António Mota está nos Livros para Escutar

Ninguém deixa a Inês vestir-se de azul, mas ela quer ir bonita à festa do Ricardo. É mais um Livro para Escutar do Letra Pequena, contado pelo autor, António Mota. (Também pode ser escutado e visto no site do Público.)

O conto que deu título ao livro Histórias às Cores foi lido no estúdio do PÚBLICO. Nesta história fala-se de uma menina que foi convidada para ir à festa de anos do Ricardo. “Ela gostava muito do Ricardo, queria ir muito bonita.” Mas as amigas não concordaram com a cor da roupa que Maria Inês queria usar: azul. Afinal, as cores também se discutem.

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História às cores é um dos oito textos que compõem o livro, editado pela Gailivro. Todos foram ilustrados por Paulo Galindro, que nas guardas contou com a colaboração e talento do seu filho, ainda criança, João Galindro. Imagens coloridas e com várias técnicas prendem a atenção dos pequenos leitores, convidando-os também a desenhar.

Este é o trigésimo título da colecção Obras de António Mota, que contou muitas destas histórias aos seus alunos, durante os anos em que foi professor do ensino básico.

No dia em que leu para nós, tinha vindo de Baião (onde mora) para participar na iniciativa Escritores em Belém, promovida pela Presidência da República. Para ele, também “uma história feliz e colorida”.

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Os outros contos do livro: A caixa misteriosa, Bernardo e Tomás, O melhor doce do mundo, Pescarias, Vermelhinha, madurinha, redondinha, A prenda, A bruxa, o fantasma e o monstro.  Para ler em papel.

As contradições das cidades

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Avó e neto passam o domingo juntos. Vão à igreja e depois apanham um autocarro que percorre a cidade. Saem na última paragem, que fica na Rua do Mercado. Vão à “sopa dos pobres”.

Pelo caminho, a criança vai questionando a avó: “Porque é que temos de esperar pelo autocarro debaixo de tanta chuva?”; “porque é que não temos um carro?”; “porque é que esta zona está sempre tão suja?”.

A avó vai-lhe respondendo com sentido positivo e convidando-o a ver o mundo com um olhar contemplativo e o mais feliz possível.

Sobre a chuva: “As árvores também têm sede.” Sobre o carro: “Para que precisamos de um carro, Alex. Temos um autocarro que anda a alta velocidade e o velho Sr. Dinis tem sempre um truque de magia para ti.” Sobre a sujidade da rua: “Por vezes, quando estás rodeado de lixo, consegues ver melhor as coisas belas.” Esta última frase foi dita enquanto apontava para o céu.

Um livro terno, comovente e solidário. Aqui se promove a partilha, valoriza-se o convívio com as pessoas que se cruzam nos nossos caminhos e procura-se suavizar as diferenças e injustiças de que uma criança se vai apercebendo à medida que cresce e descobre o mundo. Sem cinismo.

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A Última Paragem foi editado originalmente em 2015 e ganhou vários prémios internacionais: New York Times Book Review Notable Children’s Book de 2015, Melhor livro Infantil de 2015 pelo Wall Street Journal, Medalha Newbery 2016, Livro de Honra Coretta Scott King Illustrator 2016.

A Portugal, o livro chega pela chancela Minotauro, do Grupo Almedina, que decidiu apostar recentemente no segmento infanto-juvenil.

O ilustrador Christian Robinson, com experiência nos estúdios de animação da Pixar, colaborou na realização da Rua Sésamo e sabe representar o movimento.

Neste livro, recorre a colagens e mistura várias técnicas, conseguindo ampliar uma narrativa já de si imaginativa e sensível, convocando-nos também visualmente para o imaterial. No entanto, não deixa de nos dar um retrato das cidades de hoje. Com todas as sua cores, contradições e injustiças.

