Destravar a(s) língua(s) no Dia da Europa

Para assinalar o Dia da Europa, que hoje se comemora (dia 9 de Maio), recuperamos um Livro para escutar que muito nos divertiu a realizar, com vários colegas da redacção do PÚBLICO.

Foi em 2008 que ficámos a conhecer este livro. Trava-Línguas, Trabalenguas, Virelangues, Tonguetwisters, Scioglingua é (escreve-se na contracapa) “um livro para quem gosta de… trocar de língua… enrolar a língua… trincar a língua… deitar a língua de fora… ter várias línguas”. Espreite aqui.

Todos os anos, no Dia da Europa, comemorado a 9 de maio, festeja-se a paz e a unidade do continente europeu. Esta data assinala o aniversário da histórica «Declaração Schuman». Num discurso proferido em Paris, em 1950, Robert Schuman, o então ministro dos Negócios Estrangeiros francês, expôs a sua visão de uma nova forma de cooperação política na Europa, que tornaria impensável a eclosão de uma guerra entre países europeus.

A sua visão passava pela criação de uma instituição europeia encarregada de gerir em comum a produção do carvão e do aço. Menos de um ano mais tarde, era assinado um tratado que criava uma entidade com essas funções. Considera-se que a União Europeia actual teve início com a proposta de Schuman.”

Se não conseguiu ver o vídeo até ao fim, tem aqui (em baixo) mais uma oportunidade. :)

O lobo não é mau como se diz

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Todos querem saber/ Da fama do lobo.// Ninguém quer saber/ Da fome do lobo”, pode ler-se na página 10.

Antes, um poema, feito de perguntas e respostas, interpela-nos sem cerimónia: “O homem não brinca? O lobo brinca!/ O homem não ensina os filhos? O lobo ensina os filhotes!/ O homem não protege a família?/ O lobo protege a alcateia!/ O homem não fala?/ O lobo uiva!/ O homem não organiza?/ O lobo organiza!/ (…)”

É difícil não se ficar a pensar nas diferenças e semelhanças entre as duas espécies e na forma como temos maltratado estes mamíferos, na realidade e na ficção.

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Dizem os autores que Lobo Bullying é “contra os mal-entendidos”: “Neste livro, revisita-se o lobo e a memória viva da sua perseguição. E também da sua protecção, do seu direito à vida, da sua importânica no ecossistema. Parte-se de lendas e fábulas, de histórias de vida e de morte, de velhas notícias e novos estudos, de crenças e factos, de problemas e soluções, para reescrever e ilustrar uma das mais antigas formas de bullying arquivada na memória colectiva. É um livro contra os estereótipos, um livro contra os mal-entendidos, contra a preguiça da criatividade.” Tudo verdade.

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O livro obriga ao desconforto do leitor, físico e psicológico. Físico porque lhe dificulta a leitura, ora forçando-o a ler textos “deitados”, ora usando uma letra minúscula, que impõe uma atenção redobrada. Psicológico porque o força a reflectir sobre informações como esta: “No século XX, durante a primeira metade, os lobos começaram a desaparecer, principalmente por perseguição humana. Nos anos 60 começou a extinção de lobos no Sul do país. Nos anos 90 a população de lobos lobos passou a ocupar apenas um quinto da área originalmente ocupada. Actualmente, só há lobos no Norte, de Viseu para cima.

E desconcerta-nos com este exercício de perseguição: “Imagina que andas com a tua família à procura de restaurante para almoçar e que: a) O teu pai leva um tiro sem saber de onde vem o disparo; b) O teu irmão mete o pé numa armadilha ao sair do automóvel; c) A tua mãe é envenenada ao provar o primeiro prato; d) Tu sobrevives até à próxima perseguição.”

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Também se conta a história verdadeira do menino da Serra Morena. “Morreu-lhe a mãe e a madrasta bateu-lhe quanto quis. Foi vendido pelo pai a um pastor com quem aprendeu a sobreviver. Desapareceu-lhe o pastor e a solidão entregou-o à serra. Foi acolhido por uma loba que lhe matou a fome. Uma dúzia de anos entre lobos e o menino aprendeu com eles tudo o que não sabia.”

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Pode pensar-se que é um livro cruel, mas não mais do que qualquer situação de bullying vivida por animais ou pessoas. E é para isso que os autores querem alertar. Conseguem-no. Com uma linguagem original e uma imagem singular, Lobo Bullying é uma excelente reflexão para a data que hoje se assinala. O Dia da Liberdade.

Lobo Bullying
Texto: Eugénio Roda
Ilustração: Gémeo Luís
Edição: Editora Eterogémeas
96 págs., 14€ (12,6€ se comprado aqui)

(Texto divulgado na edição do Público de 25 de Abril de 2020. Também pode ser lido no Guia do Lazer , onde encontra outras sugestões culturais para os miúdos, em tempos de quarentena.)

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A página completa saiu assim (muito bonita…), com a ajuda de Sandra Silva (designer gráfica), Susana Palmeirim e Valter Oliveira (tratamento de imagens).

Não deixem de conhecer a história desta dupla de autores (muito talentosos e trabalhadores), Gémeo Luís e Emílio Remelhe, que se conheceram em 1985 nas Belas-Artes do Porto. Tinham 20 anos e nunca mais se largaram. Ainda bem.

