Quanto mais palavras, melhor

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O Jaime coleccionava palavras e agrupava-as. Aprendeu depois que as podia misturar e descobriu a sua voz.

Havia certas palavras que captavam a atenção do Jaime. Entre as que ouvia e lia, fazia o seu registo. Podiam ser “palavras leves e doces”, como “luz”, “flor”, “mãe” e “mel”, ou outras “bonitas de duas sílabas”, como “vida”, “sonho”, “bruma”. Algumas, polissílabas, “soavam como pequenas canções”: o caso de “guacamole”, “caleidoscópio” ou “sinfonia”.

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Não compreendia certas palavras, mas adorava dizê-las: “efervescente”, “vociferante”, “aromática”. E considerava que algumas “soavam exactamente àquilo que queriam dizer”, como “borrão”, “torrencial”, “rugido”. Acrescentaríamos “catrapiscar”, uma das nossas preferidas pela expressividade.

As colecções do rapaz eram temáticas: sonho, ciência, tristes, acção, poético. Foi quando as transportava que tropeçou e as palavras voaram, misturando-se todas na queda. “Palavras grandes com palavras pequenas. Palavras tristes com palavras sonhadoras.” Percebeu que nunca imaginara que certas palavras poderiam estar lado a lado. Gostou.

Fez poemas, canções e descobriu o poder de certas palavras e frases, como “desculpa”, “eu compreendo”, “obrigado”, “gosto de ti”.

“Quanto mais palavras aprendia, melhor conseguia partilhar com os outros tudo que pensava, sentia e sonhava.” O que não acontece só ao Jaime, mas a todos nós. Quanto mais palavras, melhor.

Ajudar as crianças mais “difíceis”

Peter Hamilton Reynolds nasceu no Canadá em 1961 e tem um irmão gémeo, com quem fundou a empresa de meios educativos FableVision. Assina o livro O Ponto, editado em Portugal, pela Bruaá, traduzido para dezenas de línguas, muito premiado e transformado em cinema de animação.

“A sua paixão pela educação é a força motriz da sua acção. Muito do seu tempo é dedicado a ajudar crianças, especialmente as mais ‘difíceis’. ‘Eu fui um deles. Nem todos têm a sorte de ter um professor que veja neles algum potencial’”, lê-se no site da editora portuguesa.

Neste livro, aconselhado por Michelle e Barack Obama, o autor, de forma poética e sonhadora, incita os pequenos leitores a encontrarem a sua voz e a melhor forma de se darem a conhecer aos outros.

No final, papéis esvoaçantes convidam: “Procura hoje as tuas palavras. Diz ao mundo quem tu és e como vais fazer para o melhorar.” Um bom desafio.

Texto divulgado na edição do Público de 21 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Que sabem muitas palavras.)

Atletas que nos representam

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Ainda a pensar nos Jogos Olímpicos, eis um livro que nos dá a conhecer a vida de alguns atletas portugueses.

Pequenas biografias para grandes feitos. Do “menino que era pedreiro aos 11 anos e trouxe para Portugal a primeira medalha de ouro olímpica” pela prova de maratona, aos 37 anos (Carlos Lopes), a um outro que começou na natação e desaguou “na canoagem, para dar a única medalha a Portugal nos Jogos Olímpicos de 2012” (de prata) e que nesta última edição, 2020, conquistou uma de bronze (Fernando Pimenta) e ainda “a menina portuguesa mais jovem de sempre a ganhar uma medalha olímpica”, de prata, em Pequim 2008, tinha 22 anos (Vanessa Fernandes, triatlo).

Rosa Mota

Várias modalidades e percursos são retratados de forma bem-disposta em Os Nossos Heróis do Desporto. Entre os 50 atletas descritos pelo autor, Rui Miguel Tovar, encontram-se Joaquim Agostinho (ciclismo), Rosa Mota (maratona), Fernanda Ribeiro (10 mil metros), Elisabete Jacinto (motocrosse e camiões), Miguel Oliveira (motociclismo)Nelson Évora (triplo salto), Obikwelu (100m-400m), Teresa Bonvalot (surf), Telma Monteiro (judo).

Nelson Évora

Desenhar o momento especial

Coube a Andrea Ebert ilustrar estes “heróis”, tendo a ilustradora, natural de São Paulo, Brasil, contado ao PÚBLICO que teve “liberdade total para desenhar os desportistas, usar o grafismo do que é cada desporto e fazer a composição com aqueles cenários fantásticos das diferentes modalidades”.

Fez “uma pesquisa profunda”, para “poder pegar naquele momento especial da vida do atleta, o movimento antes de saltar ou quase a ganhar ou já mesmo a festejar a chegada à meta”.

Formada em Moda, Andrea Ebert passou a dedicar-se à ilustração em 2002. Dez anos depois, mudou-se para Lisboa, “por uma questão de qualidade de vida”. Recorre habitualmente à xilogravura, mas neste livro usou “pintura em tela, para criar texturas e dar aquele efeito de pincelada”, aplicando depois “um tratamento digital”.

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Fernanda Ribeiro

Satisfeita com o resultado do seu trabalho e da obra na sua globalidade, ficou agora com vontade de “fazer um livro com outros heróis, músicos por exemplo”. Gostaria de ver “a ética desportiva ser transposta para os heróis da cultura”, diz. E acrescenta: “Não são só os desportistas que fazem por sobreviver no mundo em que estamos.”

Numa próxima publicação, não poderão faltar os recentemente medalhados Pedro Pablo Pichardo (ouro no triplo salto) Patrícia Mamona (prata também no triplo salto) e Jorge Fonseca (bronze em judo). Fernando Pimenta já consta, mas conquistou agora mais uma medalha (bronze em K1-1000). Também os heróis paralímpicos mereciam não ser ignorados. E são muitos, muitos.

Emanuel Silva

 

O presidente do Comité Olímpico de Portugal, José Manuel Constantino, assina o prefácio, em que descreve o livro deste modo: “É uma agradável viagem em torno do quotidiano e das histórias de vida de vários atletas que ajudaram a construir o nosso país desportivo.”

Entre os atletas que nos representam, há os que nasceram em Portugal e os que se tornaram portugueses, por escolha própria ou da família. Todos nos comovem da mesma forma e com igual intensidade. Pelo sonho, empenho e pela perseverança, parabéns e obrigada.

Os Nossos Heróis do Desporto
Texto: Rui Miguel Tovar
Ilustração: Andrea Ebert
Prefácio: José Manuel Constantino
Revisão: Cristina Correia
Edição: Nuvem de Tinta
128 págs., 16,90€

Texto divulgado na edição do Público de 14 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família resulta das escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

O que o tempo faz e nos faz

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Não pára, já existia antes de nós e perdurará para além de nós. O tempo é o que fazemos dele.

Da formação dos continentes ao final do mais recente Outono e à contagem do último minuto, passaram-se milhares de milhões de anos. Sabendo nós que o tempo não pára, o que imaginamos que virá depois?

“O que vais fazer amanhã? Como irás celebrar o teu aniversário para o ano? Terás filhos um dia? Do que te irás lembrar quando fores velho? O que desejas para o futuro?”, pergunta a autora de Era Uma Vez (e Muitas Outras Serão)Johanna Schaible, entre ilustrações de cores fortes e páginas de tamanho variável. Cabe a cada leitor encontrar as suas próprias respostas.

Johanna Schaible vive na Suíça e trabalha em ilustração, arte e design, ampliando os limites de expressão de cada uma destas disciplinas. Estudou na Escola de Arte e Design de Luzern  e, em 2019, foi seleccionada para o Unpublished Picturebook Showcase da plataforma Dpictus com o projecto para este livro.