A Última Paragem
Texto: Matt de la Peña 
Tradução: Isabel Neves 
Ilustração: Christian Robinson
Edição: Minotauro/Grupo Almedina
32 págs., 10,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 25 de Março, página Crianças.)

Aqui fica um vídeo engraçado e esclarecedor (em inglês) dos autores do livro.

A página completa ficou assim. (Gira, não?) Mais sugestões de férias da Páscoa ocupadas e actividades para as crianças no Guia do Lazer.

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Os pais estão diferentes

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No domingo, 19 de Março, assinala-se o Dia do Pai. A verdade é que os pais estão diferentes de outros tempos: cuidam dos bebés, lêem-lhes histórias, não se envergonham de os beijar e abraçar em público, levam-nos ao parque e a todo o lado sem a presença das mães. Não foi sempre assim.

Porque também eles, os pais, merecem ser mimados, hoje se traz aqui um livro que pretende agradecer-lhes e lembrar-lhes que nada pode igualar a relação que mantiverem com os seus filhos. Biológicos ou não. E ninguém está à espera de perfeição.

O Meu Pai É o Melhor do Mundo é um livro-álbum pensado para ser preenchido em conjunto por crianças e adultos. Nele se pode contar a história de pai e filho e ilustrá-la com fotos, desenhos e colagens.

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O livro vai sendo completado com a informação que a criança for solicitando, até concluir a sua primeira obra. “Neste livro, vou escrever, desenhar, cortar e colar para contar a história mais bonita do mundo: a história de como te tornaste meu pai. É para te oferecer a ti, o melhor pai do mundo.” Associar livros e afectos será sempre uma prática natural.

Nada impede que parte do livro em construção seja criada com a ajuda de outro familiar e uma outra parte com a do próprio pai, criando momentos felizes de partilha, cumplicidade e criatividade.

Juntos vão reconstituir o passado do mais velho (que também foi pequenino), conversar sobre o momento em que o mais novo entrou na sua vida (e no mundo) e ainda contar o que faz dele um pai especial e único. O mesmo para o pequeno, um filho especial e único.

Em conjunto, vão visitar memórias e fazer nascer outras. Porque a história de um será sempre a história do outro.

Sugestão nas páginas iniciais: “Mãe, pai, avô, avó, tio, tia, como responsável pelo pequeno autor, só tem uma tarefa: deixá-lo criar.” É um bom princípio, a que se segue uma ressalva ainda melhor, que pede ao adulto que não tenha a tentação de substituir o miúdo e de fazer o trabalho por ele: “Ajude-o em tudo o que ele pedir, inspire-o, se for preciso, mas, sobretudo, deixe que seja ele o protagonista. Esta é a sua história.”

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Aqui, como em muitas outras coisas importantes, o processo é mais valioso que o resultado.

Lembrando que a perfeição não é deste mundo e que nas relações humanas nada está garantido, desejamos a todos um Feliz Dia do Pai.

O Meu Pai É o Melhor do Mundo
Autoria e direitos: Penguin Random House Grupo Editorial
Edição: Arena
92 págs., 10,95€

(Texto divulgado na edição do Público de 18 de Março, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com sugestões de férias ocupadas para o período da Páscoa. (Atenção às datas de inscrição.) Mais informações no Guia do Lazer

Dia do Pai: mimar os pais com livros

Foto: Getty Images

Os pais que mimam também merecem ser mimados. Um pai a amparar ao colo um filho e um livro é um belo quadro. Se o livro falar sobre a relação entre ambos, fica perfeito. Seis títulos para o Dia do Pai: três recentes, três não.

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Ler mais no espaço Família e Relações do Público.

A leitura não é só para “betinhos” e “cromos”

As bibliotecas escolares querem tornar a leitura “uma moda persistente e boa”
Foto: Direitos Reservados

Texto divulgado na edição online do Público (dia 16 de Março)

As bibliotecas escolares querem tornar a leitura “uma moda persistente e boa”, qualquer que seja o suporte. Isto para que os alunos se tornem “bons cidadãos e não apenas pessoas cheias de conteúdos”.