Os dias passados à janela

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“O que fazem as pessoas nos tempos livres?”, começa por perguntar uma menina que, ficamos a saber pouco depois, passa os dias à janela. Chama-se Graça e descreve assim as actividades dos seus pais: “A minha mãe passeia os cães dos velhinhos do bairro e o meu pai joga às cartas de fato de treino.”

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E que faz ela? “Eu faço observação de pessoas.” Esta afirmação encima um plano, expressivo e esclarecedor, em que se vê a menina de costas, cotovelos no parapeito e cabeça apoiada na mão. Em frente, a vida na rua e nas casas, com muitas silhuetas a revelar o que se passa para lá das janelas transparentes.

(Onde é que eu já vi isto?, pensará o leitor mais crescido. Foi no filme Janela Indiscreta, do inigualável Alfred Hitchcock.)

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Graça, que está numa quarentena forçada, mas… individual, fala-nos tranquilamente dos habitantes que já conhece e das suas profissões: uma hospedeira vaidosa (Miss Apertem os Cintos), “um músico mais ou menos famoso” (Roberto Raposa), um casal de advogados que tem “dois gémeos idênticos que choram em estéreo”, a Dona Camomila, que bebe chá, “dois jornalistas, um das palavras e outro dos retratos”.

Mas o que inquieta a menina é o vizinho novo. “No 1.º Direito mora um mistério. Deixei-o para o fim porque acabou de se mudar. Há uma semana que observo naquela janela um homem de ar sério, que passa os dias a olhar para o infinito.”

A sua imaginação fará com que acredite que planeia um assalto. Por isso muito se assustou quando viu a própria mãe dentro da casa do vizinho. Pouco antes, tinha concluído que o homem tinha uma arma.

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Um livro inclusivo (sem fazer disso bandeira), com mistério e humor, num cenário de cores quentes e ilustrações expressivas, a convidar à exploração dos pormenores que cada janela deixa vislumbrar.

Apoiado pela Sociedade Portuguesa de Autores, a coincidência de o lançamento ter sido numa altura em que as famílias estão circunscritas ao espaço doméstico faz com que Ricardo Henriques se sinta “um bocadinho um Nostradamus dos tempos modernos”, disse ao P3. E acrescentou: “O livro pode ser mais uma achega para que as pessoas olhem para os vizinhos e tenham curiosidade; não tanto para bisbilhotar, mas ao menos para falarem, imaginarem, cantarem, por aí fora.” Seja.

1.º Direito
Texto: Ricardo Henriques
Ilustração: Nicolau
Edição: Pato Lógico
64 págs., 14,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 18 de Abril, na página Crianças.)

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A página completa, desenhada por Sandra Silva, saiu como podem ver aqui. Com a ajuda de Valter Oliveira e Susana Palmeirim (tratamento de imagens). Obrigada a todos.

Apesar de, ultimamente, não divulgarmos actividades para a família na edição em papel, elas continuam a rolar… na Guia do Lazer. Vão até lá.

É tão bom quando as peças se encaixam

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Era uma vez um menino que sentia o coração maior do que o resto do corpo. À noite, quando se deitava, sentia-o a aumentar, a aumentar… como se quisesse fugir do lugar e, quem sabe, voar!”

É assim que Edna Ladeira nos apresenta o protagonista de Coração-Balão. O ilustrador, Helder Teixeira Peleja, começa por nos mostrar um rapaz a ver-se ao espelho. O seu reflexo é um enorme coração, vermelho-vivo, que extravasa os limites da moldura. “O coração do menino vestia-o, dos pés à cabeça! Era algo que ele não conseguia explicar!” Ficamos depois a saber que um amigo de verdade era o que lhe estava a faltar.

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Um livro sobre a importância da amizade e a lembrar a necessidade de nos fazermos acompanhar por quem connosco se sintoniza.

Escrita com sensibilidade e clareza, a história ganha energia com a criatividade das imagens que a acompanham. Gostamos do colorido e do dinamismo das ilustrações. Aplauso para o balão de ar quente e para as cabeças em forma de peças de puzzle.

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A autora, Edna Ladeira, é licenciada em Comunicação Social, “mas foi nos cursos de escrita criativa que encontrou o seu verdadeiro entusiasmo”. Em 2019, oficializou a marca Lá Vem Ela com Histórias!, em nome da qual cria conteúdos para revistas, websites, guias e livros.

Diz ver “na educação uma porta para um mundo melhor”, considerando que “as histórias e as memórias são uma forma bonita e eficaz de lá chegar”.

O ilustrador, Helder Teixeira Peleja, “é um apaixonado pela arte de ‘rabiscar’ desde que tem memória” e tem vindo a frequentar vários workshops de ilustração e design. “Com participação em dezenas de obras editadas como ilustrador freelancer”, o seu trabalho destaca-se no cartoon. Sonho: “Ocupar os dias a desenhar.

O menino com o coração gigante há-de encontrar uma grande amiga. E as peças vão conseguir encaixar-se. É tão bom quando isso acontece.

