A natureza é “paciente”. E nós, em pleno safari africano?

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Dezenas de delgados springböckes param-nos numa longa estrada de gravilha. De tão elegantes, quase dão a ideia que posam para mais uma fotografia, mais um elogio. “Parecem de veludo”, alguém murmura, tal é o lustro do pêlo. De repente, ainda estamos nós a digerir tamanho espectáculo, chega do rádio do jipe uma voz roufenha que, entre códigos, anuncia um acontecimento: foi avistada uma chita, o que não é algo que se ouça a toda a hora. Só há uma coisa a fazer. Prego a fundo, ou o que for possível neste todo-o-terreno bamboleante.

Para trás os springböckes, para a frente pó, velocidade, a promessa de uma visão. E, ao volante, o guia Daniel Anton entusiasma-se com o entusiasmo que transporta. Dois ou três carros estacados indicam que chegamos ao sítio certo; em cinco minutos já serão uns 15, que ali acorreram pela mesma razão (alguns de turistas sem guia que, infelizmente, nem sempre cumprem conselhos como não buzinar). E a sensual chita aqui ao lado, bem pertinho da estrada, a deambular pela vegetação rasteira como se estivesse numa qualquer passerelle africana.

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Tivemos sorte, mesmo muita sorte, neste dia de safari no Etosha, o mais popular parque nacional da Namíbia, que, com 22 mil km2 de área, é a gigantesca casa protegida de milhares de animais – leões, leopardos, elefantes e rinocerontes incluídos.

Pouco depois, seríamos brindados com uma daquelas cenas que nos prendiam os olhos juvenis nas manhãs de domingo na televisão. A narração cresce na nossa cabeça: uma leoa, um gnu, uma perseguição serena, paciente, demorada. Não sabemos se consumada ou não – o ataque, a ter acontecido, já saiu do nosso campo de visão. Mas ali estivemos nós, no topo de um jipe, tal como mais umas centenas de cabecinhas caucasianas, todas empoleiradinhas a ver, e a aprender, a origem do mundo.

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“A natureza é paciente. É também o truque nos safaris. Temos de ser pacientes.” Enquanto fala, Daniel percorre as bermas com olhar de lince. Tem 29 anos, quase 30, e um terço passou-os ao volante de um carro enquanto guia da Etosha Game Viewers. Para ele, que faz isto todos os dias, que já presenciou milhares de momentos BBC Vida Selvagem, cada viagem é como um “jogo”, uma espécie de “caçada de imagens e experiências”. A pergunta é “o que será que a natureza me vai dar hoje para eu mostrar aos visitantes?”

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Hoje, em Namutoni, já se viu um rinoceronte, ainda para mais branco, mas não se encontraram elefantes. Estamos no fim das chuvas na Namíbia e os paquidermes tendem a resguardar-se mais, precisamente porque não precisam de procurar água. E ainda hoje choveu. Do rádio vão surgindo perguntas: “Number 3, number 3? And number 2?” A cada animal corresponde um número, o top 5 dos safaris africanos. São eles universalmente o rinoceronte, o leão, o elefante, o búfalo e o leopardo, embora aqui no Etosha a regra tenha sido adaptada: como não há búfalos, a chita ocupa o lugar.

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Daniel percorre a área onde os elefantes costumam estar e não há sinal deles. Ali ao redor do desértico Etosha Pan uma família de raposas-orelha-de-morcego dá um ar da sua graça, uma águia observa-nos com altivez, pássaros de asas coloridas cruzam a paisagem. Mas ao fim de uma hora nada de elefantes, o animal preferido de Daniel. Porque é “inteligente e bem comportado, a não ser que seja provocado”. Há que “respeitar a natureza e ela vai respeitar-te”.

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Passa um carro, desce o vidro e o passageiro abana a cabeça. Nada. “But we try”, diz Daniel. Tentamos e vamos em frente porque nunca se sabe o que pode acontecer. “Cem animais podem ter cruzado a estrada entretanto”, diz ele. Pouco depois, boas notícias. Marcas na estrada denunciam uma passagem. Há pegadas, buracos, dejectos, tudo indica que passaram por aqui nas últimas horas. Daniel olha para a esquerda, olha para a direita, ainda nada, mas estamos optimistas. “We try.” É isso.

E eis que, numa descida, olhamos para a esquerda e um grupo de majestosos elefantes surge no nosso horizonte. E não é miragem, que aqui também as há. Mais à frente dois estão mesmo na berma da estrada e acabam por a atravessar a poucos metros do nosso carro que, de repente, pareceu encolher (respeitinho!). Daniel pega no rádio e faz o seu anúncio um par de vezes. Depois estende-me o telemóvel para a mão e pede-me para tirar uma fotografia aos elefantes que estão do meu lado. Vai enviá-la aos outros guias. “Pensam que estou a gozar, não acreditam.”

A Fugas viaja pela Namíbia a convite da Across

Olá, chamo-me Sofia Lorena e perco aviões

(e nunca vou poder pedir o ESTA para entrar nos EUA)

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São uns quantos já. Sempre, ou quase, no mesmo sentido. Há qualquer coisa que me faz perder aviões no regresso. Na partida, nem por isso. Por duas vezes até cheguei um dia antes à Portela. Uma vez cheguei um dia depois, mas não sabia. Nos que cheguei antes também não. Calhou assim. Há uns meses, confesso, perdi um à partida e era o dia certo. Já tinha feito ocheck-ine tudo. Olhei e li mal, estive o tempo todo a ver o segundo voo do dia da Turkish para Istambul e, claro, ainda não tinha porta de embarque atribuída. Não fez mal, fui nesse mesmo. Mas no regresso, oh pá, no regresso, já perdi vários. Tantos. Nunca tinha perdido um à ida assim. Em casa e o avião a partir. Todos os telefones a tocarem, a minha campainha também, despertadores até. Tudo a apitar e nada. Eu não queria ir? Queria, claro que queria. Mas não devia mesmo querer ir naquela sexta-feira às 9h30. Por algum motivo, tinha de perder aquele avião e ir, sim, ir sempre, mas noutro, uns dias depois.

Eu, que já tinha passado um Natal em Havana e estava doidinha para lá estar na Noche Vieja, acabei a perder a passagem de ano cubana. Nem um só balde de água da sorte me despejaram em cima. Não faz mal, bebi todos os meus mojitos depois, vi todos os pores do sol a que tinha direito e dancei salsa e chorei com boleros, fiz tudo ao que ia e mais ainda, com o meu Tripé Cubanito por fim completo. Sei que perdi esse avião – e tenho a foto delas com o meu lugar vazio, no meio, a lembrar-me – por vários motivos.

Uma das razões pode ser porque tinha de estar em Barajas naquela terça-feira, a perceber por fim que o meu voo de regresso também já tinha sido cancelado e a decidir, sem um tostão a débito ou crédito, que ia na mesma para Cuba e depois logo se via. Para ter estado em Barajas a fumar um cigarro no Terminal 2 quando os polícias vieram ao encontro do Zubeir, que fumava ao meu lado, mais bem vestido e composto do que eu, todo ele menino, dos ténis ao casaco, passando pela mochila de marca e o cabelo bem cortado.

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O Zubeir que fumou ao meu lado e ao lado de quem eu fumei até ser expulsa pela agente e para o lado de quem eu voltei depois, envergonhada por ser eu e não ser o Zubeir. O Zubeir que teve mais calma e dignidade do que eu e nem pestanejou. “Nunca reagi com tanta calma a isto.” Foi isto que ele me disse quando eu voltei para mais um cigarro ao lado dele e lhe pedi desculpas, tantas desculpas, e lhe agarrei na mão e me senti suja e indigna dele, por não ter tido a mesma tranquilidade, a mesma calma, a mesma dignidade que ele teve quando os três polícias vieram e me expulsaram para o revistar.

