Considerações de um misantropo

MisantropoAfonsoCruz

Quem gostou do livro A Contradição Humana (2011), do mesmo autor, Afonso Cruz, vai certamente apreciar a leitura de Assim, mas sem Ser assim. O tom irónico e crítico está lá, embora a descrição pela voz de uma criança pareça objectiva e inocente.

A pretexto do conselho do pai, o protagonista e narrador inicia a prática da comunicação com os seus vizinhos, cada um com a sua idiossincrasia. A pessoa do 3C é muito magra, “comunicou-me que era modelo e por isso era tão extremamente elegante”, o morador no 7A “passa a vida sozinho e não abre a porta a ninguém”, a do 6B “anda com roupas rotas”, a pessoa do 8A “tem candeeiros feitos de garrafas velhas e vasos de alumínio”, etc, etc.

Cada página par corresponde a um vizinho e a ímpar à imagem que o representa. São retratos de pessoas comuns, com que qualquer um de nós se poderia cruzar na rua, no prédio, no mundo. Mas com muitos dos quais talvez nem tentasse comunicar. O desfecho é inesperado, quando surge a descrição de um rapaz que reúne todas as características das personagens observadas antes. Só que involuntariamente. E, já agora, injustamente.

Não será um livro compreensível na totalidade por crianças muito pequenas. Mas não faz mal, hão-de ter tempo. E vizinhos.

Assim, mas sem Ser Assim – Considerações de Um Misantropo
Texto e ilustração Afonso Cruz
Edição Caminho
40 págs., 12,90€

(Texto divulgado na edição de 18 de Outubro do Público, página Crianças.)

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