Além da expressão plástica de grande qualidade, o livro vale também pela originalidade de fazer variar o tamanho das páginas à medida que se avança na leitura e no folhear. Começando com o tamanho que se espera para o seu formato, logo se assiste ao gradual encolher do papel, a par da aproximação do tempo presente.

Crianças e adultos vão gostar deste objecto e deste exercício de pensar sobre “o que fica do que passa” e sobre o que o futuro trará. Mesmo que não conheçam ainda as respostas. É sabido que para cada leitor “era uma vez” e outra e outra… e outra ainda.

Mais uma pergunta da autora: “O que irá marcar-te para sempre?” Talvez um livro. Pode até ser este.

Era Uma Vez (e Muitas Outras Serão)
Texto e ilustração: Johanna Schaible
Tradução: Isabel Minhós Martins e Mariana Vale
Revisão:  Carlos Grifo Babo
Edição: Planeta Tangerina
54 págs., 18,90€

Texto divulgado na edição do Público de dia 7 de Agosto de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A secção Fim-de-Semana em Família conta com as escolhas de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

As dúvidas existenciais de um dragão

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Adoptado por rouxinóis, Lorenzo não sabe cantar nem voar. Quer ser igual aos pais, mas terá de descobrir o seu talento. Ninguém disse que era fácil.

Um ovo grande perdido na floresta é encontrado e protegido por um casal de rouxinóis, Amália e Pavaroti. Dele sairá um dragão trapalhão, mas ainda assim sempre acarinhado pelos pais adoptivos, que lhe deram o nome Lorenzo.

A autora do texto, Isabel Ricardo, quis abordar “o tema da adopção, da diferença e da descoberta de que todos somos importantes”, disse ao PÚBLICO, via email. E explica como lhe surgiu esta história, que pretende demonstrar que “pode haver famílias de coração”: “O Dragão Trapalhão surgiu-me no regresso de uma escola, depois de um dia cheio. Faço muitas sessões de incentivo à leitura em escolas e bibliotecas, e o contacto com a pequenada transmite-me sempre muita energia e inspiração. E a história foi surgindo e ganhando forma de tal maneira que, quando cheguei a casa, os rouxinóis Amália e Pavaroti já eram reais. O nome Lorenzo foi inspirado no nome do filho do ilustrador.”

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Zeka Cintra deu forma às personagens e à floresta num registo colorido e divertido, adequado à narrativa e a fazer lembrar cinema de animação. Não é a primeira vez que os autores trabalham em conjunto. “Um sentimento de empatia e admiração mútua converteu-se numa bonita amizade desde o primeiro livro em que colaborámos — e já lá vão quatro —, transformando-se numa simbiose feliz e penso que isso está bem patente neste livro”, conta a escritora.

O ilustrador, natural de São Paulo (Brasil), formou-se em Artes Plásticas pela UESL-Joboticabal. Zeka Cintra divide-se entre o trabalho digital, como o que apresenta neste livro, e o tradicional (analógico), com aguarelas, acrílicos, lápis de cor, tinta de óleo e pastel. “Tem como filosofia de trabalho fazer tudo com muita emoção e profissionalismo, pois sabe que o restante será consequência de tudo isso”, pode ler-se no site Who.

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Isabel Ricardo procura, nos livros que escreve, “não descurar a componente pedagógica e que as histórias tenham alguma profundidade, principalmente nas que se destinam aos mais novos”. Assim, faz por lhes transmitir valores humanos que considera importantes, “a tolerância, o direito à diferença, a cooperação, a inclusão, a verdadeira amizade, o respeito pelos outros (sejam eles pessoas, animais ou a própria natureza), a solidariedade, a generosidade, etc”.

Um livro, segundo Isabel Ricardo, “deve ser divertido, emocionante, cativante e transmitir algo importante”. Mais: “Se pudermos associar o prazer da leitura à aprendizagem de outro assunto, isso é excelente!

Escreveu o seu primeiro livro de aventuras aos 11 anos, mas teve de esperar 16 para conseguir chegar às bancas. “Fui persistente, tal como este dragãozinho, que nunca desistiu de aprender a voar. Hoje, sinto-me realizada por fazer aquilo que adoro e continuar a concretizar os meus sonhos. Tal como o Lorenzo, tento sempre desafiar-me e superar-me em cada nova criação literária.”

O dragão Lorenzo acabará por encontrar o seu papel no mundo, aprender a usar o fogo para benefício de todos e ser menos trapalhão…

O Dragão Trapalhão
Texto: Isabel Ricardo
Ilustração: Zeka Cintra
Edição: Minotauro (Edições Almedina)
40 págs., 12,90€

Texto divulgado na edição do Público de dia 31 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo e ficou bem bonita. A secção Fim-de-Semana em Família é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira. (Com as dúvidas existenciais todas… resolvidas. :) )

Isabel Stilwell escreve sobre D. Isabel, uma rainha valente

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Ajudou os desfavorecidos, lutou pela paz e acabou por ser reconhecida como santa. A história de uma rainha corajosa é o que se conta neste livro. Uma Isabel (Stilwell) a olhar para outra Isabel (de Aragão).

“Todas as manhãs vou ver o meu avô a fazer a barba. Como o meu avô é rei, o todo-poderoso Jaime I de Aragão e de muitos lugares que conquistou aos mouros, não é ele que faz a barba a si próprio. Nem pensar.” Eis o tom que Isabel Stilwell consegue dar a um livro em que dá a conhecer aos mais novos a história de D. Isabel, que viria a ser rainha de Portugal.

O livro é um relato na primeira pessoa, uma “autobiografia” que revela desde pormenores do nascimento da menina, aos receios pelas idas do avô para sucessivas batalhas, às inquietações com o casamento com D. Dinis logo aos 12 anos, e que a trouxe para Portugal, ao interesse pela medicina e pelos desfavorecidos até às várias tentativas para promover a paz entre reis, irmãos e herdeiros de tronos.

Escrito numa linguagem acessível e simples, mas não pobre, Isabel de Aragão ­— A Nossa Rainha Santa ensina história de uma forma natural, pela voz de uma criança que se vai tornando adulta e depois envelhece. Sempre com muita coragem e valentia, mas também bondade.

A preocupação com os detalhes

Um livro que, não sendo “difícil de ilustrar”, segundo Ana Oliveira, “foi demorado, pela quantidade de informação histórica que tem e porque há detalhes que não podem escapar, como por exemplo o vestuário, o mobiliário e outras características da época que não podem ser deixadas ao acaso”, diz a ilustradora ao PÚBLICO.

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Formada em Arquitectura e dedicando-se exclusivamente à ilustração a partir de 2015, conta-nos “o imenso prazer” que foi “ilustrar este livro”: “Primeiro, porque nunca tinha ilustrado um texto com tantos detalhes históricos e, segundo, por ser talvez uma das rainhas mais queridas de todos nós. Numa altura em que se fala tanto da igualdade de direitos e do papel que as mulheres têm na sociedade, é importantíssimo que os mais pequenos também conheçam estas mulheres, tão emancipadas e que souberam usar tão bem o poder que tinham!”

Ana Oliveira, natural da Trofa, mas a residir no Porto, descreve como orientou o seu trabalho para este livro: “O meu primeiro foco foi essencialmente absorver tudo o que podia sobre a rainha Isabel II e que imagens existiam dela, para que a ilustração conseguisse reflectir tanto a fisionomia como a personalidade desta rainha. Como as ilustrações devem surgir naturalmente acompanhando o texto, só depois de decidir as imagens a ilustrar fiz a pesquisa sobre os eventos que nelas decorrem, como, por exemplo, perceber como era o interior do Palácio de Alzira, a Vila de Trancoso, Tarragona, locais descritos no livro e que exigem fiéis detalhes arquitectónicos para que possamos contextualizar estes acontecimentos e locais reais.”