A competição entre a leitura e outras actividades é muitas vezes ganha pelas outras actividades, mas as bibliotecas podem dar uma ajuda para contrariar essa prática da nova geração de alunos, habituados a “leituras fragmentadas”, diz Isabel Mendinhos, da Rede de Bibliotecas Escolares. “É importante tornar a leitura algo que não é só para ‘betinhos’ e ‘cromos’”, defende.

Ir ao encontro de problemas e interesses dos jovens e a partir daí conquistá-los para a literatura e para a poesia, mesmo que conhecida e lida através de “um qualquer aparelho electrónico”, é um dos procedimentos sugeridos por Fernando Pinto do Amaral, do Plano Nacional de Leitura. “Eles ouvem muita música. A partir das letras, podemos trazê-los para a poesia”, exemplifica.

Os alunos têm de ser “bons cidadãos e não apenas pessoas cheias de conteúdos”, defende o escritor brasileiro Clovis Levi.

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Lusofonia para menores

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Foto: Marco Duarte/NFactos

Texto divulgado na edição online do Público (dia 15 de Março)

Escritores vão levar a lusofonia aos mais novos

Durante cinco dias, escritores lusófonos de livros para a infância e juventude andam pela Grande Lisboa a motivar crianças para a leitura. Ilustradores e contadores de histórias também dão uma ajuda. Preciosa.

Está a decorrer até dia 18 de Março o 3.º Encontro de Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia na Fundação O Século, em S. Pedro do Estoril. Depois de três dias de visitas de autores a escolas de Lisboa, Cascais, Oeiras, Sintra e Amadora, é tempo de os convidados se reunirem nesta quinta-feira na fundação e falarem do que melhor sabem: literatura para a infância e juventude. Em português.

“Estamos convencidos de que a língua portuguesa, falada por 300 milhões de pessoas no mundo, neste momento, calculando-se que serão 600 milhões no final do século, é um valor indispensável ao desenvolvimento cultural, científico e sócio-económico dos países que integram a lusofonia”, diz ao PÚBLICO o escritor José Fanha, que organiza o encontro. Brasil, Cabo Verde, Angola, Moçambique e, claro, Portugal são os países representados.

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O responsável pela vinda de autores africanos e brasileiros a Portugal não tem dúvidas: “A literatura infanto-juvenil é uma pedra fundamental na consolidação dessa maravilhosa construção que é a lusofonia.”

Fanha espera que os encontros “consolidem o papel destes escritores, que lhes permitam conhecer, que lancem bases para discutir caminhos e estratégias no desenvolvimento da promoção da leitura e do livro”. E deseja ainda “o reconhecimento pelas autoridades políticas da importância desta literatura”, sem deixar de lamentar a falta de apoio, “que tanto tem escasseado”.

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Rir e versejar

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Ritmo, brincadeira, imaginação, jogos de palavras, vocabulário rico e imagens bem-dispostas fazem de Versos Que Riem um livro de que é muito fácil gostar. Se for lido em conjunto e em voz alta, ainda se tornará mais apetitoso…

Até porque lá dentro se encontra o Restaurante da Poesia, que tem uma ementa para os dias de semana e outra para os domingos. Informa que organiza “Festas de baptizado, casamento e divórcio”.

Ali se pode beber “vinho grosso” e degustar “tainhas da Ribeira à Lagareiro com batatas a pontapé”, “sopa de letras minúsculas”, “caldo azul”, “espetada de berlindes” ou “mousse de açucenas”, entre muitas outras “iguarias poéticas” que o autor criou em conjunto com alunos de 5.º ano da Escola Básica da Madalena (em Abril de 2004).

João Pedro Mésseder é o pseudónimo de José António Gomes, professor na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, com vários livros publicados e premiados de literatura para a infância e juventude. A poesia é o seu forte.

