Dormir num quarto sem janela

Chegar às 2h da manhã a um hotel não tem mal nenhum. Chato é ser um hotel de não fumadores, mas por que raio é que isto existe na Índia? Pior, e não, não é só por causa dos cigarros, a janela do quarto não é uma janela, mas um vidro, se não abre não pode ser janela, pois não?

A opção são os jardins do hotel, onde também não é suposto fumar-se mas de certeza que há quem o faça. Ou a rua, pronto. Para chegar aos jardins é preciso descer escadas e fazer curvas. A rua está já ali. O pior mesmo é não ter janela, quem já foi a minha casa sabe que há pelo menos uma sempre aberta, faça sol ou mesmo muita chuva (ou barulho lá fora). E o hotel fica na auto-estrada do aeroporto, não é exactamente a localização com que sonhara; para o efeito faz sentido. É a vida. São 2h e apesar de ter dormido no avião sinto que o meu corpo não se estica há uma semana. Dormir.

“Ma’am, that’s so cute”

Quente, húmido, não tanto como esperava. O avião chegou com quase duas horas de atraso, já passava bastante da uma da manhã quando o comandante anunciou o início da aterragem e disse que estavam 24 graus. Pareciam mais quando pus o pé na rua já na companha do Diipac.

As primeiras impressões não são tudo, mas são alguma coisa e o Diipac vai ser sempre a primeira pessoa que falou comigo na Índia. Contou-me tudo o que entendeu contar e não foi pouco. Os turnos de 24 horas disponível para ser chamado pelo hotel, estar num quarto longe da mulher, dos pais e das duas filhas, não ter, aos 33 anos, dinheiro para poder dar-lhe a educação boa, na escola certa, nem para comprar os presentes que elas gostariam de receber. Estar longe da família logo por estes dias, durante o início do Diwali, o festival das luzes. “Hoje, há bocado, entre as 23h e a 1h a minha mãe levou a minha fotografia e eu fui abençoado sem lá estar.”

O Diipac chamou-me ma’am e claro que toda a gente me chama ma’am, a mim e a todas as ma’am que por aqui deve haver. Percebi com ele que tenho de estar mais concentrada para perceber tudo o que me dizem, dependendo do sotaque, claro, principalmente se estiver cansada. O Diipac fuma mas não tem dinheiro para cigarros e então fuma bidi, o tabaco enroladinho numa folha que experimentei pela primeira vez no Jesus, o restaurante goês de Lisboa, ainda ele não tinha ido de novo a Goa e regressado para reabrir noutra morada. Dois cêntimos de rupia compram 20 biris, da pior qualidade, hei-de descobrir; um maço de tabaco pode custar 50 ou 260 rupias, dependendo da marca e do lugar onde se compra. Os bidi são os cigarros dos pobres, na Índia fumam-se mais do que os outros e quando são da pior qualidade fazem ainda pior. Também podem ser cigarros naturais, com folha de tabaco e sem carbono, mas aí são caros. Um camarada fumador que encontro mais tarde diz-me que foi a pior coisa que já experimentou e tem medo de voltar a tentar.

Estava especialmente cansada e nem percebi metade dos sítios que o Diipac me disse que devia visitar em Deli. Claro que me deu o seu número de telefone e insistiu para lhe ligar. Eu não liguei (ainda) mas já o voltei a ver. Lembrava-se do meu nome. “Sofia, ma’am, such a cute, cute name, so many indian girls have it”. No segundo encontro, de manhã cedo, quando disse que ia a Varanasi, foi ele que não percebeu, isto às vezes funciona para os dois lados. Como eu lhe contei que costumo viajar em trabalho e calhou comentar que já passei pelo Afeganistão, achou que eu tinha dito o nome de um país qualquer esquisito. “Varanasia, Arabasia, Arasia”. Enfim, é verdade que me estava a levar de volta ao aeroporto. “Oh, ma’am, such a cute way you say Varanasi”.

O “gajo que anda” e o lenço das cerejas (Portela)

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Gosto de aeroportos. Como a Joana. Mais daqueles que conheço (como a Joana). Não é mais, é diferente, é outra coisa. Gosto de saber de cor o percurso mais rápido para ir de X a Z e ter a certeza do que vou encontrar pelo caminho, de saber que sei onde é o melhor e mais barato pequeno-almoço, a melhor Net, as tomadas perto das cadeiras boas, as melhores cadeiras para dormir, o caminho para a rua se não houver sala de fumo; gosto até de reconhecer mesas onde jantei, apercebi-me disto no outro dia, na Turquia; também sei sempre onde fiz compras de emergência (como aquele vestido em Barajas, depois de voar de Berlim com um febrão e de aterrar encharcada, o vestido era igual a um da MJ, como é que é possível). Às vezes, tenho saudades de aeroportos. Desta vez não tive. Foram 19 dias, menos umas horas. Estou na Portela a fumar. Gosto desta sala de fumo. Não tem varanda como a de Maputo ou um aeroporto que não vou dizer na Turquia, mais Palermo. Mas não é má.

Daqui a umas horas, Frankfurt, de tantas viagens mas agora quase nunca. Mais logo, Deli e isso vai ser bom. Como estar neste aeroporto mas melhor. Bom como só o desconhecido consegue ser. A Índia. Mundo novo para desbravar e desbundar. Estar aqui às 7h e sem ter ido à cama é especialmente bom por causa disso. Gosto de aeroportos, sempre. Mas ainda mais quando entro neles a saber que vou para longe que até pode ser perto, desde que seja novo e diferente, é longe. A Índia é longe. Sei-o bem. Imagino que vai estar aquela humidade das noites de Hudaida, no Mar Vermelho. Imagino mas não sei. Não há nada assim. Não dormi e sorrio para toda a gente. Para o taxista que não era muito simpático, para a senhora da farmácia, para os senhores e a senhora das malas, tanto para o senhor que me tirou um café Nespresso e me vendeu uma água e me desejou boa viagem, para esta gente toda aqui nesta sala de fumo.

Gosto mesmo de aeroportos. E das pessoas que encontro neles. São quase sempre simpáticas e é raro estarem maldispostas. Agora há sempre muitas a olhar para o teclado dos telefones, mas ainda há as que olham à volta como eu, a deixar parar os olhos umas nas noutras. Acho que é para confirmarmos que estamos todos bem-dispostos, contentes, por estarmos vivos. Viajar faz-nos isto e então não faz mal não ter dormido, comido, tomado banho, seja o que for. O senhor simpático que me tirou o café bem disse que a água estava fresca. Só de mexer não me pareceu. Agora que bebi, está mesmo fresca. Tão bom.

Estão três senhores da ANA a fumar e a conversar sobre um passageiro de cadeira de rodas mas “que anda”, “se o gajo anda”, “para um gajo que anda tiveste de tirar mais um lugar”, é isto e jogos de computador; mesmo ao lado deles, está um senhor careca e de óculos numa cadeira de rodas, de certeza que não anda, é estrangeiro e não percebe. E eles riem-se muito, nem parece que estão a falar de “um gajo que anda”, só dos jogos de computador.