O Zubeir tem uns olhos castanhos-escuros doces que eu nunca vou voltar a ver. O Zubeir vive em França e é árabe. O Zubeir é um francês árabe que viaja muito. “Isto está sempre a acontecer. Nunca tinha vindo a Espanha”. E eu, desculpa-me Zubeir, desculpa-me por ser branca e ter olhos azuis e estar toda mal-amanhada, parece que saí de casa de pijama e tudo, já viste? Mas eles expulsaram-me para te revistar a ti, betinho mais lavadinho e passado a ferro. Eu tenho ferro, Zubeir, mas nunca o uso, sabes? Manias, sei lá.

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Eu já tinha visto a carrinha da polícia e a faixa e já os tinha visto, com as suas fardas a fazê-los maiores do que são e os seus cassetetes e as armas deles à cintura. Ali mesmo, ao lado do nosso banco dos cigarros, com um cinzeiro gigante de lado e a terra de plantas feita cinzeiro ainda mais gigante pelos mais distraídos nas costas. Já os tinha visto, já tinha olhado para eles, mas não lhes estava a prestar atenção. E a ti também já te tinha visto. Vi-te e pensei: que giro que é. E continuei no meu cigarro a pensar que ia para Havana mesmo sem dinheiro para regressar e que ia correr tudo bem, afinal, corre sempre tudo bem comigo, não é? Mas depois eles vieram e ela expulsou-me quando eu hesitei e eu olhei para ti e percebi que era melhor ir.

Obrigada por isso, Zubeir. Obrigada por isso e por teres recebido as minhas desculpas com os teus olhos doces e bons. Eu vi que as mãos te tremiam enquanto dizias “É assim, é sempre assim, estou tão habituado”. Eu não quero que estejas habituado, miúdo giro e tão, tão alto. Quero tanto que te desabitues, Zubeir. Só não sei bem como fazer com que isso aconteça. Logo eu, que me orgulho de fazer acontecer.

No regresso, Zubeir, eu ia perdendo todos os aviões menos o último. De Ponta Delgada para Lisboa. Depois conto-te melhor, mas foi uma loucura. Envolveu correr sem poder correr, com um dedo partido, atrás do Raúl, que decidiu que eu ia embarcar no aeroporto José Marti a caminho de Fort Lauderdale, Hollywood, Florida, nem que ele tivesse de carregar com as minhas mochilas e comigo e entrar pelo computador do escritório adentro e pedir ele mesmo o meu ESTA (Sistema Electrónico de Autorização de Viagens) e pagar com o cartão da transportadora onde trabalha e tudo e tudo.

Envolveu mais de três horas nos Costumes de Fort Lauderdale por não poder pedir o ESTA que o Raúl fez tudo para eu pedir. Envolveu correr ao pé-coxinho e conseguir que uma senhora me imprimisse um cartão de embarque de um embarque fechado há 20 minutos dizendo-me para correr e gritar e fazer tudo menos dizer o que ela tinha acabado de fazer por mim. Envolveu explicar coisas a outras pessoas a correr muito com as palavras e, no fim, dizer: me puedes ayudar? can you help me? Como eu tinha de perder o avião que me levaria à Noche Vieja em Havana e que adiou a minha ida apenas o suficiente para fumarmos aqueles cigarros em Barajas eu tinha de não perder nenhum dos quatro aviões do meu regresso a Lisboa.

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Sabes, Zubeir, cheguei aos Açores, a território lindo e desconhecido, ainda era de noite e estava tanto frio e doía-me tanto o dedo que parti na praia Prohibida numa manhã de vento e ondas. Fiquei mais um pouco no aeroporto João Paulo II por causa do frio e do dedo do meio do pé esquerdo rachado e das roupas das Caraíbas que tinha vestido. E foi o suficiente, exactamente o suficiente, para ver chegar um amigo e ouvi-lo dizer: estás cá? viemos todos! E eu: ai, sim? E tive uma cama e um banho quente e tive depois um sofá onde esperar pelas horas para agarrar de novo nas mochilas e caminhar até ao Turismo e esperar pelo autocarro das 4h50 de volta ao aeroporto e ao voo final para a Portela. Foi tudo exactamente como devia ter sido. E eu, que me chamo Sofia Lorena e perco aviões, ainda fiz mais uns amigos e uma delas disse-me: a partir de agora, sempre que entrar num aeroporto, vou olhar à volta à tua procura.

Olha, Zubeir, se pensares pedir o ESTA, vê bem se já viajaste para o Médio Oriente. Eu acho que tu viajas muito, mas não é nessa direcção. Como eu, que desta vez ia para Ocidente quando quase sempre vou para Oriente e em vez de continuar paro a Meio. Olha, eu não vou poder ser acusada de fraude, disse-me o agente da Florida, mas também nunca mais vou poder pedir o ESTA. O ESTA não é para quem viaje para o Médio Oriente, como eu, sabes? Eu depois conto-te melhor, mas ficas já a saber. O ESTA não é para mim e eu às vezes penso que este Mundo não é para nós.

Falei-te dos abusos que já testemunhei da polícia espanhola, falei-te do meu amigo detido no primeiro aniversário do 15M quando saía de uma discoteca perto das Portas do Sol e eles estavam a encher carrinhas para justificar o aparato, contei-te disso por ser tudo verdade e por me estar a sentir tão mal por eu ser eu e tu seres tu. Mas depois, vê lá tu, calhou aterrar em Fort Lauderdale exactamente uma semana depois do dia em que um rapaz matou cinco pessoas e enquanto eu lá estive faziam sete dias à hora e eles assinalaram com uma cerimónia e uma pequena homenagem que eu não vi nem ouvi, só o que apanhei de uma agente a contar a um colega, por estar encerrada dentro da sala dos Costumes, ilegalmente naquele país. E sabes que penso que isto foi tudo estranho mas talvez tenha sido tudo por algum motivo. Logo eu, que não sou dessas coisas.

Acho que sou capaz de ter perdido os aviões que precisava e de apanhar os que não podia perder e que isto é capaz de fazer algum sentido, todo até. Tenho dívidas agora, Zubeir, muitas, logo eu que tinha decidido pagar as que tinha antes do fim do ano, mal sabia que ia começar 2017 com tantas. Não faz mal, Zubeir. Vai correr tudo bem. Eu sei que não parece mas vai.

This is India, e está tudo bem (agora com Trump)

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Deixei de escrever por uns dias. Isto por aqui já ia atrasado e isso significa que estão a perder muitas aventuras. Se alguém por aí estivesse a gostar, é manter a calma; se eu não acelerar muitíssimo vão ter Índia da minha até ao Natal.

Então, Trump foi eleito. É um facto. A mim não me surpreendeu totalmente mas isso não chegou para evitar o choque. Em choque, portanto, dei por mim nas montanhas mais altas e belas. Sem pensar muito nisso, sem sequer me aperceber, desliguei-me deste mundo, do vosso, para assim viver tudo mais intensamente. Resultou. Trump foi eleito e as montanhas continuaram avassaladoras, houve céus com nuvens e céus limpos, azuis perfeitos, rompidos apenas pelo branco mais branco dos cumes esmagadores que só não me deixam ainda mais pequenina porque eu já estou a 2200 metros sempre que acordo ou me deito. Trump foi eleito e o pão nepalês, morno, continua uma delícia, o chá idem, a cerveja ainda sabe a Kingfisher e o rum que ainda não tinha bebido não se portou nada mal.