Coração-Balão
Texto: Edna Ladeira
Ilustração: Helder Teixeira Peleja
Revisão: Pedro Rodrigues
Paginação: Marina Soares
Edição: De autor
16 págs., 10€ (lavemelacomhistorias@gmail.com), 12,50€ (livrarias)

(Texto divulgado na edição do Público de dia 11 de Abril de 2020)

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A página completa, com este grande coração-balão, foi desenhada por Ana Cristina Fidalgo, com a ajuda de Valter Oliveira e Paulo Lopes (responsáveis pelo tratamento de imagens). Obrigada a todos. Páscoa feliz (no género… quarentena).

Não deixem de visitar o Guia do Lazer, com actividades para toda a família (por agora, dentro de casa).

A coragem de dar um grito à beira-mar

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O protagonista desta história é um cavalo, mas podia ser um humano. Big Bang teve uma súbita vontade de ir até à beira-mar (quantos de nós não terão esse desejo?), depois de acordar “com um desassossego qualquer: ‘Será que me esqueci de alguma coisa importante? Se me esqueci, esqueci-me de que me esqueci…’”

O cavalo pôs-se a caminho. Antes, “cumprimentou o passarinho-seu-vizinho que morava no ramo mais perto da janela. (Um amor de passarinho. Uma gentileza de vizinho”.) O passarinho desejou-lhe “um dia bom”. O nosso protagonista lá foi.

No percurso até à praia, bem ao jeito dos histórias tradicionais, será interpelado por outros seres, não identificados na narrativa, mas sugeridos pela ilustração. Dizem-lhe coisas como: “Hei, Big Bang! Não devias estar a trabalhar como toda a gente?”; “Hei, Big Bang, isso é barriga que se apresente?”

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O cavalo fugiu para a ponta mais distante, mais deserta da praia e “rugiu”. É certo que os cavalos não rugem. “Mas nessa manhã Big Bang rugiu. Um rugido capaz de fazer recuar a água do mar.”

Ainda que em nenhum momento se revele qual “a coisa intrigante que o perseguia…”, intui-se que o livro quer lembrar a necessidade de tempo e espaço para pensar, acalmar sobressaltos, aclarar ideias e propósitos, assumir escolhas. Ou simplesmente desfrutar da liberdade de caminhar e respirar sem ninguém por perto.

Felizmente que aqui a autora não está sozinha. Fez-se acompanhar pelo talento de Bernardo P. Carvalho, que nos prende ao livro através de paisagens com as cores do arco-íris, em que se vislumbram animais à espreita. Essas páginas alternam com outras em que o fundo branco apenas acolhe a figura negra do Big Bang. Embora não reproduzida aqui, a nossa imagem de eleição é a que ilustra o rugido. (Não deixem de a procurar.) Um grito imenso e colorido que muitos não terão coragem para dar.

Estar sozinho por alguns momentos é ainda mais precioso quando se tem companhia mais adiante. Seja a de um familiar, amigo ou namorado. Por isso, Big Bang só sossegou e “conseguiu encontrar a ideia” quando, no regresso, bebeu um chá com o passarinho-seu-vizinho. “Em silêncio. Eles os dois e o sol.

Hei, Big Bang! (Ninguém disse que era fácil)
Texto: Isabel Minhós Martins
Ilustração: Bernardo P. Carvalho
Revisão: Carlos Grifo Babo
Edição: Planeta Tangerina
48 págs., 13,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 4 de Abril de 2020)

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A página Crianças impressa saiu assim. Mais uma vez, com a ajuda de Sandra Silva (paginação), de Valter Oliveira e de Paulo Lopes (tratamento de imagens). O Guia do Lazer divulgou o livro no site.
Letra pequena tem sorte por poder contar com esta malta… :)

Afinal, andámos a correr para onde?

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Numa altura em que grande parte de nós se encontra circunscrita ao espaço doméstico, talvez seja boa altura para reflectir sobre a pressa que norteava os nossos dias antes de sermos obrigados a parar.

“Todas as manhãs, mal o Artur engole uma colherada dos seus cereais com chocolate, o papá diz-lhe: — Vá! Está na hora! Rápido! Rápido! Vamos chegar atrasados! E, todas as manhãs, por mais que o Artur não queira largar a tigela de cereais, a mamã agarra-lhe na mão, no casaco, na mochila e na lancheira, abre a porta e… zás!, lá vai ela escadas abaixo, com tudo atrás! E o estômago do Artur faz glub, glub, glub, o caminho inteiro até à escola.”

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E isto é só o início do dia do rapaz, já que, no recreio, pedem-lhe que seja rápido a descer o escorrega; na aula, dizem-lhe que se despache com os exercícios de Matemática; na cantina, ainda a meio da refeição, “a auxiliar exclama: — Muito bem! Muito bem! Podem ir!

Para terminar a jornada: “Mal o Artur põe um pé fora da escola, o papá diz: — Rápido, rápido! Despacha-te! Tenho o carro mal estacionado! E agarra-lhe no braço, na mochila e na lancheira vazia e zás!, enfia tudo no banco de trás!

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É cansativo, não é? A correria é de tal ordem que um dia os pais deixam o Artur para trás (a fazer lembrar o início do famoso filme Sozinho em Casa), ficando o rapaz a tomar o pequeno-almoço sozinho. Foi o melhor que lhe aconteceu.