A água está mesmo fresca, quase demasiado fresca. É do Luso e diz no rótulo: “Às vezes não percebo o que queres. Mas o que eu quero é ver-te feliz”. Dou um cigarro a um rapaz que ficou sem mortalhas. Afasto-me um bocadinho para um casal de namorados se esparramar à vontade. Acendo o segundo e último cigarro da manhã.

Agora, fiquei com frio. Talvez tenha sido a água ou a falta de sono. O que vale é ter aqui o lenço das cerejas que a Joana me ofereceu há tempos.

 

O sorriso da Karen (Restelo)

 

HO - 25 MARCO 2009 - Passaporte PORTUGUES - PASSAPORTES UNIAO EUROPEIA EUROPA

Eu vou à Índia. Amanhã. Hoje, quando falo ao telefone aqui do meu pequeno exílio no Restelo, há quem duvide. “Mas tens a certeza que vais ter o visto a tempo? Sabes que é amanhã, não sabes?” Ou: “Mas sabes que horas são? Como é que podes ter a certeza?”

Sei, sei isto tudo, mas sei que vou. As palavras que se seguem dirigem-se aos que não são como eu, não acreditam (mesmo) que vai correr tudo bem quando a lógica parece indicar o contrário, para aqueles que stressam antes de viajar, por exemplo. Eu não stresso nem quando perco um avião (e sim, já perdi alguns).

Então, para quem não é como eu – se forem, podem achar graça na mesma, mas menos –, saibam que conheço quem tenha ido para a China em vez de ir para a Índia porque o visto demorou, é um amigo, português, passageiro muito frequente. Tenho outro amigo, um professor americano ex-jornalista mais velho que até viaja bastante, em trabalho, que tentou desistir e avisar a Universidade de Deli que o contratara que afinal já não ia. Foi, mas quis desistir por causa do visto (não por causa do enjoo de caril que diz ter trazido; aparentemente, nunca mais conseguiu comer caril – a mim essas coisas de enjoos com um tipo de comida também não me acontecem). Enfim, experimentem perguntar a alguém que já tenha ido à Índia como é que é com o visto. Pois, eu também nunca tinha perguntado até precisar de um.

Não desesperem, nunca. Nem se zanguem com a Karen. Nunca.

A primeira vez cheguei demasiado cedo, a segunda não me deixaram entrar por 2m. À terceira já dominava horários (o consulado em Lisboa, na mesma moradia da embaixada, Rua Pero da Covilhã, n.º 16, no Restelo, abre das 9h30 às 12h de segunda à sexta, menos à quarta) e sabia que a fila começa bem antes da abertura. Por exemplo, se chegarem antes das 9h ao portão, um bocadinho, vá, podem conseguir a primeira senha V (visto) do dia e serem os primeiros a serem atendidos lá em baixo (entra-se, sobe-se umas escadas, descem-se outras, atravessa-se o pequeno jardim e põe-se o pé onde tudo acontece). Tem tudo para correr bem. Ou não.

Antes disso, e não é uns minutos antes de saírem de casa, é mesmo na véspera de lá irem, pelo menos, têm de fazer o pedido de visto no site da embaixada. Depois, é preciso imprimir o dito cujo, juntar-lhe duas fotografias, o passaporte, claro, e o comprovativo do bilhete de avião. Sim, não está lá escrito e se telefonarem ninguém vos diz, mas têm de levar o bilhete. E, já agora, levem tudo o mais que se vos ocorrer. Nunca se sabe.

“É relativamente recente, tem uns seis meses”, explica a vários potenciais turistas incrédulos um senhor que faz vida disto, trata dos vistos dos outros.

“Eu já fui seis vezes à Índia, nunca me tinham pedido isto”, diz um jovem português, acompanhado de uma jovem também portuguesa que nunca foi. “Eu avisei-te, eles são doidos.” E, depois, para o senhor: “O que não é novo é a burocracia indiana. Acho que nunca foi igual de nenhuma das vezes que pedi visto. E nunca foi fácil.”

Também, que exagero. As três senhoras amigas que tinham a senha V1 foram as primeiras a desistir e a ir trabalhar. Não tinham trazido os bilhetes, apesar de virem armadas de umas pastinhas que pareciam conter lá tudo o que dizia respeito à viagem. Acho que até tinham comprovativos de vacinas, reservas de hotel e extractos bancários. Nunca se sabe. Desta vez, o que era preciso era o bilhete de avião e isso não tinham levado. Aqui, no Restelo, não serve mostrar nada no telemóvel. A opção, como fizeram os dois jovens, que só tinham a senha V5, é ir à procura de uma loja para imprimir e voltar de papel na mão, com sorte ainda a tempo de chamarem a senha que nos foi dada à chegada.

É preciso paciência? Sim. Mas não vale mesmo a pena desesperar. A mim nunca me enganaram, quando a Karen deixou escapar, logo ali, no primeiro encontro, que o visto podia ficar pronto de um dia para outro (quer dizer, estando tudo bem, é imprimir um papel noutro, não é?), a legitimidade do poder da burocracia ficou logo a perder para o meu optimismo. Mesmo quando já não tínhamos um dia (o meu voo é às 8h25) e o raio do visto continuava por emitir.

O meu caso foi especial, pedi visto de jornalista. Diz-me a experiência que isso é bem pior. Aqui nem sei dizer. Foi diferente. Por exemplo, lembram-se do comprovativo do bilhete? Nunca cheguei a levar. Mas foram precisas outras coisas que na verdade eram só uma e o único problema foi que as caixas de email da embaixada não suportavam o tamanho do raio do documento que provava onde é que eu vou na Índia e de que nacionalidades são os jornalistas na mesma viagem. Tudo o que o senhor secretário me disse para justificar a necessidade desse documento (eu já tinha uma carta de convite da empresa que me… convidou) não tem justificação na realidade (“Assim que entras eles sabem automaticamente que és jornalista” – a sério?!; “Se eu souber os nomes dos outros é tudo mais rápido” – nem pensar, eu sei lá que tipo de visto é que eles pediram, ficas com as nacionalidades e já é bem bom) mas tudo bem.

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Ao final da manhã da véspera da minha viagem, dia em que o consulado não abre para tratar de vistos, o raio do anexo continuava sem chegar a nenhum dos emails. A Karen, que me pusera à vontade, ela nem deu por nada, foi um sorriso a fugir, mas foi o sorriso que me fez ter a certeza que o visto estava no papo, lá me sugeriu que fosse imprimir o raio do documento sem o qual o senhor secretário não podia dar a ordem para ela emitir o visto. Isto porque ela queria ir almoçar. E eu que só queria sair dali e fumar um cigarro, aceitei (já tinha desistido de insistir para ela me dar o email pessoal, qualquer gmailzinho recebia isto em 30 segundos, a vossa net, aquela que eu apanho, pelo menos, não é boa, mas chega). Mas não, à saída encontrei o senhor secretário e ele lá me conduziu a uma secretária com um computador noutro edifício, ainda encontrou a Karen e a colega antes de saírem para almoço, não podia ser ele a ligar o computador e a verificar se eu sabia entrar no meu email e imprimir um papel. A Karen apareceu, eu fiz o que tinha a fazer, fomos todos almoçar.

