Dia do Livro (o vício… deve começar na infância)

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Hoje assinala-se o Dia do Livro. Como nos disse há poucos dias Carlos Fiolhais, “quanto mais cedo se começar, melhor” e “quando se lê em criança, o cérebro cresce, desenvolve-se”. Podem ver o artigo divulgado no Público aqui. Um texto escrito a propósito dos 10 de Letra, que assinalou os dez anos de vida literária de João Manuel Ribeiro.

(Imagem aqui reproduzida da autoria de Yara Kono, claro!)

Porque não se pode ignorar o bullying

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“Quase toda a gente disse que não estava bem que o cão tivesse derrubado o rapaz e o tivesse mordido, mesmo que ele o merecesse. Se calhar tinham razão. Mas eu não podia culpar o Adão. Se fosse tão grande e forte como ele, talvez tivesse feito bem pior!”

Quem assim nos fala é Violeta, uma gata. O Adão é um cão. Já leva 12 anos de vida (se fosse um humano, tinha 84, “temos de multiplicar por 7”) e gosta de comer gotas de chuva. “Tem uma natureza poética”, diz o dono. O dono não, o “pai”. É assim que os animais se referem a Sílvio, o adulto que os acolhe em casa. Margarida é a “mãe”.

Há um terceiro “irmão”, o Zé. “É um rapaz e tem 11 anos — em anos humanos, claro. O equivalente para um cão seria menos de 2!” A Pi, irmã mais velha do Zé, completa a família. Tudo corria bem, até o rapaz começar a ter um comportamento diferente, a não se interessar pela flauta nem pelo futebol (antes, queria ser guarda-redes) e chegando a tratar mal os “irmãos” mais novos.

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Adão e Violeta não irão desistir de compreender o que se passa com o Zé nem deixarão de o ajudar a recuperar o seu “sorriso entusiasta”. É de família que se trata.

Uma história comovente sem deixar de ter momentos divertidos e que fala de um modo original dos efeitos do bullying nas crianças, que tanto as fragiliza e as torna infelizes.

O Cão Que Comia a Chuva mereceu o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância 2018, que foi entregue aos autores, Richard Zimler e Júlio Pomar, na quinta-feira passada, em Coimbra. Palavras do júri: “Um livro de artista em que convivem, magistralmente, duas narrativas — o texto e as imagens.” Tal e qual.

O Cão Que Comia a Chuva
Texto: Richard Zimler
Ilustração: Júlio Pomar
Design: Henrique Cayatte
Edição Porto Editora
48 págs., 13,30€

(Texto divulgado na edição do Público de 7 de Abril, página Crianças.)

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Página completa, com sugestões de actividades em família, via Guia do Lazer.

Um elogio às hortas comunitárias

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Porque já é Primavera e é tempo de semear as suas cenouras, o coelho Simão decide tratar da horta.

Começou por construir uma cerca, para delimitar o terreno, “preparou a terra”, “arranjou sementes e espalhou-as”. Depois foi regando e esperando, “e elas, pouco a pouco, foram crescendo”. Chegou então o dia de as apanhar. “Eram tantas!”

O rato Paulo ofereceu-se para ajudar o Simão, apesar de ele “não ser lá muito simpático”, e acabou por sugerir que plantassem alfaces. Veio a galinha Clara e achou que também eram “precisos tomates”, o Isidoro queria beringelas, o Tiago preferia milho, a Maria “queria morangos para a sobremesa”.

No meio da azáfama hortícola, os animais nem deram pelo desaparecimento do Simão. Ficaram então a pensar que ele tinha ficado zangado por já não ter espaço na horta para as suas cenouras. Estavam enganados. E ainda bem.

Afinal, o Simão estava a preparar uma surpresa bem simpática para os amigos agricultores…

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Um livro que elogia o trabalho colectivo e a convivência, mas também o contacto com a natureza.

