Eles abanam que não mas querem dizer sim (no campo)

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Eu já tinha a impressão. Acho que já sabia, faltava-me era verbalizar. Como demorei, foi a Xenia a fazê-lo por mim. Aurangabad, estado de Maharashtra . O grupo cresceu e já somos mais de 20, entre jornalistas convidados pelo Ikea, pessoas que trabalham para a empresa (na Suécia, mas também na Austrália, Alemanha, França e Índia) e alguns membros do WWF India, um dos parceiros da multinacional nos seus projectos indianos.

Vamos visitar quintas, pequenos agricultores, gente que planta algodão, um algodão BT (Better Cotton), que cumpre uma série de critérios de sustentabilidade e condições de trabalho, o único que o Ikea permite que seja usado nas roupas de cama e casa que vende.

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Felizmente, dividiram-nos em três grupos. Felizmente, fiquei no grupo do Prodam, o “homem do algodão” do Ikea, indiano de Deli, há dois anos e meio a viver na Suécia, que é o mesmo grupo da Xinea, uma jornalista alemã. Demo-nos imediatamente bem. A Xinea é obcecada por sustentabilidade (trabalha numa revista alemã que se dedica precisamente ao ambiente) e faz muitas perguntas, como eu. Aprendo com as perguntas dela. Eu sou obcecada por várias coisas, falta de água, modos de vida, condições de trabalho… Espero que ela aprenda com as minhas. Somos “as chatas”. Eu costumo abrir as hostilidades e tomo conta da primeira parte, ela agarra no testemunho a partir de certa altura.

Felizmente, ainda não descobri até que ponto, fiquei no grupo do Judandhar Mandavkar, que sabe muito sobre água, já trabalhou com várias ONG, com a Fundação Aga Khan (no Afeganistão), agora é director de projectos na ONG KVK (outro parceiro do Ikea), e é um óptimo conversador. A Xenia diz que a enerva porque está sempre a sorrir, mas eu explico-lhe que basta conversar com ele um bocado e isso passa. O Judhandar é o nosso tradutor, que luxo.

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Calha ser na quinta do Samadhan que eu vejo as minhas primeiras plantas de algodão, estas são mais ou menos da minha altura. Mexo nos bolbos, nas folhas e apanho um pedaço de algodão, branco algodão-doce, pouco original eu sei, mas verdadeiro. Agora, ainda não é a altura da colheita, só alguns poucos bolbos abriram e deixam ver as nuvens pequenas e disformes. O Samadhan enche a mão de algodão antes de se sentar connosco, em cima de um grande plástico, debaixo de uma gigantesca árvore que se chama neem (serve de repelente e em Março as mães esfregam as suas folhas na pele dos bebés, conta o Prodam). Vamos à conversa.

À esquerda de Samadhan, e depois mais atrás, sentam-se outros agricultores que vieram receber-nos e partilhar connosco as suas experiências com o Better Cotton. Enchemo-los de perguntas sobre o quotidiano também e eles lá vão respondendo a tudo. Uma ou outra vez conseguimos incluir a mulher e mãe de Samadhan, as únicas outras pessoas que trabalham estes campos, excepto quando é a colheita e ele contrata quatro ou cinco jornaleiros para dividir a empreitada.

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“Mas, não quer dizer sim??!!”

A conversa já vai longa quando Xenia explode com a pergunta, dirigida a Judhandar. “Humm, sim, acho que sim.” Sim, os indianos abanam que não com a cabeça quando estão a dizer que sim. Também o fazem quando dizem coisas como “pode ser?”, “aqui tem”, “claro que se arranja”… Em vez de abanarem que sim, abanam que não. Se não o fazem todos, são mesmo muitos. Claro que às vezes é quase subtil, outras vezes mais pronunciado. Há pessoas que parecem prontas a começar a dançar uma coreografia qualquer Bollywoodesca, outras abanam a cabeça como se esta fosse muito pesada. Enfim, há muitas maneiras de abanar a dizer que não quando se quer dizer “sim”. Eu já desconfiava, acho até que já sabia. Mas se não fosse a Xenia a perguntar não podia ter a certeza.

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