Todas as crianças pela paz

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A partir do livro Todas as Crianças da Terra, espectáculo de teatro homenageia Sidónio Muralha. Sábado e domingo (9 e 10 de Abril), no Teatro-Cine de Pombal. Gratuito e para todos.

“A paz é uma pomba que voa./ É um casal de namorados./ São os pardais de Lisboa/ que fazem ninho nos telhados.” Palavras antigas de Sidónio Muralha, cujo centenário de nascimento se assinalou em 2020. A homenagem encenada a este poeta que cresceu na Madragoa só agora pôde subir ao palco, suavizada a pandemia de covid-19. Deram-lhe o nome Para Todas as Crianças da Terra.

O título é uma alusão ao livro Todas as Crianças da Terra, onde o poeta Sidónio, de metáfora em metáfora, dá vida à paz que ele deseja para todas as crianças da Terra”, descreve a nota de imprensa.

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Foto de Luísa Peres

Benita Prieto, Tâmara Bezerra, Fernando Guerreiro e Ricardo Schöpke (da esquerda para a direita na foto), dirigidos por Carlos Marques, contam e cantam parte da vida do autor, a sua poesia, o seu amor pelas crianças, o compromisso com a justiça social e a protecção do nosso planeta. Neste sábado e domingo (9 e 10 de Abril), às 16h30, no Teatro-Cine de Pombal, para toda a família. Quinta e sexta-feira, as actuações foram dedicadas às escolas, a que assistiram perto de 450 crianças.

“O cenário”, faz-nos saber Benita Prieto, também directora de produção da peça, “é um elemento lúdico que se modifica ao longo do espectáculo, são desenhos feitos pela animadora de areia Pilar Puyana, concorrente do Got Talent Portugal 2022”.

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Foto de Daniel Fernandes (cortesia da Câmara Municipal de Pombal)

Os figurinos são assinados pelo artista brasileiro Carlos Alberto Nunes, trazendo “movimento à cena, com elementos da terra e do mar que unem Brasil e Portugal”. As composições musicais “derivam da riqueza prosódica da poesia de Sidónio Muralha e reforçam os elementos contidos na sua obra literária”.

Ilustrador brasileiro e “minhoto”

Sidónio Muralha publicou o seu primeiro livro de poesia infantil em 1949, Bichos, Bichinhos e Bicharocos, com ilustrações de Júlio Pomar. É um dos precursores do neo-realismo português, publicou 21 livros (prosa e poesia) para adultos e 15 livros para crianças, com a chancela de editoras portuguesas e brasileiras.

A edição que aqui se divulga foi ilustrada pelo artista brasileiro Fê, de São Paulo, formado em Arquitectura, que contou ao PÚBLICO, via email: “Este livro eu ilustrei, acredito eu, há mais de 20 anos e ilustrei tudo em técnica digital, mas em Novembro de 2010 tive um problema sério no meu hard disk [disco rígido] e perdi absolutamente tudo o que tinha de livros de literatura para infância e ilustrações. E na época eu não tinha feito backup, diferente de hoje em dia que tenho backup de tudo o que crio digitalmente.”

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Na página online da editora Global, descreve: “Desde pequenininho amava desenhar; aos nove anos já pintava quadros à tinta a óleo. Desenhava em qualquer lugar que podia, desde a parede do quarto até sacos de papel de padaria. Desenhar, rabiscar, ver nascer no papel um universo de paisagens e personagens que irão povoar um livro e saber ainda que este logo estará diante de mãos e olhos curiosos de uma criança é para mim a maior felicidade do universo.”

Bem-humorado, diz ao PÚBLICO considerar-se “minhoto” e explica porquê: “Meus pais e avós são imigrantes portugueses, minha mãe é de Vila Nova da Cerveira, no Minho, e meu pai de Bragança, todos do Norte de Portugal, me considero minhoto… Amo Portugal e tenho muito orgulho da minha origem lusitana.”

Fê diz ainda que escrever e ilustrar livros “para os pequeninos” é a sua “verdadeira paixão e vocação”. Morou 14 anos em Londres (foi lá que perdeu as imagens digitais) e regressou ao Brasil em 2018.

Todas as crianças de mãos dadas

O espectáculo Para Todas as Crianças da Terra é o resultado de uma residência artística na Casa Varela, do Município de Pombal, e pretende dar a conhecer a obra de um autor que dividiu a vida entre Portugal e o Brasil. No palco, misturam-se “os múltiplos sotaques que acompanham a vida e a obra de um poeta viajante e, por isso mesmo, universal”.

O projecto integra-se no programa Garantir Cultura, do Ministério da Cultura, é realizado pela Ações & Conexões Associação Cultural. São parceiros a Câmara Municipal de Pombal, a Laredo Associação Cultural, a Fundação Sidónio Muralha, Centenário Sidónio Muralha, a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, o Cenformaz, o Centro de Formação de Escolas António Sérgio e a Estrelas de Papel.

Foto de Daniel Fernandes (cortesia da Câmara Municipal de Pombal)

 

Esta celebração do centenário de Sidónio Muralha —​ O Poeta Viajante conta ainda com formação de professores, com um podcast e com a exposição Sidónio Muralha —​ Escritor Semeador de Futuro, na Biblioteca Municipal de Pombal até 16 de Abril.

Assim termina o livro e o espectáculo: “A paz é o oposto da guerra,/ é o sol, são as madrugadas,/ e todas as crianças da Terra/ de mãos dadas, de mãos dadas,/de mãos dadas.” Tomara que assim seja.

Ficha técnica
Texto: Sidónio Muralha
Dramaturgia: Benita Prieto, Fernando Guerreiro e Tâmara Bezerra
Elenco: Benita Prieto, Fernando Guerreiro, Ricardo Schöpke e Tâmara Bezerra
Encenação: Carlos Marques
Música e sonoplastia: Fernando Guerreiro
Figurinos: Carlos Alberto Nunes
Animação de areia: Pilar Puyana
Desenho de luz: Ricardo Schöpke
Direcção de arte e design: Ieda Alcântara
Fotografia: Luísa Peres
Direcção de produção: Benita Prieto
Informações e bilheteira: cultura.cm-pombal.pt/ teatrocine@cm-pombal.pt/236 210 540

Texto divulgado na edição do Público de 9 de Abril de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, saiu assim. Com paginação de Ana Cristina Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

(Demos um salto no calendário, mas… vamos recuperar brevemente os textos e páginas em atraso. As nossas desculpas e obrigada por continuarem aí desse lado.)

Conhecer o planeta e aprender a cuidar dele

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Andamos distraídos e não sabemos cuidar da Terra. Somos uns “cabeças de vento”, dizem e cantam Inês Pupo e Gonçalo Pratas.

“O livro e disco Cabeças de Vento é um convite a sair de casa, a respirar ar puro, a ir para a rua conhecer o planeta em que vivemos”, dizem-nos os autores do projecto musical, que neste domingo se transformará num espectáculo em Lisboa, no Teatro Maria Matos (11h).