Liberdade artística e orientação histórica

Quisemos saber se os seus passos foram seguidos pelos outros intervenientes na produção do livro: “Deram-me muita liberdade criativa para trabalhar neste livro, o que é sempre um aspecto extremamente importante para o ilustrador, que tem de ter o seu papel de interpretação e criação salvaguardado.”

No entanto, agradou-lhe ter contributos da autora do texto: “Houve sempre um acompanhamento do processo por parte da editora e da autora, o que ajudou a que pudéssemos incluir alguns detalhes que, do ponto de vista dela, eram importantes destacar na história.”

Sobre a técnica escolhida descreve: “As ilustrações foram essencialmente feitas a aguarela, a técnica de eleição no meu trabalho. Gosto posteriormente de misturar lápis de grafite ou de cor para criar texturas e detalhes.”

No final do livro, há uma cronologia com os principais acontecimentos da vida de Isabel de Aragão: do nascimento em Saragoça (cuja data de 11 de Fevereiro de 1270 não é confirmada com toda a certeza) até à sua canonização pelo papa Urbano VIII, em 1625, momento em “que passou a ser conhecida como Santa Isabel de Portugal”.

A este livro junta-se outro também assinado pela jornalista e escritora Isabel StilwellD. Amélia – A Rainha Que Deixou o Coração em Portugal, ilustrado por Cátia Vidinhas. Diz a editora na divulgação: “Dois livros apaixonantes e divertidos, dedicados aos leitores dos 8 aos 12 anos sobre a história de duas mulheres fortes e que foram duas das rainhas mais queridas dos portugueses.”

Texto divulgado na edição do Público de dia 24 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A secção Fim-de-Semana em Família é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Valentes!…)

Do outro lado da sorte

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Uma história sobre a riqueza e a pobreza na Venezuela, mas podia ser em qualquer geografia. Há sempre quem padeça por nascer “do outro lado”. Ainda assim, há lugar para o sonho.

Já não bastava as cheias terem levado a ponte, agora o cabo da tirolesa partiu-se e Juan José não consegue atravessar o rio com a ajuda da gravidade e da roldana. Sente raiva. “A raiva de ter de ficar ali, sem poder atravessar, sem poder ir ao mercado vender a massa de milho, sem poder ganhar o pão e não ter nem uma moedinha para pôr de parte, para comprar aquela bicicleta com que sonha há tanto tempo, aquela amarela em segunda mão que está como nova.”

O colega Alepo há-de duvidar e troçar dele. Diz-lhe que são “histórias para contar à professora” e que é um “folgazão, do que gosta é de vadiar”.

Do Outro Lado é uma história inspirada numa criança venezuelana que a irmã da autora conheceu e a quem contou a sua forma de vida.

Desde que ouvi a história do Juan José, não consegui deixar de pensar nele, nos seus sonhos, na sua família, nas pessoas que vivem ‘do outro lado’ e lutam por seguir com as suas vidas, apesar de serem os esquecidos nas sociedades da desigualdade, porque continuam a estar lá: Ahmed, Sravani, Lin, Chén, Sara, Mousa, Violeta, Prince…”, escreve Cristina Falcón Maldonado no final do livro.

Venezuelana, viveu em Itália (Bolonha) e agora reside em Espanha (Cuenca). Conta ainda, numa breve nota biográfica: “Antes de aprender a ler, aprendi poemas de memória, graças à minha avó, que me abriu caminho para viver rodeada de palavras, brincar com elas e reinventá-las. Desde muito pequena que adoro livros, lê-los e relê-los. Cada um continua a contar-me coisas diferentes a cada nova leitura.”

Um texto comovente e muito bem acompanhado pelas cores fortes e luminosas das ilustrações de Mariona Cabassa, que aqui desenha a fauna e a flora daquela região dos Andes.

Cor e luz

Natural de Barcelona, onde vive, estudou Ilustração na Escola Massana e depois fez uma pós-graduação na L’École Supérieure des Arts Décoratifs de Estrasburgo. Já ilustrou dezenas de álbuns, livros de texto, jogos, puzzles, discos de vinil, cartazes, rótulos e muitos outros produtos artísticos.

Diz a ilustradora: “Pinto, dou aulas de ilustração em algumas escolas de arte de Barcelona, dirijo as minhas próprias oficinas de criatividade para mulheres, coso grandes pedaços de tecido, tiro milhões de fotos constantemente, há alguns anos comecei a tatuar e ainda há montes de coisas que um dia gostaria de experimentar.”

Mariona Cabassa diz-se fascinada pela cor e pela luz, mais do que pela forma. “Estes dois aspectos [cor e luz] reflectem-se em qualquer das ramificações que o meu trabalho tem seguido ao longo dos anos”, constata.

Quanto à história do livro, o rapaz há-de voltar a poder atravessar o rio e até a convidar o colega Alepo a usar a tirolesa. Uma aventura que os obrigou a contar com a ajuda de um macaco. Sim, o macaco Bartolo. Será este a salvar o menino rico de uma grande aflição.

Assim, Alepo ficou a saber que “o outro lado” da sorte existe mesmo, num dia cheio de emoções para ambos. E também para os pequenos leitores.

Do Outro Lado
Texto: Cristina Falcón Maldonado
Ilustração: Mariona Cabassa
Tradução: Catarina Sacramento
Edição: Akiara Books
40 págs., 14,50€

Texto divulgado na edição do Público de dia 17 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. (Felizmente, todas do mesmo lado.)

No tempo em que os animais não falavam

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Um manifesto (não panfletário) sobre a destruição da biodiversidade. “Prestem atenção ao grito silencioso e ensurdecedor do nosso planeta e uni-vos!”, pede a autora, Eduarda Lima.

“Tudo começou quando um pássaro deixou de cantar. E todos os outros pássaros deixaram de cantar.” Gatos, cães, insectos, galinhas, ninguém se fazia ouvir. Nada de leite das vacas, nada de acrobacias ou graças de macacos a deixarem-se fotografar. “E ninguém escutou o uivo dos lobos na lua cheia.” Tudo aconteceu no tempo em que os animais não falavam. Melhor, em que não queriam falar. Hoje e no futuro.

Um pacto silencioso parecia ter sido feito pelos animais e até as crianças deixaram de brincar e de ir à escola. Porquê? Escutemos as explicações de quem escreve e ilustra, Eduarda Lima: “O livro fala sobre o impacto da acção humana no ambiente e na biodiversidade do nosso planeta, mas é também uma pequena introdução ao activismo para crianças pequenas. Eu não quis directamente ‘dizer’ nada ao mundo; antes queria que o livro fosse um objecto catalisador — mais do que dar respostas, queria que levantasse perguntas, que fomentasse discussões, diálogos, que pusesse o pequeno leitor num papel activo de questionamento e reflexão.”

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A autora acredita que “as crianças já estão a prestar atenção, mas é importante ter estas conversas à volta de um livro e aprender a pensar, questionar e passar à acção!”, diz ao PÚBLICO, via email. “O Protesto é um manifesto, mas não é panfletário!”, afirma convictamente.

Proximidade da serigrafia

O processo criativo começou com texto e imagem em trajecto paralelo. “Primeiro um esqueleto de texto muito simples e uns esboços muito pequeninos logo ao lado, em modo de storyboard.” Depois, desenvolveu as ilustrações, sendo o texto retrabalhado mais tarde, “com os valiosos contributos da editora Carla Oliveira, da Orfeu Negro”, diz a autora, formada em Arquitectura e com vários trabalhos de animação em 2D.