Uma história que reproduz o quotidiano de muitas famílias, caricaturando-o, num convite a que se repense o ritmo de vida a que nos deixámos sujeitar. Por isso, uma leitura em conjunto poderá ajudar a criar novos hábitos e atenções entre todos.

A autora, Nadine Brun-Cosme, é francesa e tem livros publicados há mais de 20 anos. A ilustradora, Aurélie Guillerey, trabalha para várias editoras, para a imprensa e faz cartazes para teatro. “O seu trabalho é profundamente influenciado por designers gráficos e ilustradores das décadas de 1950 e 1960”, informa a editora.

Quanto ao pequeno Artur, conseguiu, pelo menos por uma vez, viver uma manhã ao seu próprio ritmo, sem deixar, no entanto, de ir para a escola. “Tudo está tranquilo, parece um dia de férias.” Por isso, “o Artur caminha devagarinho, tão devagarinho que poderia contar os seus passos”.

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E tem tempo para se imaginar a chegar junto dos amigos na proa de um navio, inspirado pela forma de uma nuvem que vislumbrou no caminho. “O Artur sente nas bochechas aquele ventinho que só se sente quando se anda muito devagar. ‘Que delícia’, pensou ele.”

Depois deste período de quarentena a que estamos sujeitos, talvez o Artur e outras crianças consigam que as suas famílias abrandem. Afinal, têm andado a correr para onde?

Artur e as Pessoas Muito Apressadas
Texto: Nadine Brun-Cosme
Tradução: Susana Cardoso Ferreira
Ilustração: Aurélie Guillerey
Revisão: Raquel Dutra Lopes
Edição: Fábula
32 págs., 12,99€

Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 28 de Março de 2020.

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Na edição em papel, saiu assim, com paginação de Ana Cristina Fidalgo e tratamento de imagem de Paulo Lopes e Valter Oliveira.

Os fardos que Adjoa transportou à cabeça

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Adjoa viveu a infância a escutar uma e outra vez o imperativo: “Endireita-te!” Pela voz da mãe, da avó, das tias. Logo no arranque do livro ficamos a saber porquê. “Aqui, em Djougou [Benim], para que uma menininha cresça, põem-lhe coisas na cabeça. Coisas que ela não pode deixar cair e que tem de erguer para o céu. Quanto mais ela cresce, mais pesadas são.”

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A protagonista enumera muito de quanto transportou, “sempre de dentes cerrados e cabeça erguida”, de alimentos a ferramentas, de sabões a chinelos, de esperanças a desilusões. E água, muita água. “… porque dantes não havia ao pé de casa. Água para beber, água para lavar coisas, água para cozinhar. Tanta água que dava para fazer um oceano. Agora, sorte a minha, a água corre das torneiras. O meu filho mais velho instalou-as cá em casa.”

Adjoa conta-nos como as meninas da aldeia brincavam ao Quanto-Levas, com a balança da vizinha Fifamé. Tentavam adivinhar o peso do que traziam à cabeça. Quem perdia tinha de ir buscar a água, quem ganhava tinha direito a um penteado novo. “Tornei-me imbatível. Falhava só por dez gramas. E andava sempre bem penteada.”

Rémi Courgeon, escritor e ilustrador francês, retrata com sensibilidade um quotidiano duro, sem deixar de vislumbrar alegria e esperança na vida destas crianças que desde cedo asseguram a sua sobrevivência e a das suas famílias. As cores, as figuras, os padrões e outros elementos reportam-nos com vivacidade para África.

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O talento da protagonista em aquilatar os fardos valeu-lhe — já “mulher-girafa (…) de tanto olhar o céu” — a descoberta de uma arma entre as tábuas que um homem lhe disse para transportar, “tinha cara de javali, mas não pagava mal”. Adjoa haveria de transformar o revólver num martelo (com a ajuda de um escultor, que a encheu de chumbo líquido) e de se enamorar pelo destinatário da arma. “Agora, partilhamos a nossa Há quase trinta anos. Sobre a grande asneira que ele teria feito, guardamos silêncio. Deve permanecer em segredo.”

Edu, o filho mais velho de ambos, conta-nos já no final: “Edu, endireita-te! Quantas vezes na vida ouvi eu esta frase, esta canção? Quantas vezes a minha mãe ma cantou? Ela tem torneiras em casa, tratei eu disso. Água na cabeça já não é com ela. Só nos dias de chuva, claro.”

Difícil terminar de ler o livro sem ter água nos olhos.

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Texto e ilustração: Rémi Courgeon
Tradução: Maria Afonso
Revisão: João Berhan
Edição: Orfeu Negro
32 págs., 14,50€

Texto divulgado na edição do Público de 21 de Março, na página Crianças (que, devido à covid-19, tem vindo a ser publicada sem a Agenda do Guia do Lazer, para actividades fora de casa)

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Aqui fica a página completa, desenhada com a ajuda de Ana Cristina Fidalgo (designer gráfica), Valter Oliveira e Paulo Lopes (tratamento de imagens)

Para conhecerem melhor o escritor e ilustrador Rémi Courgeon, venham direitinhos (e endireitados…) por aqui.