Inês Pupo e Gonçalo Pratas, num depoimento enviado ao PÚBLICO por email, contam como chegaram até aqui: “Depois de nos termos visto obrigados a estar mais tempo em casa, parece ser ainda mais importante pisar a terra, sentir a areia nos pés, subir a serra, estar em contacto com a natureza, usufruir da experiência de nos sentirmos insignificantes perante uma paisagem onde não há elementos construídos por humanos.”

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“A consciência ambiental tem vindo a ser um tema cada vez mais central no nosso dia-a-dia, mas apercebemo-nos de que neste assunto somos, como espécie, algo distraídos; cabeças de vento, porque sabemos o que deve ser feito, mas nem sempre o fazemos”, dizem.

No poema/canção que dá título ao livro, pode ler-se: “Queremos defender a Terra/ reciclar, mudar de vida/ aumentar a consciência, ganhar a tara perdida. // Mas nisto o que é que acontece?/ Com todo o nosso talento e humanas capacidades,/ somos cabeças de vento…// Queremos respirar ar puro, mas poluímos a eito,/ queremos mergulhar no mar/ mas o plástico dá jeito…/”

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Cabeças de Vento promove assim o contacto com a natureza, o seu conhecimento, respeito e protecção. Palavras dos autores: “Este livro e disco pretende ser um ponto de partida; um convite a sair dos ecrãs e conhecer as árvores, as ervas-de-cheiro, as maravilhas do mundo natural, a fauna e flora da zona entre marés, o ciclo da água. Um convite para todos a sermos um pouco menos cabeças de vento, enquanto contemplamos e cantamos juntos, enquanto redescobrimos como é viver a 100%.”

O registo áudio traduz-se num projecto folk rock que conta com a participação de Alexandre Alves (bateria), António Quintino (contrabaixo), João Fragoso (bandolim e guitarras) e Malu Garcia (violino). O livro dispõe de um código QR que encaminha o leitor para as plataformas digitais, onde pode escutar as músicas.

Fotografias combinadas com ilustrações registam paisagens e seres vivos de uma forma serena e poética. Dá mesmo vontade de sair para respirar.

Na contracapa, escreve-se: “Estar neste planeta. Cantar a plenos pulmões e dançar.” Bela sugestão.

Cabeças de Vento
Texto: Inês Pupo e Gonçalo Pratas
Ilustração: Ricardo Machado
Fotografia: Inês Pupo
Música: Gonçalo Pratas, João Fragoso e Constroisons, Lda
Edição livro+áudio: Constroisons, Lda
30 págs.; 12,50€
Espectáculo no Maria Matos: 8€

Texto divulgado na edição do Público de 26 de Fevereiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa saiu assim, com paginação de Ana Cristina Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Todas deste planeta…)

Uma homenagem justa aos antigos faroleiros

Até os passarinhos gostam…

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Uma montra de beijos nas diferentes espécies convida ao afecto e à ternura entre nós. E não precisamos do Dia dos Namorados para isso.

O livro começa no mar, com beijos salgados. “De manhã, no mar azul, conversavam seis peixinhos. Dizem eles: Glu-Glu-Chuac! Anda cá dar-me um beijinho!

Depois, avança pelas flores do jardim, onde esvoaçam cinco abelhas. “Dizem elas: Bzz-Bzz-Chuac! Olha, sabes a groselhas!” Seguem-se patos, serpentes, elefantes, passarinhos e… humanos.

Glu-Glu-Chuac!

Todos se beijam neste livro, o leitor pode vê-los como beijos românticos, entre família ou entre amigos, nas múltiplas relações afectivas possíveis.

Sobre o lago, quatro patos jogam à apanhada. Dizem eles: Quá-Quá-Chuac! Mas que grande salganhada.

Com ilustrações simples, mas muito expressivas, recorrendo à engenharia do papel, com abas e dobras para levantar e elementos para deslocar (como, por exemplo, o trio de pares de peixes aqui reproduzido). Um bom livro para quem gosta de espreitar.

A autora, Marta Comín, nasceu em 1982, em Santander, vive em Valência (Espanha), estudou Belas-Artes no Politécnico dessa cidade e é ilustradora. No site da Orfeu Negro, pode ler-se sobre ela: “Os seus álbuns privilegiam a surpresa e a descoberta do mundo, numa exploração narrativa e sensorial bem-humorada para os primeiros leitores. Tem livros publicados em espanhol, francês e agora em português.”

Lá na selva, à tardinha, combinaram os elefantes. Dizem eles: Vuu-Vuu-Chuac! Belas trombas! Que elegantes!

Com uma linguagem concisa e directa, Marta Comín tem como referências no seu trabalho os livros para a infância “de Paul Rand e Fredun Shapur, as colagens de Matisse ou o grafismo de Ikko Tanaka”.

Vuu-Vuu-Chuac! 

Como bem descreveu Andreia Brites na revista Blimunda (21 de Dezembro de 2021), “há um cuidado com todos os detalhes que se converte num livro muito acessível e empático que apetece ler com as mãos”.

Também as rimas, repetições, onomatopeias seguram a atenção das crianças, mesmo as de mais baixa idade.

No seu ninho, passarinhos e um filhote para cuidar. Dizem eles: Piu-Piu-Chuac! Também tu irás voar!

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No final, é a nossa espécie que surge retratada, com a doçura de um beijo de boa noite, entre pais e filhos. “Cá em casa, já é noite. Olha o sono a vir também. E o bebé diz: Chuac e Chuac! Boa noite! Durmam bem.

Sabemos que a comemoração em Portugal do Dia de São Valentim (14 de Fevereiro) é importada. Há importações piores, esta é pelo amor. Se é dos que acham ser apenas um aproveitamento comercial, faça ainda assim por ajudar o sector, que bastante tem sofrido nos tempos recentes. Ofereça um livro à pessoa que lhe é mais próxima. Pode até ser este. É apropriado da primeira à última… infância.

Aqui se representa a delicadeza, a ternura e o afecto. A forma como deveríamos tratar-nos sempre, não apenas por um dia. Chuac!

Beijos
Texto, ilustração e engenharia do papel: Marta Comín
Tradução: João Berham
Revisão: Orfeu Mini
Edição: Orfeu Negro
16 págs., 16€ (14,40€ online)

Texto divulgado na edição do Público de 12 de Fevereiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa saiu assim, com paginação de Ana Cristina Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

O que fazer perante uma mãe triste?

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A depressão aparece e acontece. Fica-se diferente e quem está por perto sente-se perdido e impotente. A vida vence quase sempre. Ainda bem.

Como lidar com um passado feliz e aceitar um presente inquietante? É nesta ambiguidade que vive a protagonista deste livro em prosa poética. “A minha mãe parece diferente”, diz-nos logo à chegada. “Onde está o crisântemo amarelo, mistura de biscoito e claridade? Os nossos dias eram tão simples e, por isso, tão perfeitos: bolos dentro do forno, troca de olhares, serenidade”, prossegue. E logo nos agarra.

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É uma mãe que está triste, mas podia ser uma filha. Explica-nos a autora, Gilda Nunes Barata: “O texto do livro A Jarra Branca parte de uma metáfora (uma jarra branca), tencionando concentrar nesse objecto uma sensação de não-ser motivada pela prostração que a doença provoca em quem sofre. Essa imobilidade causa forte transtorno, também, a quem assiste: uma criança, um ente querido, qualquer um que tenha uma relação de amor ou proximidade.”