Neste conjunto de 14 textos, quase todos poemas a rimar, tanto fala de sonhos, como de situações concretas, mas sempre com algum humor e ironia.

Vamos conhecer O João: “O João de repente dá um pontapé na gente./ O Francisco sem contar apanha e põe-se a chorar./ A Rita queria brincar mas o João não quer deixar./ A Ana já se zangou porque o João a magoou./ O Luís desenha o mar que o João vai estragar./ João, pára com isso, anda correr e brincar.”

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Reproduzimos nesta página o desenho que o João estragará. A figura que Ana Biscaia escolheu para o retratar é a de um miúdo com ar (e pala) de pirata, a fazer caretas, com a língua de fora. Apropriado.

A ilustradora e também designer já fez parceria com o escritor nos títulos Que Luz Estarias a Ler? (2014) e Poemas do Conta-Gotas (2015). Na próxima terça-feira (dia 14, às 16h30), ambos vão estar em Sintra na Casa dos Hipopómatos a falar sobre Versos Que Riem.

Depois das sessões com as escolas, Ana Biscaia dinamiza uma oficina de desenho e ilustração aberta ao público. É de aproveitar.

Versos Que Riem
Texto João Pedro Mésseder
Ilustração Ana Biscaia
Edição Calendário de Letras
32 págs., 13,78€

(Texto divulgado na edição do Público de 11 de Março, pág. Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para o atelier Rubikando, em Coimbra. Mais informações no Guia do Lazer.

Para ver outros trabalhos de Ana Biscaia, este é o caminho.

Uma amizade aquática…

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Acreditar que este é um livro de estreia de uma ilustradora não é fácil. Pelo desenho, pela síntese, pelo talento. Aquário não tem palavras, mas tem sentido e emoção. A prova de como uma ideia simples consegue chegar ao leitor mais ou menos jovem sem precisar de grandes artifícios.

Da observação das imagens, cada um pode criar a história que quiser. Esta é a nossa: uma menina vive perto de um rio, gosta de contemplar a água e de nadar. Sente-se feliz no meio dos peixes e mergulha com eles.
Um dia, um peixinho vermelho salta para a ponte onde a pequena acede ao rio. Recolhe-o, põe-no numa garrafa e corre para casa, onde procurará um recipiente o mais apropriado e confortável possível para o novo amigo.

Apesar de uma logística complexa de alimentação de água com mangueira, de tentar reproduzir o ambiente de onde ele veio e até de um banho conjunto e divertido dentro de uma banheira, aquele não era o lugar do peixinho vermelho. A menina, apercebendo-se disso mesmo, volta a pô-lo numa garrafa, corre para o rio e devolve-o a casa. À dele.

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Continuarão a ser amigos, a gostar da companhia um do outro e a nadar juntos. Tudo isto no respeito pela liberdade e meio natural de cada um. É o que se espera da amizade verdadeira.

Cynthia Alonso é Argentina, estudou Design na Universidade de Buenos Aires e frequentou várias formações de Ilustração e Narrativa Visual. Participou também numa residência de Verão na School of Visual Arts, em Nova Iorque. Em 2016, foi seleccionada para a Exposição Internacional de Ilustradores da Feira do Livro de Bolonha.

De forma colorida, entre azuis, vermelhos, amarelos e rosas, a ilustradora começa por nos dar a conhecer a paisagem, com colinas, meandros do rio, vegetação e habitações. Depois, revela-nos o interior da casa, mas o exterior continua visível através da janela. Mais adiante, o foco aproxima-se dos protagonistas.

Muito expressiva e inteligente a escolha das guardas. Nas de abertura, vêem-se peixes aprisionados em diferentes formatos de aquário; nas de fecho, já nadam livremente em redor da menina.

O que nós gostávamos mesmo era de ter um vestido igual ao dela. Cheio de peixinhos vermelhos felizes.