Depois, bem, depois de almoçados ainda levou quase hora e meia até o meu passaporte estar na minha mão com uma página nova colorida e um visto de três meses para a Índia. Fiquei cheia de dores de costas, ia ficando constipada (o segurança, a querer ser simpático, acendeu-me as luzes da parte da tarde, quando já não havia ninguém na sala comigo, e com as luzes ligou-se o raio da ventoinha), perdi tempo em que podia ter feito tantas outras coisas, como apanhar a roupa da corda, por exemplo, folheiei vezes sem conta o calendário 2016 ao lado dos livros de colorir para os miúdos. Mas tenho o visto. E vou para a Índia. Já vi gente desistir por menos. Ou ter um pequeno ataque de nervos. Eu não. É a minha paciência e crença no mundo e no melhor das pessoas. Não, foi mesmo o sorriso da Karen. Eu vou à Índia.

 

Ela viu tudo em Hiroxima

Frágil, sinto-me frágil. Nós achamos sempre que somos fortes, parece que é sempre tudo para sempre. Mas depois isto acontece e tudo acaba, tudo desaparece. A beleza é destruída de repente. O ser humano não é muito forte. Acabei de sair do museu e o que sinto é isso, fragilidade. Temos que nos unir para que isto nunca mais aconteça no mundo.
(Rina Arai, 16 anos)

Rina, Hiroshima

Enquanto Rina fala, saída, como nós, do Museu e Memorial da Paz de Hiroxima, as expressões do rosto da minha guia japonesa denotam uma mescla de surpresa e emoção. Eu observo as duas enquanto as minhas perguntas são traduzidas para japonês e as respostas chegam daquele pequeno corpo em fato colegial que só deixa o movimento das mãos, do pescoço e do rosto grave ao ar livre. É com um nó na garganta que a minha tradutora me entrega as frases de Rina e é com o mesmo nó na garganta que as oiço e aponto. Rina, 16 anos, estudante do secundário em Kasukabe – a quase mil quilómetros daqui, perto de Tóquio -, acaba de fazer uma visita de estudo com os seus colegas ao enorme complexo que regista, reconstrói e mostra, imagem a imagem, o apocalipse nuclear de Hiroxima a 6 de Agosto de 1945, cidade-mártir com direito a uma entrada fatal na História como a primeira cidade do mundo a ser assassinada com uma bomba atómica, logo seguida de Nagasaki.

Como nós, Rina viu as fotografias que segundo a segundo mostram o cogumelo nuclear, a devastação absoluta que se seguiu, o horror de 80 mil mortos e dos milhares e milhares que nos meses e anos seguintes morreram pelas sequelas (mais de 200 mil, calcula-se), os corpos queimados, as dores que perduram (e perdurarão) para sempre. Pelo museu, o horror da História acompanha-se em vídeos, documentos, objectos, reconstituições, mapas pormenorizados, pedaços de paredes estilhaçadas, histórias pessoais, até manequins que, qual zombies, parecem querer caminhar pelo espaço com os corpos a arder. Não é um turismo do horror, é um turismo do conhecimento. A cidade não pode esquecer, o mundo não pode esquecer, Hiroxima não quer esquecer – e lembre-se que o nuclear e a guerra nuclear continuam agora e sempre na ordem do dia, até nas eleições americanas com um candidato a Presidente cujas opiniões sobre o nuclear têm feito o mundo estremecer. Hiroxima lembra o horror nuclear a cada passo, evocando sempre a paz e a defesa da abolição do armamento nuclear.

“Nunca mais” é a divisa. Por isso, um memorial e um museu, que sendo de memória nuclear, se chama da paz, com uma eterna chama a arder, monumentos pelos caídos, pelos heróis e voluntários, pela união entre os povos ou ruínas guardadas tal como a bomba as deixou. A mais emblemática é o Genbaku,  edifício tornado ícone do martírio e da cidade, um pavilhão de feiras e exposições comerciais que, embora descarnado, se manteve de pé após a bomba, com a sua cúpula esvaziada a erguer-se nos céus, o único e maior prédio a ficar de pé na zona. Todos os que estavam dentro dele morreram, a estrutura ficou. Como um corpo derretido cujo esqueleto permanece altivo.

Pela cidade, cada passo nosso traz essa memória – até porque o recente acidente nuclear de Fukushima, oficialmente controlado e a uns 1000km daqui, continua bem presente e dificilmente alguém o esquecerá.

Mas não se pense que Hiroxima vive nas ruínas do passado. Pelo contrário, vive no seu renascimento, na sua reconstrução das cinzas, na força da sobrevivência, na labuta dos dias, na esperança que enterra esse apocalipse no passado mesmo que, acredito, nunca seja esquecido. Já se passaram 71 anos desde que a bomba a matou. A vida, essa, continua. E o nosso dia de Outubro em Hiroxima, embora cinzento e chuvoso, não é feito de guerra. É feito, acima de tudo, de paz. Levantada do chão, é uma cidade vibrante, renovada, com mais de um milhão de habitantes a vivê-la.

Teremos tempo para passear pelo seu “castelo” reconstruído como museu, de rir com samurais em versão pop a actuar para as fotos, de cruzar a cidade de eléctrico, de ver templos e museus, entrar num hotel-cápsula e ver os prédios high-tech, acelerar pelas montras de stands com automóveis incríveis (a propósito, a Mazda nasceu aqui e tem cá um museu) ou saborear a boa vida nesta cidade da ilha de Hondo, no delta do rio Ota, cruzada veneziamente por canais. Até para descansarmos as pernas numa esplanada ribeirinha a beber uma cerveja local enquanto vemos residentes, turistas e casais de namorados sorridentes a passearem a seu bel-prazer.

Temos mesmo tempo de encher a barriga de alegrias. Tanto ao almoço numa casa de okonomiyaki, estilo tradicional de comida rápida em pequenos recantos e onde a mesa central para todos é uma chapa quente na qual o chefe faz uma espécie de panquecas deliciosas, com vegetais, ovo frito, massas e o que mais se queira. Aqui, fui até repabtizado graças à simpatia esfuziante da dona (e dos restantes clientes): Me-me san. Algo como Senhor Olhos Grandes. A culpa foi da dona Hisashi, que, aos 82 anos, com o marido, dá comida e boa disposição ao seu pequeno restaurante baptizado com o nome do filho que é notoriamente o orgulho da família, Hiro Chan, “é professor! professor!”. “Olhem para esta cara linda, de bebé grande, olhem para estes olhos, grandes, grandes, lindos, me-me san, senhor olhos grandes”, traduziu-me a minha guia, rindo-se que nem uma perdida. Há que dizer que comparando com os cidadãos japoneses (e com praticamente todo o resto do mundo) os meus olhos são grandes (e, vá, lindos). Me-me san forever.