A autora, argentina, diz ter-se inspirado na horta comunitária do seu bairro. A técnica usada, que a editora explica na divulgação, é a “estampagem com carimbos; um processo criativo muito trabalhoso, porque todas e cada uma das partes de todos e cada uma das personagens e dos utensílios representados foram impressos individualmente com o seu respectivo carimbo”. O resultado é muito expressivo.

Rocío Alejandro estudou Design Gráfico Publicitário, mas considera a ilustração para a infância a sua “verdadeira vocação”. A Horta do Simão  ganhou em 2017 o X Prémio Internacional de Compostela para Álbuns Ilustrados e é aconselhado a crianças com mais de cinco anos.

A autora é também professora de Ilustração Infantil no espaço Mundos Ilustrados, em Buenos Aires. Não sabemos se lança sementes à terra, mas já tem uma bela colheita de livros. E muito apetitosos.

A Horta do Simão
Texto e ilustração: Rocío Alejandro
Tradução: Elisabete Ramos
Edição: Kalandraka
44 págs., 14€

(Texto divulgado na edição do Público de 31 de Março, na página Crianças.)

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A página completa, com as habituais sugestões do Guia do Lazer.

O pequeno torna-se grande num livro*

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* Título da mensagem deste ano (2018) do IBBY para assinalar o Dia Internacional do Livro Infantil. Da autoria da escritora Inese Zander (Letónia).

As pessoas inclinam-se para o ritmo e para o equilíbrio, tal como a energia magnética organiza as aparas de metal numa experiência da física, tal como um floco de neve forma cristais a partir da água. Num conto de fadas ou num poema, as crianças gostam de repetição, de refrãos e de temas universais, porque eles podem ser reconhecidos uma e outra vez – trazem ao texto regularidade. O mundo ganha uma ordem bonita (…)

Podem ler o resto do texto (em português) aqui; se preferirem em inglês, sigam-nos.

O cartaz português (em cima) é da autoria da ilustradora Fátima Afonso, convidada da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas por ter sido a vencedora do Prémio Nacional de Ilustração do ano passado.

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O cartaz do IBBY internacional é assinado pelo ilustrador Reinis Petersons (Letónia). Conheçam-no melhor.

No dia 2 de Abril comemora-se em todo o mundo o nascimento de Hans Christian Andersen. A partir de 1967, este dia passou a ser designado por Dia Internacional do Livro Infantil, chamando-se a atenção para a importância da leitura e para o papel fundamental dos livros para a infância.

Ora aí está algo de que Letra pequena não duvida. Por isso, continua por aqui… (continuem também)

Todas as crianças são inteligentes

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Logo na capa revela-se o que está dentro do livro: “48 desafios para descobrires o Génio que tens em ti.” Mas o convite da contracapa é mais eficaz e esclarecedor: “Olá, eu sou o Génio, um monstro Genial! Adoro divertir-me e pôr-me à prova com todo o tipo de desafios. E tu? Se alguma vez pensaste que não és inteligente… Esquece!

Ali também se dá conta de que o leitor será convidado a desenhar, escrever, recortar, colar, dançar, usar o livro como uma bateria e a resolver problemas invulgares. Tudo verdade.

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Exemplo do desafio Viagem Espacial: “Imagina que vais a Marte numa nave espacial. Depois de uma longuíssima viagem, ao chegar, dás de caras com um marciano. O que fazes?” A seguir pede-se à criança para se desenhar nesse planeta. Depois, mais desenhos são sugeridos, sob o mote: “Não sabes a língua dele, mas ajeitas-te a desenhar, pelo que pegas no teu caderno e desenhas algo que signifique: ‘Venho em paz’; ‘Quero ser teu (tua) amigo(a); ‘Venho da Terra’”, entre outras tentativas de comunicação.

No exercício Um Mimo Muito Falador, explica-se inicialmente que “um mimo é um actor que se exprime por gestos”, para então se dizer à criança para observar as diferentes expressões nas imagens reproduzidas. O desafio é então descodificar o que é que o mimo sente em cada um daqueles momentos. Para isso, há que fazer corresponder a cada emoção uma frase.

