrever e ilustrar uma das mais antigas formas de bullying arquivada na memória colectiva. É um livro contra os estereótipos, um livro contra os mal-entendidos, contra a preguiça da criatividade.” Tudo verdade.

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O livro obriga ao desconforto do leitor, físico e psicológico. Físico porque lhe dificulta a leitura, ora forçando-o a ler textos “deitados”, ora usando uma letra minúscula, que impõe uma atenção redobrada. Psicológico porque o força a reflectir sobre informações como esta: “No século XX, durante a primeira metade, os lobos começaram a desaparecer, principalmente por perseguição humana. Nos anos 60 começou a extinção de lobos no Sul do país. Nos anos 90 a população de lobos lobos passou a ocupar apenas um quinto da área originalmente ocupada. Actualmente, só há lobos no Norte, de Viseu para cima.

E desconcerta-nos com este exercício de perseguição: “Imagina que andas com a tua família à procura de restaurante para almoçar e que: a) O teu pai leva um tiro sem saber de onde vem o disparo; b) O teu irmão mete o pé numa armadilha ao sair do automóvel; c) A tua mãe é envenenada ao provar o primeiro prato; d) Tu sobrevives até à próxima perseguição.”

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Também se conta a história verdadeira do menino da Serra Morena. “Morreu-lhe a mãe e a madrasta bateu-lhe quanto quis. Foi vendido pelo pai a um pastor com quem aprendeu a sobreviver. Desapareceu-lhe o pastor e a solidão entregou-o à serra. Foi acolhido por uma loba que lhe matou a fome. Uma dúzia de anos entre lobos e o menino aprendeu com eles tudo o que não sabia.”

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Pode pensar-se que é um livro cruel, mas não mais do que qualquer situação de bullying vivida por animais ou pessoas. E é para isso que os autores querem alertar. Conseguem-no. Com uma linguagem original e uma imagem singular, Lobo Bullying é uma excelente reflexão para a data que hoje se assinala. O Dia da Liberdade.

Lobo Bullying
Texto: Eugénio Roda
Ilustração: Gémeo Luís
Edição: Editora Eterogémeas
96 págs., 14€ (12,6€ se comprado aqui)

(Texto divulgado na edição do Público de 25 de Abril de 2020. Também pode ser lido no Guia do Lazer , onde encontra outras sugestões culturais para os miúdos, em tempos de quarentena.)

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A página completa saiu assim (muito bonita…), com a ajuda de Sandra Silva (designer gráfica), Susana Palmeirim e Valter Oliveira (tratamento de imagens).

Não deixem de conhecer a história desta dupla de autores (muito talentosos e trabalhadores), Gémeo Luís e Emílio Remelhe, que se conheceram em 1985 nas Belas-Artes do Porto. Tinham 20 anos e nunca mais se largaram. Ainda bem.

Os dias passados à janela

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“O que fazem as pessoas nos tempos livres?”, começa por perguntar uma menina que, ficamos a saber pouco depois, passa os dias à janela. Chama-se Graça e descreve assim as actividades dos seus pais: “A minha mãe passeia os cães dos velhinhos do bairro e o meu pai joga às cartas de fato de treino.”

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E que faz ela? “Eu faço observação de pessoas.” Esta afirmação encima um plano, expressivo e esclarecedor, em que se vê a menina de costas, cotovelos no parapeito e cabeça apoiada na mão. Em frente, a vida na rua e nas casas, com muitas silhuetas a revelar o que se passa para lá das janelas transparentes.

(Onde é que eu já vi isto?, pensará o leitor mais crescido. Foi no filme Janela Indiscreta, do inigualável Alfred Hitchcock.)

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Graça, que está numa quarentena forçada, mas… individual, fala-nos tranquilamente dos habitantes que já conhece e das suas profissões: uma hospedeira vaidosa (Miss Apertem os Cintos), “um músico mais ou menos famoso” (Roberto Raposa), um casal de advogados que tem “dois gémeos idênticos que choram em estéreo”, a Dona Camomila, que bebe chá, “dois jornalistas, um das palavras e outro dos retratos”.