E ao jantar, mais alegrias, noutra casa tradicional, Izakaya, típico pub japonês, com reservados partilhados e, entre outras especialidades, carne de vaca Wagyu (uma das mais celebradas do mundo) por nós grelhada em chapa, ou lulinhas estufadas apetitosas, ou risottos e vegetais ao vapor e sopas de miso retemperadoras, cerveja e saké. E (perdoem-me) acima de tudo: um vinho alentejano tinto, tornado ainda mais especial por aparecer num anúncio na nossa mesa. A minha guia jurou que nada tinha a ver com o assunto. Mas imagine-se se numa noite de Outono um viajante alentejano pelo Japão descobre por coincidência um vinho da sua terra, mesmo que chamado de Porco Tinto, na sua mesa de Hiroxima. É um golpe de alma. Garanto que nunca, como em Hiroxima, por tudo o dito e visto, este alentejano ergueu um copo de vinho num “saúde!” com maior veemência.

Sim, em Hiroxima, nunca esquecemos, mesmo que seja uma eterna verdade, como se dizia no clássico filme Hiroxima, Meu Amor de Resnais, “Tu não viste nada em Hiroxima”. Sim, nunca esquecemos, mas celebramos sempre a vida. Se calhar até mais e mais verdadeiramente que noutros sítios. Porque se não vimos, há sempre uma voz vinda do fundo dos tempos, uma testemunha, mesmo que não presencial, que transporta no sangue a verdade partilhada que o mundo tem de ouvir. Uma e outra vez.

Frágil, sinto-me frágil. Nós achamos sempre que somos fortes, parece que é sempre tudo para sempre. Mas depois isto acontece e tudo acaba, tudo desaparece. A beleza é destruída de repente. O ser humano não é muito forte. Acabei de sair do museu e o que sinto é isso, fragilidade. Temos que nos unir para que isto nunca mais aconteça no mundo.
(Rina Arai, 16 anos)

 

É uma casa japonesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa

CastellaCastella

Juro que nem queria acreditar, mas quando o pastelinho entrou quase todo de uma vez só na minha boca rendi-me: é bom, bom, bom, é pastel de nata, é suave, cremoso e estaladiço, é português, é delicioso, derrete-se na boca em Quioto como se em Portugal. Verdade seja dita que pastéis de nata à portuguesa há muitos pelo Japão, até há mais casas de mote luso pelo país mas, desculpem-me, esta é especial. Esta nasceu em Lisboa, onde acabaria por fechar portas e mudar-se de armas e bagagens, de donos e doçarias, para Quioto.

Sabem aquela do viajante português que anda sempre com saudades de um bom bacalhau ou de um cimbalino dos nossos em qualquer viagem? Sabem, eu sei que sabem. Umas vezes é piada, outras é vontade, mas, admitamos, é muitas vezes verdade. Depois de uns bons dias no Japão, e apesar de até ter passado perto de restaurantes portugueses ou de uma casa de fados em Tóquio, quando chego a esta pastelaria e vejo a bandeira portuguesa a ondular por cima da porta por entre dois candeeiros de rua dos nossos não consigo resistir àquele orgulho. Que se há-de fazer? Nós somos assim – e ainda mais no Japão, onde Portugal faz parte da História e da lenda, para mais até com algumas boas recordações.

Castella CastellaEntro na Castella do Paulo – o nome azulejado não podia faltar à porta – e estou em Portugal, embora o corpo esteja numa reconstruída velha casa tradicional de Quioto. O sorriso de duas meninas japonesas ao balcão ainda fazem brilhar mais a montra de pastéis de nata ou tigeladas e pão-de-ló na sua versão japonesa (herança lusa, chamada castella ou kasutera), de pastéis de bacalhau e empadas, mas também pode haver brigadeiros ou tortas de Azeitão e bolas-de-berlim, muitos bolos sazonais (vem aí o pão de deus e até o bolo rei), enfim todo um doce Portugal bem acompanhado (do galão aos vinhos do Porto, Madeira, verdes…).

Castella O doceiro é o Paulo Duarte, mas quando visitámos a casa a meio da tarde era a sua merecida tarde de sono. “Ele começa a fazer doces às três da manhã”, diz-nos Tomoko, a sua mulher e responsável por gerir o Castella, num português perfeitinho e bem-disposto. Tomoko nasceu em Quioto, casou-se com Paulo, mudou-se para Portugal, onde viveu uns 30 anos e onde abriram, em Lisboa, uma casa de chá na Baixa que atingiu o estatuto de casa de culto. Paulo começou cedo a interessar-se pela doçaria e na década de 1990 viajou para o Japão para estudar pastelaria. Daí foi desenvolvendo tanto as artes portuguesas como japonesas. O resultado está à vista, numa doce harmonia de derreter qualquer visita.

CastellaEnquanto eu vou desfilando os olhos pelas decorações portuguesas, pelos pratos e cestos de vime, livros sobre fado e comidas e postais portugueses, lenços dos namorados ou galos de Barcelos, Tomoko vai falando da casa e como não foi nada fácil erguê-la a partir de uma velha adega de Quioto, que ainda tinha chão de terra e agora inclui mezanino e toda uma estrutura em madeira de qualidade imperial. Mesmo: “Tivemos que usar os carpinteiros que trabalham para a casa imperial”, conta-me. E isto que estamos em Quioto, um paraíso de templos, casas e retiros de imperadores que são obras-primas da arte da madeira.

CastellaCastellaCastella“Em Lisboa o nosso objectivo era divulgar a Castella, agora aqui queremos divulgar a doçaria portuguesa”, vai-me dizendo numa conversa que tem por banda sonora a guitarra portuguesa. “Os japoneses não conhecem, vão provando e gostam muito, só conheciam os pastéis de nata, que aqui se chamam egg tarts, porque foram chegando a toda a Ásia via Macau, mas não gosto desse nome, chamamos-lhe mesmo pastéis de nata.” Abriram em Abril do ano passado e foi uma revelação. Não faltam clientes japoneses tornados fãs nem portugueses de visita. “Às vezes aparecem pessoas que já nos conheciam de Lisboa e eu fico a olhar tipo ‘Que fazes aqui?!’. Eu próprio me lembro da Tomoko na Baixa lisboeta e há de facto um certo prazer em estarmos a conversar a mais de 11 mil kms de distância e alguns anos-luz desses tempos. Agora, folheio a ementa, onde os bolos e especialidades não são apresentados à toa, nota-se mão na obra: estão explicados por região de origem, uma a uma, com sua história e resumo.

“Chegamos aqui e tivemos como um sexto sentido, tinha que ser aqui.” Visito a cozinha, separada da sala por vidros para se poder ver a fábrica em funcionamento e onde descansam formas e tachos portugueses. Os cheirinhos fazem-me viajar. Tomoko abre o forno onde descansam os pães-de-ló japoneses de herança lusa, linhas direitinhas, metros de bolo que libertam odores maravilhosos. “Tudo ingredientes naturais, nada de químicos.” Os ingredientes são todos adquiridos no Japão, com excepções, como o azeite e sal marinho portugueses – o cimbalino também é do Japão (mas passou no teste luso com distinção), que “importá-lo de Portugal fica muito caro”. Na cozinha, ao lado do relógio que marca os tempos dos trabalhos, um papelinho tem uma carinha sorridente, caracteres japoneses e uma palavrinha portuguesa: sorriso.

