Os dias passados à janela

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“O que fazem as pessoas nos tempos livres?”, começa por perguntar uma menina que, ficamos a saber pouco depois, passa os dias à janela. Chama-se Graça e descreve assim as actividades dos seus pais: “A minha mãe passeia os cães dos velhinhos do bairro e o meu pai joga às cartas de fato de treino.”

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E que faz ela? “Eu faço observação de pessoas.” Esta afirmação encima um plano, expressivo e esclarecedor, em que se vê a menina de costas, cotovelos no parapeito e cabeça apoiada na mão. Em frente, a vida na rua e nas casas, com muitas silhuetas a revelar o que se passa para lá das janelas transparentes.

(Onde é que eu já vi isto?, pensará o leitor mais crescido. Foi no filme Janela Indiscreta, do inigualável Alfred Hitchcock.)

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Graça, que está numa quarentena forçada, mas… individual, fala-nos tranquilamente dos habitantes que já conhece e das suas profissões: uma hospedeira vaidosa (Miss Apertem os Cintos), “um músico mais ou menos famoso” (Roberto Raposa), um casal de advogados que tem “dois gémeos idênticos que choram em estéreo”, a Dona Camomila, que bebe chá, “dois jornalistas, um das palavras e outro dos retratos”.

Mas o que inquieta a menina é o vizinho novo. “No 1.º Direito mora um mistério. Deixei-o para o fim porque acabou de se mudar. Há uma semana que observo naquela janela um homem de ar sério, que passa os dias a olhar para o infinito.”

A sua imaginação fará com que acredite que planeia um assalto. Por isso muito se assustou quando viu a própria mãe dentro da casa do vizinho. Pouco antes, tinha concluído que o homem tinha uma arma.

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Um livro inclusivo (sem fazer disso bandeira), com mistério e humor, num cenário de cores quentes e ilustrações expressivas, a convidar à exploração dos pormenores que cada janela deixa vislumbrar.

Apoiado pela Sociedade Portuguesa de Autores, a coincidência de o lançamento ter sido numa altura em que as famílias estão circunscritas ao espaço doméstico faz com que Ricardo Henriques se sinta “um bocadinho um Nostradamus dos tempos modernos”, disse ao P3. E acrescentou: “O livro pode ser mais uma achega para que as pessoas olhem para os vizinhos e tenham curiosidade; não tanto para bisbilhotar, mas ao menos para falarem, imaginarem, cantarem, por aí fora.” Seja.

1.º Direito
Texto: Ricardo Henriques
Ilustração: Nicolau
Edição: Pato Lógico
64 págs., 14,50€

(Texto divulgado na edição do Público de 18 de Abril, na página Crianças.)

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A página completa, desenhada por Sandra Silva, saiu como podem ver aqui. Com a ajuda de Valter Oliveira e Susana Palmeirim (tratamento de imagens). Obrigada a todos.

Apesar de, ultimamente, não divulgarmos actividades para a família na edição em papel, elas continuam a rolar… na Guia do Lazer. Vão até lá.

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