Havia uma fotografia a governar Tamil Nadu, mas já acordou

Aterrar e entrar no carro para ir ao hotel pousar as malas, antes de seguir viagem para outra terra a uma distância considerável. O Ikea convidou jornalistas a vir à Índia e foi mesmo para nos fazer trabalhar. Por estes dias, acho que só acabo de perceber onde estou quando tenho uns minutos para estar sentada no quarto (novo todas as noites) a descansar. Desta vez, foi mais rápido. Eu não tinha decorado o nome. Mas às tantas, entre mupis de publicidade a tudo e mais alguma coisa, pareceu-me reconhecer aquele rosto. Tenho o colega belga ao lado e como falar pelos cotovelos me mantém acordada, aí vou eu.

Acho que é deste estado que ela é a ministra. Não me lembro do nome. Mas está no hospital, li uma notícia. E já esteve presa por corrupção, há uns dois anos. Antes era uma grande estrela de Bollywood, foi actriz e cantora durante uns 30 anos, só depois entrou na política. Enfim, está no hospital, acho que em coma, e o seu adjunto leva uma fotografia dela para todo o lado, é como se a fotografia presidisse às reuniões, ao próprio estado. Claro que a oposição está zangada. Acho que é aqui, sim, é Tamil Nadu, parece-me que era ela ali atrás, reconheci a imagem. Enfim, quando embalo, embalo. O belga só quis saber da corrupção e eu era mesmo disso que me lembrava menos bem.

Os motoristas que temos tido não costumam falar inglês, ora este fala e depressa me interrompe. “É a ministra chefe, Jayalalitha, Amma [como é tratada no partido]. Está no hospital desde Setembro. Daqui a cinco dias vai para a América, para ser tratada”, diz Suraj, assim, mais depressa ainda do que eu estava a falar para o P. “Isso, é a ministra chefe do estado.” Suraj continua, diz que “ela é muito respeitada” e que “fez centenas de filmes”. Não diz se gosta pessoalmente dela, se concorda com a oposição, apenas repete muitas vezes que “ela é dura, mesmo dura, o que ela decide faz-se e ninguém lhe diz que ‘não’, muito dura”.

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Eu não me lembro bem da corrupção, mas de resto, sei imenso. Coisas maravilhosas como o facto de Jayalalitha estar no Livro dos Recordes do Guinness por ter dado “o maior banquete/recepção de casamento” do mundo. Foi em 1995, no seu primeiro mandato como ministra chefe, e a boda era do seu filho adoptivo Sudhagaran, com 150 mil convidados – “Ao longo de quilómetros, entre a residência oficial e o local do casamento, as ruas foram decoradas com estátuas gregas e leões banhados a ouro. Ergueram-se santuários, com imagens de Jayalalitha tornada ícone no lugar dos deuses hindus”, descreveu então o New York Times. A ministra disse que foi tudo custeado “pelo povo”. Também protagonizou episódios terríveis, como em 1992, quando decidiu banhar-se em público durante um festival e a multidão para a ver foi tanta que quase 50 pessoas morreram espezinhadas.

Então, a mulher que na verdade se chama Jayaram Jayalalithaa, conhecida por Amma, J Jaylalithaa ou simplesmente Jayalalitha, está hospitalizada desde 22 de Setembro. Por aqui, já se rezou muito por ela, às vezes em concentrações coloridas que juntaram pequenas multidões, algumas à porta do Apollo Hospital, em Chennai, a capital de Tamil Nadu, um estabelecimento “superespecializado”, o primeiro na Índia a “introduzir as últimas técnicas em angioplastia coronária”, entre muitas outras “estreias”. Jayalalitha, chamemos-lhe assim, tem 68 anos e foi hospitalizada com febre e desidratação, piorou e ficou em estado grave sem que alguém quisesse explicar exactamente com o quê ou com que gravidade, dando origem a todo o tipo de especulações.

O partido dela, AIADMK, parte da coligação do governo do estado, anunciou há semanas que a ministra transferira parte das suas pastas para o vice, OP Panneerselvam, sublinhando que a ministra ainda era ela. Panneerselvam já substituiu a chefe várias vezes antes, nomeadamente nas duas alturas em que ela esteve na prisão por acusações de corrupção. Isto sem nunca se sentar na sua cadeira, ainda e sempre, “ocupada”. Desta vez, inovou. E para sublinhar que quem manda aqui não é ele, começou a levar uma fotografia de Jayalalitha para as reuniões de governo ou encontros com os diferentes ministros. Jayalalitha em todo o seu esplendor, moldura e tudo.

“A nossa cultura é esta. Para as pessoas do AIADMK, o que quer que façamos e sempre que o fizermos será na presença da fotografia da honorável ministra. Assim sentimos que ela está connosco. Sentimos que estamos a tomar decisões na sua presença. Não há nada de mal em ter a fotografia dela nas reuniões. Ela é a ministra do estado”, disse à BBC o porta-voz do partido, Saraswathi. Claro que nem todos concordam. Houve comediantes a gozar com a situação, antecipando que iam começar a ser divulgadas “fotografias dos seus filmes mais famosos”, tudo para evitar a exigida prova de vida. O principal partido da oposição em Tamil Nadu, o DMK, denunciou um gesto que mostra que para o governo “uma pessoa é mais importante do que o povo do estado”.

Jayalalitha não chegou a ir para a América. Os “esforços dos médicos” especialistas (cardiologistas, pneumologistas, consultores em doenças infecciosas, endocrinologistas…) do Apollo “e as preces dos apoiantes” chegaram. Esta sexta-feira, soube-se que está acordada e que em breve será transferida dos cuidados intensivos para um quarto particular. É Prathap Reddy, fundador do Apollo, que explica como se deu a recuperação. “A infecção pulmonar está sob controlo. Passou a fase crítica”, garante-se. “Estamos tão felizes. Toda a gente rezou por Amma porque a amamos tanto”, reagiu o líder do partido, CR Saraswathi.

A recuperação foi um dos breaking news do dia nas televisões indianas – há tantos canais e todos tratam quase tudo como notícias de última hora; vá, neste caso percebe-se. Eu ainda expliquei ao P. tudo o que sabia sobre a entrada de Jayalalitha na política, a reboque de outra estrela de Bollywood de quem se reclamou herdeira depois da sua morte. Também falei sobre alguns filmes. Pena que ele já não vá fazer uso de nada disto.

Para sublinhar que Jayalalitha está mesmo melhor, o médico Reddy ainda contou aos jornalistas que a ministra “tem tudo sob controlo”, escreve o Times of India. “Ela controla os médicos e as enfermeiras. Sabe quando vêm, quando vão embora… Vocês conhecem bem a sua natureza.” Eu ainda há dias não sabia quem ela era, confesso, mas o Suraj foi claro na sua mensagem.

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