O sorriso de Tomoko acompanha todo o passeio. No primeiro andar do mezanino, um grupo de jovens japonesas delicia-se com coisinhas lusas. As paredes mostram mais pratos e paninhos dos nossos. Ao centro, um manequim veste à minhota. Cá em baixo aguarda-me a minha guia japonesa, Hiroko, que não conhecia esta casa portuguesa na cidade pela qual guia continuamente turistas. O salto à Castella do Paulo foi até uma adenda à nossa apertada agenda de visita a uma Quioto bela e repleta de atracções. Hiroko estava algo stressada com este salto à agenda (respeitar horários e cumprir a agenda é essencial) mas agora, depois de degustar os nossos docinhos, beber um café, conversar com Tomoko, está mais portuguesa. Até comprou uma caixinha de bolos, ficou fã.

Castella

Aliás, quem me sugeriu este salto à Castella do Paulo – que, embora estivesse no meu bloco de notas, não estava incluída no programa do Turismo do Japão – foi uma outra japonesa, a jovem Ayano, a nossa mestre de uma cerimónia do chá numa deliciosa casa tradicional de Quioto, Tondaya. “De Portugal?, têm de ir ao Castella!”, garantia-me ela no seu perfeito quimono, mostrando fotos de pastéis de nata e outros bolinhos no telemóvel. Quando o Japão nos aconselha ir a Portugal sem sair do Japão, como poderíamos resistir?

Deixo, deliciado, a Castella do Paulo, entre o sorriso e dois beijinhos de Tomoko, as nossas fotos para mais tarde recordar e aqueles bolinhos e pastés de nata inesquecíveis. Agora que escrevo isto, por acaso ao som de um disco histórico de Amália, o Live in Japan, posso garantir-vos: fica bem esta franqueza fica bem. Uma promessa de beijos, dois braços à minha espera, é uma casa portuguesa com certeza.

Informações: Castella do Paulo, Bakurocho 898 – Kamigyo-ku, Kura A – Quioto 602-8386, tel: 075 748 0505. castelladopaulo.com -mapa: goo.gl/maps/KXg9KC57qpM2 (perto do santuário Kitano Tenmangu e a uns 20 minutos a pé do Pavilhão Dourado)

A Fugas viajou a convite do Turismo do Japão.

O melhor pior espectáculo do mundo

Robot Restaurant

De Tóquio, uma pessoa traz um caleidoscópio de lembranças, uma variação filmíca que mistura motes à Kurosawa, Godzilla e Blade Runner, à Lost in Translation, manga e anime, um corrupio de imagens em movimento, um corrupio de muita gente em movimento, parecendo tudo em fast forward. Ora, exactamente essa sensação é resumida num espectáculo de uma hora que ainda nem acredito bem que vi e que não me sai da memória (ver Insónia em Tóquio…). É uma coisa. Um ovni. É o Robot Restaurant. É a histeria mais animada a que alguma vez assisti, é trash, é kitsch, é maluco. Não em vão, está nos tops online das atracções de Tóquio segundo os seus visitantes, embora não seja cena para qualquer espectador. Passo a tentar explicar, porque na verdade aquilo é quase inexplicável – felizmente tirei uns bonecos e uns vídeos que, apesar de me tremerem as mãos com as vibrações, espero que ajudem.

A emoção começa logo nas ruas em volta, uma daquelas zonas vibrantes de luz e desfiles infindáveis de gente. Estamos em Kabukichō, tradicional bairro da luz vermelha de Shinjuku, hoje em dia muito virado para o entretenimento geral e, como todos os bairros similares pelo mundo, hoje em dia centro de atracção para turistas, hipsters, viciados em doses várias da má vida (infelizmente, não tivemos agenda para inspeccionar os verdadeiros red ligth spots…). Entra-se na rua do Robot Restaurant – que, apesar do nome, é afamado pelo dito show e não pela comida, aliás nem comemos – e percebe-se logo quem manda ali. O espaço explode em luz e barulho (uma musiquinha repetida à exaustão), empregados mascarados (no caso em alusão ao Halloween, que por algum estranho motivo turístico se celebra ao longo de todo o mês de Outubro), bonecada mais ou menos robotizada. Só visto e ouvido:

Na casa à frente da sala de espectáculos vai-se buscar os bilhetes reservados (a bom preço:cerca de 70 euros, comprados online em sites com desconto). Entra-se então para a sala do show, num prédio que este projecto, que terá custado milhões e milhões de euros (fala-se em mais de 100 milhões, faz parte da lenda), partilha com outras atracções e bares mais, quis-nos parecer, “aluzvermelhados”.

A sala de espera é bar e restaurante e montra-aperitivo do que aí vem: toda ela brilha em espelhos e espécies de vitrais com dragões e raparigas. É quase preciso pôr os óculos de sol. Há espectáculos a cada hora, portanto uns que saem e outros que entram encontram-se por aqui. Quase cem por cento são turistas – o meu guia apontou uns três ou quatro japoneses numas centenas de pessoas. Quando é dado o sinal, a clientela do próximo show começa a descer escadas e mais escadas até atingir uma cave gigantesca onde o palco é uma passagem central e os espectadores ficam encadeirados dos dois lados, com paredes-vídeo a lançarem miríades de imagens. As luzes apagam-se. Um barulho infernal meio techno começa a dar de si no escuro. E de súbito grandes máquinas transportam tambores e músicos com cabeleiras e fatos ofuscantes. Toca de bater até mais não até tudo rebentar num carnaval imparável e nos tímpanos, com os palcos móveis dos músicos a andarem de um lado para o outro na sala, a luzes começarem a faiscar, pelos quatro cantos deste mundo e na nossa cabeça.

O que se segue é o mesmo contínuo de histeria, em quatro quadros diferentes com a participação de robots gigantes, dezenas de artistas, músicos, performers, dançarinos, o diabo a sete, lasers, LED, gritalhada, referências a lendas, a histórias e filmes, motas e todo o tipo de veículos, tudo ao molho e fé no anime. Nos intervalos, a feira popular continua com venda de pipocas, bebidas, brincadeiras. Os quadros apresentados tanto incluem lutas entre grandes robots malvados que vêm doutro planeta contra seres bonzinhos da terra e do mar como coreografias animadas de dançarinos vestidos de luzes, ninjas, deusas de cabelo azul, fadas cor de rosa, dominatrixes malvadas de cabedal, cavalos a cavalo, coelhos enraivecidos, deusas pop, robots robocop, ninfetas. Algo entre um Kabuki versão LSD e um thriller global, sendo que o show que aqui se mostra vai variando conforme a época e temporada (este era muito Halloween).

Há turistas de ar aparvalhado, de boca aberta de espanto, outros parecem quase ofendidos pelo ritmo infernal, outros a rir histéricos de vez em quando (caso cá do escriba), outros que, parecendo impávidos e serenos, estão como que em estado de choque. No palco, a coisa vai do Japão e anime para turista ver até ao… samba? Sabe Deus. Vai de tudo a todo o lado. A animadora puxa pelo público, há muita gente quase em delírio, posso garantir-vos.

