Rimar contra a maré

Não é gralha, é mesmo “rimar” que se quer escrever.
Contou o autor José Jorge Letria que o seu filho mais velho, André Letria, hoje ilustrador, lhe perguntara em criança num dia passado frente ao mar: “Pai, o que é rimar contra a maré?” O pai não desfez o “equívoco” e passou a alimentar a sua escrita de expressões como esta. Uma outra, do filho mais novo, também fez sorrir quem assistia à XVIII Conferência de Literatura Infantil da Gulbenkian, que ontem terminou. “Por que é que os balões caem para cima?”
Este foi apenas o início da comunicação do escritor, já que em seguida leu um poema, com rimas, que havia escrito propositada e apropriadamente para o painel Palavras rimadas. Versava sobre a procura de um poeta que soubesse integrar no seu poema todas as palavras. Eram elas que o procuravam. E encontraram-no. Suspeita-se de que ele terá passado pela Gulbenkian.
Sobre o livro Letras e Letrias, um texto publicado no Mil Folhas de 4 de Junho de 2005 (suplemento do Público editado por Isabel Coutinho), com o título Texto e imagem dançam felizes, pode ser lido aqui

No tempo em que os arco-íris eram a preto e branco foi o título que António Torrado (entre muitas crianças, chamado Torradinha) escolheu para a sua comunicação. E, pouco depois de começar a falar com o público, anunciou, com ar triunfal: “Vou usar pela primeira vez um powerpoint. Risos.
“Um zingarelho. Sabem o que é um zingarelho?” E explica que é um objecto ou aparelho que serve, espera-se, para nos facilitar a vida, “como um abre-latas”.
O autor integrava-se no painel Palavras pintadas e trouxe (no powerpoint…) livros de há 60 anos (monocromáticos) em que ele se lançava a pintar as imagens. Mostrou, por exemplo, O Livro das Crianças, de António Botto. Numa página em que dois coelhos olhavam para um arco-íris picotado, António Torrado apenas pintara uma parte da vegetação. Não se recorda se por preguiça se por não ter mais lápis.
Noutro pintou uma criança com “calças à golfe”. Enquanto mostrava, dizia: “Como eu gostava de ‘calças à golfe’. Na próxima conferência, prometo, venho com umas. Gargalhada na assistência, decerto a imaginá-lo.
Seguiu-se a história de como o autor e Maria Alberta Menéres escreveram sobre os desenhos de Amadeo de Souza-Cardoso, num exercício “inverso” ao mais comum, em que se parte do texto para chegar à imagem. Explicou a forma como fizeram por se “moldar, ajustar às características pictóricas do pintor”.
O resultado deste trabalho é o livro de que mais abaixo se reproduz a capa (e de onde se retirou a imagem em cima).

À parte uma ou outra precipitação na passagem das imagens, a estreia do autor com o zingarelho correu muitíssimo bem.

Próximos episódios do encontro entre autores, ilustradores, editores e outros podem ser lidos aqui, no Letra pequena online. Mas só amanhã.
Sobre Histórias em Ponto de Contar se escreveu na Pública de 25 de Fevereiro de 2007 (revista de domingo do Público, editada por Ana Gomes Ferreira e Marco Vaza), Aqui há talentos. Se quiser ler, siga-nos

Um comentário a

  1. Oi Rita, sou, como você jornalista, e mantenho um blog sobre literatura infantil na web. Mas vivo do outro lado do Atlântico, no Rio de Janeiro, Brasil. Adorei conhecer seu trabalho e saber, por suas sugestões e comentários, o que acontece em Portugal. Se você quiser conhecer meu blog – o Gato de Sofá – o endereço é http://www.gatodesofa.com. Dá uma olhada e sua opinião. Um abraço de Luciana Conti

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