Conversa com um amigo (quem o conhece percebe quem é). “Se o Costa lá estivesse isto não tinha acontecido”, diz ele. “Ah, se o Guterres já tivesse tomado posse é que não”, respondo. “O Marcelo tinha resolvido isto”. Eu, quase a desistir, ainda me ocorre: “Ó pá, tu queres ver que o Sporting ainda é campeão?”

Acho que não. Mas só a possibilidade chega para me distrair do Trump. Não me julguem mal. Chama-se relativizar. Agora é que eu preciso mesmo que o Benfica seja campeão. Logo, preocupa-me muito a possibilidade de o Sporting começar a ganhar tudo o que é jogo. Se me concentrar mesmo nisso, o Trump começa a desaparecer.

Se não gostam de futebol como eu, se não cresceram a ter o Domingo Desportivo como o vosso programa de televisão favorito, então, talvez isto não resulte. Mas eu tenho mais. Ainda o Trump se preparava para o discurso da vitória e já eu estava num jipe com dois amigos feitos umas duas horas antes, em dez minutos, a subir ainda mais pela montanha. Paragliding. Parapente, portanto. Uma espécie de mergulho no nada, que não é bem um mergulho porque há um rapaz indiano às minhas costas e se não fosse ele era bem provável que os meus pés não tivessem saído do chão. De repente, fica-se sentado e confortavelmente encaixado na mochila que tem lá dentro o segundo pára-quedas (aquele que ninguém nos ensinou como tirar de lá e accionar caso aconteça alguma coisa ao primeiro). E então damos por nós de boca aberta e só sai “uau, uau, uau”. Passado um bocado, ainda a delícia da surpresa não passou mas já conseguimos dizer ao Sam que ele tem um trabalho brutal, ora o dia ainda nem começou lá na América e ele já está a voar pela quarta vez desde que acordou.

É quase sempre flutuar, o Sam às vezes apoia-se nos meus ombros para dar um puxão ao pára-quedas, há alturas em que me sinto a cair no vazio. É a loucura, só vos digo. Mais a mais por aqui, quando sentimos por momentos que algumas das mais altas montanhas do mundo estão aos nossos pés. Não queremos que acabe nunca. No meu caso, havia um motivo acrescido: na corrida original, quando levantámos voo para o infinito, deixei cair um sapato; aterrar com um pé descalço, mesmo naquele campo de futebol sem relva e com terra pouco assustadora, ali em baixo, logo depois do mosteiro e da escola, sei lá, pode nem ser muito duro mas evitava se pudesse. Estou a voar, percebem? Tudo serve de desculpa para que isto não acabe.

O meu primeiro voo acabou bem. Não magoei o pé nem nada e o David, que saltou em terceiro, depois do Alon e de mim, até me trouxe o sapato de volta. O Alon estava em pulgas para ver a cara do David quando aterrasse. “Ele não sorri por pouco. Quando sorri, é mesmo um sorriso bom.” Pois é. Eu percebi isso depressa (o Alon também deve ter percebido isso bem depressa; afinal, conheceu o David há meia dúzia de dias e parece que nunca mais o vai largar). O David voou com a sua própria mochila presa nos ombros, mas à frente; ninguém lhe disse que era má ideia. Basicamente, passou o voo a ser estrangulado pela mochila. Mesmo assim, vinha a sorrir, com um daqueles sorrisos mesmo, mesmo bons. Voar é a loucura. Que bom que eles se sentaram na minha mesa enquanto eu tomava o pequeno-almoço. “Vamos daqui a pouco. Somos só dois. Eles costumam levar três pessoas de cada vez. Devia ser às 11h mas estão atrasados. Queres ir?” Que bom que eles se sentaram na minha mesa no terraço. “Sim, ok, vou”, que bom que foi essa a minha resposta.

Trump foi eleito. O Benfica, que eu saiba, ainda vai à frente no campeonato. Eu voei a seguir ao Alon e antes do David e depois passámos os três o resto do dia sem conseguir parar de sorrir. A Michele juntou-se para o jantar. A certa altura, chegaram dois italianos que eles tinham conhecido em Varanasi, onde os dois se conheceram também. Com os dois miúdos de riso fácil chegou ainda um francês e mais um inglês de Leeds. O jantar durou por três. A conversa eram sempre várias ao mesmo tempo e rir foi sempre, a cada momento, o único remédio. “Que grupo más majo se juntó por aquí.” Sim, David, é isso.

Pela primeira vez desde que estou pela Índia, pela primeira vez em muito tempo, acordei a lembrar-me do que tinha sonhado. Eram 4h e o céu estava estrelado como nem imaginei que chegasse a ficar, um espectáculo privado, para mim, da janela do meu quarto, nem foi preciso subir até ao terraço. Sonhei com o grupo todo do jantar, aquelas coisas típicas, estávamos numa casa gigante, havia uma festa, acho, cada vez que andávamos aparecia mais alguém, virámos esquinas e mudávamos de andar, nunca mais conseguíamos sair dali. Sempre que olhava para trás, eles lá estavam, o David e o Alon logo a seguir, às vezes, primeiro o Alon, depois o David. No dia seguinte, ao lanche, depois do passeio pelo Jardim Botânico, contei o meu sonho. O Alon perguntou se eu achava que queria dizer alguma coisa. Eu expliquei. O David chamou-lhe “Alone efeito” e o Alon achou que era com ele. Rimos mais e eu tive um daqueles momentos “devo ter feito alguma coisa bem” enquanto o sol se punha. Posso ficar aqui para sempre? E depois, na manhã seguinte: “Ahora no puede ser que te vayas.”

O Trump foi eleito. Grave, mesmo grave, era eu ter podido vir à Índia e não o ter feito. Ou o Benfica não ser campeão. Ou eu não ter dito “sim, ok, eu vou”. Grave era parar de viver. Trump foi eleito. So what? O Assad continua vivo. Em Angola, ainda há presos políticos e gente impedida de trabalhar. Em Darjeeling, na Índia, mas tão perto do céu que dali se vêem as constelações todas à noite e quando se olha na direcção certa, ali está o Nepal e logo ali o Butão, o céu é sempre e loucura, de dia e de noite. E há gente que acorda todos os dias e aquela é a vista que tem e, às vezes, mesmo alguém que nasceu ali, ainda dá por si a sorrir com cara de parvo. A vida segue, para bingo se possível. This is India, e está mesmo tudo bem.

Acessório feminino (na casa de banho)

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Tenho alguma experiência em casas de banho não ocidentais, sem sanita, em resumo. Nas minhas contas, já vivi com várias, mas isso sou eu que se tenho um quarto numa escola de árabe durante um mês chamo-lhe casa e faço dele casa mesmo (bastam uns dias, na verdade).

Feitas as contas, já tive várias casas e quartos com casas de banho destas e já tive de usar muitas mais, de vários tipos, com mais e menos loiça, sem loiça nenhuma, dentro de casa e ao ar livre. Nada de especial, faz parte da vida.

Devo ter um bocadinho a mania porque uma vez, há uns anos, numa noite em que a fila da casa de banho no Roterdão (no Cais do Sodré, em Lisboa) estava especialmente paralisada (a das mulheres tinha entupido, estava a ir tudo à mesma), arranquei uma salva de palmas quando desisti de esperar para ir às sanitas e me despachei nos urinóis. Nada de que hoje me orgulhe. Na verdade, nem passados cinco minutos estava orgulhosa; só aliviada, mesmo.