A autora, doutorada em Filosofia, perdeu a mãe aos oito anos e descreve ao PÚBLICO vivências de infância que ajudam a perceber o livro que aqui trazemos: “Entre os meus seis e oito anos, introduziu-se a doença na normalidade das nossas vidas. Algo se quebrara, modificando o cenário ideal dos dias de amor, carinho e segurança, ‘mistura de biscoito e claridade’. A última vez que vi a minha mãe foi numa casa de repouso. Não reconheceu as filhas. Sentou-se, na cama, a pedido do meu pai, olhando o vazio.”

Esses últimos dias de vida de um “rosto de porcelana” acabam por ser aqui retratados e de certa forma homenageados: “Naqueles instantes, instalou-se o nada no meu coração. Quando alguém que amamos não nos reconhece, a nossa existência perde realidade.”

Gilda Nunes Barata diz ainda sobre este livro: “O texto instaura, logo no início, dois tempos distintos: o passado feliz e o presente cheio de inquietação, insegurança, medo, obscuridade. Existe uma menina que não sabe o que fazer, como fazer, ou até se terá culpa perante uma mãe que ‘parece diferente’. Há algo maior, mais indefinido, nas entrelinhas do que depressão.”

Será a natureza o elemento redentor a que várias vezes recorre nas suas obras: “Um pássaro preto partirá ‘a jarra branca’, dando movimento a um cenário estático.”

Para encerrar, a escritora e poetisa diz-nos ainda como, no final, pretendeu apelar à mudança e ao futuro, dando-nos duas hipóteses: “A mãe poderá partir com ‘olhos fechados, por fora, abertos, por dentro, no céu’. A morte” ou “‘com a aurora’, a mãe da menina voltará a ser quem era. Fica curada. Vence a vida”.

Transmitir luz e esperança na ilustração

Não foi fácil para Anabela Dias ilustrar este tema, como contou ao PÚBLICO via email: “Foi um processo doloroso: pelo tema, que eu não queria tratar de forma redundante, mas sim acrescentar ao texto novas formas de ‘ler’ as entrelinhas; por eu saber o que é ‘viver com’ a depressão, dentro e fora dela.”

A ilustradora queria trabalhar uma narrativa baseada em metáforas visuais e desafiou-se a si própria a usar materiais que abandonara há algum tempo. Descreveu-nos assim a técnica usada: “A tinta-da-china e o acrílico são o seu suporte e apenas alguns apontamentos a aguarela nas flores e folhagens. 

O meu objectivo desde o início foi dar força ao traço da tinta-da-china com caneta de aparo, resultando num trabalho mais gráfico do que os anteriores, e reforçar a profundeza da depressão com o preto, em oposição ao amarelo do crisântemo e do bolo, que transmitem luz e esperança.”

Os originais das ilustrações estão expostos na livraria Papa-Livros, no Porto, até ao final de Fevereiro.

A autora do texto mostrou-se feliz com o resultado gráfico e artístico do livro: “O cromatismo escolhido por Anabela Dias trabalha, a fundo, as emoções com muita inteligência. Várias imagens são intrigantes, como a mãe deitada dentro da jarra branca. A chuva negra torrencial a entrar na jarra é de uma força extrema!”

Ficou também agradada com as imagens da natureza: “Estão muito bem convocadas. Há pensamento. A jarra branca tem vários ângulos. Não é apenas uma jarra em cima de um móvel.” E conclui: “A jarra branca é uma personagem como a menina, a mãe. Tem personalidade.”

Afinal, ainda há finais felizes.

A Jarra Branca
Texto: Gilda Nunes Barata
Ilustração: Anabela Dias
Edição: Livraria Lello
30 págs., 14,90€

Texto divulgado na edição do Público de 5 de Fevereiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa saiu assim, com paginação de Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

Cidadania para menores

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Convocar as crianças para tomarem decisões que as implicam é o propósito deste livro. A ideia da Matilde foi a votos.

Com um acto eleitoral por estes dias e depois de um período de campanha e pré-campanha, talvez não seja má ideia explicar às crianças o que é a democracia e convocá-las para participar activamente nas escolhas que as implicam.

A autora de Matilde: Vamos Decidir Juntos!, Mary Katherine Martins e Silva, conta ao PÚBLICO que “este este livro surgiu da preocupação de ilustrar como é que no jardim de infância, na escola (e na própria vida) a participação das crianças pode (e deve!) ser tida em conta, que a sua voz é válida, que aquilo que as crianças têm a dizer deve ser escutado”.

Na história, conta-se que Matilde gosta de apanhar folhas, pedras e paus. Com tudo isso, faz sopas, bolos e muitas outras “comidas” para brincar. “Mixórdias” de que alguns adultos terão igualmente memória de praticar…

A menina teve então uma ideia que partilhou de imediato com a Lara: “E se houvesse cá fora um sítio onde pudéssemos ter panelas, colheres, tacinhas… muitas coisas para brincar com a terra, a água e as folhas… não era tão bom?”

Juntas foram falar com as outras crianças e com a Sara, a educadora. Seguiu-se a consulta aos meninos das outras salas, “pois a escola é de todos e há que cuidar dela em conjunto”. Convocou-se uma assembleia e fez-se a votação. “Votar é escolher, e todos têm direito a fazê-lo.” A “cozinha de lama” é aprovada.

A autora, que é educadora de infância há 26 anos e directora pedagógica num Centro Educativo de Lisboa, diz: “Elas devem ser intervenientes activos no seu próprio processo de desenvolvimento e não apenas receptáculos passivos do conhecimento ou replicadores de algo que foi decidido pelo adulto. As crianças têm muitas ideias, teorias sobre o que as rodeia, sabem muito bem aquilo que querem, aquilo de que gostam e aquilo de que não gostam, são extremamente criativas na resolução de problemas. Há que dar-lhes voz! Este livro é uma chamada de atenção para essa urgência, para essa mudança na educação.”

Educar para a democracia

Para Mary Katherine Silva, deve dar-se desde cedo às crianças a possibilidade “de intervir, colaborar, decidir, reflectir, fazer escolhas, negociar, debater, traçar objectivos”. O seu “envolvimento em dinâmicas participativas é dar-lhes ferramentas para o futuro”, acredita. E acrescenta: “É contribuir para o desenvolvimento de cidadãos activos, participativos, solidários, conscientes, com sentido crítico e agentes de mudança.” Em suma: “É educá-los para a democracia.”

Uma espécie de missão a longo prazo de todos os que nasceram há mais tempo, qualquer que seja o seu quadrante.

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Também faz por incutir a responsabilidade em todos, já que, “fazendo parte de uma comunidade, todos devem colaborar para o bem comum”. Assim, convida as crianças a desempenhar várias tarefas, “a responder pelo que fazem ou não fazem, a ajudar os outros, a contribuir de forma activa e efectiva para um espaço e ambiente que é de todos”.