As emoções registadas são: alegria, medo, surpresa, tristeza, irritação. As frases são: ganhou a lotaria, a pessoa de que ele gosta não lhe liga, acaba de ver um bicho enorme e horripilante, está há muito tempo à espera de um amigo que chega tarde, surpreendeu-se muito ao saber de uma notícia.

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Também há exercícios físicos, como o de equilibrar um livro na cabeça enquanto se passeia pelo quarto, depois pôr-lhe um lápis por cima e depois um berlinde. E ir anotando quantos segundos se aguentou sem que nada caia ao chão.

Um livro divertido e formativo baseado na teoria das inteligências múltiplas, que defende que “em todos nós há oito tipos diferentes de inteligências”, querendo a autora concluir que “não há crianças mais inteligentes que outras, mas sim crianças que têm uma ou outra inteligência em maior ou menor grau”.

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Begoña Ibarrola é psicóloga e especialista em inteligência emocional, inteligências múltiplas e musicoterapia. Foi terapeuta infantil durante 15 anos. Aqui, fornece um guia para ajudar a identificar a inteligência dominante de cada leitor.

Os miúdos vão divertir-se com uma surpresa no final e com a feliz descoberta de que também eles podem ser geniais.

Texto: Begoña Ibarrola
Ilustração: Víctor Montes
Design: Kim Amate
Adaptação: Guidesign
Edição: Planeta Júnior
112 págs., 14,41€

Texto divulgado na edição do Público de 24 de Março, na página Crianças.

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Aqui fica a página completa, com a colaboração do Guia do Lazer e as suas actividades para toda a família.

As bicicletas são os automóveis dos poetas

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Um texto poético, bem-humorado e que foi publicado pela primeira vez em 1971, pelo autor surrealista António José Forte (1931-1988).

A primeira edição que se nos deparou datava de 2001, com capa e desenhos da sua mulher, Aldina Costa, numa edição bonita e cuidada da Parceria A. M. Pereira. Logo ali nos rendemos ao ritmo, ironia e talento do autor. Da ilustradora também.

Para mais, já admirávamos António José Forte no trabalho de encarregado das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Como se recorda na contracapa desta nova edição, “percorreu Portugal numa carrinha Citroën, levando o prazer da leitura a vários recantos do país”. Também ali se lembra que “gostava de cidades, elefantes e bicicletas”.

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Mostremos então as suas palavras: “Em Amesterdão/ cidade da Holanda/ há uma bicicleta branca/ que pertence a mil poetas// Quero eu dizer que nenhum poeta/ tem nenhuma/ e todos têm uma bicicleta// É por isso que eu acho/ que as bicicletas/ são os automóveis dos poetas.” Lindo.

Nesta nova edição, as imagens são mais coloridas, às vezes quase berrantes, mas é dito e assumido pela editora que Mariana Malhão, que aqui se estreia num álbum ilustrado, “gosta de arte folclórica russa e de cores e formas vibrantes”.

Há ilustrações felizes, outras nem tanto, por demasiado infantis. Primárias, digamos assim, porque próprias de quem está no começo. É avançar.

Vamos então ao poema que dá título ao livro: “Um dia nasceu uma rosa na tromba de um elefante/ mesmo no nariz de um gigante, uma rosa é sempre elegante// Porém o que é que acontecia?/ como a rosa era branca e o elefante branco era/ ninguém sabia que havia/ uma rosa elegante na tromba do elefante (…)”

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Quem quiser conhecer melhor este livro pode ir hoje, às 16h, à Livraria Ler Devagar, em Lisboa (Lx Factory), escutar a filha do escritor, Gisela Forte, a quem este livro é dedicado, conversar com a ilustradora e com a editora, Carla Oliveira.

Terá ainda oportunidade de assistir à actuação do actor Zé Bernardino e do músico Artur Pispalhas, num concerto-poema, “com cordas, máquinas e bicicletas”.