As ilustrações foram todas desenhadas à mão e subsequentemente digitalizadas para serem pintadas digitalmente no Photoshop. “Queria usar o método mais semelhante ao da serigrafia, que é um processo de impressão com cores sólidas, que quando se sobrepõem, misturam-se, criando assim múltiplas novas cores”, descreve.

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E continua: “O mais próximo deste processo na impressão a uma escala mais ‘industrial’, para tiragens maiores, é a impressão a cores directas. Assim, imprime-se directamente com as tintas das cores escolhidas, obtendo-se um efeito mais homogéneo e intenso nas manchas de cor, do que se fosse impresso em CMYK.”

Imagens a “saltar” do papel

Eduarda Lima, que se estreia no álbum ilustrado com este título, diz ainda: “Com três tintas apenas, consegue-se obter uma paleta de oito cores sólidas, contando com o branco do papel! Para mim, este processo era importante por várias razões. Por um lado, com esta intensidade e saturação na cor, as ilustrações ganham uma expressão mais gráfica e cativante.”

Sendo um livro para crianças bem pequenas, que provavelmente ainda nem sabem ler, a ilustradora “queria que elas mergulhassem nas imagens que lhes ‘saltam’ do papel, enquanto o adulto fosse lendo o texto”.

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Quanto à opção por esta paleta, conta: “A escolha das três cores em si foi mais racional. Gosto sempre de usar duas cores primárias — o azul e o vermelho — e a terceira determina se vai ficar tudo mais ‘quente’ ou mais ‘frio’. Neste caso, usei um verde-claro azulado, para arrefecer!”

O motivo por que todos os animais protestaram e sofreram em silêncio é revelado no fim. Não o desvendaremos aqui, mas é difícil não nos sentirmos culpados. Todos.

O Protesto
Texto e ilustração: Eduarda Lima
Edição: Orfeu Negro
40 págs., 14€

Texto divulgado na edição do Público de dia 10 de Julho de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

Emoções em órbita, à volta de nós

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Van Gogh dizia ao irmão que não se esquecesse de que as emoções são os capitães das nossas vidas, a quem obedecemos sem saber. Neste livro, somos convidados a contemplá-las e a compreendê-las.

Pensado inicialmente para ser um diário com “desafios breves, práticos e criativos, que levassem a olhar à nossa volta, olhar para o nosso interior e relacionarmos essa experiência com as emoções”, o livro acabou por resultar em dois volumes. O autor, David Guedes, psicólogo, explica ao PÚBLICO porquê: “Era necessário dar aos leitores algum contexto para estes desafios. Era necessário explicar o que são as emoções e para que servem.”

Um assunto que lhe interessa há muito: “As emoções sempre me fascinaram e, quando escrevi a minha tese de mestrado sobre este tema, queria sobretudo satisfazer a minha curiosidade sobre estas estranhas adaptações que tanto nos movem como paralisam, tanto nos levam ao amor como à guerra.”

Com experiência de trabalho com grupos de crianças e jovens, o mestre em Psicologia Clínica e da Saúde quis criar para eles “algo que perdurasse”.

Esta Odisseia… recorre ao Big Bang para contar a história das emoções, num paralelismo com o nascimento e a exploração do universo. “Há poucas histórias mais bonitas e fascinantes do que aquela em que do nada se fez tudo. Essa é a história preferida de toda a gente, seja contada pela religião ou pela ciência. A história de como tudo começou. E achei que o Big Bang podia ser um bom ponto de partida para explicar o surgimento das emoções”, diz o doutorando no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.

Depois de termos consciência de nós próprios, as emoções tornam-se mais complexas, “podemos começar a sentir emoções como a vergonha ou a culpa e à medida que vamos sendo socializados, desenvolvemos noções cada vez mais completas sobre as emoções. Passamos a saber que nem todas as tristezas são iguais, não se expressam da mesma forma e exigem também formas diferentes de lidarmos com elas”.

O espaço está cheio de metáforas

Chegado à ideia do paralelismo com a formação do universo, o caminho tornou-se claro: “A partir daí, foi possível desdobrar a história numa série de metáforas, porque o espaço está cheio delas. Quando pensamos na forma de experienciar as emoções, vemos como algumas nos trazem leveza, outras causam repulsão, outras fazem-nos gravitar para si. Todas essas sensações podem ter paralelismo em fenómenos do universo. A partir daí foi intuitivo associar o vazio à tristeza ou a energia expansiva de algumas estrelas à vivência da raiva.”

Cada pessoa encontrará as suas respostas e construirá as suas próprias metáforas. “Essa liberdade de apropriação foi o que se procurou promover com o caderno de exercícios, a que se chamou ‘Diário de Exploração do Mundo’.” Onde não há respostas certas ou erradas. “O que nos importa é sobretudo acicatar a curiosidade das pessoas para se interessarem pelas suas emoções”, conclui.

Ilustrar um exercício de autoconhecimento

A ilustradora e designer do livro, Madalena Bastos, diz ao PÚBLICO que “foi muito desafiante ilustrar emoções, algo que sentimos, mas não vemos, algo que não tem forma, mas tanto significado e que todos sentimos de maneira diferente”.

Conta-nos via email que o trabalho foi muito colaborativo: “A criação deste livro foi desde início um processo a quatro mãos, nunca deixámos de manter o contacto e conversar. Estivemos sempre presentes no trabalho um do outro, em constante mudança e simultânea sintonia.”

Foi num destes encontros que chegaram à ideia do universo como metáfora para a exploração das emoções. “Foi em conversa e discussão com o escritor, de que forma poderíamos ilustrar emoções, que me surgiu a ideia de transformá-las num universo como uma metáfora. O David entusiasmou-se, logo o texto também sofreu muitas transformações e os desenhos foram surgindo de uma forma muito fluida. Para muitos, as emoções são como o universo: pouco exploradas. E eu decidi explorar mais as minhas e só depois ilustrar”, descreve.

A ilustradora, que considera o livro um “objecto gráfico único e muito bem produzido”, diz-nos que foi todo “ilustrado digitalmente no Adobe Photoshop; para ilustrar elementos abstractos como o universo e emoções, essas ferramentas oferecem um maior leque de possibilidades”.

Criadora da marca Mariqosa, que produz “jogos pedagógicos, livros didácticos e infinitas brincadeiras”, Madalena Bastos conta ainda como este trabalho a envolveu: “É curioso perceber o quão insignificante somos em relação às nossas emoções. Eu, que pensava conhecê-las, quando comecei a elaborar os exercícios do Diário de Exploração, houve vários em que foi bastante desafiante, para mim, pensar sobre eles.”

Põe a hipótese de que para algumas crianças tenha sido mais fácil e para outras mais difícil. “Penso que o grau de dificuldade vai ser sempre um exercício de autoconhecimento e de perceber o que nos é mais sensível.”

Pela sua parte, David Guedes sente-se satisfeito por “perceber que há psicólogos a usarem partes do diário para sessões de psicoterapia, em actividades de grupo numa escola ou em formações numa empresa”. Mas há também “leitores intrépidos, que têm abordado os desafios por si mesmos”.

Assim, ficam cumpridos os objectivos de que a obra fosse “usada livre e autonomamente por quem, por algum acaso, se cruzasse com ela e quisesse experimentar por si, mas também o de servir de recurso para o trabalho dos psicólogos”. Este último propósito justifica o apoio de um orçamento participativo da delegação regional do Sul da Ordem dos Psicólogos.