O mundo não cabe numa folha de papel?

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O mundo é demasiado grande, “não cabe nesta folha”, deu-se conta uma menina persistente. Ainda assim, tentou desenhá-lo. Começou como sempre se começa um desenho, com um risco. E o risco fez-se traço maior e iniciou caminho, ganhou asas e percorreu mundo. Sempre com a menina a segurá-lo, mas sem o prender, condicionar ou limitar. Apenas garantindo que o risco inicial voltaria para a sua mão quando assim o desejasse.

O traço sobrevoou terras e mares”, descreve a menina que (ainda) não conhecia a palavra “desistir”. Mais adiante, “descobriu que a água é sempre a mesma. Quando está cansada de correr, dorme nas nuvens, quando quer brincar, salta para os rios”. Uma das suas descobertas (que muito apreciamos) foi: “Aprendeu que os pássaros presos não cantam, choram.” O pequeno traço inicial percebeu também que, “se olharmos para onde mais ninguém olha, saberemos o que mais ninguém sabe”.

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Um livro que valoriza o conhecimento, as artes, a liberdade e a união. O traço “passou por um país onde havia uma palavra mágica para tudo e que tudo fazia acontecer: ‘Nós.’”.

Adélia Carvalho fundou a livraria Papa-Livros, a editora Tcharan (Porto) e assina vários livros para a infância. Tem um registo simples, claro e terno. O tom bem-humorado também a caracteriza, embora aqui não transpareça, dada a natureza da narrativa.

Sérgio Condeço, que muito enriquece e amplia o texto, começou por ser designer e trouxe essa aprendizagem para o domínio da ilustração, a que se dedica desde 2015, tendo sido colaborador da revista Notícias Magazine.

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Gostamos das cores, da composição da página, das metáforas visuais e da simpatia dos rostos. Rendemo-nos aos traços (caóticos?) das guardas dos livros e ao pequeno lápis que provocou essa feliz invasão vermelha do espaço.

Na história, a menina há-de puxar o fio que segurava o risco inicial e tímido e dar-se-á conta de que “tinha desenhado o mundo”. O nosso.

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A Menina Que Queria Desenhar o Mundo
Texto: Adélia Carvalho
Ilustração: Sérgio Condeço
Edição Nuvem de Letras
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 14 de Março.

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A edição em papel ficou assim, muito linda! Com a ajuda de Sandra Silva (paginação) e Valter Oliveira (digitalização e tratamento de imagens).

Aqui para o blogue, surripiámos… imagens do perfil de Facebook do ilustrador Sérgio Condeço. Outros trabalhos do também designer podem ser vistos aqui.

Para conhecerem melhor a autora, editora e livreira Adélia Carvalho, sigam-nos.

A minha casa és tu

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Um livro-acordeão ou livro-harmónio, “que aberto pode ser uma rua, fechado pode ser uma casa”. Descrição que os autores nos fizeram chegar a dar conta de um dos livros que o casal de ilustradores editou depois de criar, em 2019, A Casa Nic e Inês Edições.

A minha casa é a tua casa”, começa por ler-se, enquanto se vê uma menina com um livro aberto, bochechas vermelhas e ar tranquilo. Hão-de seguir-se várias formas de olhar e sentir a casa. Uma reflexão sobre o que é, afinal, o lar de cada um de nós. “A minha casa és tu”, diz-se poeticamente no final, em que se vê um abraço doce e quente.

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No avesso do harmónio, feito de forma artesanal, surgem imagens a preto e branco com diferentes tipos de casas, numa montagem em que fotos convivem com desenhos. Ali se afirma que “há uma casa dentro de cada um de nós” e que nem todas as nossas casas têm a mesma duração. Haverá as que nos acolhem apenas por “uma noite”, por “uma hora” ou apenas por “um minuto”. Suspeita-se de que os lugares retratados se inscrevam na biografia de Nic (Nicholas Carvalho) e Inês (Inês Almeida).

Ex-professores, formados na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, têm como interesse e prática de eleição o Livro de Artista. Por isso, abrem com frequência e regularidade a porta da casa… de ambos (em Lisboa) e ali dinamizam oficinas, cursos, conversas (a que chamam Parlapiê).

Nesta altura, estão a decorrer os cursos de Livro Ilustrado, de Materiais e Técnicas de Ilustração e de Cerâmica Ilustrada. Um outro livro-objecto, desdobrável e silencioso, junta-se a esta primeira experiência como editores. Chama-se Girassol e (também) é lindo.

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Texto, ilustração e design: Nic e Inês
Edição: Casa Nic e Inês Edições
Livro-acordeão, 6€

(Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de  7 de Março, com as habituais sugestões do Guia do Lazer.)

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A página completa divulgada ficou assim, muito linda (graças a Sandra Silva).

Em Casa encontra-se à venda nas livrarias Gatafunho (Oeiras), Baobá (Campo de Ourique, Lisboa), Tigre de Papel (Arroios, Lisboa), It’s a Book (Anjos, Lisboa) Faz de Conto (Coimbra) e Salta-Folhinhas (Porto).

A Faz de Conto Livraria, de Coimbra, mostra aqui muito bem o livro.