Matilde: Vamos Decidir Juntos! integra uma colecção que já ultrapassa uma dezena de títulos e “surgiu porque não havia nada sobre este tema para crianças pequenas, o que era uma lacuna”. A educadora considera-o “um tema muito pertinente e actual”.

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No final, um breve guia para pais e educadores sugere actividades e atitudes que permitam “dar mais voz às crianças” e estimular a sua autonomia e participação, assim como o pensamento crítico.

Mary Katherine Silva também assina as ilustrações, “feitas com marcador preto, canetas de álcool e Ecolines”. Mas recorre, aqui e ali, a colagens: “Folhas verdadeiras foram coladas na cozinha de lama, por exemplo.” Fez uma pós-graduação em Ilustração e outra em Animação de Histórias, estando actualmente empenhada num doutoramento na área em que já é mestre, Educação Artística.

Quanto a Matilde, já está a começar nova campanha… para outro projecto: construir um atelier no jardim, para pintar e desenhar ao ar livre. Vamos a votos?

Matilde: Vamos Decidir Juntos!
Texto e Ilustração: Mary Katherine Martins e Silva
Edição: Fábula
48 págs., 12,69€

Texto divulgado na edição do Público de 29 de Janeiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa saiu assim, com paginação de Ana Cristina Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

A incompreensão de se perder o pai na guerra

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Uma prosa poética comovente que nos conta a história de uma menina que tem uma missão e um segredo. A literatura é isto.

A história decorre durante a Primeira Guerra Mundial, mas poderia ser durante outra, com igual sofrimento. Explica a menina de cinco anos e meio logo no início do livro, num texto assinado por Capitão Rosalie: “Tenho um segredo. Todos pensam que estou a desenhar no meu caderno, sentada no banquinho debaixo dos cabides, ao fundo da sala de aula. Pensam que estou a sonhar, esperando pelo fim da tarde. Chamam-me Rosalie. E o professor passa por mim enquanto dita aos alunos. Faz-me uma festa na cabeça. Mas eu sou um soldado em missão. Espio o inimigo. Preparo o meu plano.”

Vive numa aldeia, longe da guerra, mas com a sua omnipresença: “Não tenho qualquer memória para lá da guerra. Era muito pequenina, antes de ela começar.”

Enquanto a sua mãe trabalha na fábrica de munições, o professor da escola dos mais velhos aceita que ela fique ao fundo da sala, para não passar o dia sozinha. É demasiado crescida para a ama. “O professor chega às sete da manhã. Só tem um braço desde que voltou da guerra. Mas sorri como se já fosse muito bom ter ao menos um. E poder estar ali, no silêncio da escola. — Sempre no teu posto, minha menina? Ele deveria chamar-me ‘meu capitão’ e bater os calcanhares, mas fico calada. Missão secreta. Ninguém deve suspeitar de nada.”

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Ao fim da tarde, a mãe vai buscá-la e à noite lê-lhe as cartas do pai. A menina desconfia de que a mãe não lê exactamente o que lá está. “E vejo bem que a minha mãe continua a ler ainda durante muito tempo, apesar de só haver uma única página escrita no envelope. Vejo bem que ela não pára nem mesmo quando a vela do quarto se apaga.” A única coisa que lhe parece verdadeira são os desenhos do pai, a representar a paisagem e os soldados escondidos nos buracos.

Na noite do aniversário de Rosalie, a carta que foi entregue lá em casa não era do pai, mas sobre o pai. A mãe não tem coragem de revelar a verdade à menina, mas ela intui o que se passou. “No dia seguinte, vejo que nada voltará a ser como dantes. Um envelope azul na cozinha. Impossível encontrar o olhar da minha mãe. Esquiva-se quando me aproximo. Fala depressa, baixando a cabeça. Já pus o meu gorro de lã e o casaco. Olho para ela. Está inquieta como se estivesse atrasada, mas não se mexe. Por fim, pega no envelope e fá-lo desaparecer.”

Rosalie acabará por encontrá-lo mais tarde. E ela já sabia ler, aprendera durante os dias que passava na escola sem que ninguém desse por ela nem por nada.

Um livro tocante e triste, mas revelador de uma grande coragem de mãe e filha e da solidariedade e amizade que as situações difíceis conseguem gerar. Mais ainda durante uma guerra.

O autor do texto, Timothée de Fombelle, é francês, professor de Literatura, dramaturgo e autor premiado de livros para jovens. Aqui demonstra bem o seu talento e sensibilidade.

As ilustrações estão de acordo com o ambiente descrito, não apenas nas cores (um laranja quente nos cabelos e fogo, em contraste com os cinzas e o negro), mas na forma como os elementos se dispõem, ampliando a ternura das relações entre as personagens.

Poesia visual característica de Isabelle Arsenault, uma das mais reconhecidas ilustradoras canadianas e bastante premiada. A subtileza também a acompanha.

Capitão Rosalie cumpriu a sua missão. Pacífica.

Capitão Rosalie
Texto: Timothée de Fombelle
Ilustração: Isabelle Arsenault
Tradução: Dora Batalim e José Alfaro
Revisão: Nuno Quintas
Edição: Orfeu Negro
72 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de 22 de Janeiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa saiu assim, com paginação de Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira.

Inéditos de Maria Judite de Carvalho

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Poemas para crianças encontrados por Inês Fraga, neta da escritora que assinava no Diário de Lisboa como Emília Bravo.

O título do livro que reúne poemas desta voz importante da literatura do século XX é uma frase retirada do texto Mais ou menos. “Se ele fosse tão pequenino/ que aquele arbusto/ lhe parecesse uma grande árvore verde,// ou se ele fosse tão alto/ que aquela grande árvore verde/ lhe parecesse um arbusto// as coisas não estavam nada certas.// Felizmente as árvores são grandes,/ as pessoas médias,/ os arbustos pequenos.// E tudo é sempre assim,/ mais ou menos.”

Nele se percebe a habilidade no uso das palavras e a contemplação que caracteriza a obra de Maria Judite de Carvalho. Outros poemas, como A terraO elevadorFim de férias ou A varanda transmitem a sua capacidade de observação e de imaginar para lá do que é visível. Afinal, é isso que se espera da poesia.

Óculos

Imagem que ilustra o poema Os óculos

Também se encontra o pôr em causa ideias feitas (O astronauta), o desejo por um mundo melhor (Sabes lá, menina) e as diferentes formas de o encarar (Os óculos). “Ponho óculos azuis/ e todos têm asas/ e voam, cantando,/ por cima das casas.// Ponho óculos doirados/ e o mundo é um tesouro/ onde os corações/ são de puro ouro.// Ponho os óculos verdes/ de seguir em frente/ e logo a esperança/ faz tudo diferente.// Mas atiro os óculos/ para longe de mim.// E há o bem e o mal/ e o assim-assim.”

Cátia Vidinhas ilustra os textos com delicadeza e imaginação, num registo coerente, apesar dos temas diversos. Há elementos que se repetem nas imagens e que são usados nas guardas, produzindo um efeito bonito.