Odisseia de Emoções, segundo David Guedes, tem permitido que alguns leitores mais velhos encontrem mensagens com significado para si. “Isto não é totalmente acidental, pois embora se tivesse pensado nas crianças e jovens como principais destinatários, deixaram-se várias ideias que talvez só os leitores mais velhos apreendam na totalidade.” Fizeram bem.

Texto divulgado na edição do Público de 5 de Junho de 2021 e no site-satélite Ímpar.
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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia PereiraÉ sempre uma emoção (boa) ver como a página fica no final.

Com os olhos (e o coração) no céu

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Um livro que é uma homenagem a uma educadora que partiu demasiado cedo e uma ajuda para as crianças lidarem com a perda. Para os outros, também.

“Foi quando vi os balões impelidos pelo vento na minha direcção que percebi. Eu tinha estado doente, sentira-me fraca e cansada, cada vez mais fraca, até ao momento em que perdi a consciência do tempo e do espaço e fiquei ali, quieta, num lugar estranho e vazio e silencioso.” Assim começa este livro, que pretende devolver-nos a voz de Helena Marques, Lena, educadora e animadora de ATL da Associação de Pais e Amigos das Escolas de Linhaceira (Tomar).

Vítima de síndrome de Evans, uma doença rara auto-imune, Lena morreu cedo. “Uma centena de balões brancos, com mensagens das crianças com que trabalhava, foram lançados por estas no recreio do ATL, em sua homenagem, dias depois”, faz-nos saber quem edita o livro, a Associação de Ideias para a Cultura e Cidadania e Associação de Pais e Amigos das Escolas de Linhaceira. Lena faria 50 anos no próximo dia 1 de Junho, terça-feira. Curiosamente, Dia da Criança. Foi essa a data escolhida para o lançamento do livro, às 21h, no Pavilhão Multiusos de Linhaceira.

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O autor, Nuno Garcia Lopes, companheiro de Lena durante 25 anos e de quem tem duas filhas, Mariana e Catarina, conta ao PÚBLICO: “Os Balões Que me Ensinaram a Voar surgiu de modo muito evidente no dia em que, ao voltar do cemitério e olhar para o céu tive uma espécie de ‘epifania’. Tinham-se passado algumas semanas desde a morte da Lena e foi a primeira vez que chorei, de alívio e alegria, ao descobrir numa nuvem que decorava o azul a forma de a homenagear, o enredo geral do livro e a maneira como ela ia continuar a ‘comunicar’ comigo. A partir daí, sempre que tenho uma dúvida ou preciso que ela me ‘diga’ alguma coisa, olho para o céu.

Foi assim que o escritor de títulos como Lua do Mar (ilustrações de Mafalda Milhões) e Livros de Dar Volta à Cabeça (ilustrado por Luís Prina) entendeu qual seria “o caminho da escrita”, conta. “De tal modo que o título surgiu precocemente. A largada dos balões pelas crianças com que trabalhava tinha sido um momento muito bonito e emotivo. Estava ali a chave.”

Ao começar a preparação do livro, foi ter com a designer Sylvie Lopes (os apelidos repetidos são um acaso), que lhe sugeriu a ilustradora Sara Brito. “Convidei-as a visitar a Linhaceira, a conhecerem o espaço escolar e de ATL onde o enredo se centrava, a contactarem com os vestígios da presença da Lena e os objectos que fazia”, descreve. E acrescenta: “Começámos uma profícua amizade, criando laços que alicerçam o edifício comum do nosso labor. E os resultados foram surgindo, a começar pela decisão de fazer deste livro um objecto incomum: sem lombada, num formato pouco corriqueiro, com as imagens a rodarem a determinado momento.”

O risco de cair na lamechice

O autor receou criar um livro “com uma marca pessoal tão intensa”, admite. “Seria muito fácil cair na lamechice e deitar tudo a perder. Quis evitá-lo, de modo a que fosse digno daquela que queria homenagear. E, ao mesmo tempo, escrever uma história que ajudasse as dezenas de crianças de que ela cuidava, as minhas filhas, todos os seus amigos, a lidarem com a perda. Mas também todos os leitores (e não só os mais novos) que tenham passado por essa situação, bem como os que inevitavelmente vão passar por ela no futuro.” Conseguiu.

Nuno Garcia Lopes dá-nos conta ainda de que tinham publicado no dia do casamento de ambos o livro de poemas O Sonolento Hábito das Casas (poesia dele, fotografias dela).

Um objecto gráfico diferente e atraente

Se a história de os Os Balões Que me Ensinaram a Voar já é terna e comovente por si só, ao conhecer-se a sua génese e motivação, fica-se ainda mais envolvido. Foi o que aconteceu com a ilustradora, Sara Brito, que nos disse, via email: “Ilustrar este livro foi uma lição de vida, também para mim, acerca da perda e de como lidar com ela. Tive o privilégio de ilustrar uma história muito especial que me transportou para o ‘mundo das nuvens’.”

O papel de Sylvie Lopes, no design do livro, com capa serigrafada e lombada de costura à vista, foi fundamental para que se criasse um objecto gráfico diferente e atraente.

Depois deste trabalho, a ilustradora, Sara Brito, nunca mais olhou para o céu da mesma maneira. “Tornou-se bem mais bonito e especial e, sempre que tenho oportunidade, perco uns minutos a contemplar as nuvens e a imaginação ganha asas! É uma sensação incrível.”

Licenciada em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes e actualmente a trabalhar para a agência BY, Sara Brito usou a aplicação de ilustração digital Procreate para um livro que lhe relembrou que “as coisas mais simples são de facto as mais importantes e que basta olharmos para o céu para voltar a sonhar”.

Será através do desenho das nuvens que a protagonista, Lena, comunicará com todas as crianças (e adultos) da sua vida. Curta, mas cheia. Por isso, Nuno Garcia Lopes diz-se “reconciliado com o universo”. E explica: “Feliz por ter tido o privilégio de partilhar a minha vida com alguém tão extraordinário que, mesmo na sua ausência, me continua a explicar como conviver com essa ausência.” Olhem para o céu.

Os Balões Que me Ensinaram a Voar
Texto: Nuno Garcia Lopes
Ilustração: Sara Brito
Design: Sylvie Lopes
Edição: Associação de Ideias para a Cultura e Cidadania e Associação de Pais e Amigos das Escolas de Linhaceira
32 págs.; 10€

Texto divulgado na edição do Público de 29 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, esta linda página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda é da responsabilidade de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Obrigada a todas. (Parabéns, Helena.)

“Contaler” memórias ao neto e desenhar a infância

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Diz António Mota que “contaler” é “ler e inventar o que não está escrito, mas parece que está”. Assim nasceu este livro, em que Cátia Vidinhas desenhou as suas memórias de infância.

Uma história simples, de encontro entre uma ovelha e um gato e — entre outras coisas — sobre o que gostam de comer. O gato Chiribi bem tentou gostar das ervas e flores do prado, que tanto agradavam à ovelha Estrelinha, mas, “nhec! nhec! nhec!”, aquilo não era para ele. “Não foi capaz de engolir as ervas verdes e as flores brancas, amarelas e azuis.”

Numa escrita clara, bem-humorada e com recurso a onomatopeias e à repetição, tanto do agrado dos mais novos, convida-se as crianças a entrar num ambiente por muitas desconhecido: o campo.

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Relata-nos como transformavam em brincadeira algumas tarefas do quotidiano, nem sempre fácil: “Brincávamos a fazer de conta que éramos reis cavalgando cavalos muito altos e brancos. Os pobres dos bichos queriam comer, não gostavam nada da brincadeira, atiravam-nos ao chão, nós ríamos e a felicidade estava no meio de nós.”