As imagens usadas por Letra pequena (excepto a da página do Público) foram cedidas por Nic e Inês. O link do vídeo foi-nos facultado por Sofia, a simpática livreira de Coimbra. Obrigada a todos e parabéns.

Guia para interpretar frases dos adultos

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Além do extenso título do livro, ainda se acrescenta a informação de que se trata de Um pequeno guia para a sua interpretação. E é disso mesmo que se trata.

O que o autor propõe é que se ajude os mais novos a decifrar frases repetidamente proferidas pelos adultos, como “talvez, vamos ver” ou “não se pode ter tudo”. É certo que as crianças só à primeira é que caem, pois compreendem bem e depressa quando os adultos se esquivam a responder ou a decidir, quando têm má consciência e quando transferem a “tarefa” para outro adulto.

Também se apercebem com esperteza quando, à falta de argumentos, os adultos os projectam num futuro longínquo: “Tu vais ver quando tiveres a minha idade.” Esta expressão é assim descodificada: “Os pais usam-na para terminar, em qualquer altura, todas as conversas sobre qualquer assunto que não estejam a correr bem para o seu lado.” E pode ser dita em resposta a: “Porque é que não posso fazer uma tatuagem? Tu és má.” Variação: “Tu vais ver quando tiveres filhos.”

Mais um livro bem-humorado de um autor muito original e bastante premiado, que explora com alegria o universo infantil, aliado a um conhecimento verdadeiro e descomplexado dos relacionamentos familiares. Suíço, a viver em Itália, Davide Cali faz-se aqui acompanhar por Noemi Vola, italiana de Bra, que estudou na Academia de Belas-Artes de Bolonha.

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As cores, as mudanças de escala, a profusão de elementos, o dinamismo e a expressão divertida das personagens tornam o livro agradável a um primeiro olhar, mas reclamam uma observação mais atenta e demorada. Só assim o leitor/observador poderá encontrar pormenores e pequenos elementos que o ajudarão a fruir melhor as imagens.

A frase escolhida para o título, “pergunta ao teu pai”, resulta de dois tipos de episódios: um pedido para fazer qualquer coisa ou uma pergunta embaraçosa (“como é que se fazem os bebés?”). Equivalência: “Pergunta à tua mãe.” Os miúdos também ficam a saber que, quando lhes dizem, “come isso que tem muitas vitaminas”, a tradução directa é: “Sabe mal.

O conselho mais bem-disposto e honesto do livro é: “Assim que ouvirem ‘Quando eu tinha a tua idade…’, fujam.” Muito divertido.

Pergunta ao Teu Pai…  e Outras Frases Misteriosas dos Adultos
Texto: Davide Cali
Ilustração: Noemi Vola
Revisão: Helder Guégués
Edição: Bruaá
34 págs., 14,50€

Texto divulgado na edição do Público de 29 de Fevereiro de 2020, na página Crianças.

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Na versão em papel, saiu assim, com as habituais sugestões de actividades culturais do Guia do Lazer. Quem paginou foi Sandra Silva.

Para conhecer outros livros de Davide Cali editados em Portugal, venha por aqui. Se quiser espreitar os trabalhos de Noemi Vola, este é o caminho.

O olhar implacável de Napoleão Pirueta

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O filho de Emília e Augusto Pirueta nasceu com “quatro quilos e duzentos gramas, cinquenta centímetros e cara de poucos amigos”. Muito trabalho e arrelias haveria de dar aos pais, à irmã, Júlia, e ao mundo.

Dotado de um olhar crítico implacável, “o morador mais novo da casa amarela, mesmo ao lado da farmácia, cresceu com olhos de lupa, binóculo, telescópio e até raios-X. Nada lhe escapava: via nas linhas e nas entrelinhas, via por dentro e por fora, via muito, mas acima de tudo via defeitos. E era esse o maior defeito dos seus olhos”.

Depois de anotar, ao longo de um ano, “1557 censuras referentes à família, 2820 reprovações sobre tudo o que o rodeava, mas apenas três chamadas de atenção acerca de si próprio”, a irmã “desentupiu de vez” e gritou-lhe: “– Hoje ficas aqui a olhar para os teus olhos.” E o rapaz descobriu que era cego em relação a si próprio.

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Um livro sobre diferenças, autoconhecimento, conflitos e os desafios de viver em comunidade. Escrito com humor e imaginação e ilustrado com criatividade e boa disposição, Napoleão Benjamim Pirueta encerra com uma clara intenção (actual e oportuna) ecológica.

Sobre Isabel Zambujal, divulga a editora: “Em 2001, decidiu juntar três das coisas de que mais gosta – viagens, crianças e escrever – e lança a colecção Um Saltinho a…, livros que a transportam definitivamente para o mundo da literatura infanto-juvenil. (…) Tem vários títulos com o selo PNL e colecções publicadas em Espanha, Bélgica, Colômbia e Brasil.”

Sobre Rachel Caiano, divulga-se: “Artista plástica e ilustradora, com formação em artes de palco, tem vindo a desenvolver projectos nas áreas de edição de objectos de autor, pintura, cenografia e ilustração.”

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O protagonista do livro que aqui se traz acabará por usar o dom de tudo ver e escrutinar para ajudar o mundo a tornar-se “Verde-Que-Te-Quero-Verde, como o bairro que o vira nasce”. E a irmã não voltará a contabilizar e anotar censuras e reprovações.

