Olá, chamo-me Sofia Lorena e perco aviões

(e nunca vou poder pedir o ESTA para entrar nos EUA)

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São uns quantos já. Sempre, ou quase, no mesmo sentido. Há qualquer coisa que me faz perder aviões no regresso. Na partida, nem por isso. Por duas vezes até cheguei um dia antes à Portela. Uma vez cheguei um dia depois, mas não sabia. Nos que cheguei antes também não. Calhou assim. Há uns meses, confesso, perdi um à partida e era o dia certo. Já tinha feito ocheck-ine tudo. Olhei e li mal, estive o tempo todo a ver o segundo voo do dia da Turkish para Istambul e, claro, ainda não tinha porta de embarque atribuída. Não fez mal, fui nesse mesmo. Mas no regresso, oh pá, no regresso, já perdi vários. Tantos. Nunca tinha perdido um à ida assim. Em casa e o avião a partir. Todos os telefones a tocarem, a minha campainha também, despertadores até. Tudo a apitar e nada. Eu não queria ir? Queria, claro que queria. Mas não devia mesmo querer ir naquela sexta-feira às 9h30. Por algum motivo, tinha de perder aquele avião e ir, sim, ir sempre, mas noutro, uns dias depois.

Eu, que já tinha passado um Natal em Havana e estava doidinha para lá estar na Noche Vieja, acabei a perder a passagem de ano cubana. Nem um só balde de água da sorte me despejaram em cima. Não faz mal, bebi todos os meus mojitos depois, vi todos os pores do sol a que tinha direito e dancei salsa e chorei com boleros, fiz tudo ao que ia e mais ainda, com o meu Tripé Cubanito por fim completo. Sei que perdi esse avião – e tenho a foto delas com o meu lugar vazio, no meio, a lembrar-me – por vários motivos.

Uma das razões pode ser porque tinha de estar em Barajas naquela terça-feira, a perceber por fim que o meu voo de regresso também já tinha sido cancelado e a decidir, sem um tostão a débito ou crédito, que ia na mesma para Cuba e depois logo se via. Para ter estado em Barajas a fumar um cigarro no Terminal 2 quando os polícias vieram ao encontro do Zubeir, que fumava ao meu lado, mais bem vestido e composto do que eu, todo ele menino, dos ténis ao casaco, passando pela mochila de marca e o cabelo bem cortado.

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O Zubeir que fumou ao meu lado e ao lado de quem eu fumei até ser expulsa pela agente e para o lado de quem eu voltei depois, envergonhada por ser eu e não ser o Zubeir. O Zubeir que teve mais calma e dignidade do que eu e nem pestanejou. “Nunca reagi com tanta calma a isto.” Foi isto que ele me disse quando eu voltei para mais um cigarro ao lado dele e lhe pedi desculpas, tantas desculpas, e lhe agarrei na mão e me senti suja e indigna dele, por não ter tido a mesma tranquilidade, a mesma calma, a mesma dignidade que ele teve quando os três polícias vieram e me expulsaram para o revistar.

O Zubeir tem uns olhos castanhos-escuros doces que eu nunca vou voltar a ver. O Zubeir vive em França e é árabe. O Zubeir é um francês árabe que viaja muito. “Isto está sempre a acontecer. Nunca tinha vindo a Espanha”. E eu, desculpa-me Zubeir, desculpa-me por ser branca e ter olhos azuis e estar toda mal-amanhada, parece que saí de casa de pijama e tudo, já viste? Mas eles expulsaram-me para te revistar a ti, betinho mais lavadinho e passado a ferro. Eu tenho ferro, Zubeir, mas nunca o uso, sabes? Manias, sei lá.

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Eu já tinha visto a carrinha da polícia e a faixa e já os tinha visto, com as suas fardas a fazê-los maiores do que são e os seus cassetetes e as armas deles à cintura. Ali mesmo, ao lado do nosso banco dos cigarros, com um cinzeiro gigante de lado e a terra de plantas feita cinzeiro ainda mais gigante pelos mais distraídos nas costas. Já os tinha visto, já tinha olhado para eles, mas não lhes estava a prestar atenção. E a ti também já te tinha visto. Vi-te e pensei: que giro que é. E continuei no meu cigarro a pensar que ia para Havana mesmo sem dinheiro para regressar e que ia correr tudo bem, afinal, corre sempre tudo bem comigo, não é? Mas depois eles vieram e ela expulsou-me quando eu hesitei e eu olhei para ti e percebi que era melhor ir.