Quando tudo termina, eu e o meu camarada saímos para a rua com expressões de alívio. Venho tão desconcertado como duas turistas que pareciam ter acabado de ver um filme de terror hilariante. “Então, que acharam?”, pergunto eu. “It’s craaazzzy”, respondem quase em uníssono. Seguem-se umas interjeições e umas tentativas de opinar, “É..”, “Bem..”, “Não sei como…”, “Hum…”. “É tão mau que é bom”, sai-se uma. “Mas pelo preço.. não sei, é…”. Compreendam-nos, acabamos de levar com uma droga forte nos sentidos e ninguém consegue raciocinar. “É capaz de ser o melhor pior espectáculo do mundo”, digo eu, que sou um poeta. “É isso! Sim! Sim!”. Riem-se e vão à sua vida, ainda cambaleando pela rua, soltando um último grito opinativo: “Mas quanto mais bebíamos melhor ia ficando o show!”.

A Fugas viajou a convite do Turismo do Japão

Quando perdes o telemóvel em Tóquio e ele aparece em Quioto

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Um arrepio súbito. O telemóvel?!
Levanto-me do banco do restaurante decorado a filmes de Kurosawa e busco tudo.
Nada. O meu telemóvel desapareceu na cidade mais segura do mundo.
Todos no restaurante são activados para a busca. Nada.
O meu guia e novo amigo, Masatochi Watanabe, redobra-se em esforços. Nada.
“Talvez tenha ficado no hotel, esquece, depois já se vê.”
Revemos mentalmente os locais por onde passámos e só pode ter ficado mesmo no restaurante ou no hotel. Já se resolve. No restaurante ficam com o nosso contacto, para o caso de aparecer.
Passamos o resto do dia em agenda turística e chegados ao hotel procuro na recepção novas do aparelho. O rapaz da recepção chama as hostes à batalha mas nem nos perdidos e achados nem no quarto, no bar, na sala de fumo. Nada.
Só na manhã seguinte, já estamos nós de abalada da cidade e a correr para um comboio, me vem à memória que apanhámos um táxi por breves minutos. Terá deslizado para o banco? É um telemóvel sorrateiro, por sinal um japonês e preto Sony.
Watanabe liga para a central de táxis (lembrete: ficar sempre com a factura do táxi), uma voz faz perguntas, ele responde, não percebo patavina mas percebo tudo graças à alegria do meu camarada.
O telemóvel ficou no táxi, o cliente seguinte encontrou-o, entregou ao taxista, o taxista entregou na central. Nesta cidade com 14 milhões de pessoas, o sistema da honestidade funcionou até ao fim. O busílis é que estou de partida de Tóquio. Mas não se passa nada: a central envia de boa vontade o telemóvel para o meu próximo hotel.
Quando chego a Quioto no dia seguinte, o meu Sonyzinho japonês está à minha espera num envelope na recepção.
Simples, não?
Moral da história: it’s a Sony.

A insónia de Tóquio

IMG_5517Lost in translation? O filme não me sai da cabeça e tanto faz que esteja perdido pelo gigantismo do meu hotel como pela desmesura de Tóquio. A história em que Bill Murray se entedia entre cenários de hotel de luxo chama-se em português O Amor é um Lugar Estranho, o que até – acabei de perceber… – terá dado origem ao título em português do livro de Peter Carey (vide post anterior),  Wrong about Japan, entre nós chamado O Japão é um lugar estranho. Como li o livro no avião e revi o filme numa terrível noite de insónia em Tóquio (ironias cinematográficas da vida), juntam-se na minha cabeça o relato e a ficção à cidade real que calcorreio e que vivo. Esta coisa do Japão ser dado como um lugar estranho até me irritava, confesso, que isto dos exotismos, como sabemos, é sempre uma coisa muito relativa.

O Japão, ou pelo menos Tóquio (que é o que superficialmente conheço para já e que é também o Japão do livro), não tem nada de estranho. Entranha-se até muito rapidamente na sua modernidade física arrebatadora, de prédios e arquitecturas de tirar o fôlego, umas harmonias de betão coreografadas com rigor japonês. Não são clichés, é mesmo tal e qual. Nas ruas são sempre milhões a respirar por entre regras rígidas de vida pública, luzes e neóns, seja de dia, seja de noite (sendo que quando se vai o sol, claro, o néon explode em omnipotência e variações do arco da velha pelos centros da cidade). Isto tudo misturado com tradições e civismos arreigados (e regulados). À falta de prédios velhos pela cidade, arrasada que foi pelas bombas, o contraste entre a tradição e a modernidade mostra-se nos corpos e gestos dos seus cidadãos, por mais modernos que sejam os trajes ou as construções.

Com um dia e meio de Tóquio, a minha cabeça é um farol. Aprendo a fazer as semivénias que acompanham os cumprimentos sociais, a pegar nos cartões-de-visita segundo manda a lei rígida (com as duas mãos, obrigatório prestar atenção e ler os dois lados do cartão antes de guardar), a fazer sempre fila para entrar num transporte, metro incluído (atenção Portugal), a seguir sempre pela esquerda nas escadas rolantes, a tirar os sapatos sempre que o chão da casa o exige, treino-me nos pauzinhos, obedeço às leis do fumo.

Com uma vida tão regrada, então por que não consigo adormecer? Noite dentro, já fiz todos os exercícios, revi o Lost in Translation, já contei samurais, nada. Talvez porque este dia e meio foi tão feérico que a minha cabeça rebenta de informações, sons e imagens. Passeio pelo hotel como se no filme, vou de madrugada pelos corredores, espio a rua na noite de um frio urbano, converso na recepção, passo pelos bares, pelas salas de fumo. Na cama, volto às voltas e a cabeça não pára.

Pode ter sido por aquele espectáculo do Robot Restaurant, uma hora de histeria ao vivo num show que mistura referências para turistas com dezenas de artistas em movimento, barulho e luzes contínuas, de deusas que parecem saídas da banda desenhada a grandes bonecos robotizados à Godzilla. Explodiam lasers, bombinhas, tambores, gritos, músicas, batidas, tudo entre histórias como a da luta dos robots maus que invadem o planeta contra o exército bonzinho e pacífico da terra e do mar. Uma espécie de anime em carne e osso que é um íman para turistas. É tão mau que é bom. É um excesso que não nos sai da cabeça.

Mas também posso estar às voltas com as memórias de uma tarde na Cidade Eléctrica, Akihabara, onde pulsam centenas de lojas de cenas electrónicas e digitais e em que o anime é um deus. Bonecos e anúncios animados de tamanho de prédios, gente que se veste como se fossem personagem, fétiches mais ou menos inocentes para todos os gostos. Como as meninas do Maidreamin, um café só de coisas queridas, moe moe!, super kawaii! Elas vestem-se entre empregadas clássicas e personagens anime, falam da forma mais querida do mundo, os clientes põem orelhas de coelho, pedem cocktails com bonequinhos e sabores à infância. Elas vivem na Terra dos Sonhos e é tudo cute e cor-de-rosa. Um pesadelo para alguns, um sonho para muitos.