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Ilustração: Cynthia Alonso
Edição: Orfeu Negro
40 págs., 12,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 4 de Março, na página Crianças.)

Para conhecer melhor o trabalho de Cynthia Alonso (dentro e fora de água…), siga-nos.

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Aqui fica a página completa. Mais sugestões de actividades culturais em família no Guia do Lazer.

Mais uma história às escuras

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Mais uma história sem luz eléctrica, como a publicada em 2012, Uma Escuridão Bonita, dos mesmos autores: Ondjaki e António Jorge Gonçalves. Na apresentação do livro na quarta-feira no Correntes d’Escritas, Póvoa de Varzim, o escritor quis dar “uma explicação oficial” sobre estas histórias às escuras: “Não haver luz eléctrica em Luanda ajudou não só à reprodução nacional, entre pessoas, como à produção de literatura.”

Se para os adultos era uma coisa terrível não haver luz, para as crianças, não. “Permitiu novas aprendizagens. Era uma coisa boa.” E sublinha, sobre o ilustrador: “Não é um trabalho de apoio. A história é tanto contada por ele quanto por mim.” No entendimento do escritor, um escreveu por palavras e o outro por desenhos. E que belos são.

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O Convidador de Pirilampos fala de um menino que conhece bem a Floresta Grande, onde “brilham os pirilampos cintilantes”. O rapaz gosta de “cientistar coisas” e ensina-nos que existem pirilampos “apagados”, os mais sábios. Chamam-se “pirivelhos”. Na companhia do avô, aventura-se pelo escuro, explora inventos e fala em código morse com os insectos.

Ondjaki quis também dar uma “explicação sentimental”, dizendo que o livro tinha nascido de uma ideia original de Renata (ex-companheira) e Lino, filho dela: “Mas eu entendo que também é meu filho. Quando lhe contava histórias, podiam ser ‘de escrita’ ou ‘de inventar’.” Esta foi inventada por eles.

“Contaram-me quando regressei de uma viagem”, recordou. O pai de Ondjaki esteve na apresentação e o autor disse que nunca lhe tinha acontecido estar a lançar um livro com esta ligação: “O meu pai e o meu filho.” Foi bonito (e havia luz).

O Convidador de Pirilampos
Texto: Ondjaki
Ilustração: António Jorge Gonçalves
Edição Editorial Caminho
72 págs., 13,90€

(Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 26 de Fevereiro de 2017.)

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Aqui fica a página completa com sugestões de desfiles e brincadeiras de Carnaval. Mais ideias no Guia do Lazer.

Se quiserem conhecer melhor o trabalho de António Jorge Gonçalves, este é o caminho. Para descobrirem o universo de Ondjaki, sigam os pirilampos.

Quando for grande, quero guardar livros

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Uma criança reflecte sobre o que será quando for grande. E a mãe vai reflectindo com ela, contrariando-a na maior parte do tempo ou dando-lhe novas pistas. Mas sempre com grande (excessivo!) sentido de protecção. “Quando for grande quero guardar o Sol.” “Podes ficar cego! — diz a mãe.” Sílvio prossegue: “E se for guarda da chuva?” “É uma vida de constipações… diz a mãe.” Quando lhe ocorre a ideia de ser “guardador de ventos”, a mãe preocupa-se ainda mais. “E se surge a tempestade? Não posso perder-te, querido menino!

O rapaz há-de sugerir mais futuros imaginários e iamginativos, em que entram a autoridade, o medo, os sonhos, a ternura, mas também a protecção. Tudo gira à volta do vocábulo “guarda”. Imagina-se guarda-nocturno, guarda-rios, guarda-florestal, guarda-costas e também guarda-livros — o sonho menos inquietante e mais seguro aos olhos da mãe.