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Tudo isto para descrever uma ida à casa de banho na sede da ONG KVK, em Jalna, Aurangabad, a caminho dos campos de algodão. Num grupo com mais de 20 pessoas, a esmagadora maioria mulheres, erámos muitas na casa de banho. Tudo normal. Uma das polacas saca de um rolo de papel higiénico que trouxe do hotel e várias servem-se. Tudo normal. A fotógrafa contratada pelo Ikea para acompanhar a viagem, uma russa que vive na Índia e já viveu em Lisboa, traz um acessório menos banal. Pee-Buddy, chama-se e promete “Freedom to Stand”. Há quem peça para experimentar. Ela está muito orgulhosa da atenção que recebe. Quem não experimenta fotografa, claro está. Eu não preciso, se ajudar alguém…

Eles abanam que não mas querem dizer sim (no campo)

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Eu já tinha a impressão. Acho que já sabia, faltava-me era verbalizar. Como demorei, foi a Xenia a fazê-lo por mim. Aurangabad, estado de Maharashtra . O grupo cresceu e já somos mais de 20, entre jornalistas convidados pelo Ikea, pessoas que trabalham para a empresa (na Suécia, mas também na Austrália, Alemanha, França e Índia) e alguns membros do WWF India, um dos parceiros da multinacional nos seus projectos indianos.

Vamos visitar quintas, pequenos agricultores, gente que planta algodão, um algodão BT (Better Cotton), que cumpre uma série de critérios de sustentabilidade e condições de trabalho, o único que o Ikea permite que seja usado nas roupas de cama e casa que vende.

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Felizmente, dividiram-nos em três grupos. Felizmente, fiquei no grupo do Prodam, o “homem do algodão” do Ikea, indiano de Deli, há dois anos e meio a viver na Suécia, que é o mesmo grupo da Xinea, uma jornalista alemã. Demo-nos imediatamente bem. A Xinea é obcecada por sustentabilidade (trabalha numa revista alemã que se dedica precisamente ao ambiente) e faz muitas perguntas, como eu. Aprendo com as perguntas dela. Eu sou obcecada por várias coisas, falta de água, modos de vida, condições de trabalho… Espero que ela aprenda com as minhas. Somos “as chatas”. Eu costumo abrir as hostilidades e tomo conta da primeira parte, ela agarra no testemunho a partir de certa altura.

Felizmente, ainda não descobri até que ponto, fiquei no grupo do Judandhar Mandavkar, que sabe muito sobre água, já trabalhou com várias ONG, com a Fundação Aga Khan (no Afeganistão), agora é director de projectos na ONG KVK (outro parceiro do Ikea), e é um óptimo conversador. A Xenia diz que a enerva porque está sempre a sorrir, mas eu explico-lhe que basta conversar com ele um bocado e isso passa. O Judhandar é o nosso tradutor, que luxo.

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Calha ser na quinta do Samadhan que eu vejo as minhas primeiras plantas de algodão, estas são mais ou menos da minha altura. Mexo nos bolbos, nas folhas e apanho um pedaço de algodão, branco algodão-doce, pouco original eu sei, mas verdadeiro. Agora, ainda não é a altura da colheita, só alguns poucos bolbos abriram e deixam ver as nuvens pequenas e disformes. O Samadhan enche a mão de algodão antes de se sentar connosco, em cima de um grande plástico, debaixo de uma gigantesca árvore que se chama neem (serve de repelente e em Março as mães esfregam as suas folhas na pele dos bebés, conta o Prodam). Vamos à conversa.

À esquerda de Samadhan, e depois mais atrás, sentam-se outros agricultores que vieram receber-nos e partilhar connosco as suas experiências com o Better Cotton. Enchemo-los de perguntas sobre o quotidiano também e eles lá vão respondendo a tudo. Uma ou outra vez conseguimos incluir a mulher e mãe de Samadhan, as únicas outras pessoas que trabalham estes campos, excepto quando é a colheita e ele contrata quatro ou cinco jornaleiros para dividir a empreitada.

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“Mas, não quer dizer sim??!!”

A conversa já vai longa quando Xenia explode com a pergunta, dirigida a Judhandar. “Humm, sim, acho que sim.” Sim, os indianos abanam que não com a cabeça quando estão a dizer que sim. Também o fazem quando dizem coisas como “pode ser?”, “aqui tem”, “claro que se arranja”… Em vez de abanarem que sim, abanam que não. Se não o fazem todos, são mesmo muitos. Claro que às vezes é quase subtil, outras vezes mais pronunciado. Há pessoas que parecem prontas a começar a dançar uma coreografia qualquer Bollywoodesca, outras abanam a cabeça como se esta fosse muito pesada. Enfim, há muitas maneiras de abanar a dizer que não quando se quer dizer “sim”. Eu já desconfiava, acho até que já sabia. Mas se não fosse a Xenia a perguntar não podia ter a certeza.

Havia uma fotografia a governar Tamil Nadu, mas já acordou

Aterrar e entrar no carro para ir ao hotel pousar as malas, antes de seguir viagem para outra terra a uma distância considerável. O Ikea convidou jornalistas a vir à Índia e foi mesmo para nos fazer trabalhar. Por estes dias, acho que só acabo de perceber onde estou quando tenho uns minutos para estar sentada no quarto (novo todas as noites) a descansar. Desta vez, foi mais rápido. Eu não tinha decorado o nome. Mas às tantas, entre mupis de publicidade a tudo e mais alguma coisa, pareceu-me reconhecer aquele rosto. Tenho o colega belga ao lado e como falar pelos cotovelos me mantém acordada, aí vou eu.

Acho que é deste estado que ela é a ministra. Não me lembro do nome. Mas está no hospital, li uma notícia. E já esteve presa por corrupção, há uns dois anos. Antes era uma grande estrela de Bollywood, foi actriz e cantora durante uns 30 anos, só depois entrou na política. Enfim, está no hospital, acho que em coma, e o seu adjunto leva uma fotografia dela para todo o lado, é como se a fotografia presidisse às reuniões, ao próprio estado. Claro que a oposição está zangada. Acho que é aqui, sim, é Tamil Nadu, parece-me que era ela ali atrás, reconheci a imagem. Enfim, quando embalo, embalo. O belga só quis saber da corrupção e eu era mesmo disso que me lembrava menos bem.

Os motoristas que temos tido não costumam falar inglês, ora este fala e depressa me interrompe. “É a ministra chefe, Jayalalitha, Amma [como é tratada no partido]. Está no hospital desde Setembro. Daqui a cinco dias vai para a América, para ser tratada”, diz Suraj, assim, mais depressa ainda do que eu estava a falar para o P. “Isso, é a ministra chefe do estado.” Suraj continua, diz que “ela é muito respeitada” e que “fez centenas de filmes”. Não diz se gosta pessoalmente dela, se concorda com a oposição, apenas repete muitas vezes que “ela é dura, mesmo dura, o que ela decide faz-se e ninguém lhe diz que ‘não’, muito dura”.

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Eu não me lembro bem da corrupção, mas de resto, sei imenso. Coisas maravilhosas como o facto de Jayalalitha estar no Livro dos Recordes do Guinness por ter dado “o maior banquete/recepção de casamento” do mundo. Foi em 1995, no seu primeiro mandato como ministra chefe, e a boda era do seu filho adoptivo Sudhagaran, com 150 mil convidados – “Ao longo de quilómetros, entre a residência oficial e o local do casamento, as ruas foram decoradas com estátuas gregas e leões banhados a ouro. Ergueram-se santuários, com imagens de Jayalalitha tornada ícone no lugar dos deuses hindus”, descreveu então o New York Times. A ministra disse que foi tudo custeado “pelo povo”. Também protagonizou episódios terríveis, como em 1992, quando decidiu banhar-se em público durante um festival e a multidão para a ver foi tanta que quase 50 pessoas morreram espezinhadas.