Mas o que inquieta a menina é o vizinho novo. “No 1.º Direito mora um mistério. Deixei-o para o fim porque acabou de se mudar. Há uma semana que observo naquela janela um homem de ar sério, que passa os dias a olhar para o infinito.”

A sua imaginação fará com que acredite que planeia um assalto. Por isso muito se assustou quando viu a própria mãe dentro da casa do vizinho. Pouco antes, tinha concluído que o homem tinha uma arma.

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Um livro inclusivo (sem fazer disso bandeira), com mistério e humor, num cenário de cores quentes e ilustrações expressivas, a convidar à exploração dos pormenores que cada janela deixa vislumbrar.

Apoiado pela Sociedade Portuguesa de Autores, a coincidência de o lançamento ter sido numa altura em que as famílias estão circunscritas ao espaço doméstico faz com que Ricardo Henriques se sinta “um bocadinho um Nostradamus dos tempos modernos”, disse ao P3. E acrescentou: “O livro pode ser mais uma achega para que as pessoas olhem para os vizinhos e tenham curiosidade; não tanto para bisbilhotar, mas ao menos para falarem, imaginarem, cantarem, por aí fora.” Seja.

1.º Direito
Texto: Ricardo Henriques
Ilustração: Nicolau
Edição: Pato Lógico
64 págs., 14,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 18 de Abril, na página Crianças.)

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A página completa, desenhada por Sandra Silva, saiu como podem ver aqui. Com a ajuda de Valter Oliveira e Susana Palmeirim (tratamento de imagens). Obrigada a todos.

Apesar de, ultimamente, não divulgarmos actividades para a família na edição em papel, elas continuam a rolar… na Guia do Lazer. Vão até lá.

É tão bom quando as peças se encaixam

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Era uma vez um menino que sentia o coração maior do que o resto do corpo. À noite, quando se deitava, sentia-o a aumentar, a aumentar… como se quisesse fugir do lugar e, quem sabe, voar!”

É assim que Edna Ladeira nos apresenta o protagonista de Coração-Balão. O ilustrador, Helder Teixeira Peleja, começa por nos mostrar um rapaz a ver-se ao espelho. O seu reflexo é um enorme coração, vermelho-vivo, que extravasa os limites da moldura. “O coração do menino vestia-o, dos pés à cabeça! Era algo que ele não conseguia explicar!” Ficamos depois a saber que um amigo de verdade era o que lhe estava a faltar.

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Um livro sobre a importância da amizade e a lembrar a necessidade de nos fazermos acompanhar por quem connosco se sintoniza.

Escrita com sensibilidade e clareza, a história ganha energia com a criatividade das imagens que a acompanham. Gostamos do colorido e do dinamismo das ilustrações. Aplauso para o balão de ar quente e para as cabeças em forma de peças de puzzle.

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A autora, Edna Ladeira, é licenciada em Comunicação Social, “mas foi nos cursos de escrita criativa que encontrou o seu verdadeiro entusiasmo”. Em 2019, oficializou a marca Lá Vem Ela com Histórias!, em nome da qual cria conteúdos para revistas, websites, guias e livros.

Diz ver “na educação uma porta para um mundo melhor”, considerando que “as histórias e as memórias são uma forma bonita e eficaz de lá chegar”.

O ilustrador, Helder Teixeira Peleja, “é um apaixonado pela arte de ‘rabiscar’ desde que tem memória” e tem vindo a frequentar vários workshops de ilustração e design. “Com participação em dezenas de obras editadas como ilustrador freelancer”, o seu trabalho destaca-se no cartoon. Sonho: “Ocupar os dias a desenhar.

O menino com o coração gigante há-de encontrar uma grande amiga. E as peças vão conseguir encaixar-se. É tão bom quando isso acontece.