Um texto poético e sensível sobre os anseios de uma criança e os receios da sua mãe, escrito pelo talentoso poeta Francisco Duarte Mangas, que já assinou livros para crianças como, entre outros, Elefantezinho Verde, O Gato Karl, O Ladrão de Palavras, O Noitibó e Sílvio, Domador de Caracóis. Este último também sobre a personagem Sílvio à procura de futuro e igualmente ilustrado por Madalena Moniz. Foi a sua estreia como ilustradora e teve um destaque especial do júri do Prémio Nacional de Ilustração em 2010. Mereceu-o.

A também designer gráfica estudou Ilustração na Creative Arts School em Bristol e no ano de 2015 recebeu uma menção especial na Feira de Bolonha na categoria Opera Prima, pelo livro Hoje Sinto-me… de A a Z (edição da Orfeu Negro).

Madalena Moniz traduz com criatividade o imaginário das crianças e cria quadros que apetece ficar a contemplar, como este que aqui reproduzimos, com a criança a ler no topo das prateleiras cheias de livros. Mas há outros. Gostamos especialmente daquele em que o menino deseja guardar o Sol, logo no início do livro.

Sílvio há-de encontrar um destino seguro e feliz, onde as palavras serão protagonistas. E estarão protegidas.

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Sílvio, Guardador de Ventos
Texto: Francisco Duarte Mangas
Ilustração: Madalena Moniz
Edição: Editorial Caminho
32 págs., 11,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 18 de Fevereiro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para a Orquestra dos Brinquedos, que actuou em Coimbra. Mais sugestões para actividades em família no Guia do Lazer.

Um livro é para ser lido

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O puré de batata é para chegar para todos”, escreve-se assim de repente, só para início de conversa. Na imagem vê-se uma montanha gigante sobre uma mesa rodeada de crianças de vários tamanhos,  umas sentadas e outras de pé. Também lá está um gato.

E as páginas que se seguem repetem a fórmula com outros temas e explicações que ninguém ousará contrariar. “Um búzio é para ouvir o mar” (claro). “Os braços são para abraçar” (com certeza). “A lama é para dares saltos, escorregares e gritares iupiiiiiiiiiiii!” (ora bem). “Um irmão é para te ajudar” (obviamente). “Uma cova é para plantar uma flor” (isso mesmo). “Um livro é para ser lido” (nem mais).

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Todas as frases, explicações e todo o universo que é aqui explorado remetem para a naturalidade, espanto e alegria com que as crianças olham para o mundo. As ilustrações dinâmicas, simples e felizes de Maurice Sendak, aqui num dos seus primeiros livros ilustrados, oferecem ao texto ainda mais candura.

Nas palavras da editora, “as suas ilustrações seguem aqui as premissas da autora e resultam isentas de estereótipos, deixando espaço para que as crianças ajam livremente e sem condicionamentos. Como sucede com a arte revolucionária, os seus livros mantêm ainda hoje toda a sua frescura”.

Aqui encontra-me humor, empatia, ternura, festa, genuinidade e filosofia. Muita brincadeira também. E isso é tão bom.

O livro foi publicado em 1952 e deu início a uma colaboração entre os dois criadores que durou até 1960 e se mostrou inovadora no domínio do álbum ilustrado. A autora publicou mais de 30 livros para crianças, muitos deles ilustrados pelo seu marido, Crockett Johnson.

De Sendak, a obra mais conhecida dos portugueses será certamente Onde Vivem os Monstros, mas títulos como Na Cozinha da NoiteO Que Está lá ForaO Recado de Rosie e a colecção Urso Pequeno estão também disponíveis em língua portuguesa. Todos a merecer atenção e tempo. Porque “um livro é para ser lido”. Não?

Uma Cova É para Escavar – O Livro das Primeiras Explicações
Texto: Ruth Krauss
Tradução: Carla Maia de Almeida
Ilustração: Maurice Sendak
Edição: Kalandraka
48 págs., 9€

(Texto divulgado na edição do Público de 11 de Fevereiro, página Crianças.)

