Dar a ler

De como os livros transformam as pessoas e estas transformam o mundo falou em Lisboa Galeno Amorim, jornalista e escritor, que foi o primeiro coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura no Brasil.
Deu a conhecer projectos premiados de promoção da leitura reveladores de uma grande imaginação e voluntarismo de quem os realizou. Lembrando sempre que estava a falar de iniciativas em locais muito desfavorecidos e de muito difícil acessibilidade. Divulgou também que se contabilizam 77 milhões de não leitores de livros no Brasil.

Alguns exemplos de projectos: um barco comum de ligação fluvial diária entre a casa e a escola (ou o trabalho) foi transformado em biblioteca. O passageiro pode ler durante o trajecto, levar para casa e devolver, ou reservá-lo para o ler sempre que ali viaja. A borrachoteca (“os brasileiros adoram inventar palavras”, disse, divertido, Galeno Amorim), em que um jovem tem uma oficina de pneus onde faculta a leitura de livros aos clientes enquanto troca o pneu furado. A biblioteca 24 horas, que começou ao fundo do quintal de um modesto construtor após ter encontrado algures uma lata com livros e sentir que devia partilhá-los (agora já dispõe de 30 mil livros, que lhe foram doados).
Há também um pescador que, além do pescado, leva livros para a Feira Livre, onde faz o seu negócio. Há um “açougueiro” (“o homem do talho”) que faz o mesmo, tem livros no seu estabelecimento comercial. Mas, não contente com “apenas” isso, colocou uma série de prateleiras nas paragens dos autocarros. Sem qualquer controlo de requisições ou devoluções, a verdade é que muito poucos livros se perdem.

O caso mais comovente deste tipo de iniciativas foi realizado por um grupo de professoras que resolveu usar um animal semelhante a um burro (o jegue), muito respeitado pela importância que tem numa comunidade rural brasileira. Principalmente por ser um grande auxílio nos transportes de água, alimentos e pessoas, o jegue tem uma aura quase sagrada para a população local. Com um cesto cheio de livros sobre o dorso, transformou-se então numa “bibliojegue”, que semanalmente percorre os locais de mais difícil acesso e onde a probabilidade de alguém se cruzar com um livro é mínima. Mais, um dos rapazes que guiam a “biblioteca de quatro patas” deixou de ter a alcunha Barraca (“porque só armava confusão, vivia procurando briga”) para ser agora tratado pelas outras crianças como Tio (“ele conta histórias e se sente respeitado”). Sugestão de vocábulo para esta iniciativa em Portugal: “burroteca”.

A ilustrar as suas palavras, Galeno Amorim trouxe, entre várias outras, a imagem (linda) que acima se reproduz. Já a conhecíamos e usámo-la numa rubrica (já extinta) intitulada Descobertas, na revista Pública. Tratou-se de uma campanha dos Correios da Austrália (em 2007) para o Dia dos Namorados. A sugestão era a de que os apaixonados voltassem a escrever e enviar cartas da forma tradicional, em papel, com sobrescrito e selo. “Cartas bem ridículas”, acrescentámos nós.

Um comentário a Dar a ler

  1. Gosto de visitar este blog sobre livros, pois adoro ler. Infelizmente ultimamente não tenho lido muitos livros, pura Preguiça mental. Mas aproveito para ler revistas e os livros ás minhas filhas. Fico feliz ao vê-las a brincar com os livros (têm 2 e 5 anos), e a maior já gosta de os “Ler” sozinha. É bom saber que apesar das dificuldades na divulgação de livros, há muitas experiencias positivas. O meu pequenino contributo é oferecer livros a todos os que acham que livros são só para estudar. Pricipalmente às crianças da familia, mesmo correndo o rico de ouvir, mais uma vez: “outro livro?”

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>