Então, a mulher que na verdade se chama Jayaram Jayalalithaa, conhecida por Amma, J Jaylalithaa ou simplesmente Jayalalitha, está hospitalizada desde 22 de Setembro. Por aqui, já se rezou muito por ela, às vezes em concentrações coloridas que juntaram pequenas multidões, algumas à porta do Apollo Hospital, em Chennai, a capital de Tamil Nadu, um estabelecimento “superespecializado”, o primeiro na Índia a “introduzir as últimas técnicas em angioplastia coronária”, entre muitas outras “estreias”. Jayalalitha, chamemos-lhe assim, tem 68 anos e foi hospitalizada com febre e desidratação, piorou e ficou em estado grave sem que alguém quisesse explicar exactamente com o quê ou com que gravidade, dando origem a todo o tipo de especulações.

O partido dela, AIADMK, parte da coligação do governo do estado, anunciou há semanas que a ministra transferira parte das suas pastas para o vice, OP Panneerselvam, sublinhando que a ministra ainda era ela. Panneerselvam já substituiu a chefe várias vezes antes, nomeadamente nas duas alturas em que ela esteve na prisão por acusações de corrupção. Isto sem nunca se sentar na sua cadeira, ainda e sempre, “ocupada”. Desta vez, inovou. E para sublinhar que quem manda aqui não é ele, começou a levar uma fotografia de Jayalalitha para as reuniões de governo ou encontros com os diferentes ministros. Jayalalitha em todo o seu esplendor, moldura e tudo.

“A nossa cultura é esta. Para as pessoas do AIADMK, o que quer que façamos e sempre que o fizermos será na presença da fotografia da honorável ministra. Assim sentimos que ela está connosco. Sentimos que estamos a tomar decisões na sua presença. Não há nada de mal em ter a fotografia dela nas reuniões. Ela é a ministra do estado”, disse à BBC o porta-voz do partido, Saraswathi. Claro que nem todos concordam. Houve comediantes a gozar com a situação, antecipando que iam começar a ser divulgadas “fotografias dos seus filmes mais famosos”, tudo para evitar a exigida prova de vida. O principal partido da oposição em Tamil Nadu, o DMK, denunciou um gesto que mostra que para o governo “uma pessoa é mais importante do que o povo do estado”.

Jayalalitha não chegou a ir para a América. Os “esforços dos médicos” especialistas (cardiologistas, pneumologistas, consultores em doenças infecciosas, endocrinologistas…) do Apollo “e as preces dos apoiantes” chegaram. Esta sexta-feira, soube-se que está acordada e que em breve será transferida dos cuidados intensivos para um quarto particular. É Prathap Reddy, fundador do Apollo, que explica como se deu a recuperação. “A infecção pulmonar está sob controlo. Passou a fase crítica”, garante-se. “Estamos tão felizes. Toda a gente rezou por Amma porque a amamos tanto”, reagiu o líder do partido, CR Saraswathi.

A recuperação foi um dos breaking news do dia nas televisões indianas – há tantos canais e todos tratam quase tudo como notícias de última hora; vá, neste caso percebe-se. Eu ainda expliquei ao P. tudo o que sabia sobre a entrada de Jayalalitha na política, a reboque de outra estrela de Bollywood de quem se reclamou herdeira depois da sua morte. Também falei sobre alguns filmes. Pena que ele já não vá fazer uso de nada disto.

Para sublinhar que Jayalalitha está mesmo melhor, o médico Reddy ainda contou aos jornalistas que a ministra “tem tudo sob controlo”, escreve o Times of India. “Ela controla os médicos e as enfermeiras. Sabe quando vêm, quando vão embora… Vocês conhecem bem a sua natureza.” Eu ainda há dias não sabia quem ela era, confesso, mas o Suraj foi claro na sua mensagem.

O sorriso da Sunita

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Mais de duas horas na estrada, primeiro a loucura do trânsito. Já se sabe, camiões, autocarros, carrinhas, carros, autos (riquexós com motor), riquexós a pedal, carroças, motas, bicicletas e tantas, tantas vacas. Já tinha estado numa pequena cidade (capital do seu pequeno reino, ainda assim) onde mandavam as cabras, andavam por onde queriam, serviam-se do chão, das paredes e de partes dos carros. Nunca tinha estado numa cidade grande onde a entidade dominante fosse um animal. As vacas estão por todo o lado, estacionam, movem-se vagarosas, fazem o que bem querem e aos outros resta desviar-se.

De Varanasi para a aldeia a estrada é má, primeiro tem trânsito infernal, depois menos, a seguir já quase não há mais carros a circular, o que há em permanência são as irregularidades do chão e então tudo trepida. Brinco e digo que isto tem de valer como massagem, todos se riem, mas eu sei que me vão doer as costas depois disto. Com ou sem cinto, à frente ou atrás, experimento mas vai dar ao mesmo. Enfim, vai correr tudo bem. Eu não vim para aqui para estar parada.

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Vamos visitar uma das fábricas que nasceu como cooperativa apoiada pelo projecto de Dipti, a indiana que se mudou para Varanasi quando casou e que fez de guia na chegada deste grupo Ikea. “Vamos ser recebidos por um dos amigos do Ikea”, dissera Annika, que é sueca e trabalha na empresa que me convidou para visitar campos de algodão e unidades de produção têxtil que são seus fornecedores. Era Dipti, a amiga. Na fábrica onde chegamos fazem-se as roupas que toda a gente menos eu e o jornalista belga compraram na véspera, numa loja em Varanasi, a dez minutos a pé do Ganges, e também lençóis, cortinas, colchas que se vendem em todo o mundo nas lojas Ikea. Aqui só trabalham mulheres – ou quase, descobriremos em breve.

Elas estão à nossa espera em fila e recebem-nos com o ritual muito habitual, uma pinta vermelha na testa, um colar de calêndulas, muitos sorrisos de boas-vindas. Demora até estarmos todos sentados em cima de tecidos de diferentes padrões abertos no chão (as máquinas de costura foram encostadas às paredes na sala principal da fábrica, para arranjar espaço ao centro). Todos nos apresentamos, nós e elas, e há muitos, muitos risinhos. Ou com aquilo que nós dizemos ou com o que uma delas diz. Por exemplo, a Acha, que é a faz-tudo cá do sítio, descreve-se como “a patroa” e garante, depois de se apresentar, que um dia em que não apareça “o trabalho não se faz”.

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Algumas parecem tão novas, dir-se-ia não terem mais de 13, 14 anos, vá. Mas não, garantem, uma tem 17, as outras são todas mais velhas. A maioria é casada e mãe, uma ou outra ainda não tem noivo. Mas tal como as casadas tiveram quase todas de enfrentar maridos, família e vizinhos para conseguirem estar aqui, a trabalhar, as solteiras não imaginam deixar de vir para a fábrica quando casarem. Começar a trabalhar mudou tudo. Só uma é que já trabalhava fora de casa antes. Para todas as outras, o primeiro emprego com ordenado foi este. Vêm de manhã de riquexó, uma ou outra de bicicleta ou à boleia com os maridos, de mota. Vêm de aldeias aqui mais ou menos perto. Deixam os filhos com os sogros, na maioria. Algumas com uma vizinha. Os mais crescidos vão para a escola e regressam a casa, onde esperam pelos pais. Enfim, nós sabemos como é, mas temos infantários. Por aqui, também há aulas extra-horário, explicações quase sempre, e, por isso, há miúdos que passam quase tanto tempo fora de casa como os pais que trabalham.