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Aqui está a página completa, com destaque para um espectáculo de teatro visual sobre o pintor Jackson Pollock. Mais sugestões no Guia do Lazer.

Aqui, podem pintar como ele (Pollock). Para conhecerem a sua história, este é o caminho.

Sair da toca e descobrir o mundo

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Sair da toca e descobrir o mundo (que é grande) e os outros (que são múltiplos). É o que António Mota quer dizer aos jovens leitores com esta história de dois irmãos coelhos que partem à procura da mãe, que se atrasou.

Na verdade, o autor também quis dizê-lo ao neto, já que Onde Está a Minha Mãe? foi escrito quando soube que ia ser avô. E o livro nasceu mais ou menos ao mesmo tempo que o rapaz — outro António.

Bitó e a Fabi são os nomes dos protagonistas, escolhidos pela sonoridade e facilidade de pronunciação em várias línguas, o que não é um pormenor para quem tem vários livros traduzidos.

As personagens, nesta busca pela mãe, descobrem-se a si próprios, um ao outro — dentro da toca nunca se tinham apercebido de como eram bonitos — e muitos outros seres. Alguns perigosos. A mãe já lhes tinha dito que “o perigo é uma coisa muito má!”. E eles quiseram saber o que era “uma coisa muito má”. Eis a resposta: “É tudo o que nos pode magoar. Ou até mesmo matar! Os tiros das armas dos caçadores, os dentes afiados dos cães dos caçadores, os dentes ainda mais afiados das raposas e as garras das águias são perigosos.”

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Por isso a mãe lhes dissera: “Os meninos ficam aqui quietinhos à minha espera, ouviram?” Mas desobedecer também faz parte de crescer. E os manos descobriram assim muitas brincadeiras felizes, a amizade, a diferença, a beleza.

Ao registo telúrico de António Mota junta-se a expressão sensível de Sebastião Peixoto, com as suas figuras de traço algo clássico, rostos amáveis e cores quentes. O resultado é um livro doce. Como se espera das relações entre mães e filhos. (E, já agora, entre avós e netos…)

Onde Está a Minha Mãe?
Texto: António Mota
Ilustração: Sebastião Peixoto
Edição: Edições ASA
65 págs., 11,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 4 de Fevereiro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para o Indie Júnior Allianz — 1.º Festival Internacional de Cinema Infantil e Juvenil do Porto. A programação está aqui. Mais sugestões no Guia do Lazer.

Mais um livro para escutar (sem raiva…)

O livro Era Uma Vez Uma Raiva veio de São Paulo. Por isso pedimos a duas crianças brasileiras que nos emprestassem a voz e o sotaque para mais um dos nossos Livros para Escutar. Os irmãos Maria Clara Amaral, de nove anos, e Enzo Amaral, de 13, leram para nós o livro de Blandina Franco e José Carlos Lollo.

Já tínhamos escrito sobre ele aqui no Letra pequena e na página Crianças da edição do Público de 14 de Janeiro.

Nunca desistir de procurar

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Quem não teve já a sensação de ter perdido algo? Sem saber exactamente o quê, de repente apercebe-se de que lhe falta qualquer coisa essencial. E o mais acertado é partir à sua procura. Enfrentando desconforto, obstáculos, tempestades, mistérios, desconhecidos, medos e tudo o mais.

Foi exactamente isso que fez o pequeno Mi nesta sua grande viagem à procura do que suspeitava ter perdido.

Mi deu-se conta de que perdera algo. Não estava no quarto. Nem no bolso das calças. Espreitou dentro da torradeira e abriu uma janela e três portas. O que procurava não estava.” Depois deste arranque, o leitor fica não só curioso por saber o que foi que a criança perdeu, como se enche de vontade de a ajudar a encontrar o que, mesmo sem o saber, decerto lhe faz falta. Agora, depois e sempre.