Imagem que ilustra o poema Dicionário 

É também aqui, nas guardas do livro, que podemos ver algumas frases manuscritas dos poemas, digitalizadas a partir de um caderno que Inês Fraga, neta da escritora, encontrou e que deu origem à obra.

No momento em que publicamos este livro, faz quase cem anos que a minha avó nasceu. Cem anos são um século. Que melhor maneira haverá de celebrar esse nascimento do que publicando estas palavras que ela escreveu para crianças, que ela escreveu mesmo para ti, que hoje as lês?”, conta a neta numa breve apresentação do livro, logo nas primeiras páginas.

No final, uma curta biografia da autora de Tanta Gente, Mariana e Armários Vazios dá-nos conta de que nasceu em Setembro de 1921, em Lisboa, “mas esses tempos de menina não foram de uma felicidade inteira”, pois cedo perdeu os pais e o irmão.

Guardas do livro, com elementos gráficos que se repetem no seu interior e com excertos dos manuscritos digitalizados 

“Muito nova encontrou refúgio na escrita e nos animais, nomeadamente na sua cadelinha Genica e, mais tarde, no imponente e felpudo gato Fritz. Foi uma escritora discreta, embora das mais importantes da literatura nacional do século XX.”

Trabalhou nos jornais Diário de LisboaDiário Popular, Diário de Notícias e O Jornal e a sua obra foi distinguida com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira.

A escritora Agustina Bessa-Luís chamou-lhe “flor discreta”. Uma descrição feliz.

Felizmente as Árvores São Grandes
Texto: Maria Judite de Carvalho
Ilustração: Cátia Vidinhas
Edição: Minotauro
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de 15 de Janeiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Esta foi a página que saiu na edição impressa, desenhada por Ana Cristina Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

O hino das crianças para mudar o mundo

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Um livro que apela a todos para a construção de um mundo mais justo, equilibrado e inclusivo. Com a ajuda da música, sempre presente nas mudanças e revoluções.

Quisemos que o primeiro livro que sugerimos em 2022 reflectisse o desejo de mudança que sempre acompanha o início de cada ano. Aqui, em A Canção da Mudança, quem manda são as crianças e a música. Haverá melhor forma de mudar o mundo?

“Sou uma canção que se eleva e ressoa. Há esperança onde a mudança soa”, transmite-nos a protagonista, de quem não chegaremos a saber o nome.

Com a sua viola ou guitarra de caixa, vai convidando outras crianças a juntarem-se a um cortejo promissor de uma nova atitude. “A todos procuro compreender, mesmo sem muito entender. Não levanto nem muros nem barreiras. Construo pontes, rampas e passadeiras.”

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Cada uma com o seu instrumento, percorrerão caminhos de ajuda, aceitação, inclusão e união. Uma canção que é um hino de mudança, interior e do mundo.

A autora do texto, Amanda Gorman, escreveu também o poema A Colina Que Subimos, que foi lido na tomada de posse de Joe Biden, actual Presidente dos EUA. Foi a mais jovem poetisa a fazê-lo, aos 22 anos.

O ilustrador, Loren Long, já tinha acompanhado Amanda Gorman ao desenhar para A Colina Que Subimos — Um Poema Inaugural.

“É o autor e ilustrador da série Otisbestseller do New York Times, que será adaptada a série de animação televisiva. É também o ilustrador de Of Thee I Sing, de Barack Obama, e de Love, de Matt de la Peña, também ambos bestsellers do New York Times. Recentemente, ilustrou uma edição moderna do clássico The Night before Christmas, de Clement C. Moore. Loren Long vive em Cincinnati com a mulher e o cão que resgatou, Charlie”, informa-se igualmente no livro.

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As imagens que Long cria têm cores quentes e fortes, mas não berrantes, e as figuras transmitem dinamismo, ternura e alegria. Apetece cantar, como sugere a protagonista. Ou até dançar.

E se é sabido desde Heraclito de Éfeso (540-470 a.C.) que “foi através da música que começou a indisciplina”, sejamos indisciplinados se preciso for para a mudança que as crianças reclamam.

“Somos a onda que começa a surgir, porque somos a mudança que se faz ouvir./ Somos o mundo que se está a transformar e sabemos que não vai demorar.// Todos ouvimos a mudança a chegar. Anda daí, vamos cantar?

Bom ano de 2022.

A Canção da Mudança — O Hino das Crianças
Texto: Amanda Gorman
Ilustração: Loren Long
Tradução: Carla Fernandes
Revisão: Ana Mateus
Composição: Ana Seromenho
Edição: Editorial Presença
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de 8 de Janeiro de 2022 e no site-satélite Ímpar.

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Esta foi a página que saiu na edição impressa, desenhada por Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira.

Obrigada a todas. (Esta foi só… a primeira do ano. Muitas se seguirão, assim esperamos. Também com a ajuda de Ana Cristina Fidalgo.)

As rimas indomáveis de David Machado

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Não se espere deste livro métricas perfeitas nem criaturas exemplares. Antes, irreverência, sensibilidade e humor.

Crianças que não querem tomar banho, adultos limpinhos (mas chatos e zangados), dragões cinzentos e bebés comilões são algumas das personagens que David Machado criou nestas “rimas desgovernadas para crianças animadas”.

Não há lições de moral, sugere-se mais do que se declara e aqui e ali vão aparecendo pistas sobre comportamentos pouco recomendáveis. Das crianças e dos outros. Exemplo de História de um rapaz mau, que “partia vidros cuspia no chão/ Espalhava lixo pela rua e gritava com o cão” (entre outras maldades). Quem conta a história conseguiu fugir dele: “Eu corri mais depressa/ E entrei numa caverna,/ Ele tropeçou, caiu/ Partiu uma perna.”

Ficou aflito o rapaz mau: “Chorou, pediu-me ajuda,/ Que fosse chamar alguém.// E eu disse: ‘Claro, volto já.’/ Mas depois não voltei.”

Conclusão: “Se há algo de errado aqui/ É o título, pois/ O rapaz mau desta história/ Não é um: são dois.”

Mergulho

Um livro bem-disposto, com diferentes universos e ritmos de leitura. Pode ler-se de seguida ou ir-se escolhendo poemas “avulso”. O facto de existirem dois índices, um geral (pela ordem das páginas) e outro alfabético (pelo título dos poemas) facilita a escolha de textos e temas mais sugestivos para as crianças que conhecemos e de que cuidamos.

Outro processo para as levar a mergulhar no livro poderá ser o de ir mostrando as imagens de Ricardo Ladeira e observar onde elas se detêm. A propósito, O mergulho: “Saltei na prancha,/ Voei bem alto,/ Mergulhei na piscina,/ Dei tudo o que tenho.// Quero sair/ E mergulhar outra vez/ Mas perdi os calções de banho.”

O poema mais difícil de ilustrar

 

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Para o ilustrador, “a rima mais difícil de ilustrar” terá sido a que dá o nome ao livro, O meu cavalo indomável, “possivelmente a mais importante”, disse ao PÚBLICO via email. E explica porquê: “Eu e o David temos interpretações diferentes daquele poema. Ao ler o poema, imagino que o cavalo está a levar uma criança numa viagem pela sua imaginação (e é o mundo imaginário dessa criança) e inicialmente fiz uma personagem sentada no cavalo com vestes de um herói/cavaleiro. Enquanto a ideia do David é a de um cavalo sem rédeas, dono de si.”