Napoleão Benjamim Pirueta (o menino-lupa)
Texto: Isabel Zambujal
Ilustração: Rachel Caiano
Edição: Oficina do Livro
40 págs., 10,90€

(Texto divulgado na edição do Público de dia 22 de Fevereiro, na página Crianças.)

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A página completa saiu assim, com sugestões do Guia do Lazer.

Descubra outros livros de Isabel Zambujal que já passaram por aqui. E também de Rachel Caiano.

Quando o coração se fecha

CapaCoração

Numa altura em que o calendário obriga… a falar de amor (nesta sexta-feira, 14 de Fevereiro, assinalou-se o Dia dos Namorados/Dia de S. Valentim), divulgamos a obra mais recente de uma autora que já passou por estas páginas com os títulos O Livro dos Erros e O André Semeão Não Tem Um Cavalo (Editora 20|20/Fábula).

Em O Meu Coração, Corinna Luyken lembra de forma poética e com muita delicadeza que o coração de cada de um nós não está sempre igual. Ora aconchegado e feliz, ora sombrio e triste. Chega até a partir-se. “(…) mas o que se parte tem remendo. E um coração fechado abre-se a qualquer momento”.

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Um livro luminoso e esperançoso, mesmo na tristeza. Gostamos do recurso ao amarelo (cor quase sempre mal-amada), tal como já acontecera no Livro dos Erros, que valeu à autora, americana, o Prémio Opera Prima na Feira do Livro Infantil de Bolonha.

O meu coração é uma janela,/ é um escorrega para eu deslizar. // Tanto pode estar fechado/ como aberto de par em par”, diz-nos nas primeiras páginas com texto. Mas antes, logo nas guardas, vê-se alguém a plantar um coração na terra. Há-de ser regado mais adiante com a ajuda de outro alguém. Virá a crescer, como uma flor a que o jardineiro cuidadoso dedica o seu tempo e ternura.

Sobre este livro escreveu-se (Brainpickings): “Um guia de inteligência emocional sob a forma de um poema ilustrado, invulgarmente ternurento, acerca da nossa capacidade de amar.” Uma apreciação certeira.

O meu coração é uma sombra/ e uma luz que trago comigo./ Aberto ou fechado…/ sou eu que decido.” É isso mesmo.

O Meu Coração
Texto e ilustração: Corinna Luyken
Tradução: Susana Cardoso Ferreira
Revisão: Catarina Magalhães
Edição: Fábula
40 págs., 12,99€

Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 15 de Fevereiro.

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Aqui fica a página completa, com as habituais sugestões de actividades culturais para toda a família do Guia do Lazer.

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Outras páginas com a divulgação dos livros da autora já publicados em Portugal.

O mar… sempre

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Numa altura em que não se pode falar em mar sem pensar em plástico e refugiados, João Pedro Mésseder devolve-nos o prazer de desfrutar dessa imensidão de água salgada, inspiradora, rica, misteriosa e retemperadora. Com emoção e saber.

“Apesar de no livro haver um pequeno poema que fala ‘da tragédia dos refugiados e dos migrantes, que tentam atravessar o Mediterrâneo e que morrem’, a grande maioria dos poemas apresenta, acima de tudo, ‘uma relação solar como mar’”, escreveu a Lusa, depois de uma conversa com o autor em Outubro de 2019, antes ainda da publicação do livro.

O poema que dá título à obra chama-se Quantas letras o mar tem? “— Quantas letras o mar tem quando escreves? — Em Português conto três,/ três ou quatro em Alemão,/ em Inglês conto três/ como três em Espanhol/ e também três em Francês…/ — Muito diz em poucas letras. / — Tão poucas para tanto mar.

Ana Biscaia acompanha mais uma vez o poeta, num “ensaio visual” guiado pelas suas palavras, mas não condicionado ao que é dito. Também a ilustradora, expressando-se com talento, leva o leitor a sentir o sabor e o ondular da água fresca. E este só pensa em brincar na água.

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O mar, o meu mar/ todo o mar do mundo ao meu encontro/ mar meu, centro./ Mergulho no mar. Entro?/ Ou entra em mim o mar?”, escreve-se no poema Mar.

O livro vai ser distribuído a todos os alunos do 2.º ciclo da Figueira da Foz, com o apoio da Câmara Municipal, da Associação Comercial e Industrial da Figueira da Foz, da Administração do Porto da Figueira, da Operfoz e de outras empresas do concelho. Um bom exemplo de iniciativas que promovem a leitura e apoiam editoras independentes com obras de boa qualidade literária e gráfica.

Também a Lua tem lugar num livro envolvente e com trechos a pedir para serem cantados. Apetecia escutá-los numa melodia alegre. Lua de sal: “Lua de sal que vigias/ do céu o meu caminhar,/ essa brancura que é tua/ ao mar a foste buscar?”

À agência Lusa, o autor disse que, nos poemas, “está a memória dessas escritas ondulantes [de Sophia de Mello Breyner e Afonso Lopes Vieira] que fazem do mar um espaço de viagem e de aventura, de partidas e de chegadas e de ligação entre os povos”.