Quase todas decidiram começar a trabalhar por ser aqui, neste ambiente, com outras mulheres, que ouviram falar em sessões de esclarecimento ou de formação, algumas foram a sessões de treino noutras cidades, antes de ganharem coragem para se empregar a tempo inteiro. Há uma que fugiu literalmente da família para estar três dias fora, a aprender a costurar, depois acabou por bater o pé e agora está aqui. A outra o marido deixou de falar e até saiu de casa e da terra, durante uns bons meses; depois voltou e agora até faz tapetes e ela ajuda. Quase todas decidiram começar a trabalhar porque queriam poder pagar uma escola melhor aos filhos, vesti-los melhor, alimentá-los com tudo o que possam querer, dar-lhes brinquedos, permitir que continuem a estudar até à universidade, que ambicionem outra vida, lá longe, às vezes, na cidade. Ser pai e mãe é o mesmo, em todo o lado. Não têm grandes sonhos para si próprias. E aos filhos só desejam “uma vida boa”.

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Há um homem entre nós. Quer dizer, na verdade há dois, mas um fomos nós que trouxemos, trabalha para o Ikea. Uma das suecas chama-nos e vamos perceber o que está o outro homem aqui a fazer. Trabalha cá, com a mulher; também é motorista de camiões, mas está cá todos os dias, de segunda a sábado. Baixinho, como a mulher, franzino, franzino como a mulher não é, explica que já que a mulher se empregou aqui também veio, queria “garantir que o negócio corria bem, que a fábrica não fechava passado uns meses” e que prosperava. Diz que não se incomoda nada de trabalhar entre mulheres, mesmo sendo o único. “A principal diferença é a linguagem. Na estrada oiço muitas palavras feias, aqui fala-se de outra maneira. É muito melhor. Respeitam-me, o ambiente é bom”, diz. E nós a imaginar como será o seu quotidiano, entre miúdas e mulheres danadas para a conversa.

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Neelam e Premmath têm dois filhos e o dinheiro da fábrica é para a sua educação. Quem ainda não tem filhos, gasta o dinheiro com as suas coisas, compra roupa aos irmãos mais novos, dá uma parte aos pais, uma ou outra poupa qualquer coisa. “Poupar? Poupar para quê?”. A Meena ofereceu uma mota ao marido e isso mudou tudo. O marido dela é o que faz tapetes. Perguntamos-lhe se recorda o que fez com o primeiro salário. “Paguei a inscrição da escola para a minha filha”, conta – tem três filhas. Sunita, que está com ela e connosco na salinha que é de descanso e hoje faz de espaço para umas conversas mais tranquilas, sorri o tempo todo e tudo nela brilha a cada sorriso. Tem o marido com mais habilitações de todas, é delegado de propaganda médica, mas foi um dos que mais se opôs à sua decisão de trabalhar. Quem lhe valeu foram os sogros, que apoiaram a sua decisão (têm uma filha que trabalha também).

Sunita tem qualquer coisa de diferente, parece ter, pelo menos. É especialmente bonita, sim, mas há outras bem bonitas e arranjadas, como ela. Hoje é domingo, dia de descanso, e quem veio fê-lo para nos receber e falar connosco, não é roupa de trabalho, esta. Agora que já ganhou dinheiro suficiente para o que precisava, roupas, coisas de mulher, garantir que contribuiu para a educação dos filhos, Sunita tem outros planos. “Tinha parado de estudar para casar, no 11.º ano, e recomecei. Acabei o liceu”, explica. “Depois, vou para a universidade.” Sunita também se lembra do que fez com o primeiro salário. “Comprei uns brincos”, diz, a rir, não de vergonha, talvez por ter uma resposta tão diferente da que deu a sua colega.

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“Aqui, vive-se completamente. Em casa há regras. Aqui, falamos alto, rimos. Só temos uma vida. Já comprometi muito, agora não comprometo mais. E sei que consigo fazer. Se eu não estiver pronta, amanhã os meus filhos também não vão estar.” E agora, Sunita? “Quero entrar em Artes e Humanidades.” Com algum objectivo – não é que seja obrigatório – em mente? “Não sei para quê, quero fazer esse curso.” Muito bem. “Desde que estou aqui a trabalhar acredito que tudo é possível.”

Sunita tem um sorriso de possibilidades infinitas, deve ser daí que lhe vem este brilho todo. Daqui a umas horas, a jornalista australiana que a entrevistou comigo vai dizer que “estas mulheres são muito despojadas, tudo o que ganham é a pensar nos filhos”. E eu só vou conseguir pensar nos brincos da Sunita, dourados como o seu rosto, e lembrar-me do seu sorriso e sorrir eu mesma, em silêncio.

Ataque cardíaco de paz (Varanasi)

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Um dia, eu vou aproveitar Varanasi. Descer e subir degraus, perder-me em ruelas, voltar ao barco a remos mas agora com todo o tempo do mundo. Um dia, eu vou aproveitar Varanasi. De manhã cedo. À noite. Com todo o tempo do mundo para me deixar ficar a ouvir uma oração de olhos fechados, e depois outra vez, de olhos abertos, para ver o desfile dos corpos antes da cremação e a cremação, para ver só quem passa por mim de barco e ficar a observar a maravilha que é estes barcos todos a encaixarem-se uns nos outros junto às margens. Para me sentar nos degraus, neste e também naqueles, e ficar ali, quieta. Um dia eu vou ver tudo o que me apetecer em Varanasi como se o tempo tivesse parado para mim, só enquanto cá estiver. A todas as horas que me apeteça, sem horas porque as horas vão ter deixado de existir. Não vai ser hoje, nem amanhã.

Estou na Índia a convite do Ikea. Eu e outros jornalistas, num grupo com pessoas que trabalham em diferentes áreas da multinacional, da Austrália à Suécia. No início, nem somos muitos. Quatro pessoas Ikea e, para além de mim, duas jornalistas polacas, uma australiana e um belga, mais uma fotógrafa contratada para acompanhar a viagem. Em Varanasi, junta-se a nós uma indiana que não é daqui mas ficou daqui “por casamento”. Chama-se Dipti, sorri muito e faz de guia numa cidade que não é a sua (nem ela é guia, tradutora nem coisa nenhuma que se pareça, fundou uma cooperativa para ajudar mulheres que queiram trabalhar fora de casa). Estamos todos em Varanasi e a Dipti é o que de mais parecido temos com um guia. Há uma tarde para passear, acabo de descobrir, o trabalho só começa amanhã.

Vamos esquecer o Museu Sarnath (o museu arqueológico mais antigo da Índia). Ou o Stupa de Dhamekha (que vale muito a pena) dedicado a Lord Buddha, também em Sarnath, repleto de turistas e crentes indianos e com mais bancas a vender bugigangas em redor do que templos ou coisas para ver e visitar. Vamos até esquecer o caos do trânsito desta cidade, dizem que não há outra assim na Índia (se me disserem que não há outra com tantas vacas, nisso sim, eu acredito), Varanasi, “o caos pacífico”, diz a Dipti, porque quando se encontra a paz no meio do caos a paz é ainda mais especial, imagino eu. Vamos apenas concentrar-nos no que importa aqui. É qualquer coisa de muito maravilhoso e chama-se Ganges, o Ganges em Varanasi. A Dipti tem defeitos, mas decidiu que na metade de dia disponível que teríamos na cidade que a adoptou por casamento ia incluir uma pequena viagem de barco no Ganges. E só por isso tem de ser boa pessoa.

