A Coisa Perdida, por Shaun Tan

A Coisa Perdida
Texto e ilustração Shaun Tan
Tradução Gabriela Rocha Alves
Edição Kalandraka
36 págs., 15 euros

O narrador começa por perguntar se os leitores querem escutar uma história. E diz que não se lembra das mais “divertidas” nem das mais “terríveis” que sabia dantes. Mas dispõe-se a contar uma: “A daquela vez em que encontrei uma coisa perdida.” Era Verão e o narrador estava a cuidar da sua colecção de caricas, junto ao mar. “(…) a certa altura parei para olhar em redor, sem nenhum motivo em particular. Quando vi a coisa pela primeira vez.” A forma que Shaun Tan dá “à coisa” faz lembrar uma cafeteira gigante com pernas viscosas, portas e gavetas a toda a volta, uma espécie de chaminé lateral e, às costas, uns suportes, tipo mochila, com uns sininhos nas pontas. Em linguagem coloquial: “Não se parece com nada.” É esse “não encaixar” que faz pensar que está perdida e não pertence a lugar nenhum. Por isso está triste, mas ninguém quer saber. Os livros de Shaun Tan revelam sempre preocupações sociais e políticas, traduzidas numa linguagem subtil e numa expressão plástica envolvente. Aqui mistura atmosfera futurista com grafismo algo retro. As guardas de A Coisa Perdida, com a montagem da colecção de caricas, hipnotizam o leitor. O filme baseado nesta obra, The Lost Thing, venceu o Óscar de Melhor Curta de Animação em 2011. No mesmo ano Shaun Tan recebeu o Prémio Astrid Lindgren Memorial Award. Ambos merecidos.

Texto divulgado no Público de 3 de Novembro de 2012, na página Crianças, que infelizmente deixou de ser coordenada por Helena Melo. Deixamos-lhe aqui um grande agradecimento. Por tudo.

Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada

 

Centrado na autobiografia, o 23.º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora inaugura várias exposições com alguns dos mais importantes nomes da banda desenhada contemporânea. Como habitualmente, o Amadora BD Júnior proporciona actividades para os mais miúdos, com oficinas, modelagem de balões e pinturas faciais que decorrem durante o fim-de-semana.
Fórum Luís de Camões (R. Luís Vaz de Camões – Brandoa). Tel.: 214948642; 2ª a 5ª, dom. e feriados das 10h. às 20h. 6ª e sáb., das 10h. às 23h . Até 11/11. Gratuito

Noticiário sobre os premiados nesta edição pode ser lido aqui. A melhor ilustração de livro infantil foi para o trabalho de Madalena Matoso em Todos Fazemos Tudo (Planeta Tangerina).

O mar de Ricardo Henriques e André Letria

 

Mar
Texto Ricardo Henriques
Ilustração André Letria
Edição Pato Lógico
56 págs., 14,90 euros

A obra lança uma interrogação logo à partida: “Se o nosso planeta tem mais mar que terra, então porque é que não se chama planeta Mar?” Segue-se um alfabeto temático, com água por todos os lados. Começa precisamente com a definição de “água” e acaba com a de “zooplâncton”. Em rigor, este livro é um “actividário” (actividades + abecedário), dizem os autores, que apresentam assim a co-autoria de Mar: textos de Ricardo Henriques, “com bitaites de André Letria”; ilustrações de André Letria, “com alvitres de Ricardo Henriques”. O tom das explicações de cada entrada é divertido, mas rigoroso. Ou seja, sério sem ser fúnebre. As propostas de actividades são variadas e criativas, podendo ir da observação de estrelas (“deita-te de papo para o ar numa noite estrelada e tenta descobrir Órion e outras constelações”) à construção de uma alforreca com uma bola velha de borracha (“faz uma alforreca utilizando materiais reutilizáveis”). Neste último exemplo, há um guião e imagens para ajudar no trabalho manual sugerido. Tudo a azul, preto e branco. No final, um protesto das palavras “excluídas indignadas” por não terem sido integradas num “pasquim com entradas e nenhuma saída que merecia ir directamente para uma fogueira de santelmo (ao menos esse conseguiu entrar)”. Na contracapa, escreve-se: “As missões impossíveis são as únicas bem-sucedidas.” Palavras do marinheiro mais famoso de sempre: Jacques Cousteau. As ilustrações do livro estão expostas no Museu do Mar — Rei D. Carlos, em Cascais, até 18 de Novembro. É içar as velas e zarpar.

(Texto divulgado no Público de 27 de Outubro, página Crianças.)

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