Excerto do poema: “Eu e o meu cavalo indomável/ Já fomos a todo o lado.// Ao Polo Norte e ao Vale da Morte,/ Estivemos no Oriente encantado.// Atravessámos desertos de areia escaldante,/ Percorremos estradas sem fim,/ Subimos todas as montanhas mais altas,/ Ouvimos falar mandarim. (…) // E um dia, prometo, estarei contigo,/ Mas ainda não sei dizer quando,/ Pois o meu cavalo só vai aonde quer/ E nunca faz o que eu mando.”

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Ricardo Ladeira, que nasceu no Porto e é licenciado em Arte e Design pela Escola Superior de Educação de Coimbra, prossegue a explicação: “Demorámos a chegar a um consenso, mas encontrámos um equilíbrio entre o que cada um de nós sentia, mantive a posição do cavalo, a capa e retirei a criança e as rédeas, depois acabei por colocar a personagem do cavaleiro na contracapa do livro.”

Eu e o meu cavalo indomável/ Já fomos a todo o lado.// Ao Polo Norte e ao Vale da Morte,/ Estivemos no Oriente encantado.// Atravessámos desertos de areia escaldante,/ Percorremos estradas sem fim,/ Subimos todas as montanhas mais altas,/ Ouvimos falar mandarim  (pág. 142)

Isso significa que foi mostrando os desenhos ao escritor durante o processo criativo? “Quando o David me convidou e discutimos a abordagem para os desenhos, fiz uma série de dez desenhos, mais ou menos, para vermos se funcionava e se a editora queria avançar. Depois dessa avaliação, avancei sem mostrar quase nada, de vez em quando lá mandava uma fotografia ao David, para dar sinais de vida. Faz parte do meu processo mostrar tudo só no fim.”

O sentido do preto e branco

Sobre a técnica, revela: “Desenho tradicional sobre papel. Alguns desenhos foram feitos com lápis de cor preto e outros com caneta de pincel e uns poucos com caneta preta normal. Percebemos logo no início que o que fazia sentido para este livro seria o desenho a preto e branco, por serem muitos e para criar um equilíbrio com o tipo de texto, achámos que as duas coisas iam namorar melhor assim.”

O ilustrador diz ter alterado alguns desenhos, “poucos, talvez uns quatro, depois de algumas sugestões do David”. O de O cavalo indomável “foi que sofreu mais alterações”. Sobre se alteraria algum agora, responde: “É normal, inevitável, passado algum tempo e olhar para um trabalho terminado e ter essa sensação de que podia ter feito melhor ou podia ter acrescentado isto aqui ou ali. Tento não pensar muito nisso, foi assim que aconteceu naquele momento e era o que eu sentia na altura. E isto é bonito assim mesmo.” Concordamos.

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Já colaborou com várias instituições e empresas, como o Museu Municipal de Coimbra, Licor Beirão, revista Sábado, Casa Pia ou Renault, venceu a 3.ª edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce, o concurso Lusófono da Trofa 2020 e foi finalista do concurso New Talent NIT.

Quando se lhe pergunta quem é Ricardo Ladeira, responde: “Uma ladeira é um caminho inclinado e tanto se pode subir ou descer, eu quero continuar a subir e ver o que está lá em cima.”

O que o deixa verdadeiramente feliz (e certamente também David Machado): “Saber que o livro vai estar em casa de alguém, numa prateleira, mesa, sofá e que alguém se pode sentir tocado, inspirado ao ler, ao ver os desenhos. Imaginar que isto pode acontecer é o que me enche.” Bonito. Também concordamos.

O Meu Cavalo Indomável (Rimas desgovernadas para crianças animadas)
Texto: David Machado
Design e ilustração: Ricardo Ladeira
Paginação: Maria Manuel Lacerda
Revisão: Madalena Escourido
Edição: Caminho
160 págs., 14,40€

Texto divulgado na edição do Público de 23 de Outubro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Esta foi a página que saiu na edição impressa. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

(Ricardo Ladeira não gostou da forma como as suas ilustrações foram “pintadas”. Lamentamos e pedimos desculpa por não lhe termos pedido para ser o próprio a fazê-lo. Não volta a acontecer.)

Quanto mais palavras, melhor

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O Jaime coleccionava palavras e agrupava-as. Aprendeu depois que as podia misturar e descobriu a sua voz.

Havia certas palavras que captavam a atenção do Jaime. Entre as que ouvia e lia, fazia o seu registo. Podiam ser “palavras leves e doces”, como “luz”, “flor”, “mãe” e “mel”, ou outras “bonitas de duas sílabas”, como “vida”, “sonho”, “bruma”. Algumas, polissílabas, “soavam como pequenas canções”: o caso de “guacamole”, “caleidoscópio” ou “sinfonia”.

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Não compreendia certas palavras, mas adorava dizê-las: “efervescente”, “vociferante”, “aromática”. E considerava que algumas “soavam exactamente àquilo que queriam dizer”, como “borrão”, “torrencial”, “rugido”. Acrescentaríamos “catrapiscar”, uma das nossas preferidas pela expressividade.

As colecções do rapaz eram temáticas: sonho, ciência, tristes, acção, poético. Foi quando as transportava que tropeçou e as palavras voaram, misturando-se todas na queda. “Palavras grandes com palavras pequenas. Palavras tristes com palavras sonhadoras.” Percebeu que nunca imaginara que certas palavras poderiam estar lado a lado. Gostou.

Fez poemas, canções e descobriu o poder de certas palavras e frases, como “desculpa”, “eu compreendo”, “obrigado”, “gosto de ti”.

“Quanto mais palavras aprendia, melhor conseguia partilhar com os outros tudo que pensava, sentia e sonhava.” O que não acontece só ao Jaime, mas a todos nós. Quanto mais palavras, melhor.

Ajudar as crianças mais “difíceis”

Peter Hamilton Reynolds nasceu no Canadá em 1961 e tem um irmão gémeo, com quem fundou a empresa de meios educativos FableVision. Assina o livro O Ponto, editado em Portugal, pela Bruaá, traduzido para dezenas de línguas, muito premiado e transformado em cinema de animação.

“A sua paixão pela educação é a força motriz da sua acção. Muito do seu tempo é dedicado a ajudar crianças, especialmente as mais ‘difíceis’. ‘Eu fui um deles. Nem todos têm a sorte de ter um professor que veja neles algum potencial’”, lê-se no site da editora portuguesa.

Neste livro, aconselhado por Michelle e Barack Obama, o autor, de forma poética e sonhadora, incita os pequenos leitores a encontrarem a sua voz e a melhor forma de se darem a conhecer aos outros.

No final, papéis esvoaçantes convidam: “Procura hoje as tuas palavras. Diz ao mundo quem tu és e como vais fazer para o melhorar.” Um bom desafio.

Texto divulgado na edição do Público de 21 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Que sabem muitas palavras.)