Mas isto não tira o sono a ninguém, muito menos os passeios pelos jardins do palácio imperial ou as voltas por templos budistas e xintoístas, as compras pelo bairro de Asakusa, o luxo e insígnias poderosas de Ginza ou mesmo os passeios pela imparável Shibuya, onde parecem estar sempre milhões de pessoas. Mas para quem dorme ao lado da estação de comboios mais movimentada do mundo – chama-se Shinjuku e é ver para crer –, isso não é nada.

Na minha cabeça juntam-se estes mundos todos, o universo Nova-Iorque made in Asia e o movimento de milhões de pessoas, as regras e o civismo, a simpatia e a formalidade, o anime e os filmes de Kurosawa (o almoço foi num restaurante que o homenageia), a destruição de Tóquio e o seu renascimento, os shoguns, imperadores e samurais (o jantar foi num reservado para dois num restaurante de ambiente também de filme e sob o mote samurai), o whisky japonês num speakeasy com nome indiano (Krishna, por sinal) ou o sake num bar de fotógrafos que é um corredor com seis bancos e muitas fotos (o Kodoji).

Isto é tudo muito e ainda andam aqui às voltas as conversas com os meus guias ou com a minha nova amiga, a Makiko, que é jornalista e fixer (muito em voga no Japão, consiste em resolver todas as questões das viagens dos visitantes que andam, lá está, algo lost in translation) e com quem volto a pé para o meu hotel, ela no seu vestido vermelho a empurrar a bicicleta pelas ruas da cidade – é a minha Scarlett Johanson. Nas ruas mais traseiras, saem fumos fumados às escondidas, criam-se labirintos de pequenos bares e snacks, todos cheios, todos muito pequeninos e íntimos.

Noite fora e a ter que acordar muito cedo, entre todas as histórias do meu dia, chego à conclusão que não durmo nem vou conseguir dormir. Amanhece e ponho pés ao caminho: vou passear até ao hotel onde foi filmada a história de estranho amor entre Murray e Johansson, o Park Hyatt. Entre o sono e o  GPS em estado catatónico, também não encontro o hotel, que fica a menos de 12 minutos. Perco-me, como Murray, pelas ruas, pelo viaduto, escadas, vou na direcção contrária. Mas isto deve ser o destino. Next time: um whisky no Hyatt Tokyo.

O dia está já clarinho e eu não preguei olho. A minha irritação passa mais por não ter razão para esta insónia, a não ser mesmo este demasiadas-coisas-em-muito-pouco-tempo.

Cruzo ruas semiperdido como Murray cruza corredores, pessoas e whiskies. Não há quase ninguém por aqui a esta hora, Tóquio está ainda a despertar nesta Shinjuku administrativa e hoteleira.  

Nenhuma cidade se apreende nuns dias de turismo toca-e-foge, e muito menos esta, portanto nem me vejo com direito a tirar grandes conclusões ou traçar grandes e profundos juízos. No filme, o qual, diga-se de passagem, se podia passar tanto em Tóquio como em qualquer outra metrópole similar, Bill e Scarlett nem sabem muito bem a que se deve a sua lata insónia em relação à vida que levam. O que sabem, a dado ponto, é que só o amor, mesmo que vivido por um fugaz momento, é uma espécie de salvação qualquer, especialmente numa cidade destruída e reconstruída, onde a história foi bombardeada mas vive nos nossos corpos, como nos deles está latente a urgência de redescobrir a vida. O amor, a amizade, o contacto humano surge como a direcção para ver a luz. 

Quase no final, um abraço e um beijo, um segredo murmurado por Bill ao ouvido de Scarlett, um segredo que não nos é revelado e que alimenta muitas teorias aos fãs do filme, uma estranha peça de culto moderna. Quando regresso ao hotel, meio perdido nestes pensamentos e nas ruas sem encontrar o cenário de Bill e Scarlett, é neste segredo dos dois que penso.

Entre o duche, as malas, o rearrumar a vida para começar outra viagem e sair à rua, são as imagens finais do filme, uns minutos urbanos de Tóquio conduzidos de um táxi, que se confundem na minha cabeça com as imagens reais da cidade que estou a ver, praticamente as mesmas da película. Mas a memória moves in misterious ways e eu, not big in Japan, junto ao lost in translation as imagens reais da História, das bombas americanas, da destruição, de uma Tóquio arrasada até às cinzas. 

Com o cansaço, com a birra de sono por conciliar e sem essa salvação de uma espécie de amor entre estranhos, quando saio para a rua não sou Bill nem Scarllet. Eu sou a insónia, eu sou Godzilla.

A Fugas viaja a convite do Turismo do Japão

Este é um trabalho de luxo mas alguém tem que fazê-lo

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A vida de um viajante que escreve as suas viagens não é pêra doce. “Uau, que trabalho de sonho” ou “Tens o melhor trabalho do mundo” são duas variações que ouvimos a cada passo que revelamos que boa parte do nosso trabalho é fazer viagens e viver para contá-las. É verdade, têm toda a razão. Mas, como qualquer viajante mais aficionado, ele há dias e ele há viagens que nos saem do corpinho. Venham comigo voar de Lisboa para Tóquio que já lhes digo. Se o relato lhes parecer algo longo, tanto melhor, terá sido porque foi a única forma narrativa que encontrei para dar a perceber a longura do meu dia (um dois-em-um, digamos).

Esta viagem começa como tantas outras, com malas prontas e horas contadinhas para que tudo corra bem. Com um twist: começa no dia em que os taxistas de Lisboa ameaçaram sitiar a cidade e, portanto, já se está a ver (e agora já se sabe), chegar ao aeroporto Humberto Delgado vai ser um stress. Por isso mesmo, entre reclamações e outras expressões menos abonatórias, decido-me a carregar a minha supermala e mais todos os acrescentos profissionais e pessoais obrigatórios de metro, ao contrário de usar um táxi como sempre faço (faz parte do trabalho…).

Pelas nove e picos da manhã, o metro de Lisboa está já um pandemónio (há uma estranha crise de bilhetes para andar de metro que cria filas e turistas semiperdidos na vida, hoje com a Batalha dos Táxis pior ainda). Rumo ao aeroporto, pela estação de metro do mesmo e em redor deste, é um inferno de filas, segurança extra, turistas à toa, um inferno de malas. Antes de voar, oiço Sérgio Godinho a cantar “Às vezes o amor…”, saindo de uma carrinha de manif, “Todos contra os transportes ilegais de passageiros”, grita-se. Por todo o aeroporto, milhares de pessoas parecem-me mais enraivecidas com os transportes legais de passageiros.

Detalhe “em-casa-de-ferreiro”…: enganei-me nas horas do voo, é às 11h e não às 11h30. Se já vinha a correr, agora cai-me tudo quando a menina do check-in me diz que já está fechado. Aqui, meus amigos, choro, berro, ajoelho-me, apelo a Deus, ao PÚBLICO, à Fugas, ao Turismo do Japão, uso todas as armas. Nem era preciso tanto, foi dos nervos. A menina sorri, percebe que é um voo de ligação para uma viagem algo dura (primeiro vou a Londres) e dá a volta ao sistema, até porque ainda faltam 50 minutos para o voo partir. Entre supervisora, profissional do check-in e seu colega a ajudar com as malas, tudo corre bem. Tirando que agora tenho que ir até à última (a última!) porta do aeroporto em minutos e ainda tenho que passar toda a segurança e cruzar o shopping center global. “Sabe onde fica Sacavém? Corra para lá”, diz-me a menina. Eu corro, eu voo. Chego à porta do avião 20 minutos depois, mesmo a tempo das portas se fecharem. O medo dá-te asas mas eu estou sem ar nem forças para mais nada desta vida.