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A Dipti escolheu um barco a remos – também há a motor – e então é que decido que deve ser mesmo boa pessoa. Mas a quem é que passa pela cabeça meter-se num barco a motor, com o barulho do motor, aqui, logo aqui, onde se vem para encontrar a paz. Estava mesmo a anoitecer quando entrei no barco. À ida, andámos a bom ritmo, a corrente remava connosco. Não consigo encontrar as palavras certas para descrever a confusão que se viveu nos meus sentidos. Por um lado, os meus companheiros de viagem não paravam quietos, um tentava fotografar tudo o que mexesse, outra fazia mais ou menos o mesmo. Outras ensaiavam selfies em vários momentos e posições. Enfim, entre uns e outros acho que só me salvei eu e a Dipti. Mas a Dipti, claro, não se calou nem por um momento, o que até faz sentido; afinal, estava a descrever-nos tudo e a explicar o que víamos. Dipti, obrigada pelo esforço. A verdade é que preferia que tivesses explicado menos. Mas não faz mal. Tudo bem. A sério.

Eu não encontrei a paz, mas às tantas a paz encontrou-me a mim. E então já nem ouvia a tua voz, Dipti, nem o som das vossas máquinas K. e P., nem os risos das vossas selfies, meninas. Acreditem se quiserem. Mas a certa altura fiquei só mesmo eu e o Ganges, o que é uma loucura porque o Ganges, este Ganges, são muitas pessoas e coisas a acontecer em simultâneo: gente sentada em escadarias que acabam em palácios, templos, edifícios que já abrigaram gente tida por divina de diferentes tipos e em diferentes tempos; escadas que não sei onde vão dar e, por agora, decido que não têm fim; os corpos a serem cremados, a música que ecoa por aqui e por ali, a oração ao Ganges e, logo a seguir, outra oração ao Ganges. O sol pôs-se e as luzes são irreais, o azul do céu é estranho, a outra margem quase só se adivinha, lá ao fundo, ao fundo, há luzes, muitas, mas na nossa margem a iluminação é escassa e faz-se tanto de lâmpadas como de velas e tudo isso é mesmo mágico. Há barcos que passam por mim com três ou quatro amigas a bordo, miúdas. Barcos cheios de gente como o meu ou até mais. Um barco enorme, gigante, com um casal e uma senhora mais velha só lá dentro. Os sons são incríveis também. Tudo isto é som, tudo isto é cor, tudo isto é ao mesmo tempo silêncio e por uns momentos paro mesmo de respirar. E fico só eu ali, eu e tudo o que se passa à minha volta.

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Lembro-me da primeira vez que fiz snorkelling, em Soqotora, uma ilha que calhou ser iemenita mas podia ser somali ou indiana. Foi ao acordar, disseram-me “vai” e eu fui, e ainda hoje acredito que tive um pequeno ataque cardíaco de tanta emoção. Não aguentei quase tempo nenhum, era demasiado tudo o que via e sentia.

Às vezes, de comoção, não sei se é o coração que me pára se são os pulmões que decidem descansar só um bocadinho. Só sei que é muito, tanto, e eu quase não aguento mas depois fica tudo bem. Tudo bem, não. Fica muito melhor, fica muito mais do que era antes, uns minutos antes, uns segundos apenas já chegam. Não fico outra, fico mais eu, uma eu melhorada ou, pelo menos, mais cheia e feliz, e isso é mesmo tudo. Varanasi e o Ganges foram um desses episódios. Acho que deixei de respirar antes mas só tive consciência disso quando o barco parou e eu subi para outro barco e depois ainda outro até me sentar e ser, por fim, uma entre os outros que ali estavam, sentados ou em pé, a ouvir a música e a oração. Dei por mim com um daqueles sorrisos especiais, que se plantam sem grande aviso no rosto, logo a seguir a uma destas paragens (cardíacas, respiratórias, eu sei lá, são ataques de emoção, é o que eu acho), e nem que eu tentasse desfazê-lo – o sorriso – sei que não seria capaz.

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O prazer era muito e foi injustamente interrompido. No meu barco, que eu já descartara, só esperava que se esquecessem de mim, havia quem quisesse regressar ao hotel por se ter esquecido do repelente e quem quisesse ir dali para uma loja de roupa que a Dipti conhece. No início, nem estava a perceber, acho que até a Dipti ficou confusa: vai haver música e mais uma oração, disse ela. Enfim, nem quis pensar muito nisso. No regresso, que demorou muito mais porque remávamos contra a corrente, voltei à minha bolha, eu estou em Varanasi, aqui no barco não há mais ninguém. Só na margem percebi que já se estava a planear um regresso relâmpago pela manhã. Uns queriam fotografar, há ioga nas escadarias maiores um bocado após o nascer do dia, outros queriam andar por ali. Pois, isso também eu. Mas o plano não era dos meus. Sair do hotel às 4h30 (isso ainda vá, apesar de não ter dormido na véspera), estrada, chegar, apanhar um barco (a motor!), meia hora e recomeçar o regresso a tempo de sairmos todos pelas 6h15, a hora de começar o programa oficial do dia. Não. Não, não quero. A sério, obrigada. Divirtam-se. Aproveitem.

Disseram que foi incrível, eu acredito mas não me importo. Na pior das hipóteses, atirava mesmo um deles ao Ganges. Na melhor, era tudo o que eu não queria. Antes guardar na memória da pele e dos sentidos todos aquele bocadinho em que a paz me encontrou. Um dia eu volto, Varanasi. Com tempo, sim? Com tanto tempo que vai ser sem tempo. Até já.

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This is India – versão Bollywood (em Deli)

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Nas primeiras horas acordada em Deli cansei-me a andar, mas sabia que o sono ia demorar – afinal, dormi muito mais do que o habitual logo que cheguei. Como tinha de acordar cedo e já andara sem destino, decidi que a noite seria passada a escrever umas coisas que trazia em atraso. Despachar pendentes para me livrar deles e não pensar mais nisso. Ora, eu fumo. E quando posso fumar enquanto escrevo escrevo mais depressa. Ora, o meu quarto não tem janela mas o hotel tem um jardim e é preciso explorá-lo. Na verdade, como descubro em meia dúzia de passos, o hotel tem dois jardins separados, é descer umas escadas e depois decidir, um fica para a esquerda, o outro para a direita. Chegada ao fundo das escadas, torna-se óbvio para que jardim me vou dirigir. E começa a ficar claro que trouxe o computador ao ombro para nada; há uma festa no jardim e parece muito, mesmo muito animada.

Sim, antes de completar 24 horas na Índia dei por mim a crashar uma festa Bollywood, uma festa a propósito da estreia de um filme que era ainda uma homenagem a uma cantora em particular. Tudo no jardim do meu hotel, o tal sem grande piada na auto-estrada do aeroporto, lembram-se? Festa a rodos, bares feitos com claquetes como cenário em fundo, um palco, muita gente a dançar ao pé do palco e em cima do palco. Muita gente a dançar sem parar, ou quase (às vezes param para falar ao telefone, que é coisa que já percebi que por aqui se faz mesmo em qualquer parte e a qualquer momento, é quando calha, esteja o mundo a cair ou não, esteja quem estiver e passe-se o que se passar). Muitas, mesmo muitas mesas redondas bem postas mas com pouca gente sentada nas cadeiras à volta. Um ou outro já dorme, cabeça sobre a mesa, suspeito que adormeceu de beber.