As ilustrações do livro estão expostas e disponíveis para venda ao público. No final, há lanche para todos. Mesmo que não apareçam de bicicleta. (Nem de elefante.)

(Texto divulgado na edição do Público de 10 de Março, na página Crianças.)

Uma Rosa na Tromba de Um Elefante
Texto: António José Forte
lustração: Mariana Malhão
Edição: Orfeu Negro
44 págs., 14,50€

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Página completa publicada na edição em papel, com sugestões de actividades em família, via Guia do Lazer.

Desafiar os deuses e vencer

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… ou a possibilidade de sermos o que quisermos. Sonhando primeiro, mudando depois.

Não é fácil para uma criança crescer somente rodeada de adultos. Por mais atenção que lhe seja dada, falta-lhe a experiência de ter amigos da sua idade com quem brincar, zangar-se e viver a alegria de se reconciliar.

Nada disto tem Tattoo, uma menina comilona cujo nome resulta de uma pequena tatuagem no rosto. As suas melhores amigas são as árvores, que abraça e escuta. “Elas honram a terra e a água que lhes dão vida.”

Mas a menina tem um plano para atrair crianças para junto de si. E envolve um pinheirinho de Natal.

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Antes de darmos a conhecer o plano, vejam como Tattoo se entretém: como é muito pequenina, “dá pela altura dos joelhos dos adultos lá de casa, passa quase sempre despercebida, logo, goza de muita liberdade de movimentos. Quando se sente aborrecida, distrai-se com o vaivém das pernas da família: estuda-lhes o trajecto da cozinha para a sala, da sala para o alpendre e do alpendre para os quartos. Como já tem muitas horas de estudo, Tattoo calcula o número de rugas da cara pelo número de pregas nos joelhos. — Nunca falha! — gaba-se ela. Ah e também consegue identificar todas as pessoas da família só pelo andar.”

A pequena está sempre desejosa de se ir deitar porque há umas noites que sonha com um cavalo branco, muito vaidoso e até rabugento, mas que a vai acompanhar na aventura de desafiar os deuses.

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Tattoo quer que eles a ajudem a encontrar uma história, “que não poderá ser uma história qualquer”, para enfeitiçar as crianças. A história será enterrada aos pés do pinheirinho, e este “ganhará um brilho próprio, muito para além das luzes e dos ricos enfeites artificiais”.

A menina acredita que as crianças, “sem perceberem muito bem porquê, farão fila para estar perto da árvore de Natal mais extraordinária que alguma vez existiu ao cimo da Terra e debaixo do Céu. E depois… ‘Haverá melhor forma de fazer amigos?’, cogita ela. ‘Não.”’

Este é o livro de estreia da actriz Margarida Marinho no sector infanto-juvenil, que aqui revela sensibilidade, imaginação e domínio da escrita.

Como é muitas vezes comum em primeiros livros no universo infantil, a autora inspirou-se nos filhos. Informa a editora que, “quando nasceu Manuel, hoje já adulto, nasceu a ideia desta história”. À filha Carlota “foi buscar vida para dar vida a Tattoo”. Fez bem.

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As pequenas ilustrações da lituana Lina Düdaité são discretas, mas ajudam a entrar no universo mágico da narrativa. E da Lua.

A ilustradora diz que, “quando está a desenhar, não tem propriamente um plano ou objectivo. Simplesmente, faz o que tem prazer em fazer e é assim que vive”.

Não vamos desvendar o final, mas fiquem sabendo que os deuses, que não gostam de ser importunados, não irão facilitar a vida a Tattoo. Mas a menina está determinada e já aprendeu a desejar com o coração. Isso nenhum deus pode contrariar.

Tattoo — De Noite, Um Cavalo Branco
Texto: Margarida Marinho
Ilustração: Lina Düdaité
Edição ASA Editora
120 págs. 9,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 3 de Março, página Crianças.)