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O voo para Londres serve para ler um livro que me faltava sobre o Japão. O delicioso O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey, da deliciosa colecção Literatura de Viagens da Tinta da China. Como sempre faço, procurei não me encher de dados e factos e lugares-comuns do Japão. Mais valem dez boas histórias de viajantes que cem listas de must-do. Gosto de chegar mais a pressentir do que a saber e depois no sítio aprender in loco e pôr à prova todo o meu background e preconceitos, senti-los a serem derrubados pela realidade. “Tenha cuidado, metade do saber é por vezes muito pior do que a ignorância total”, cita Carey no seu livo. Sublinho com a alma.

O voo de Londres faz-se num livro e aterro em Heathrow (ia escrever “no inferno”, mas era private joke só para quem conhece). Tenho menos de uma hora para correr para outro terminal e sentar-me no meu lugarzinho para Tóquio na Japan Airlines. Já descansei do stress lisboeta e agora estou pronto para o stress londrino. Há uma fila interminável no posto de segurança de transfers. O sono fez-me esquecer que tenho direito a uma fast track e só a meio me lembro. Enquanto um segurança vira costas, eu deslizo sobre as fitas com o mundo que teima em transformar todos os viajantes em gado nos aeroportos. Corro pela fast track e despacho-me num instante só para… ser parado no posto seguinte de segurança. Há um ovni qualquer na minha mala e isso vai-me fazer perder mais de 20 minutos num stress de final countdown. Já suo dos pés à cabeça quando me dá uma travadinha e começo a barafustar que me vão fazer perder o voo por causa da minha cara de terrorista! Um supervisor vem acalmar-me e dá prioridade à minha mala. Começo a aprender que uns bons gritos às vezes ajudam a acelerar os processos. E que bomba levava eu? O resto de uma pasta de dentes esquecida no fundo da mala, coisa que o UK não deixa passar com a facilidade do resto do Espaço Schengen (eu sei, devia ter tirado aquilo, é a vida, mea culpa). Agora tenho os minutos contados para apanhar um comboio para o terminal 5, onde, inferno-inferno, sei que tenho que apanhar outro para a minha porta. Este aeroporto dá-me sempre cabo dos nervos, confesso.

Chego à porta mesmo a tempo, quando o povo já está a meio da linha para entrar no aparelho. Descanso por fim do meu estado de nervos (nota: acelerado pelo facto de não ter conseguido fumar desde que saí do metro de Lisboa, e agora já sei que são mais de 12 horas sem um cigarrinho, é o que dá ser um drogado).

O voo é uma delícia, a comida também passa muito bem, o meu lugarzinho é económico e o espaço residual. Para 12h, aguenta-se bem, embora os nervos stressados dêem de si fisicamente. Voando para Tóquio, já sabemos, temos aqui a bela particularidade da diferença horária: saio às três e picos de Londres, aterro ao meio-dia em Narita. É obrigatório conseguir dormir e razoavelmente bem, porque, assim que aterre no Japão, começa outra vida muito activa. Lá está: é um trabalho de luxo mas às vezes dói e, embora a viagem seja custosa, assim que chegar, tenho uma agenda algo intensa à qual não posso fugir nem estar desatento (é um trabalho, sim – embora, claro, possa fingir aqui e ali e fazer umas sestas de cinco minutos na casa de banho, coisas que se aprendem).

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Uma bela viagem cruzando as horas, consigo dormir aos pedacinhos, nos intervalos das refeições e sumos e águas e snacks e afins. Quando me levanto do assento para sair do avião, os músculos (embora tenha feito as mui aconselháveis práticas de andar de um lado para o outro no aparelho de x em x horas) estão tensos como se fossem quebrar-se a qualquer momento. Apanho a mala e despacho-me para sair para o ar livre, nervos em franja por liberdade e fumo. Sou, já se está a ver, parado nas filas que parecem intermináveis da imigração. A placa diz que vou estar ali 45 minutos em pé, seguindo o resto do gado. Até avançará um pouco mais depressa que isso mas assim que chego ao meu agente, os meus sorrisos desaparecem assim que ele quer ver todas as minhas malas e sacos por dentro, inspecciona, pergunta, vê e revê. A minha paciência não está a ficar mais asiática nem alentejana a cada segundo que passa. O meu último olhar para o agente (estou aqui estou a passar-me, algo por aí) foi elucidativo e lá me despacho. Saio, por fim, para os meio-dias, agora nublados, de quase-Tóquio: falta ainda uma hora e muito de autocarro até à cidade. Salva-me a simpatia da minha guia, que está, porém, aflita com as horas, com a agenda, com o tempo. Há que correr para o hotel. Sim, porque depois desta viagem o que eu quero é correr pela cidade que nem um maluco.

Do alto de toda a sua simpatia (que é genuína, num português que muito deve a uns bons anos em São Paulo), Naomi dá-me uns 20 minutos para subir ao quarto, um duche, mudar de roupa, treinar o sorriso e a paciência. É o tempo que tenho e é assim que mal tenho olhos para o luxo da minha suíte e, especialmente, para uma das famosas sanitas-robot japonesas (estamos apaixonados). Este é o Keio Plaza Hotel e é uma cidade que nos abalroa antes até da cidade, nas suas torres, quatro dezenas de andares, um mundo – e um mundo em que se te enganas no elevador para o teu piso, acredita em mim, vais precisar de mapa.

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Vinte minutos, relax express. Toca a correr por Tóquio. Como se estivesse capaz disso, hei-de abrir os olhos de espanto pelas ruas desta metrópole reconstruída do pó depois da Segunda Guerra Mundial, onde quase 14 milhões de pessoas parecem ocupar cada centímetro a todas as horas. O dia ainda há-de meter um workshop de sushi com sushimaster de respeito, uma incursão por um centro comercial especializado em bonecos de culto – chama-se KiddyLand e da Hello Kitty ao Charlie Brown venha o fã e escolha –, aterrar num restaurante só para locais para devorar algumas delícias japonesas, da tempura de lembranças lusas a mais sushi e saladas e até, antes de fechar os olhos, ver a cidade faiscar à noite em neóns de filme e até enfiar uns óculos de realidade virtual no edifício high tech da Nissan e conduzir com a mente (enfim, com movimentos do corpo), um supercarro pelas curvas de Monza. Mas isso são contas de próximos rosários. O que lhes digo é que quando caí na cama, acreditem, já nem sabia a quantas andava, estava para lá do Japão.

Mas, ei, ninguém se está aqui a queixar, só a viver para contar. Como dizia, é um trabalho de luxo, mas alguém tem de fazê-lo.

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A Fugas viaja a convite do Turismo do Japão