This is India, e está tudo bem (agora com Trump)

DSCN8592

Deixei de escrever por uns dias. Isto por aqui já ia atrasado e isso significa que estão a perder muitas aventuras. Se alguém por aí estivesse a gostar, é manter a calma; se eu não acelerar muitíssimo vão ter Índia da minha até ao Natal.

Então, Trump foi eleito. É um facto. A mim não me surpreendeu totalmente mas isso não chegou para evitar o choque. Em choque, portanto, dei por mim nas montanhas mais altas e belas. Sem pensar muito nisso, sem sequer me aperceber, desliguei-me deste mundo, do vosso, para assim viver tudo mais intensamente. Resultou. Trump foi eleito e as montanhas continuaram avassaladoras, houve céus com nuvens e céus limpos, azuis perfeitos, rompidos apenas pelo branco mais branco dos cumes esmagadores que só não me deixam ainda mais pequenina porque eu já estou a 2200 metros sempre que acordo ou me deito. Trump foi eleito e o pão nepalês, morno, continua uma delícia, o chá idem, a cerveja ainda sabe a Kingfisher e o rum que ainda não tinha bebido não se portou nada mal.

Conversa com um amigo (quem o conhece percebe quem é). “Se o Costa lá estivesse isto não tinha acontecido”, diz ele. “Ah, se o Guterres já tivesse tomado posse é que não”, respondo. “O Marcelo tinha resolvido isto”. Eu, quase a desistir, ainda me ocorre: “Ó pá, tu queres ver que o Sporting ainda é campeão?”

Acho que não. Mas só a possibilidade chega para me distrair do Trump. Não me julguem mal. Chama-se relativizar. Agora é que eu preciso mesmo que o Benfica seja campeão. Logo, preocupa-me muito a possibilidade de o Sporting começar a ganhar tudo o que é jogo. Se me concentrar mesmo nisso, o Trump começa a desaparecer.

Se não gostam de futebol como eu, se não cresceram a ter o Domingo Desportivo como o vosso programa de televisão favorito, então, talvez isto não resulte. Mas eu tenho mais. Ainda o Trump se preparava para o discurso da vitória e já eu estava num jipe com dois amigos feitos umas duas horas antes, em dez minutos, a subir ainda mais pela montanha. Paragliding. Parapente, portanto. Uma espécie de mergulho no nada, que não é bem um mergulho porque há um rapaz indiano às minhas costas e se não fosse ele era bem provável que os meus pés não tivessem saído do chão. De repente, fica-se sentado e confortavelmente encaixado na mochila que tem lá dentro o segundo pára-quedas (aquele que ninguém nos ensinou como tirar de lá e accionar caso aconteça alguma coisa ao primeiro). E então damos por nós de boca aberta e só sai “uau, uau, uau”. Passado um bocado, ainda a delícia da surpresa não passou mas já conseguimos dizer ao Sam que ele tem um trabalho brutal, ora o dia ainda nem começou lá na América e ele já está a voar pela quarta vez desde que acordou.

É quase sempre flutuar, o Sam às vezes apoia-se nos meus ombros para dar um puxão ao pára-quedas, há alturas em que me sinto a cair no vazio. É a loucura, só vos digo. Mais a mais por aqui, quando sentimos por momentos que algumas das mais altas montanhas do mundo estão aos nossos pés. Não queremos que acabe nunca. No meu caso, havia um motivo acrescido: na corrida original, quando levantámos voo para o infinito, deixei cair um sapato; aterrar com um pé descalço, mesmo naquele campo de futebol sem relva e com terra pouco assustadora, ali em baixo, logo depois do mosteiro e da escola, sei lá, pode nem ser muito duro mas evitava se pudesse. Estou a voar, percebem? Tudo serve de desculpa para que isto não acabe.

O meu primeiro voo acabou bem. Não magoei o pé nem nada e o David, que saltou em terceiro, depois do Alon e de mim, até me trouxe o sapato de volta. O Alon estava em pulgas para ver a cara do David quando aterrasse. “Ele não sorri por pouco. Quando sorri, é mesmo um sorriso bom.” Pois é. Eu percebi isso depressa (o Alon também deve ter percebido isso bem depressa; afinal, conheceu o David há meia dúzia de dias e parece que nunca mais o vai largar). O David voou com a sua própria mochila presa nos ombros, mas à frente; ninguém lhe disse que era má ideia. Basicamente, passou o voo a ser estrangulado pela mochila. Mesmo assim, vinha a sorrir, com um daqueles sorrisos mesmo, mesmo bons. Voar é a loucura. Que bom que eles se sentaram na minha mesa enquanto eu tomava o pequeno-almoço. “Vamos daqui a pouco. Somos só dois. Eles costumam levar três pessoas de cada vez. Devia ser às 11h mas estão atrasados. Queres ir?” Que bom que eles se sentaram na minha mesa no terraço. “Sim, ok, vou”, que bom que foi essa a minha resposta.

Trump foi eleito. O Benfica, que eu saiba, ainda vai à frente no campeonato. Eu voei a seguir ao Alon e antes do David e depois passámos os três o resto do dia sem conseguir parar de sorrir. A Michele juntou-se para o jantar. A certa altura, chegaram dois italianos que eles tinham conhecido em Varanasi, onde os dois se conheceram também. Com os dois miúdos de riso fácil chegou ainda um francês e mais um inglês de Leeds. O jantar durou por três. A conversa eram sempre várias ao mesmo tempo e rir foi sempre, a cada momento, o único remédio. “Que grupo más majo se juntó por aquí.” Sim, David, é isso.

Pela primeira vez desde que estou pela Índia, pela primeira vez em muito tempo, acordei a lembrar-me do que tinha sonhado. Eram 4h e o céu estava estrelado como nem imaginei que chegasse a ficar, um espectáculo privado, para mim, da janela do meu quarto, nem foi preciso subir até ao terraço. Sonhei com o grupo todo do jantar, aquelas coisas típicas, estávamos numa casa gigante, havia uma festa, acho, cada vez que andávamos aparecia mais alguém, virámos esquinas e mudávamos de andar, nunca mais conseguíamos sair dali. Sempre que olhava para trás, eles lá estavam, o David e o Alon logo a seguir, às vezes, primeiro o Alon, depois o David. No dia seguinte, ao lanche, depois do passeio pelo Jardim Botânico, contei o meu sonho. O Alon perguntou se eu achava que queria dizer alguma coisa. Eu expliquei. O David chamou-lhe “Alone efeito” e o Alon achou que era com ele. Rimos mais e eu tive um daqueles momentos “devo ter feito alguma coisa bem” enquanto o sol se punha. Posso ficar aqui para sempre? E depois, na manhã seguinte: “Ahora no puede ser que te vayas.”

O Trump foi eleito. Grave, mesmo grave, era eu ter podido vir à Índia e não o ter feito. Ou o Benfica não ser campeão. Ou eu não ter dito “sim, ok, eu vou”. Grave era parar de viver. Trump foi eleito. So what? O Assad continua vivo. Em Angola, ainda há presos políticos e gente impedida de trabalhar. Em Darjeeling, na Índia, mas tão perto do céu que dali se vêem as constelações todas à noite e quando se olha na direcção certa, ali está o Nepal e logo ali o Butão, o céu é sempre e loucura, de dia e de noite. E há gente que acorda todos os dias e aquela é a vista que tem e, às vezes, mesmo alguém que nasceu ali, ainda dá por si a sorrir com cara de parvo. A vida segue, para bingo se possível. This is India, e está mesmo tudo bem.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>