Também a alimentação dos rapazes lhe veio à memória: “Fazíamos banquetes com a broa migada no leite que conseguíamos mungir das tetas da cabra, mas não era nada fácil.” E recorda os gatos: “Lembrei-me dos gatos, todos os gatos que não gostavam do meu pai ou o meu pai é que não gostava deles. E isso divertia-me.”
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Para finalizar a explicação de como este livro surgiu, o n.º 37 da colecção Obras de António Mota, diz: “Penso que foi tudo isso — mais o desafio de escrever uma história que não pusesse o meu neto a perguntar se faltava muito para irmos brincar a outra coisa — que me levou a criar a Ovelha Estrelinha e o Gato Chiribi.”

Recriar um passado rural

Quem ilustrou esta história foi Cátia Vidinhas e ficou muito contente com o trabalho: “Ilustrar este livro foi uma maravilhosa oportunidade de regressar à minha infância, pois nasci num ambiente rural, repleto de natureza e animais.”

Tal como o escritor, também ela recuperou experiências do passado: “Fiz um exercício de relembrar memórias, cheiros, cores que pude transpor nas ilustrações, que vivem muito desta ligação ao campo e a ambientes naturais.”

Houve outro aspecto que pôde explorar na ilustração e que muito lhe agrada: “O da inocência e da brincadeira através da construção das personagens.” Resultou.

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Quanto à parte técnica, descreve: “Todas as ilustrações foram construídas através de técnica digital, usando vários tipos de expressividade disponibilizados pelos pincéis do software Adobe Photoshop.” Cátia Vidinhas conseguiu criar assim uma atmosfera quente e calma, como o tom do texto.

O livro termina com um sonho fantástico e fantasioso do gato, não sem antes pedir à mãe Cristalina, que morava na casa da Carolina, para mamar, mamar, mamar. “E quando a fome desapareceu, o Chiribi dormiu, dormiu, dormiu. E sonhou, sonhou, sonhou.”

Juntos, António Mota e Cátia Vidinhas, têm já um outro livro, A Gaveta Mágica, que fala da perda de memória dos mais velhos. “Quando a gaveta mágica das histórias que existe na cabeça dos avós fica subitamente vazia, é sinal de que algo se passa. Mas o quê?”, lê-se na sinopse divulgada pela editora. Ao PÚBLICO, o autor disse que queria fazer uma história sobre a doença de Alzheimer. E fez.

A Ovelha Estrelinha e o Gato Chiribi
Texto: António Mota
Ilustração: Cátia Vidinhas
Edição: Edições ASA
32 págs., 11,50€

Texto divulgado na edição do Público de 22 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira.

“Méee, méee”, “nhec, nhec, nhec”. Adoramos estas onomatopeias :)

Escrever de longe e ilustrar de perto, em português

O pretexto foi o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinalou a 5 de Maio. Mas o resultado pode desfrutar-se em qualquer data ou continente.

Um conjunto de 16 histórias contadas por oito autoras de diferentes nacionalidades, mas tendo em comum a língua portuguesa. Aqui se exploram expressões que se equivalem, mas que são ditas de outro modo em função da origem de quem as profere. É o caso, por exemplo, de “quem canta seu mal espanta” (Portugal) / “Cantar é deitar o coração para longe” (São Tomé e Príncipe).

As autoras são Angelina Neves (Moçambique), Céu Lopes (Timor), Lurdes Breda (Portugal), Maria Celestina Fernandes (Angola), Mariana Ianelli (Brasil), Natacha Magalhães (Cabo Verde), Olinda Beja (São Tomé e Príncipe) e Kátia Casimiro (Guiné-Bissau). Quem ilustrou toda esta diversidade de ambientes foi Tânia Clímaco, professora de Expressão Artística e Educação pela Arte, mas também promotora de ateliers de desenho, pintura e cenografia.

Para Tânia Clímaco, este “é um livro maternal, que abriga o respeito pelos mais velhos e pretende manter viva a riqueza do importante legado colectivo de cada país participante”. Como o livro irá viajar para vários países, “é pensado para crianças do mundo inteiro. É um ‘livro partilha’, as histórias são subordinadas a expressões idiomáticas e expressões populares com origem nos países aqui representados”, descreve por email.

Ilustração para texto de Kátia Casimiro (Guiné-Bissau)
A  ilustradora conta como ao enviar à editora, moçambicana, uma primeira ilustração, recebeu como resposta: “Está muito europeu. Os meninos desse país não se vão identificar.” Naquele momento teve a noção de que tinha de se transportar até cada um daqueles países. “Fiz pesquisa exaustiva e isso proporcionou-me uma viagem incrível por cada país. Tive pessoas a partilharem fotografias pessoais, vídeos, histórias das histórias do livro…”

Tânia Clímaco sente que este livro trouxe mais maturidade ao seu trabalho, assim como a noção de responsabilidade quando ilustra. “Antes deste projecto, não tinha pensado que uma coisa tão simples como o padrão da roupa é um detalhe tão importante”, admite.

Também as suas memórias constam do relato que fez ao PÚBLICO: “Além da questão cultural, este é um livro que quer preservar memórias e, quando ilustrava, veio-me à memória uma recordação de infância. Quando era menina, o meu avô contou-me muitas histórias e dizia-me sempre que tinha pena que não fossem gravadas, guardadas essas histórias. Hoje tenho eu pena que elas não tenham sido guardadas. A preservação da memória é muito importante, conta a nossa história dá-nos colo em pequenos e sobretudo em adultos e ensina-nos tanto!”

No final do livro, há um pequeno glossário que ajuda a descodificar palavras e expressões de cada país. Saberá o leitor o que é zungar (Angola), tocaia (Brasil), txota (Cabo Verde), ulilé (Guiné Bissau), milando (Moçambique), peliça (Portugal), mina muê (São Tomé e Príncipe) e lulik (Timor-Leste)? Está lá tudo bem explicado, no capítulo “Trocando por miúdos”.

Contar Histórias com a Avó ao Colo tem como patrocinadores Camões – Centro Cultural Português em Maputo (para a edição em formato digital) e a Rede de Bibliotecas Escolares (para a edição impressa). Pode ser adquirido em Lisboa na livraria Snob e ser lido gratuitamente online em qualquer lugar.

Contar Histórias com a Avó ao Colo
Texto: várias autoras de diferentes países de língua portuguesa
Ilustração: Tânia Clímaco
Coordenação: Teresa Noronha
Edição: Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa

Texto divulgado na edição do Público de 15 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques Sílvia Pereira. Viva a língua portuguesa!

Livros a Oeste no ecrã e fora dele

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                                              Foto de Mareena Metsmaa/Unsplash

Arrancou nesta terça-feira, 11 de Maio, mais uma edição do festival literário Livros a Oeste. Até aqui, assistia-se só na Lourinhã; agora, chega a qualquer lugar.

Depois de uma interrupção no ano passado, a 9.ª edição do Livros a Oeste começou nesta terça-feira, sob o mote “O Reencontro”. Sessões no ecrã e fora dele preenchem cinco dias que procuram dar resposta à pergunta: “Quantas histórias cabem numa história?”

Num total de perto de 40 autores, encontramos nomes como Adolfo Luxúria Canibal, Afonso Cruz, Amosse Mucavele, Manuel Fernando Pinto do Amaral, Gonçalo M. Tavares, Isabel Zambujal, José Luís Peixoto, Mário Zambujal, Miguel Real, Ondjaki, Patrícia Portela, Rachel Caiano, Rui Zink e Sérgio Godinho, entre outros. Irão celebrar a escrita, os livros, a leitura e os leitores, havendo lugar ainda para a música, o teatro e a performance.