Coração-Balão
Texto: Edna Ladeira
Ilustração: Helder Teixeira Peleja
Revisão: Pedro Rodrigues
Paginação: Marina Soares
Edição: De autor
16 págs., 10€ (lavemelacomhistorias@gmail.com), 12,50€ (livrarias)

(Texto divulgado na edição do Público de dia 11 de Abril de 2020)

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A página completa, com este grande coração-balão, foi desenhada por Ana Cristina Fidalgo, com a ajuda de Valter Oliveira e Paulo Lopes (responsáveis pelo tratamento de imagens). Obrigada a todos. Páscoa feliz (no género… quarentena).

Não deixem de visitar o Guia do Lazer, com actividades para toda a família (por agora, dentro de casa).

A coragem de dar um grito à beira-mar

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O protagonista desta história é um cavalo, mas podia ser um humano. Big Bang teve uma súbita vontade de ir até à beira-mar (quantos de nós não terão esse desejo?), depois de acordar “com um desassossego qualquer: ‘Será que me esqueci de alguma coisa importante? Se me esqueci, esqueci-me de que me esqueci…’”

O cavalo pôs-se a caminho. Antes, “cumprimentou o passarinho-seu-vizinho que morava no ramo mais perto da janela. (Um amor de passarinho. Uma gentileza de vizinho”.) O passarinho desejou-lhe “um dia bom”. O nosso protagonista lá foi.

No percurso até à praia, bem ao jeito dos histórias tradicionais, será interpelado por outros seres, não identificados na narrativa, mas sugeridos pela ilustração. Dizem-lhe coisas como: “Hei, Big Bang! Não devias estar a trabalhar como toda a gente?”; “Hei, Big Bang, isso é barriga que se apresente?”

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O cavalo fugiu para a ponta mais distante, mais deserta da praia e “rugiu”. É certo que os cavalos não rugem. “Mas nessa manhã Big Bang rugiu. Um rugido capaz de fazer recuar a água do mar.”

Ainda que em nenhum momento se revele qual “a coisa intrigante que o perseguia…”, intui-se que o livro quer lembrar a necessidade de tempo e espaço para pensar, acalmar sobressaltos, aclarar ideias e propósitos, assumir escolhas. Ou simplesmente desfrutar da liberdade de caminhar e respirar sem ninguém por perto.

Felizmente que aqui a autora não está sozinha. Fez-se acompanhar pelo talento de Bernardo P. Carvalho, que nos prende ao livro através de paisagens com as cores do arco-íris, em que se vislumbram animais à espreita. Essas páginas alternam com outras em que o fundo branco apenas acolhe a figura negra do Big Bang. Embora não reproduzida aqui, a nossa imagem de eleição é a que ilustra o rugido. (Não deixem de a procurar.) Um grito imenso e colorido que muitos não terão coragem para dar.

Estar sozinho por alguns momentos é ainda mais precioso quando se tem companhia mais adiante. Seja a de um familiar, amigo ou namorado. Por isso, Big Bang só sossegou e “conseguiu encontrar a ideia” quando, no regresso, bebeu um chá com o passarinho-seu-vizinho. “Em silêncio. Eles os dois e o sol.

Hei, Big Bang! (Ninguém disse que era fácil)
Texto: Isabel Minhós Martins
Ilustração: Bernardo P. Carvalho
Revisão: Carlos Grifo Babo
Edição: Planeta Tangerina
48 págs., 13,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 4 de Abril de 2020)

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A página Crianças impressa saiu assim. Mais uma vez, com a ajuda de Sandra Silva (paginação), de Valter Oliveira e de Paulo Lopes (tratamento de imagens). O Guia do Lazer divulgou o livro no site.
Letra pequena tem sorte por poder contar com esta malta… :)

Afinal, andámos a correr para onde?

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Numa altura em que grande parte de nós se encontra circunscrita ao espaço doméstico, talvez seja boa altura para reflectir sobre a pressa que norteava os nossos dias antes de sermos obrigados a parar.

