Festival Livros a Oeste chega a 1700 alunos

Reportagem fotográfica do festival literário "Livros a Oeste" 03.04.2016 Lourinha, Lisboa, Portugal. creditos: Mario Vasa

Reportagem fotográfica do Festival Literário Livros a Oeste. Lourinhã. Créditos: Mário Vasa

(Texto divulgado no Público online a 6 de Maio. Foto cedida por Mário Vasa/Câmara Municipal da Lourinhã. Da esq. para a dir., João Rios, João Morales, Rita Taborda Duarte e Tiago Quintans.)

A 5.ª edição do festival literário da Lourinhã termina neste sábado. Uma iniciativa que mobiliza cada vez mais as escolas do concelho e a população da vila. Sempre em Maio

O dia de sexta-feira começou com o urso Petzi e muitas crianças na Biblioteca Municipal, continuou com sessões de promoção da leitura no Auditório do Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira, seguiu com poetas e poesia na Escola Secundária da Lourinhã e na Escola EB2/3 de Miragaia, mais uma apresentação de livros na biblioteca, nova edição de Não Percas a Rosa(Natália Correia), e esperava-se que terminasse com gargalhadas no auditório, com os convidados Filipe Homem Fonseca, Rui Zink, João de Melo e Vergílio Alberto Vieira. Nome da sessão: A Realidade Vai ao Ginásio.

Desde dia 3 de Maio que a agenda da vila da Lourinhã se organiza à volta dos livros e da leitura, com grande participação da comunidade e das escolas. Livros a Oeste chegou este ano a dez escolas do concelho, do pré-escolar à Academia Cultural Sénior, num total de 1700 alunos.

A complementar as actividades, palestras, espectáculos e sessões de autógrafos, uma feira do livro instalou-se junto à Câmara Municipal da Lourinhã, houve exposições em vários espaços (Figuras, Figurinhas e Figurões, com cartoons de António, fica na Galeria do Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira até 14 de Maio) e realizaram-se emissões em directo da Rádio Miúdos.

João Morales, organizador do festival e moderador de muitos painéis que preencheram a semana, contou ao PÚBLICO que este ano o encontro se alargou a novos espaços: “Um dos pontos que distinguem esta edição é a disseminação do festival por diversos locais da vila, que se estenderam à Biblioteca Municipal e ao Auditório da AMAL [Associação Musical e Artística Lourinhanense].”

Na ideia do programador esteve a intenção de se criarem pretextos para que as pessoas circulem pela Lourinhã. “Não faz sentido irmos a um festival a uma terra que não é a nossa e passarmos um dia inteiro dentro de um único equipamento. Numa terra com estas dimensões, faz sentido não só conhecer os espaços como a área circundante: o comércio, a arquitectura, o modo de viver das pessoas.”

Diferentes formas de discriminar

Sem querer destacar painéis em particular, João Morales frisa o crescente interesse das sessões nas escolas e descreve o que se passou na escola EB2/3 de Ribamar, logo no início da semana. Sob o mote Contar com Todos, estiveram presentes Diogo Lopes, “um rapaz de 16 anos que tem uma doença degenerativa, é pianista, aluno do Conservatório, foi há muito pouco tempo fazer uma conferência ao MIT e lançou o livro Baluartes, Episódio de Uma Vida com Banda Sonora, com prefácio de Sérgio Godinho e de João Paulo Esteves da Silva”, e  Bruno Magina, “que lançou em 2015 A Vila das Cores, um livro que foi premiado pela ILGA”.

Perante alunos de 5.º e 6.º ano (2.º ciclo), o objectivo da sessão era abordar a discriminação de uma forma o mais abrangente possível. “Quando falamos de um rapaz de 16 anos que tem uma doença muscular degenerativa, certamente deixou de ser convidado para jogar à bola. Quando falamos de um rapaz de 20/30 anos que explica que tem um namorado e por isso teve problemas com os pais, é fácil de perceber onde está a discriminação. Depois, é mostrar aos alunos desse escalão etário que a discriminação pode tomar muitas formas”, descreve o moderador, satisfeito por os miúdos terem aderido bem ao tema. “No final, ficaram entre 15 e 20 alunos a pedir autógrafos aos dois autores. Muito bom”, conclui.

Dirimir fronteiras

Livros sem Fronteiras foi o tema escolhido para esta edição do festival, assim justificado: “O livro é uma ferramenta essencial e privilegiada para cruzar fronteiras, para ultrapassar fronteiras, para dirimir fronteiras. E ao mesmo tempo para juntar saberes de diferentes áreas e de diferentes artes, também elas tantas vezes artificialmente delimitadas.”

Prova desse esbater de fronteiras foi uma das sessões a que o PÚBLICO assistiu, Poetas da Minha Língua, que juntou três poetas: Rita Taborda Duarte (de Lisboa e professora universitária de Literatura), João Rios (de Vila do Conde e professor de História no secundário) e Tiago Quintans (com família da Lourinhã e ligado ao rap). Três abordagens complementares e distintas em torno do universo da poesia.

João Morales quis criar “uma oportunidade de mostrar a adolescentes como a poesia é algo transversal e que não tem um caminho único”. Conseguiu. Um auditório cheio de jovens do 10.º, 11.º e 12.º ano esteve atento aos poemas que foram lidos, às inquietações e processos dos convidados e ao improviso do mais jovem entre eles, Tiago Quintans.

Se para Rita Taborda Duarte escrever um poema é “um braço-de-ferro com a língua”, para João Rios, a poesia “é uma língua que queremos inventar e é o lugar de todos os fascínios e de todas as possibilidades”. Já Tiago Quintans entrou na poesia “totalmente pelo improviso e não pelo universo escrito” e usa-a como “material de intervenção e de transmissão de mensagens”.

E o pai do Petzi?

Rita Taborda Duarte escolheu ler um poema de Nuno Júdice, A maior língua do mundo, João leu Mário Cesariny, Pastelaria, e Tiago disse António Aleixo,Não dês esmola a santinhos. E num improviso posterior ditou: “Ora então, boa tarde, à Escola Secundária da Lourinhã, não venho com cajado nem com talismã./ Rodeado de mais dois poetas, parti o cajado a questões incertas./ Vocês dariam de certeza o mote, porque a sociedade precisa de um boicote./ Eu não quero ser alvo de chacota, mas não acredito em vitória ou derrota./ Acho que vivemos num impasse, o impasse é na luta de classes,/ se ela desapareceu, já não é piramidal, nós actualmente vivemos à escala global./ Essa globalização tem implicações perigosas. Infelizmente já não vivemos num mundo que cheira a rosas./ Se existem rosas, estão geneticamente modificadas. As nossas cabeças estão a ficar mais quadradas./ Seria por fim e então para terminar/ a palavra é vossa e gostava que um dia pudessem tentar.”

Na sessão da manhã, com o urso Petzi, a preocupação dos alunos do 3.º ano do 1.º ciclo era outra: “O Petzi não tem pai? Porque é que o pai dele nunca aparece nas histórias?” Ficou a promessa de o editor da Ponto de Fuga sugerir à casa-mãe dinamarquesa que corrigisse essa falha…

Neste sábado, há actividades para bebés de manhã, um flashmob de poesia no Mercado Municipal, lançamentos de livros, uma sessão sobre uma minibiblioteca para adolescentes, outra com a presença de Mário Zambujal e de João Gobern (O Repórter Esteve Cá) e, para terminar, o concerto Galo Gordo – O Mundo É Redondo, no auditório da AMAL. Livros a Oeste volta à Lourinhã em Maio de 2017.

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