Numa sala imediatamente antes do jardim, com vidro em vez de paredes, há toda a comida que eu queira experimentar e mais ainda. A sério, não dá para acreditar. A inveja de qualquer casamento português (eu sei, eu sei, não sou a maior especialista em casamentos, não tenho culpa, a responsabilidade é dos meus amigos, mas em miúda os meus avós paternos arrastaram-me para muitos, ainda me lembro). Algumas dezenas de pessoas comem, os casais mais velhos, um ou outro jovem vem de vez em quando encher um prato ou apanhar um nan ou roti que são feitos ali, numa mesa já do lado de fora da sala, numa espécie de terraço que dá acesso ao jardim. Mas a maioria das pessoas que está nesta festa nunca se afasta da pista de dança mais do que os metros necessários para alcançar um dos três bares disponíveis ou as mesas laterais repletas de garrafas de água pequenas (250 ml, acho que estou a ficar viciada nestas garrafas; para mim, que ando sempre com uma garrafa atrás, para ir enchendo durante o dia, são perfeitas, ou quase, cabem em mais malas, não em todas, mas em muitas mais), recarregar os copos e refrescar a sede e a cabeça. Muitos nunca param nem para beber, só abrandam quando a música abranda e voltam a acelerar quando é isso que pede a melodia ou a cantoria.

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Passado algum tempo percebo que entre as pessoas mais velhas, as que comem, é que estão as estrelas. Às tantas vem um senhor com ar de ser o gerente do hotel, acompanhado por mais uns quantos, e põem-se em fila para cumprimentar uma senhora especialmente bem arranjada, e depois mais umas quantas. As estrelas, as estrelas que eu não faço ideia quem sejam. Podia investigar, mas prefiro não interferir. Estar aqui já é bem bom, perfeito mesmo.

Não sei se se pode chamar cliché a uma coisa que nunca aconteceu aos meus amigos que já vieram várias vezes à Índia. Mando uma fotografia a uma amiga que cá esteve cinco semanas, em duas viagens. “Nunca vi indianos tão ocidentalizados enquanto aí estive. E tu nem há um dia chegaste…” Enfim, as reacções foram variadas o suficiente. A verdade é que eu crashei uma festa de Bollywood no meu primeiro dia. Comi tudo o que me apeteceu, bebi muita água que a noite estava quente mas o que mais fiz foi mesmo deixar-me ficar a ver, a rir com os grupinhos de rapazes e raparigas, com as suas interacções, com a maneira como se desafiam uns aos outros para dançarem de forma mais ousada ou vistosa. Escolhi a minha miúda favorita e nos vídeos percebe-se qual era. Fiquei a torcer para que se divertisse mais do que os outros todos. Escolhi o meu miúdo preferido mas depois ele subiu a uma cadeira e arrependi-me, ofereci-me uma segunda oportunidade e depois escolhi outro que foi dançar para o pé do grupo de amigas da minha favorita e tem a camisola completamente encharcada. Homens a dançar sem vergonha é coisa que eu muito prezo (sempre tive amigos incapazes de o fazer, incluindo alguns namorados), não há muita margem para se ser mais desavergonhado do que isto.

Às tantas, também percebi que isto tudo estava, obviamente a ser… filmado. Com tanta cor e animação, demorei a olhar para o centro do jardim, onde estava erguida uma megacabine de som (uma espécie de PA multifunções), só que tinha mesmo uma equipa de filmagem lá em cima, uns senhores sentadinhos atrás do tripé. De vez em quando, alguém ia ao meio da pista de câmara ao ombro. Mas eu mal dei por estas movimentações.

Ver gente a divertir-se à séria pode ser mesmo muito divertido. Especialmente se isto é a Índia e eu acabei de cá chegar. Bollywood sem fazer nada por isso? Sem sequer pôr um pé em Bombaim? Sem sair do hotel? Comida e diversão de graça, com fotografias e vídeos e muitos, muitos sorrisos de brinde? Check; check; check. Sim, sim, sim. Não sei se é de mim ou da Índia. Não sei nem quero saber. Só sei que me estou a divertir à grande e sem esforço. This is India e eu estou mesmo a adorar.

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A A. e o M. vêm comigo

Há alguns anos disseram-me que assim que chego a um lugar diferente mudo, parece que se nota na voz ao telefone, por exemplo (agora já nunca falo ao telefone com ninguém, a não ser em trabalho). Eu sei que é fácil sentir-me em casa depressa, não aconteceu em todo o lado, mas quase. E há pessoas que por isso me sentem a ficar mais longe, à medida que vão crescendo os dias. Eu gosto de me sentir em casa depressa, do conforto de me sentir segura nas ruas, nos transportes, da facilidade que costumo ter em conversar com pessoas mesmo quando quase não temos vocabulário em comum. Sei que desligo com facilidade dos problemas que deixo em casa, não que desapareçam, o que acontece é passarem a ocupar outro lugar, um pouco mais nublado e não tão à mão, e também fico contente por isso. O mais certo é os problemas continuarem no seu sítio quando eu voltar. E eu vou voltar, isso é mesmo certo. Mas também trago comigo as pessoas, de certa maneira. Ou vou mandando emails, por exemplo, a partilhar experiências com algumas. Ou penso nelas, em várias pessoas e em grupos de pessoas, mais ou menos por razões do momento ou outras.

Desta vez, sabia que ia trazer a A. comigo de uma maneira especial. No início deste ano, andava eu especialmente em baixo, e a A. pediu-me para a ajudar a planear uma viagem à Índia, uma viagem especial, para completar a sua formação em ioga e poder, um dia, tornar-se ela própria formadora, mestre. Não sou especialista, mas comecei a investigar e claro que ia ajudá-la. Porque adoro planear viagens, e a A. lembrou-se de me pedir por isso, e também porque a A. me fez este pedido porque eu não estava bem e ela queria distrair-me, dar-me algo bom em que pensar.

Não é assim tão fácil. Como já me confirmou por aqui a Ulrika, que é sueca e fez um retiro de ioga de um mês há dez anos nos arredores de Kerala, no Sul da Índia, “há muitos esquemas, em zonas com mais turistas, ainda mais, é preciso ter cuidado”. Enfim, agora é a A. que não está bem. Vai ficar, mas agora não está, não está mesmo nada bem. E apercebi-me durante o meu primeiro passeio sem destino que a vou trazer muito em permanência comigo. Já tinha decidido que ia escrever-lhe mais emails do que a outras pessoas, para ela ir vivendo um bocadinho disto. A A. já não fala em vir à Índia, mas eu sei que um dia ainda vai fazer a viagem, com retiro e tudo. Já não deve é acontecer para o ano, como ela planeava. Enfim, esta viagem é dela, também, e muito. Já sabia que ia ser, mas agora que cá estou, agora que a viagem começou realmente, penso tanto nela que percebi que esta é quase uma viagem a duas. Depois conto-lhe só a ela a conversa toda sobre retiros de ioga por cá com a Ulrika. Tirei notas e tudo, para a A., enquanto ouvia na cabeça o The Book of Love, do Peter Gabriel (também já ouvi sem ser só na cabeça, entretanto), que é uma canção que me lembra sempre a A. feliz.

A andar sem destino também me apercebi que o M. me vai fazer companhia, não como a A., de outra maneira. Acho que foi por me ter pedido uma carta ou um postal e me ter dado a morada. Há tanto tempo que não escrevo cartas nem mando postais enquanto viajo. E costumava fazer tanto isso. Há amigas de quem guardo imensos postais – espero que elas também guardem alguns dos meus. Costumava escrever a várias, à minha mãe também. E não precisava de pedir a morada a ninguém, ou sabia de cor ou já tinha sempre comigo num caderninho. Desta vez, por causa do M., já pedi a morada a várias amigas. Com uma já troquei muitos postais há muitos anos, com outras menos mas alguns, com as outras vai ser a primeira vez. Em dois casos, quero é escrever aos filhos delas, mas não lhes disse. Só lhes pedi as moradas. Depois tenho de agradecer ao M. por me ter pedido uma carta ou um postal.

Fotos: Stupa de Dhamek, nos arredores de Varanasi. Estes stupas são pré-budismo, locais onde os ascetas eram enterrados sentados; em redor, há umas bases de pedra onde os seguidores de Buda se sentam para o celebrar