“Todas as manhãs, mal o Artur engole uma colherada dos seus cereais com chocolate, o papá diz-lhe: — Vá! Está na hora! Rápido! Rápido! Vamos chegar atrasados! E, todas as manhãs, por mais que o Artur não queira largar a tigela de cereais, a mamã agarra-lhe na mão, no casaco, na mochila e na lancheira, abre a porta e… zás!, lá vai ela escadas abaixo, com tudo atrás! E o estômago do Artur faz glub, glub, glub, o caminho inteiro até à escola.”

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E isto é só o início do dia do rapaz, já que, no recreio, pedem-lhe que seja rápido a descer o escorrega; na aula, dizem-lhe que se despache com os exercícios de Matemática; na cantina, ainda a meio da refeição, “a auxiliar exclama: — Muito bem! Muito bem! Podem ir!

Para terminar a jornada: “Mal o Artur põe um pé fora da escola, o papá diz: — Rápido, rápido! Despacha-te! Tenho o carro mal estacionado! E agarra-lhe no braço, na mochila e na lancheira vazia e zás!, enfia tudo no banco de trás!

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É cansativo, não é? A correria é de tal ordem que um dia os pais deixam o Artur para trás (a fazer lembrar o início do famoso filme Sozinho em Casa), ficando o rapaz a tomar o pequeno-almoço sozinho. Foi o melhor que lhe aconteceu.

Uma história que reproduz o quotidiano de muitas famílias, caricaturando-o, num convite a que se repense o ritmo de vida a que nos deixámos sujeitar. Por isso, uma leitura em conjunto poderá ajudar a criar novos hábitos e atenções entre todos.

A autora, Nadine Brun-Cosme, é francesa e tem livros publicados há mais de 20 anos. A ilustradora, Aurélie Guillerey, trabalha para várias editoras, para a imprensa e faz cartazes para teatro. “O seu trabalho é profundamente influenciado por designers gráficos e ilustradores das décadas de 1950 e 1960”, informa a editora.

Quanto ao pequeno Artur, conseguiu, pelo menos por uma vez, viver uma manhã ao seu próprio ritmo, sem deixar, no entanto, de ir para a escola. “Tudo está tranquilo, parece um dia de férias.” Por isso, “o Artur caminha devagarinho, tão devagarinho que poderia contar os seus passos”.

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E tem tempo para se imaginar a chegar junto dos amigos na proa de um navio, inspirado pela forma de uma nuvem que vislumbrou no caminho. “O Artur sente nas bochechas aquele ventinho que só se sente quando se anda muito devagar. ‘Que delícia’, pensou ele.”

Depois deste período de quarentena a que estamos sujeitos, talvez o Artur e outras crianças consigam que as suas famílias abrandem. Afinal, têm andado a correr para onde?

Artur e as Pessoas Muito Apressadas
Texto: Nadine Brun-Cosme
Tradução: Susana Cardoso Ferreira
Ilustração: Aurélie Guillerey
Revisão: Raquel Dutra Lopes
Edição: Fábula
32 págs., 12,99€

Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 28 de Março de 2020.

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Na edição em papel, saiu assim, com paginação de Ana Cristina Fidalgo e tratamento de imagem de Paulo Lopes e Valter Oliveira.

Os fardos que Adjoa transportou à cabeça

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Adjoa viveu a infância a escutar uma e outra vez o imperativo: “Endireita-te!” Pela voz da mãe, da avó, das tias. Logo no arranque do livro ficamos a saber porquê. “Aqui, em Djougou [Benim], para que uma menininha cresça, põem-lhe coisas na cabeça. Coisas que ela não pode deixar cair e que tem de erguer para o céu. Quanto mais ela cresce, mais pesadas são.”

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A protagonista enumera muito de quanto transportou, “sempre de dentes cerrados e cabeça erguida”, de alimentos a ferramentas, de sabões a chinelos, de esperanças a desilusões. E água, muita água. “… porque dantes não havia ao pé de casa. Água para beber, água para lavar coisas, água para cozinhar. Tanta água que dava para fazer um oceano. Agora, sorte a minha, a água corre das torneiras. O meu filho mais velho instalou-as cá em casa.”