Até porque o narrador nos faz saber que o miúdo está sozinho nesta busca: “O pai estava a pescar no Alasca. A mãe a colar selos em cartas.” E as imagens mostram-nos como esta é uma demanda solitária. Com um final que nos deixa felizes.

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O autor Sandro William Junqueira tem uma escrita clara, doce e poética, que no universo infantil já nos encantou com A Cantora Deitada (ilustrações de Maria João Lima). Trabalha regularmente como actor e encenador de teatro.

A ilustradora e artista plástica Rachel Caiano mergulha sem medo na linguagem sensível e mágica do escritor, traduzindo-a numa expressão plástica própria que a identifica, alargando no entanto o sentido do que é dito.

A Grande Viagem do Pequeno Mi será apresentado na Casa dos Hipopómatos, na Biblioteca Municipal de Sintra, no dia 11 de Fevereiro, às 15h30. As ilustrações do livro estarão ali expostas para que todos possamos viajar com o pequeno Mi. À procura do que também nós  julgamos ter perdido.

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Texto: Sandro William Junqueira
Ilustração: Rachel Caiano
Edição: Editorial Caminho
40 págs., 10,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 28 de Janeiro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com destaque para Poesia-me, Ciclo de Leituras para a Infância, que decorre em Lisboa, no Teatro de São Luiz, até Julho. Mais sugestões no Guia do Lazer.

Rudyard Kipling e a filha “Mais-que-tudo”

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Doze contos do mesmo autor de O Livro da Selva e que recebeu o Nobel da Literatura em 1907. Histórias Assim foi imaginado para a filha de Rudyard Kipling, a pequena Josephine. Nele se fala sobretudo de animais, numa mistura de verdade, imaginação e humor. Para serem lidas em voz alta, as histórias interpelam directamente quem escuta.

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O escritor dirige-se à filha como “Mais-que-tudo” e intervala as descrições com breves alertas, entre parêntesis. Exemplo no conto Como a baleia arranjou a sua garganta, numa fala do Peixe Astuto. “Se nadardes até à latitude Cinquenta Norte e à latitude Quarenta Oeste (…) encontrareis, sentado numa jangada, no meio do mar, vestindo umas calças de lona azul, com um par de suspensórios (não te esqueças deste pormenor, é importante, Mais-que-tudo) e uma navalha no bolso, um Marinheiro solitário cujo barco se afundou mas que, devo dizer-vos, é um homem de uma sagacidade e recursos infinitos.”

A referência aos suspensórios há-de repetir-se várias vezes, pois são cruciais ao desfecho da narrativa.

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Sébastien Pelon, o ilustrador, gosta de trabalhar textos clássicos e já ilustrados por outros: “Permite-me dar a minha visão. É como mudar para uma casa nova e redecorá-la, mantemos a estrutura e refazemos tudo.” Um livro com palavras antigas. Gostamos disso.

(Títulos dos restantes contos: Como o camelo arranjou a sua bossa; Como o rinoceronte arranjou a sua pele; Como o leopardo arranjou as suas pintas; O filho do elefante; A cantilena do velho canguru; Como apareceram os tatus; Como se escreveu a primeira carta; Como se inventou o alfabeto; O caranguejo que brincou com o mar; O gato que andava sozinho e A borboleta que bateu com o pé.)

Histórias Assim
Texto: Rudyard Kipling
Tradução: Ana Mafalda Tello 
e João Quina
Ilustração: Sébastien Pelon
Edição: Bertrand Editora
Círculo de Leitores
110 págs., 15,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 21 de Janeiro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com sugestões de actividades culturais para a família. Destaque para o projecto E Se Tudo Fosse Amarelo?, com livro+DVD Isto É Uma Cocriação! Antimanual de Educação Artística na Infância. Editados pela Boca – Palavras que alimentam e pela Real Pelágio. Espreitem aqui. Vão também até ao Guia do Lazer.