Por isso, há Histórias Musicadas, Histórias Partilhadas, Histórias ao Postigo, Histórias Ilustradas e até uma História de Vida, em homenagem a Isabel Mateus, fundadora do Museu da Lourinhã, que morreu recentemente.

Cartaz

Aposta no público jovem

“Se a transmissão online de várias destas sessões não permite absorver toda a energia que sentimos quando assistimos presencialmente a uma conversa ou uma actuação, por outro lado, a utilização do digital permite-nos ampliar o leque de convidados (contornando a distância geográfica) e criar novos formatos, tornando o próprio meio de transmissão e as suas possibilidades técnicas um aliado”, diz o jornalista João Morales, programador do festival, organizado pela Câmara Municipal da Lourinhã desde 2012.

Para ler o texto na íntegra, é este o caminho.

A alegria e o encanto do quotidiano

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Levar a filha à escola num dia banal pode transformar-se num momento inesquecível. “Porque todos os dias deveriam ser especiais”, diz Pedro Seromenho.

“Nesta história, não há reino fantástico nem floresta mágica!”, diz o autor, Pedro Seromenho, ao PÚBLICO. “Não. Aqui, tudo se passa em casa, onde o encanto, a surpresa e a felicidade deveriam morar em cada (re)canto do quarto ou da sala”, acrescenta.

Escrito durante o período de confinamento, em que vimos a liberdade ser-nos temporariamente retirada e “passámos a viver a nossa família de um modo imprevisto e intenso, que nos obrigou a inúmeras mudanças e a sucessivas adaptações”, lembra o também organizador do Braga em Risco – Encontro de Ilustração.

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A pergunta há-de repetir-se ao longo de toda a história: “As rimas incómodas e a pergunta persistente são propositadamente repetidas: — Mia, o que tens na mão?! Poderá ser imediatamente notado e até sobejamente criticado, mas ninguém ficará indiferente. Sabia o risco que corria e fá-lo-ia de novo. De forma exagerada.
Porque, com imaginação, tudo pode caber numa mão: um sorriso, um carinho ou um segredo. Numa casa onde mora o amor, não há esconderijo para o medo.”

Diz que o livro “é um acto de amor e cumplicidade entre um pai e uma filha”. E descreve-o como “uma espécie de jogo de relaxamento, uma brincadeira criativa com o que de mais vulgar a vida tem: o nosso quotidiano”.

De modo bem-disposto e poético, vai contando as conversas de um dia banal: “Não há momentos sublimes, nem tragédias gregas com actos heróicos. Trata-se apenas de mais um dia normal em que saímos de casa, para levar a nossa filha até à escola. Podia ser aborrecido, mas não é.”

O escritor e ilustrador defende: “Todos os dias deveriam ser especiais e todos os pais deveriam ter mais tempo para brincar com os seus filhos. Desta forma, as tarefas mais básicas do dia-a-dia tornar-se-iam momentos inesquecíveis!

Conta ainda. “Como a narrativa se tratava de um diálogo entre nós, resolvi desafiar a minha filha a conversar comigo através da inocência pueril dos seus desenhos. Foi também a melhor forma de desconstruir os meus.” E lembrou-se de Picasso, “para quem a arte de uma criança é suprema e prevalece a tudo o resto”.

Para as ilustrações, usou grafite, lápis de cor, aguarelas e marcadores de pigmentos. Explica também como as guardas do livro (folhas que resguardam o princípio e o fim de uma obra encadernada) fazem parte da história: “Na inicial, estou com a Mia a decidir o que desenhar e o lápis rosa indica ao leitor que será a sua cor. Tudo o que estiver a rosa será da sua autoria. Nas guardas finais, como a Mia é mais jovem e mais enérgica, continua a desfrutar da cor e da liberdade, mesmo depois de o seu pai já ter desmaiado no meio do caos e da balbúrdia!”

As imagens exprimem movimento, alegria e serenidade, mergulhando o leitor na atmosfera fantástica que o autor diz não existir… no livro.

Pedro Seromenho, editor da Paleta de Letras, é presença habitual nas escolas enquanto promotor de leitura. Pretende agora trabalhar e explorar a ideia do livro “com os pequenos através de objectos escondidos nas mãos”. Certamente, irá resultar.

Uma Mão Cheia
texto: Pedro Seromenho
ilustração: Pedro Seromenho e Mia Flor Rocha
edição: Porto Editora
32 págs., 10,90€

Texto divulgado na edição do Público de 8 de Maio de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Uma alegria!

A liberdade das férias grandes

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Há uma altura do ano em que tudo cresce: os dias, as horas, a erva, a sombra. E a liberdade. Disso nos fala Tudo tão Grande, do Planeta Tangerina.

A alegria de ver o tempo a passar e os pés dos filhos a crescer pode muito bem ser transformada num poema, que talvez venha a ser cantado. Pelo menos assim o deseja a autora, Isabel Minhós Martins, que assina o texto de Tudo tão Grande – Canção cada vez maior.

A editora e fundadora do Planeta Tangerina reconstitui ao PÚBLICO a origem deste livro: “Escrevi-o o ano passado, no final da Primavera/ início do Verão, quando a pandemia estava a abrandar e tínhamos um Verão pela frente. Parecia que tudo tinha passado e acho que fui movida por essa alegria: a de que o tempo passa (e nem sempre é mau), os miúdos crescem e nessa altura específica do ano parece que tudo cresce com eles: os dias, as horas, a erva, a sombra.”

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Do livro: “O dia grande/ A lua cheia// A maré alta/ a noite inteira.”

Fazendo mais um esforço de memória, acrescenta: “Começou com a ideia de dois pés descalços, fora dos sapatos, à sombra de uma árvore. E a constatação de que esses pés eram já bem maiores do que no ano anterior. (Estou naquela fase em que fico boquiaberta com o tamanho dos pés dos meus filhos! Deve ser isso.)”
Do livro: “O universo expande/ O ovo estala// O miúdo estica/ Rebenta a escala.”

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Isabel Minhós Martins diz que este texto é a sua “homenagem às férias grandes, a esse parêntesis onde o tempo se alarga e em que uma hora equivale a uma semana e uma semana pode equivaler a um ano, em termos de vivências e crescimento”.

Considera esse “tempo precioso, muito livre, em que temos mais oportunidades de estar mais próximos dos outros e também mais próximos da natureza”. Para concluir: “Nesse contacto, como quem vai atrás desse movimento muito livre, acontece muitas vezes crescermos imenso!”
Do livro: “As férias grandes/ O mergulho fundo// O ar tão livre dá a volta ao mundo.”

Sentir-se pequenino em espaços gigantes

Também o ilustrador, Bernardo P. Carvalho, explorou as dimensões, as proporções e o crescimento. “Adoro paisagens e espaços abertos, sentir-me pequenino em sítios gigantes que nos esmagam. Acho que este poema também é sobre o crescimento, o que vamos absorvendo, sejam palavras, livros ou paisagens incríveis, que nos fazem maiores, cada vez maiores”, disse ao PÚBLICO.

O vencedor do Prémio Nacional de Ilustração no ano passado, com Hei Big Bang! (Ninguém Disse Que Era Fácil), contou ainda que “não foi muito fácil encontrar o caminho que queria” para este Tudo tão Grande: “Para já, este poema é mesmo bonito e não o queria assassinar… com os meus desenhos e, depois, durante o processo ia falando com a Isabel e discutimos outros caminhos, que às vezes parecem uma boa ideia, mas depois não resultam muito bem e não vão dar a lado nenhum de especial, o que pode ser um bocadinho angustiante.” Mas chegaram a um resultado feliz, como sempre.