Adjoa conta-nos como as meninas da aldeia brincavam ao Quanto-Levas, com a balança da vizinha Fifamé. Tentavam adivinhar o peso do que traziam à cabeça. Quem perdia tinha de ir buscar a água, quem ganhava tinha direito a um penteado novo. “Tornei-me imbatível. Falhava só por dez gramas. E andava sempre bem penteada.”

Rémi Courgeon, escritor e ilustrador francês, retrata com sensibilidade um quotidiano duro, sem deixar de vislumbrar alegria e esperança na vida destas crianças que desde cedo asseguram a sua sobrevivência e a das suas famílias. As cores, as figuras, os padrões e outros elementos reportam-nos com vivacidade para África.

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O talento da protagonista em aquilatar os fardos valeu-lhe — já “mulher-girafa (…) de tanto olhar o céu” — a descoberta de uma arma entre as tábuas que um homem lhe disse para transportar, “tinha cara de javali, mas não pagava mal”. Adjoa haveria de transformar o revólver num martelo (com a ajuda de um escultor, que a encheu de chumbo líquido) e de se enamorar pelo destinatário da arma. “Agora, partilhamos a nossa Há quase trinta anos. Sobre a grande asneira que ele teria feito, guardamos silêncio. Deve permanecer em segredo.”

Edu, o filho mais velho de ambos, conta-nos já no final: “Edu, endireita-te! Quantas vezes na vida ouvi eu esta frase, esta canção? Quantas vezes a minha mãe ma cantou? Ela tem torneiras em casa, tratei eu disso. Água na cabeça já não é com ela. Só nos dias de chuva, claro.”

Difícil terminar de ler o livro sem ter água nos olhos.

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Texto e ilustração: Rémi Courgeon
Tradução: Maria Afonso
Revisão: João Berhan
Edição: Orfeu Negro
32 págs., 14,50€

Texto divulgado na edição do Público de 21 de Março, na página Crianças (que, devido à covid-19, tem vindo a ser publicada sem a Agenda do Guia do Lazer, para actividades fora de casa)

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Aqui fica a página completa, desenhada com a ajuda de Ana Cristina Fidalgo (designer gráfica), Valter Oliveira e Paulo Lopes (tratamento de imagens)

Para conhecerem melhor o escritor e ilustrador Rémi Courgeon, venham direitinhos (e endireitados…) por aqui.

O mundo não cabe numa folha de papel?

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O mundo é demasiado grande, “não cabe nesta folha”, deu-se conta uma menina persistente. Ainda assim, tentou desenhá-lo. Começou como sempre se começa um desenho, com um risco. E o risco fez-se traço maior e iniciou caminho, ganhou asas e percorreu mundo. Sempre com a menina a segurá-lo, mas sem o prender, condicionar ou limitar. Apenas garantindo que o risco inicial voltaria para a sua mão quando assim o desejasse.

O traço sobrevoou terras e mares”, descreve a menina que (ainda) não conhecia a palavra “desistir”. Mais adiante, “descobriu que a água é sempre a mesma. Quando está cansada de correr, dorme nas nuvens, quando quer brincar, salta para os rios”. Uma das suas descobertas (que muito apreciamos) foi: “Aprendeu que os pássaros presos não cantam, choram.” O pequeno traço inicial percebeu também que, “se olharmos para onde mais ninguém olha, saberemos o que mais ninguém sabe”.

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Um livro que valoriza o conhecimento, as artes, a liberdade e a união. O traço “passou por um país onde havia uma palavra mágica para tudo e que tudo fazia acontecer: ‘Nós.’”.

Adélia Carvalho fundou a livraria Papa-Livros, a editora Tcharan (Porto) e assina vários livros para a infância. Tem um registo simples, claro e terno. O tom bem-humorado também a caracteriza, embora aqui não transpareça, dada a natureza da narrativa.