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A página completa, com as habituais sugestões de actividades em família, via Guia do Lazer.

No princípio, era… a semente

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A transformação de uma semente numa árvore é aqui contada e ilustrada de forma inspirada e poética. “Começa numa semente. Mas o que será, mais à frente? Uma raiz, um rebento, algumas, poucas folhinhas. Com o correr das semanas, cresce o rebento, altaneiro: para as joaninhas, um trono; para as libelinhas, poleiro! Mas sonha ser bem maior, chegar mais alto do que agora. Furar pelo solo adentro, esticar-se pelo céu afora.

Com o decorrer das estações, a semente há-de concretizar o sonho e tornar-se uma árvore imponente, rodeada de animais de muitas espécies.

“Crescem fortes os seus ramos, que dão sombra e abrigo: uma casa onde os animais se sentem fora de perigo.”

Explica-se no final que a árvore de que aqui se conta a história é uma Acer pseudoplatanus, de nome comum “bordo” (no livro, a designação latina aparece escrita de forma errada). Também se informa que uma única árvore destas “pode produzir até 10 mil sementes por ano”, a que chamam “helicópteros”, já que as sementes, ao caírem, fazem uma espécie de rodopio no ar.

Mal as sementes estão prontas, partem no sopro da brisa… e talvez algumas delas venham a ser um dia… árvores cheias de vida.”

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O livro venceu o prémio de não ficção infantil Margaret Mallett. A cada página, vamos acompanhando o desenvolvimento da árvore, tanto das raízes como do tronco e da folhagem. A fazer lembrar ilustração científica.

Com o avançar das estações, vão-se juntando à árvore borboletas, aves, coelhos, esquilos e outros animais desenhados com saber.

Jennie Webber é especializada em gravura e os seus trabalhos são inspirados na natureza e na sua conservação. O próximo livro será sobre a Grande Barreira de Corais. É professora e desenvolveu oficinas criativas para o Museu de História Natural, o British Science Festival e a Dulwich Picture Gallery.

Os bordos podem durar 400 anos e chegar até aos 35 metros de altura. “Uma árvore gigante, por demais impressionante.”

Começa Numa Semente
Texto: Laura Knowles
Ilustração: Jennie Webber
Tradução: Susana Cardoso Ferreira
Edição: 2020 Editora/Fábula
40 págs., 13,99€

(Texto divulgado na edição do Público de 24 de Fevereiro de 2018, na página Crianças.)

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Na edição em papel, saiu assim (tão bonita), com a colaboração de Sandra Silva. O Guia do Lazer está sempre presente nas escolhas de actividades culturais em família.

Para conhecer outros trabalhos de Jennie Webber, entre por aqui.

Pierre Pratt emprestou-nos a voz (e o sotaque)…

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… em mais um Livro para Escutar do Letra pequena. O autor esteve no estúdio do Público a ler Boa Noite!

O Sr. Silva chega sempre a casa ao final do dia. Vem cansado. Mora mesmo no cimo de um prédio com 96 andares”, lê-se no início do livro, ao mesmo tempo que se mostra o protagonista a subir uma escada bastante íngreme. Percebe-se imediatamente que estamos a entrar no domínio do absurdo. E gostamos.

Nas páginas seguintes já o Sr. Silva está dentro de casa e começa a despedir-se do que traz vestido. Diz “boa noite” ao chapéu, “até amanhã” ao casaco, à gravata, ao cinto e a tudo o mais que usara nesse dia. Outras despedidas se seguem a vários objectos: “Também está na hora de o livro e os óculos irem dormir.” Até os dentes postiços merecem um simpático “boa noite” do Sr. Silva.

E mais não contamos. Só diremos que vale a pena ler e ver até ao fim. A história começa logo na capa, onde o protagonista, com a sua roupa colorida, se dirige a um prédio com uma chave na mão. Vai para casa.