Obrigada por isso, Zubeir. Obrigada por isso e por teres recebido as minhas desculpas com os teus olhos doces e bons. Eu vi que as mãos te tremiam enquanto dizias “É assim, é sempre assim, estou tão habituado”. Eu não quero que estejas habituado, miúdo giro e tão, tão alto. Quero tanto que te desabitues, Zubeir. Só não sei bem como fazer com que isso aconteça. Logo eu, que me orgulho de fazer acontecer.

No regresso, Zubeir, eu ia perdendo todos os aviões menos o último. De Ponta Delgada para Lisboa. Depois conto-te melhor, mas foi uma loucura. Envolveu correr sem poder correr, com um dedo partido, atrás do Raúl, que decidiu que eu ia embarcar no aeroporto José Marti a caminho de Fort Lauderdale, Hollywood, Florida, nem que ele tivesse de carregar com as minhas mochilas e comigo e entrar pelo computador do escritório adentro e pedir ele mesmo o meu ESTA (Sistema Electrónico de Autorização de Viagens) e pagar com o cartão da transportadora onde trabalha e tudo e tudo.

Envolveu mais de três horas nos Costumes de Fort Lauderdale por não poder pedir o ESTA que o Raúl fez tudo para eu pedir. Envolveu correr ao pé-coxinho e conseguir que uma senhora me imprimisse um cartão de embarque de um embarque fechado há 20 minutos dizendo-me para correr e gritar e fazer tudo menos dizer o que ela tinha acabado de fazer por mim. Envolveu explicar coisas a outras pessoas a correr muito com as palavras e, no fim, dizer: me puedes ayudar? can you help me? Como eu tinha de perder o avião que me levaria à Noche Vieja em Havana e que adiou a minha ida apenas o suficiente para fumarmos aqueles cigarros em Barajas eu tinha de não perder nenhum dos quatro aviões do meu regresso a Lisboa.

PontaDelgada

Sabes, Zubeir, cheguei aos Açores, a território lindo e desconhecido, ainda era de noite e estava tanto frio e doía-me tanto o dedo que parti na praia Prohibida numa manhã de vento e ondas. Fiquei mais um pouco no aeroporto João Paulo II por causa do frio e do dedo do meio do pé esquerdo rachado e das roupas das Caraíbas que tinha vestido. E foi o suficiente, exactamente o suficiente, para ver chegar um amigo e ouvi-lo dizer: estás cá? viemos todos! E eu: ai, sim? E tive uma cama e um banho quente e tive depois um sofá onde esperar pelas horas para agarrar de novo nas mochilas e caminhar até ao Turismo e esperar pelo autocarro das 4h50 de volta ao aeroporto e ao voo final para a Portela. Foi tudo exactamente como devia ter sido. E eu, que me chamo Sofia Lorena e perco aviões, ainda fiz mais uns amigos e uma delas disse-me: a partir de agora, sempre que entrar num aeroporto, vou olhar à volta à tua procura.

Olha, Zubeir, se pensares pedir o ESTA, vê bem se já viajaste para o Médio Oriente. Eu acho que tu viajas muito, mas não é nessa direcção. Como eu, que desta vez ia para Ocidente quando quase sempre vou para Oriente e em vez de continuar paro a Meio. Olha, eu não vou poder ser acusada de fraude, disse-me o agente da Florida, mas também nunca mais vou poder pedir o ESTA. O ESTA não é para quem viaje para o Médio Oriente, como eu, sabes? Eu depois conto-te melhor, mas ficas já a saber. O ESTA não é para mim e eu às vezes penso que este Mundo não é para nós.

Falei-te dos abusos que já testemunhei da polícia espanhola, falei-te do meu amigo detido no primeiro aniversário do 15M quando saía de uma discoteca perto das Portas do Sol e eles estavam a encher carrinhas para justificar o aparato, contei-te disso por ser tudo verdade e por me estar a sentir tão mal por eu ser eu e tu seres tu. Mas depois, vê lá tu, calhou aterrar em Fort Lauderdale exactamente uma semana depois do dia em que um rapaz matou cinco pessoas e enquanto eu lá estive faziam sete dias à hora e eles assinalaram com uma cerimónia e uma pequena homenagem que eu não vi nem ouvi, só o que apanhei de uma agente a contar a um colega, por estar encerrada dentro da sala dos Costumes, ilegalmente naquele país. E sabes que penso que isto foi tudo estranho mas talvez tenha sido tudo por algum motivo. Logo eu, que não sou dessas coisas.

Acho que sou capaz de ter perdido os aviões que precisava e de apanhar os que não podia perder e que isto é capaz de fazer algum sentido, todo até. Tenho dívidas agora, Zubeir, muitas, logo eu que tinha decidido pagar as que tinha antes do fim do ano, mal sabia que ia começar 2017 com tantas. Não faz mal, Zubeir. Vai correr tudo bem. Eu sei que não parece mas vai.

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