Sérgio Condeço, que muito enriquece e amplia o texto, começou por ser designer e trouxe essa aprendizagem para o domínio da ilustração, a que se dedica desde 2015, tendo sido colaborador da revista Notícias Magazine.

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Gostamos das cores, da composição da página, das metáforas visuais e da simpatia dos rostos. Rendemo-nos aos traços (caóticos?) das guardas dos livros e ao pequeno lápis que provocou essa feliz invasão vermelha do espaço.

Na história, a menina há-de puxar o fio que segurava o risco inicial e tímido e dar-se-á conta de que “tinha desenhado o mundo”. O nosso.

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A Menina Que Queria Desenhar o Mundo
Texto: Adélia Carvalho
Ilustração: Sérgio Condeço
Edição Nuvem de Letras
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 14 de Março.

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A edição em papel ficou assim, muito linda! Com a ajuda de Sandra Silva (paginação) e Valter Oliveira (digitalização e tratamento de imagens).

Aqui para o blogue, surripiámos… imagens do perfil de Facebook do ilustrador Sérgio Condeço. Outros trabalhos do também designer podem ser vistos aqui.

Para conhecerem melhor a autora, editora e livreira Adélia Carvalho, sigam-nos.

A minha casa és tu

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Um livro-acordeão ou livro-harmónio, “que aberto pode ser uma rua, fechado pode ser uma casa”. Descrição que os autores nos fizeram chegar a dar conta de um dos livros que o casal de ilustradores editou depois de criar, em 2019, A Casa Nic e Inês Edições.

A minha casa é a tua casa”, começa por ler-se, enquanto se vê uma menina com um livro aberto, bochechas vermelhas e ar tranquilo. Hão-de seguir-se várias formas de olhar e sentir a casa. Uma reflexão sobre o que é, afinal, o lar de cada um de nós. “A minha casa és tu”, diz-se poeticamente no final, em que se vê um abraço doce e quente.

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No avesso do harmónio, feito de forma artesanal, surgem imagens a preto e branco com diferentes tipos de casas, numa montagem em que fotos convivem com desenhos. Ali se afirma que “há uma casa dentro de cada um de nós” e que nem todas as nossas casas têm a mesma duração. Haverá as que nos acolhem apenas por “uma noite”, por “uma hora” ou apenas por “um minuto”. Suspeita-se de que os lugares retratados se inscrevam na biografia de Nic (Nicholas Carvalho) e Inês (Inês Almeida).

Ex-professores, formados na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, têm como interesse e prática de eleição o Livro de Artista. Por isso, abrem com frequência e regularidade a porta da casa… de ambos (em Lisboa) e ali dinamizam oficinas, cursos, conversas (a que chamam Parlapiê).

Nesta altura, estão a decorrer os cursos de Livro Ilustrado, de Materiais e Técnicas de Ilustração e de Cerâmica Ilustrada. Um outro livro-objecto, desdobrável e silencioso, junta-se a esta primeira experiência como editores. Chama-se Girassol e (também) é lindo.

Em Casa
Texto, ilustração e design: Nic e Inês
Edição: Casa Nic e Inês Edições
Livro-acordeão, 6€

(Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de  7 de Março, com as habituais sugestões do Guia do Lazer.)

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A página completa divulgada ficou assim, muito linda (graças a Sandra Silva).

Em Casa encontra-se à venda nas livrarias Gatafunho (Oeiras), Baobá (Campo de Ourique, Lisboa), Tigre de Papel (Arroios, Lisboa), It’s a Book (Anjos, Lisboa) Faz de Conto (Coimbra) e Salta-Folhinhas (Porto).

A Faz de Conto Livraria, de Coimbra, mostra aqui muito bem o livro.

As imagens usadas por Letra pequena (excepto a da página do Público) foram cedidas por Nic e Inês. O link do vídeo foi-nos facultado por Sofia, a simpática livreira de Coimbra. Obrigada a todos e parabéns.