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Um livro com um certo humor surreal, que faz rir crianças e adultos. Foi publicado pela primeira vez em 2014, em francês, Bonne nuit!, pelas edições Thierry Magnier (Paris). Mas esta história foi inicialmente pensada para adultos, chegando a ser divulgada em formato de banda desenhada.

Era uma história mais pesada”, conta o autor. Mas, como tinha potencial para ser adaptada ao público infantil, “pelo ritual antes de ir dormir”, decidiu fazer esta versão. Ainda bem.

Pierre Pratt nasceu em Montreal, Canadá, onde se formou em Design Gráfico. Nos anos 1980 publicou algumas bandas desenhadas, mas a ilustração acabou por se impor como trabalho. Já publicou cerca de 50 livros para crianças.

O ilustrador vive em Portugal há dez anos, altura em que leccionou Ilustração e BD no ArCo (Centro de Arte e Comunicação Visual), em Lisboa. Recebeu vários prémios internacionais e foi finalista do Prémio Hans Christian Andersen em 2008.

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Por cá, ilustrou títulos como A Fábrica do Tempo, texto de Sílvia Alves (Livros Horizonte); Lusco-Fusco, de Cristina Carvalho (Sextante Editora), O Sapateiro, de Alice Vieira (Caminho), A Galinha Que Cantava Ópera, de Luísa Costa Gomes (Dom Quixote), O Homem Que Engoliu a Lua, de Mário de Carvalho (Ambar Editora).

Até amanhã, Sr. Silva!

Boa Noite!
Texto e ilustração: Pierre Pratt
Tradução: Maria Afonso
Edição: Orfeu Negro
24 págs., 9,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 3 de Fevereiro, página Crianças.)

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Eis a página publicada na edição em papel, com as habituais sugestões de agenda para toda a família, via Guia do Lazer.

Se quiserem conhecer melhor os trabalhos de Pierre Pratt, façam favor de entrar.

Os narizes compridos de João Vaz de Carvalho

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Uma colecção de contos de Luísa Ducla Soares com ilustrações de João Vaz de Carvalho. Histórias de rapazes de narizes excessivamente compridos, meninas exageradamente bondosas, rapazes incompreensivelmente medricas e senhores absurdamente fortes.

Juntar a boa disposição de Luísa Ducla Soares ao humor de João Vaz de Carvalho só poderia resultar num livro muito divertido e livre. Cheio de talento.

Aqui não se faz cerimónia com as palavras e assegura-se gargalhadas junto do pequeno leitor. Seja pela escrita, seja pela imagem.

Fala-se de cuecas e rabos, temas que logo fazem as crianças rir-se, embaraçar-se ou corar. Toda a narrativa e estética concorre, de forma bem-humorada e na lógica dos mais novos, para episódios e reflexões à volta do absurdo e dos extremos. E os miúdos sempre gostaram disso.

 

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Há um nariz excessivamente comprido, uma menina exageradamente bondosa, um rapaz incompreensivelmente medricas e um senhor absurdamente forte.

O rapaz do nariz comprido metia sempre o nariz onde não era chamado. Durante as aulas metia o nariz no recreio. Quando ia no autocarro metia o nariz em cima das meninas do banco da frente (…)” Não vamos contar muito mais, mas fiquem sabendo que um dia “meteu o nariz na jaula dos leões”. Imaginem então o que lhe aconteceu.

A menina boa (…) não jogava à bola para não estragar a relva, não corria para não romper os sapatos, não limpava o rabo para não gastar papel higiénico.” É disto que trata o segundo conto deste livro, que conclui “que pena uma menina tão boa não ser ao menos um bocadinho má”. É que a rapariga até oferecia chazinho e torradas aos ladrões…

O menino medricas deste livro tentou rodear-se de animais que o defendessem, mas correu tudo mal, já que os bichos deixaram-se contaminar pelos seus receios: um cão, um gato, um rato e até um grilo. Um dia, o rapaz disse: “Isto é demais!” E atirou-se de cabeça para o lago. “Agora chamam-lhe Miguel sem Medo.”