Um livro para leitores de qualquer idade, desde que consigam imaginar as conchas de vieira como “leques com que as sereias/ se abanam/ nas tardes de calor”.

Venha daí e mergulhe connosco em Poucas Letras, Tanto Mar.

Poucas Letras, Tanto Mar
Texto: João Pedro Mésseder
Ilustração: Ana Biscaia
Edição: Xerefé
84 págs., 10€

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A página Crianças completa foi divulgada assim na edição do Público de 8 de Fevereiro. Com sugestões de actividades do Guia do Lazer. (Paginação de Ana Fidalgo.)

Competir ou colaborar?

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Histórias de cães e gatos é o que não falta por aí. Ora amigos, ora inimigos, ora as duas coisas em momentos diferentes. Mas o que será que acontece quando um pinguim aparece entre ambos? Aliam-se? Competem?

Malhado é o gato, Patudo é o cão. Ambos escutaram um grande estrondo durante a noite, “alguma coisa tinha caído ali, mesmo no meio do jardim da D. Alzira. Apesar de não conseguir ver tão bem no breu da noite, sentia na ponta dos seus bigodesque ali havia gato”.

O cão farejou logo um odor que não tinha nada que ver “com as coisas que já tinha cheirado”. Mas o que o aborrecia era imaginar que o Malhado iria desvendar o enigma antes dele. “Isso sim, arreliava-o, maçava-o, deixava-o furioso, até um pouco fora de si.”

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Embora quase tudo se passe no quintal da D. Alzira — que adorava jardinagem, “gabava-se a todas as suas amigas da beleza das suas begónias, petúnias, estrelícias…” —, o leitor também ficará a conhecer a D. Celeste e a D. Perpétua. Nomes curiosos e antigos…

O Gato Malhado é um livro sobre conflitos, mas também sobre cooperação e entendimento, mesmo nas diferenças. Um dos títulos mais conhecidos de Clara Cunha, O Cuquedo (ilustrado por Paulo Galindro), já vendeu 40 mil exemplares.

Teresa Cortez confere, eficazmente, uma aura de mistério, mas algumas ilustrações não resultam lá muito bem, seja pela escala ou pela profusão de elementos. Em 2011, a ilustradora foi seleccionada para a Exposição da Feira do Livro de Bolonha e, também nesse ano, recebeu o prémio Melhor Curtíssima Portuguesa no Festival de Animação de Lisboa — Monstra.

O Gato Malhado
Texto: Clara Cunha
Ilustração: Teresa Cortez
Edição: Livros Horizonte
48 págs., 13,90€

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A página completa saiu assim (paginada por Sandra Silva), com destaque de Agenda para o Dia Mundial da Leitura em Voz Alta. Para saberem mais, venham por aqui. Vão gostar.

É bom ter macaquinhos no sótão

CapaMacaquinhos25-01-2020

É com ansiedade que Miguel se prepara para ir passar as férias de Verão na casa do avô Jacinto. Tudo por causa dos “macaquinhos no sótão”. O rapaz revela assim o seu estado: “Se por um lado estava entusiasmado com a perspectiva da total ausência de regras, ansiando pelas tardes de brincadeira no jardim e a televisão por minha conta, o mau feitio do avô e os macacos preocupavam-me um bocadinho. Aliás, por várias vezes me tiraram o sono, saltando, aos gritos estridentes, do escuro do sótão.”

Este receio há-de desvanecer-se após o convívio mais estreito com o avô escritor. Cenário preferencial da cumplicidade entre ambos: a biblioteca. Matéria-prima favorita para exploração: palavras.

Um livro terno que homenageia de forma poética alguém que soube transmitir a uma criança o gosto pela leitura e sempre lhe alimentou a imaginação.  “Ele nunca jogou à bola comigo, nunca me levou ao parque para andar de baloiço ou de escorrega, nunca me pôs sequer às cavalitas, mas na sua casa as palavras sempre ganharam vida. Com ele dei a volta ao mundo, andei pela selva em lianas, naveguei os sete mares. (…) Com ele aprendi a força das palavras e que é nelas que a liberdade começa.”

Sebastião Peixoto embarca na narrativa também com criatividade, desenhando com humor e imprimindo movimento e alegria às personagens. Muito simpático o bicho-de-sete-cabeças. No final, um glossário de expressões idiomáticas ajuda o leitor a entender melhor as dúvidas do protagonista perante as conversas dos adultos.

Sofia Fraga brinca, de modo feliz e competente, com expressões como “rato de biblioteca”, “estar com a pulga atrás da orelha” ou “ter a barriga a dar horas”. Um livro que se lê e vê com prazer — “em três tempos”.

O Avô Jacinto e os Macaquinhos no Sótão
Texto: Sofia Fraga
Ilustração: Sebastião Peixoto
Edição: Minotauro
32 págs., 11,90€

(Aqui para nós… O avô deste livro é inspirado em Urbano Tavares Rodrigues.)

PáginaCriançasMacaquinhos25Janeiro2020

A página completa foi divulgada, assim, na edição do Público de 25 de Janeiro, com as habituais sugestões do Guia do Lazer. (Mais uma linda página Crianças. Quem paginou foi Sandra Silva.)