Atletas que nos representam

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Ainda a pensar nos Jogos Olímpicos, eis um livro que nos dá a conhecer a vida de alguns atletas portugueses.

Pequenas biografias para grandes feitos. Do “menino que era pedreiro aos 11 anos e trouxe para Portugal a primeira medalha de ouro olímpica” pela prova de maratona, aos 37 anos (Carlos Lopes), a um outro que começou na natação e desaguou “na canoagem, para dar a única medalha a Portugal nos Jogos Olímpicos de 2012” (de prata) e que nesta última edição, 2020, conquistou uma de bronze (Fernando Pimenta) e ainda “a menina portuguesa mais jovem de sempre a ganhar uma medalha olímpica”, de prata, em Pequim 2008, tinha 22 anos (Vanessa Fernandes, triatlo).

Rosa Mota

Várias modalidades e percursos são retratados de forma bem-disposta em Os Nossos Heróis do Desporto. Entre os 50 atletas descritos pelo autor, Rui Miguel Tovar, encontram-se Joaquim Agostinho (ciclismo), Rosa Mota (maratona), Fernanda Ribeiro (10 mil metros), Elisabete Jacinto (motocrosse e camiões), Miguel Oliveira (motociclismo)Nelson Évora (triplo salto), Obikwelu (100m-400m), Teresa Bonvalot (surf), Telma Monteiro (judo).

Nelson Évora

Desenhar o momento especial

Coube a Andrea Ebert ilustrar estes “heróis”, tendo a ilustradora, natural de São Paulo, Brasil, contado ao PÚBLICO que teve “liberdade total para desenhar os desportistas, usar o grafismo do que é cada desporto e fazer a composição com aqueles cenários fantásticos das diferentes modalidades”.

Fez “uma pesquisa profunda”, para “poder pegar naquele momento especial da vida do atleta, o movimento antes de saltar ou quase a ganhar ou já mesmo a festejar a chegada à meta”.

Formada em Moda, Andrea Ebert passou a dedicar-se à ilustração em 2002. Dez anos depois, mudou-se para Lisboa, “por uma questão de qualidade de vida”. Recorre habitualmente à xilogravura, mas neste livro usou “pintura em tela, para criar texturas e dar aquele efeito de pincelada”, aplicando depois “um tratamento digital”.

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Fernanda Ribeiro

Satisfeita com o resultado do seu trabalho e da obra na sua globalidade, ficou agora com vontade de “fazer um livro com outros heróis, músicos por exemplo”. Gostaria de ver “a ética desportiva ser transposta para os heróis da cultura”, diz. E acrescenta: “Não são só os desportistas que fazem por sobreviver no mundo em que estamos.”

Numa próxima publicação, não poderão faltar os recentemente medalhados Pedro Pablo Pichardo (ouro no triplo salto) Patrícia Mamona (prata também no triplo salto) e Jorge Fonseca (bronze em judo). Fernando Pimenta já consta, mas conquistou agora mais uma medalha (bronze em K1-1000). Também os heróis paralímpicos mereciam não ser ignorados. E são muitos, muitos.

Emanuel Silva

 

O presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, assina o prefácio, em que descreve o livro deste modo: “É uma agradável viagem em torno do quotidiano e das histórias de vida de vários atletas que ajudaram a construir o nosso país desportivo.”

Entre os atletas que nos representam, há os que nasceram em Portugal e os que se tornaram portugueses, por escolha própria ou da família. Todos nos comovem da mesma forma e com igual intensidade. Pelo sonho, empenho e pela perseverança, parabéns e obrigada.

Os Nossos Heróis do Desporto
Texto: Rui Miguel Tovar
Ilustração: Andrea Ebert
Prefácio: José Manuel Constantino
Revisão: Cristina Correia
Edição: Nuvem de Tinta
128 págs., 16,90€

Texto divulgado na edição do Público de 14 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

O que o tempo faz e nos faz

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Não pára, já existia antes de nós e perdurará para além de nós. O tempo é o que fazemos dele.

Da formação dos continentes ao final do mais recente Outono e à contagem do último minuto, passaram-se milhares de milhões de anos. Sabendo nós que o tempo não pára, o que imaginamos que virá depois?

“O que vais fazer amanhã? Como irás celebrar o teu aniversário para o ano? Terás filhos um dia? Do que te irás lembrar quando fores velho? O que desejas para o futuro?”, pergunta a autora de Era Uma Vez (e Muitas Outras Serão)Johanna Schaible, entre ilustrações de cores fortes e páginas de tamanho variável. Cabe a cada leitor encontrar as suas próprias respostas.

Johanna Schaible vive na Suíça e trabalha em ilustração, arte e design, ampliando os limites de expressão de cada uma destas disciplinas. Estudou na Escola de Arte e Design de Luzern  e, em 2019, foi seleccionada para o Unpublished Picturebook Showcase da plataforma Dpictus com o projecto para este livro.

Além da expressão plástica de grande qualidade, o livro vale também pela originalidade de fazer variar o tamanho das páginas à medida que se avança na leitura e no folhear. Começando com o tamanho que se espera para o seu formato, logo se assiste ao gradual encolher do papel, a par da aproximação do tempo presente.

Crianças e adultos vão gostar deste objecto e deste exercício de pensar sobre “o que fica do que passa” e sobre o que o futuro trará. Mesmo que não conheçam ainda as respostas. É sabido que para cada leitor “era uma vez” e outra e outra… e outra ainda.

Mais uma pergunta da autora: “O que irá marcar-te para sempre?” Talvez um livro. Pode até ser este.

Era Uma Vez (e Muitas Outras Serão)
Texto e ilustração: Johanna Schaible
Tradução: Isabel Minhós Martins e Mariana Vale
Revisão:  Carlos Grifo Babo
Edição: Planeta Tangerina
54 págs., 18,90€

Texto divulgado na edição do Público de dia 7 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família conta com as escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

As dúvidas existenciais de um dragão

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Adoptado por rouxinóis, Lorenzo não sabe cantar nem voar. Quer ser igual aos pais, mas terá de descobrir o seu talento. Ninguém disse que era fácil.

Um ovo grande perdido na floresta é encontrado e protegido por um casal de rouxinóis, Amália e Pavaroti. Dele sairá um dragão trapalhão, mas ainda assim sempre acarinhado pelos pais adoptivos, que lhe deram o nome Lorenzo.

A autora do texto, Isabel Ricardo, quis abordar “o tema da adopção, da diferença e da descoberta de que todos somos importantes”, disse ao PÚBLICO, via email. E explica como lhe surgiu esta história, que pretende demonstrar que “pode haver famílias de coração”: “O Dragão Trapalhão surgiu-me no regresso de uma escola, depois de um dia cheio. Faço muitas sessões de incentivo à leitura em escolas e bibliotecas, e o contacto com a pequenada transmite-me sempre muita energia e inspiração. E a história foi surgindo e ganhando forma de tal maneira que, quando cheguei a casa, os rouxinóis Amália e Pavaroti já eram reais. O nome Lorenzo foi inspirado no nome do filho do ilustrador.”