Já o senhor forte demonstrou logo no berço a sua força, ao brincar com “uma grande roca de chumbo”. Mas cresceu e a saga continuou: “Se havia uma avaria nos comboios, prendia à cintura dez carruagens e largava a correr de Lisboa até ao Porto.” (Como se vê na ilustração maior desta página.)

A concluir, Luísa Ducla Soares revela mais uma vez o seu sentido crítico e mordaz, quando diz que o senhor forte irá atirar à mão o primeiro foguetão português até à Lua. “Esperamos que não erre a pontaria…” Pois.

O Rapaz do Nariz Comprido e Outros Contos
Texto: Luísa Ducla Soares
Ilustração: João Vaz de Carvalho
Edição: Livros do Horizonte
40 págs., 13,90€

(Texto divulgado na página Crianças da edição do Público de 16 de Dezembro de 2017.)

Para conhecer outros trabalhos de João Vaz de Carvalho (quase sempre com personagens narigudas), venha por aqui.

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A página completa saiu assim, com as habituais sugestões do Guia do Lazer.

Do grande e do pequeno

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Do pequeno e do grande. Do medo e da coragem. De um rato e de um leão. O primeiro, invisível e silencioso; o segundo, exuberante e ruidoso. O rato quer ser como o leão.

Descubra as diferenças. O pequeno: “Ele era tão pequenino – nem dá para acreditar – que ninguém nele reparava, mas nunca, nem pensar. Uns pisavam-no, outros sentavam-se nele, sem verem a pobre criatura. Ah, sim… vida de rato é bem dura.”

O grande: “Entretanto, muito em cima, lá no alto do rochedo, as coisas eram diferentes. Havia um leão… que medo! O bicho grande e dentudo fazia a todos sentir a importância que tinha pela força do seu… rugir.”

Acredita o rato que, se aprender a rugir, tudo será diferente. Vão deixá-lo pertencer ao grupo, fará novos amigos e terá uma vida melhor. Põe-se então a caminho de um encontro com o leão. Está convicto de que será o “chefe da família” dos animais que o ensinará a ter voz.

“Sentia que era assustador o que ali ia tentar… mas, se queremos mudar as coisas, primeiro temos de ser nós a mudar.”

É disto que fala O Leão Que Temos cá Dentro. Não nos parece coisa pouca, mesmo que muitos olhem para aquela afirmação como uma “frase batida”, a de que a mudança começa sempre em nós. Pode até ser uma ideia estafada… para os adultos; para as crianças, não.

A autora do texto é britânica e tem um apelido curioso, Bright, que aproveitou para dar nome à sua página online: Look on The Bright Side. Que se pode traduzir por algo como “veja o lado positivo/bom”. Por isso, não admira que na biografia da escritora divulgada na editora se escreva: “O seu trabalho para a infância inclui uma série de histórias e personagens inspiradas em animais, poemas e mensagens afectuosas.”

Percebe-se o esforço do tradutor para manter o ritmo do texto original e de encontrar as palavras certas para que as rimas funcionem em português. Há soluções felizes, outras nem tanto. Mas, no conjunto, a leitura é escorreita e dá vontade de a fazer em voz alta.

O ilustrador, Jim Field, é também “designer” e dirige filmes de animação, como se adivinha pelas formas, expressões, dinâmica e localização das personagens na sequência de páginas. Ganhou o prémio Booktrust Roald Dahl Funny em 2011 pelo livro de fotografia “Cats Ahoy”, com texto de Peter Bently. Também já desenhou para histórias de Kes Gray, Michelle Robinson, Michael Broad, Jeanne Willis, Steve Cole e para o comediante David Baddiel.

E afinal o que se passou com o rato medroso que por instantes se revelou destemido?

Chegado junto ao leão, eis o que aconteceu: “O Leão, todo a tremer, começou a recuar, e andando para trás caiu de patas para o ar! ‘Não me faças mal!’, gemeu. ‘Oh, peço-te por favor!’ Não é que o grande Leão de ratos tinha pavor?