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Sobre a técnica, quando lhe perguntamos se o registo de manchas-paisagens é para ficar, descreve: “Comecei por fazer colagens, que depois se tornaram colagens digitais, papéis pintados, digitalizados e compostos no computador. Este registo é como todos os outros, uma fase do nosso trabalho que passa muito por isto: experimentar desenhar com outros meios.”

Na contracapa, sugere-se: “Inventa uma música para cantares este livro.” E convida-se os leitores a enviar as canções para a editora. Até agora, ainda não chegaram. Talvez nas férias grandes.

Texto divulgado na edição do Público de 24 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Ana Fidalgo. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre Marques e Sílvia Pereira. Em total liberdade.

A feliz possibilidade de contrariar o destino

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O futuro a nós pertence. A atitude pessoal e o acaso disputam um jogo em que a vitória não está prometida. As personagens de O Retrato mostram-no. “É preciso brigar pela vida”, diz o autor, Clovis Levi.

O livro O Retrato (Aquilo Que Não se Vê)​ parte de uma foto que capta quatro crianças, um bebé, uma cadela e uma “pipa” — em português de Portugal, um papagaio de papel. Esclareçamos já que o autor do texto, Clovis Levi, é brasileiro, carioca, mas também tem nacionalidade portuguesa.

A descrição das características e temperamento de cada retratado conquistam imediatamente o leitor. Sem muita conversa… ficamos a conhecê-los no essencial: o inventor, a mandona, o leitor, a descabelada. Mais a cadela grávida e o bebé emprestado (só para compor a foto). E, claro, o papagaio de papel, que anseia por liberdade.

Será este que nos irá desvendar as misérias e sonhos de cada personagem. Será também o papagaio de papel que nos dará a conhecer o destino de cada uma delas e de si próprio. Aliás, dois destinos para cada. E não os únicos. Já que, como se diz no livro, “a vida tem muitas possibilidades”.

Um novo retrato, dez anos depois, traz-nos ausências, por fuga ou morte, e outras crianças, filhos. Mas haverá ainda um terceiro desfecho ou retrato possível.

Genilda vai para a capital e não tem filhos? Engravida logo aos 13 anos ou vai para os Estados Unidos?

Luan inventa uma máquina gigante para regar o Nordeste? Conserta brinquedos no quintal da sua casa? Ou continua a trabalhar na roça?

Uélinton torna-se escritor e cria uma biblioteca na escola? Trabalha numa fazenda e não lê um livro desde os 12 anos? Ou, aos 20, está a terminar o seu segundo romance de terror?

Chakira consegue ser “médica de todos os bichinhos” num zoo? Tem de cuidar de humanos numa enfermaria ou estuda Teatro no Rio de Janeiro?

Gugu morre aos 11 anos? Ou sobrevive e, aos dez, é considerado músico prodígio, mas a querer ser jogador de futebol?

E a cadela Jupira, que sonhava com sombra, alimento e água? Desaparece ou chega a ter cinco cachorrinhos, que ainda vagabundeiam pelo povoado?

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E o papagaio de papel (“pipa”)? Continuará a ser guiado pela mão de Uélinton? Será libertado pelo seu amor, o vento? Ou vai deixar-se apanhar pela tempestade, rasgar o celofane e morrer, perdendo o voo e a liberdade?

A origem condiciona mas não determina

Tudo isto nos é contado e perguntado cruamente. Se é sabido que os grandes escritores não fazem cerimónia com as palavras, Clovis Levis não faz cerimónia com nada nem coisa nenhuma.

Mostra a pobreza, o desgosto, a morte, o abandono, a sexualidade, a injustiça, sem infantilizar o leitor, mesmo sabendo que pode ser criança ou jovem. O mesmo para a alegria, a festa, a reconciliação com a vida. Escreve com honestidade.

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Sem ignorar que a geografia física e social das nossas origens condiciona o futuro de cada um de nós, lembra e reforça que esta não o determina. Daí os vários percursos possíveis das personagens. Em suma, o exercício do livre-arbítrio.

Tudo isto torna O Retrato um livro comovente e esperançoso. O texto teve uma primeira edição brasileira, da Abacatte, em que as ilustrações de Lelis ampliam o sentido do que é dito e reforçam a atmosfera sombria e triste, numa expressão plástica quente e envolvente.

Perante a edição portuguesa, com ilustrações de Ana Biscaia, espera-se mais um êxito desta dupla, depois da colectânea de contos A Cadeira Que Queria Ser Sofá (Prémio Nacional de Ilustração 2012).

A linguagem verbal de um e a visual de outra interagem de uma forma muito eficaz. O aspecto é o de um storyboard que podia destinar-se a um livro de banda desenhada ou a um guião para cinema.

E as ilustrações de Ana Biscaia, que gosta de usar grafite e tirar partido da sujidade que produz, sem elementos bonitinhos e assépticos, adequam-se à verdade das palavras de Clovis Levi. É por isso que, juntos, conseguem tão bem pôr à vista aquilo que não se vê.

“Em vez de ter sido assim, poderia ter sido assado”

O livro, que tem formato A3 (uma inovação da Xerefé, que até agora se dizia “uma pequena editora de livros pequeninos ilustrados”) e em que o texto surge manuscrito (também desenhado), foi apresentado a 5 de Março, em videoconferência, numa iniciativa do Centro Cultural Penedo da Saudade, do Instituto Politécnico de Coimbra, e em que o PÚBLICO teve uma breve participação no final.

Nessa altura, Clovis Levi contou que a história resultou do conhecimento que teve de uma visita oficial de Lula e do seu então ministro da Educação, Cristovam Buarque, ao Nordeste brasileiro, Sertão. Quatro crianças foram escolhidas e fotografadas para simbolizar aquele projecto de melhoria de vida. A expectativa era a de que muitas crianças tivessem agora a perspectiva de um futuro melhor. Mas… as políticas e os seus actores mudaram entretanto.

Cristovam Buarque há-de voltar ao local para saber do percurso dessas (já não) crianças. Os sonhos daquele primeiro encontro não se traduziram numa realidade feliz, pois esta manteve-se dura.

Este foi o ponto de partida de Clovis para escrever sobre os sonhos e as oportunidades que a vida nos dá. Por isso, diz: “A gente não pode aceitar o destino como uma coisa fechada. Temos possibilidades de mexer no nosso destino. A vida tem muitas possibilidades.

No entanto, não ignora que, “ao mesmo tempo, há casos em que não podemos interferir, coisas que acontecem e que não estão no nosso domínio”. Mas incita os jovens a perseverar: “É preciso brigar pela vida e pelos sonhos.”

O livro tem, portanto, várias partes, como explica o autor: “Primeira parte: os sonhos dessas crianças vão-se confrontando com a realidade miserável que elas estão vivendo. Segunda parte: dez anos depois, mostra-se o que aconteceu. E depois a gente fala: ‘Mas poderia ter sido diferente.’”

E surge outra parte ainda: “Em vez de ter sido assim, poderia ter sido assado. E aí a gente mostra como foi o assado… a gente mostra como as possibilidades são inúmeras e como cada leitor vai ter a oportunidade de propor um final para aquelas personagens.” E também para si próprio.

O Retrato (Aquilo Que Não se Vê)
Texto: Clovis Levi
Ilustração: Ana Biscaia
Edição: Xerefé Edições
45 págs., 20€

Texto divulgado na edição do Público de 17 de Abril de 2021 e no site-satélite Ímpar.

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Na edição impressa, a página foi desenhada por Sandra Silva. A parte de agenda ficou a cargo de Cláudia Alpendre MarquesSílvia Pereira. E é aquilo que se vê…