As rimas indomáveis de David Machado

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Não se espere deste livro métricas perfeitas nem criaturas exemplares. Antes, irreverência, sensibilidade e humor.

Crianças que não querem tomar banho, adultos limpinhos (mas chatos e zangados), dragões cinzentos e bebés comilões são algumas das personagens que David Machado criou nestas “rimas desgovernadas para crianças animadas”.

Não há lições de moral, sugere-se mais do que se declara e aqui e ali vão aparecendo pistas sobre comportamentos pouco recomendáveis. Das crianças e dos outros. Exemplo de História de um rapaz mau, que “partia vidros cuspia no chão/ Espalhava lixo pela rua e gritava com o cão” (entre outras maldades). Quem conta a história conseguiu fugir dele: “Eu corri mais depressa/ E entrei numa caverna,/ Ele tropeçou, caiu/ Partiu uma perna.”

Ficou aflito o rapaz mau: “Chorou, pediu-me ajuda,/ Que fosse chamar alguém.// E eu disse: ‘Claro, volto já.’/ Mas depois não voltei.”

Conclusão: “Se há algo de errado aqui/ É o título, pois/ O rapaz mau desta história/ Não é um: são dois.”

Mergulho

Um livro bem-disposto, com diferentes universos e ritmos de leitura. Pode ler-se de seguida ou ir-se escolhendo poemas “avulso”. O facto de existirem dois índices, um geral (pela ordem das páginas) e outro alfabético (pelo título dos poemas) facilita a escolha de textos e temas mais sugestivos para as crianças que conhecemos e de que cuidamos.

Outro processo para as levar a mergulhar no livro poderá ser o de ir mostrando as imagens de Ricardo Ladeira e observar onde elas se detêm. A propósito, O mergulho: “Saltei na prancha,/ Voei bem alto,/ Mergulhei na piscina,/ Dei tudo o que tenho.// Quero sair/ E mergulhar outra vez/ Mas perdi os calções de banho.”

O poema mais difícil de ilustrar

 

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Para o ilustrador, “a rima mais difícil de ilustrar” terá sido a que dá o nome ao livro, O meu cavalo indomável, “possivelmente a mais importante”, disse ao PÚBLICO via email. E explica porquê: “Eu e o David temos interpretações diferentes daquele poema. Ao ler o poema, imagino que o cavalo está a levar uma criança numa viagem pela sua imaginação (e é o mundo imaginário dessa criança) e inicialmente fiz uma personagem sentada no cavalo com vestes de um herói/cavaleiro. Enquanto a ideia do David é a de um cavalo sem rédeas, dono de si.”

Excerto do poema: “Eu e o meu cavalo indomável/ Já fomos a todo o lado.// Ao Polo Norte e ao Vale da Morte,/ Estivemos no Oriente encantado.// Atravessámos desertos de areia escaldante,/ Percorremos estradas sem fim,/ Subimos todas as montanhas mais altas,/ Ouvimos falar mandarim. (…) // E um dia, prometo, estarei contigo,/ Mas ainda não sei dizer quando,/ Pois o meu cavalo só vai aonde quer/ E nunca faz o que eu mando.”

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Ricardo Ladeira, que nasceu no Porto e é licenciado em Arte e Design pela Escola Superior de Educação de Coimbra, prossegue a explicação: “Demorámos a chegar a um consenso, mas encontrámos um equilíbrio entre o que cada um de nós sentia, mantive a posição do cavalo, a capa e retirei a criança e as rédeas, depois acabei por colocar a personagem do cavaleiro na contracapa do livro.”

Eu e o meu cavalo indomável/ Já fomos a todo o lado.// Ao Polo Norte e ao Vale da Morte,/ Estivemos no Oriente encantado.// Atravessámos desertos de areia escaldante,/ Percorremos estradas sem fim,/ Subimos todas as montanhas mais altas,/ Ouvimos falar mandarim  (pág. 142)

Isso significa que foi mostrando os desenhos ao escritor durante o processo criativo? “Quando o David me convidou e discutimos a abordagem para os desenhos, fiz uma série de dez desenhos, mais ou menos, para vermos se funcionava e se a editora queria avançar. Depois dessa avaliação, avancei sem mostrar quase nada, de vez em quando lá mandava uma fotografia ao David, para dar sinais de vida. Faz parte do meu processo mostrar tudo só no fim.”

O sentido do preto e branco

Sobre a técnica, revela: “Desenho tradicional sobre papel. Alguns desenhos foram feitos com lápis de cor preto e outros com caneta de pincel e uns poucos com caneta preta normal. Percebemos logo no início que o que fazia sentido para este livro seria o desenho a preto e branco, por serem muitos e para criar um equilíbrio com o tipo de texto, achámos que as duas coisas iam namorar melhor assim.”

O ilustrador diz ter alterado alguns desenhos, “poucos, talvez uns quatro, depois de algumas sugestões do David”. O de O cavalo indomável “foi que sofreu mais alterações”. Sobre se alteraria algum agora, responde: “É normal, inevitável, passado algum tempo e olhar para um trabalho terminado e ter essa sensação de que podia ter feito melhor ou podia ter acrescentado isto aqui ou ali. Tento não pensar muito nisso, foi assim que aconteceu naquele momento e era o que eu sentia na altura. E isto é bonito assim mesmo.” Concordamos.

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Já colaborou com várias instituições e empresas, como o Museu Municipal de Coimbra, Licor Beirão, revista Sábado, Casa Pia ou Renault, venceu a 3.ª edição do Prémio de Literatura Infantil do Pingo Doce, o concurso Lusófono da Trofa 2020 e foi finalista do concurso New Talent NIT.

Quando se lhe pergunta quem é Ricardo Ladeira, responde: “Uma ladeira é um caminho inclinado e tanto se pode subir ou descer, eu quero continuar a subir e ver o que está lá em cima.”

O que o deixa verdadeiramente feliz (e certamente também David Machado): “Saber que o livro vai estar em casa de alguém, numa prateleira, mesa, sofá e que alguém se pode sentir tocado, inspirado ao ler, ao ver os desenhos. Imaginar que isto pode acontecer é o que me enche.” Bonito. Também concordamos.

O Meu Cavalo Indomável (Rimas desgovernadas para crianças animadas)
Texto: David Machado
Design e ilustração: Ricardo Ladeira
Paginação: Maria Manuel Lacerda
Revisão: Madalena Escourido
Edição: Caminho
160 págs., 14,40€

Texto divulgado na edição do Público de 23 de Outubro de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Esta foi a página que saiu na edição impressa. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

(Ricardo Ladeira não gostou da forma como as suas ilustrações foram “pintadas”. Lamentamos e pedimos desculpa por não lhe termos pedido para ser o próprio a fazê-lo. Não volta a acontecer.)

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