Assim se iniciou uma bela amizade. Cada um com o seu tamanho, mas os dois a sentirem-se grandes. Na voz e no afecto.

O Leão Que Temos cá Dentro
TextoRachel Bright
TraduçãoCarlos Grifo Babo
RevisãoSónia Silva
IlustraçãoJim Field
EdiçãoEditorial Presença
64 págs., 10,90€

(Texto divulgado na edição do Público de 2 de Dezembro.)

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Na edição em papel, saiu assim. Com sugestões de actividades culturais em família, via Guia do Lazer.

Cada estação, seu paladar

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Primavera, Verão, Outono, Inverno. Já não são muito nítidas todas as características das quatro estações do ano que nos cabem a esta latitude, mas Manuela Leitão e Catarina Correia Marques recuperam poeticamente os sinais, os tons e os sabores de cada uma delas. Sem preferências, antes contemplando e respeitando o que nos oferecem.

Escreve-se (com verdade) na contracapa: “Para que as plantas floresçam na primavera, é preciso que, antes disso, o inverno as embale na terra, que o outono lhes espalhe as sementes ao vento, que o verão lhes amadureça os frutos. Os animais vão e vêm, conforme faz mais frio ou mais calor, e até nós nos comportamos de maneira diferente, com alegrias e afazeres próprios de cada tempo. Nenhuma estação faria sentido sem as restantes. Bom mesmo é sabermos contemplar a beleza de cada uma delas – essa espécie de poesia de que nos apercebemos não só com os sentidos, mas, sobretudo, com o coração.”

Comecemos pelas cerejas, um fruto da Primavera que aqui se evoca com uma tradição de muitas famílias de as usar como brincos. “Quando ela come cerejas,/ Daquelas gordas, vermelhas,/ Põe sempre quatro ou cinco,/ Como se fossem um brinco,/ A enfeitar as orelhas! // (Eu sei, eu sei… A minha mãe, às vezes, parece uma criança!)”

Passemos agora por uma esplanada, que é Verão: “Desculpe,/ Posso fazer-lhe o pedido?…/ Traga-me um dia comprido, / Em copo alto, de vidro,/ Com gelado,/ insetos e flores. (…)” Seguem-se pedidos de melão, ameixas, coco ralado e, “no fundo do copo, um pêssego alaranjado”. E porque o sol está forte há-de ser preciso uma sombrinha.

Veado

Vamos depois passear nas serras, que o Outono já chegou e traz com ele um belo menu serrano: “Fui à serra da Lousã,/ Levei comigo a Isabel:/ Comemos castanhas assadas,/ Comprámos um frasco de mel. // Fui à serra de Montesinho,/ Levei comigo o Edgar: /Almoçámos cogumelos/ E lanchámos um folar (…)”

O passeio estender-se-á ao Gerês (caldo verde e aletria), à serra de Santa Bárbara (funcho e doce Dona Amélia), da Estrela (pão de centeio e requeijão) e à serra de Monchique (batata-doce, bolo de alfarroba e figos).

E eis que chega o Inverno, a encerrar o desfile das estações. Com ele, vêm as romãs: “Comi uma romã/ De pernas para o ar./ será por isso que me estou a apaixonar?”

Centrámo-nos nos frutos, mas poderíamos ter escolhido as árvores, as flores, a temperatura ou as aves. Muitos elementos e cenários compõem as páginas deste livro, que alia com eficácia aprendizagens e fruição — estética e literária. Só para lembrar, estamos no Outono.

Poemas para as Quatro Estações
Texto | Manuela Leitão
Ilustração | Catarina Correia Marques
Edição | Máquina de Voar
48 págs., 11,95€

(Texto divulgado na edição do Público de 25 de Novembro, na página Crianças.)

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Aqui fica a página completa, com sugestões de actividades culturais para toda a família. Via Guia do Lazer.