Mi anda à procura do que não sabe se perdeu

O pequeno Mi deu-se conta de que perdera algo e foi procurar — sem saber muito bem o quê. Sandro William Junqueira conta-nos A Grande Viagem do Pequeno Mi e junta a sua voz à nossa galeria de Livros para Escutar.

Quem não teve já a sensação de ter perdido algo? Sem saber exactamente o quê, de repente apercebe-se de que lhe falta qualquer coisa essencial. E o mais acertado é partir à sua procura. Enfrentando desconforto, obstáculos, tempestades, mistérios, desconhecidos, medos e tudo o mais.

Foi exactamente isso que fez o pequeno Mi nesta sua grande viagem à procura do que suspeitava ter perdido. “Mi deu-se conta de que perdera algo. Não estava no quarto. Nem no bolso das calças. Espreitou dentro da torradeira e abriu uma janela e três portas. O que procurava não estava.”

Depois deste arranque, o leitor fica não só curioso por saber o que foi que a criança perdeu, como se enche de vontade de a ajudar a encontrar o que, mesmo sem o saber, decerto lhe faz falta. Agora, depois e sempre.

 

Até porque o narrador nos faz saber que o miúdo está sozinho nesta busca: “O pai estava a pescar no Alasca. A mãe a colar selos em cartas.” E as imagens mostram-nos como esta é uma demanda solitária. Com um final que nos deixa felizes.

A ilustradora Rachel Caiano mergulha sem medo na linguagem sensível e mágica do escritor, traduzindo-a numa expressão plástica própria que a identifica, alargando no entanto o sentido do que é dito.

O autor Sandro William Junqueira tem uma escrita clara, doce e poética, que no universo infantil já nos encantou com A Cantora Deitada (ilustrações de Maria João Lima). Nasceu na Rodésia, passou parte da infância em Angola e depois veio para Portugal. É autor de livros para crianças mas também para adultos, faz promoção de leitura nas escolas e trabalha regularmente como actor e encenador de teatro.

O seu próximo livro para crianças terá por título As Palavras Que Fugiram do Dicionário e será ilustrado por Richard Câmara.

Sandro Junqueira disse ao PÚBLICO que o que mais receia é perder a imaginação, “um tesouro que nos mantém a capacidade de espanto”. Daí o tema da obra que leu para nós. Pretende com ela fugir “à narrativa clara e explícita” e “abrir portas dentro da cabeça”.

Para já, não tem de se preocupar com o desaparecimento da imaginação. Nem um (autor) nem outra (personagem) perderam esse bem maior e feliz.

(Adaptação/actualização do texto divulgado na edição do Público de 28 de Janeiro, na página Crianças, e no blogue Letra Pequena)

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