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Zeka Cintra deu forma às personagens e à floresta num registo colorido e divertido, adequado à narrativa e a fazer lembrar cinema de animação. Não é a primeira vez que os autores trabalham em conjunto. “Um sentimento de empatia e admiração mútua converteu-se numa bonita amizade desde o primeiro livro em que colaborámos — e já lá vão quatro —, transformando-se numa simbiose feliz e penso que isso está bem patente neste livro”, conta a escritora.

O ilustrador, natural de São Paulo (Brasil), formou-se em Artes Plásticas pela UESL-Joboticabal. Zeka Cintra divide-se entre o trabalho digital, como o que apresenta neste livro, e o tradicional (analógico), com aguarelas, acrílicos, lápis de cor, tinta de óleo e pastel. “Tem como filosofia de trabalho fazer tudo com muita emoção e profissionalismo, pois sabe que o restante será consequência de tudo isso”, pode ler-se no site Who.

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Isabel Ricardo procura, nos livros que escreve, “não descurar a componente pedagógica e que as histórias tenham alguma profundidade, principalmente nas que se destinam aos mais novos”. Assim, faz por lhes transmitir valores humanos que considera importantes, “a tolerância, o direito à diferença, a cooperação, a inclusão, a verdadeira amizade, o respeito pelos outros (sejam eles pessoas, animais ou a própria natureza), a solidariedade, a generosidade, etc”.

Um livro, segundo Isabel Ricardo, “deve ser divertido, emocionante, cativante e transmitir algo importante”. Mais: “Se pudermos associar o prazer da leitura à aprendizagem de outro assunto, isso é excelente!

Escreveu o seu primeiro livro de aventuras aos 11 anos, mas teve de esperar 16 para conseguir chegar às bancas. “Fui persistente, tal como este dragãozinho, que nunca desistiu de aprender a voar. Hoje, sinto-me realizada por fazer aquilo que adoro e continuar a concretizar os meus sonhos. Tal como o Lorenzo, tento sempre desafiar-me e superar-me em cada nova criação literária.”

O dragão Lorenzo acabará por encontrar o seu papel no mundo, aprender a usar o fogo para benefício de todos e ser menos trapalhão…

O Dragão Trapalhão
Texto: Isabel Ricardo
Ilustração: Zeka Cintra
Edição: Minotauro (Edições Almedina)
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de dia 31 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo e ficou bem bonita. A secção Fim-de-Semana em Família é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira. (Com as dúvidas existenciais todas… resolvidas. :) )

Isabel Stilwell escreve sobre D. Isabel, uma rainha valente

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Ajudou os desfavorecidos, lutou pela paz e acabou por ser reconhecida como santa. A história de uma rainha corajosa é o que se conta neste livro. Uma Isabel (Stilwell) a olhar para outra Isabel (de Aragão).

“Todas as manhãs vou ver o meu avô a fazer a barba. Como o meu avô é rei, o todo-poderoso Jaime I de Aragão e de muitos lugares que conquistou aos mouros, não é ele que faz a barba a si próprio. Nem pensar.” Eis o tom que Isabel Stilwell consegue dar a um livro em que dá a conhecer aos mais novos a história de D. Isabel, que viria a ser rainha de Portugal.

O livro é um relato na primeira pessoa, uma “autobiografia” que revela desde pormenores do nascimento da menina, aos receios pelas idas do avô para sucessivas batalhas, às inquietações com o casamento com D. Dinis logo aos 12 anos, e que a trouxe para Portugal, ao interesse pela medicina e pelos desfavorecidos até às várias tentativas para promover a paz entre reis, irmãos e herdeiros de tronos.

Escrito numa linguagem acessível e simples, mas não pobre, Isabel de Aragão ­— A Nossa Rainha Santa ensina história de uma forma natural, pela voz de uma criança que se vai tornando adulta e depois envelhece. Sempre com muita coragem e valentia, mas também bondade.

A preocupação com os detalhes

Um livro que, não sendo “difícil de ilustrar”, segundo Ana Oliveira, “foi demorado, pela quantidade de informação histórica que tem e porque há detalhes que não podem escapar, como por exemplo o vestuário, o mobiliário e outras características da época que não podem ser deixadas ao acaso”, diz a ilustradora ao PÚBLICO.

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Formada em Arquitectura e dedicando-se exclusivamente à ilustração a partir de 2015, conta-nos “o imenso prazer” que foi “ilustrar este livro”: “Primeiro, porque nunca tinha ilustrado um texto com tantos detalhes históricos e, segundo, por ser talvez uma das rainhas mais queridas de todos nós. Numa altura em que se fala tanto da igualdade de direitos e do papel que as mulheres têm na sociedade, é importantíssimo que os mais pequenos também conheçam estas mulheres, tão emancipadas e que souberam usar tão bem o poder que tinham!”

Ana Oliveira, natural da Trofa, mas a residir no Porto, descreve como orientou o seu trabalho para este livro: “O meu primeiro foco foi essencialmente absorver tudo o que podia sobre a rainha Isabel II e que imagens existiam dela, para que a ilustração conseguisse reflectir tanto a fisionomia como a personalidade desta rainha. Como as ilustrações devem surgir naturalmente acompanhando o texto, só depois de decidir as imagens a ilustrar fiz a pesquisa sobre os eventos que nelas decorrem, como, por exemplo, perceber como era o interior do Palácio de Alzira, a Vila de Trancoso, Tarragona, locais descritos no livro e que exigem fiéis detalhes arquitectónicos para que possamos contextualizar estes acontecimentos e locais reais.”

Liberdade artística e orientação histórica

Quisemos saber se os seus passos foram seguidos pelos outros intervenientes na produção do livro: “Deram-me muita liberdade criativa para trabalhar neste livro, o que é sempre um aspecto extremamente importante para o ilustrador, que tem de ter o seu papel de interpretação e criação salvaguardado.”

No entanto, agradou-lhe ter contributos da autora do texto: “Houve sempre um acompanhamento do processo por parte da editora e da autora, o que ajudou a que pudéssemos incluir alguns detalhes que, do ponto de vista dela, eram importantes destacar na história.”

Sobre a técnica escolhida descreve: “As ilustrações foram essencialmente feitas a aguarela, a técnica de eleição no meu trabalho. Gosto posteriormente de misturar lápis de grafite ou de cor para criar texturas e detalhes.”

No final do livro, há uma cronologia com os principais acontecimentos da vida de Isabel de Aragão: do nascimento em Saragoça (cuja data de 11 de Fevereiro de 1270 não é confirmada com toda a certeza) até à sua canonização pelo papa Urbano VIII, em 1625, momento em “que passou a ser conhecida como Santa Isabel de Portugal”.

A este livro junta-se outro também assinado pela jornalista e escritora Isabel StilwellD. Amélia – A Rainha Que Deixou o Coração em Portugal, ilustrado por Cátia Vidinhas. Diz a editora na divulgação: “Dois livros apaixonantes e divertidos, dedicados aos leitores dos 8 aos 12 anos sobre a história de duas mulheres fortes e que foram duas das rainhas mais queridas dos portugueses.”

Texto divulgado na edição do Público de dia 24 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Valentes!…)