O sorriso da Sunita

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Mais de duas horas na estrada, primeiro a loucura do trânsito. Já se sabe, camiões, autocarros, carrinhas, carros, autos (riquexós com motor), riquexós a pedal, carroças, motas, bicicletas e tantas, tantas vacas. Já tinha estado numa pequena cidade (capital do seu pequeno reino, ainda assim) onde mandavam as cabras, andavam por onde queriam, serviam-se do chão, das paredes e de partes dos carros. Nunca tinha estado numa cidade grande onde a entidade dominante fosse um animal. As vacas estão por todo o lado, estacionam, movem-se vagarosas, fazem o que bem querem e aos outros resta desviar-se.

De Varanasi para a aldeia a estrada é má, primeiro tem trânsito infernal, depois menos, a seguir já quase não há mais carros a circular, o que há em permanência são as irregularidades do chão e então tudo trepida. Brinco e digo que isto tem de valer como massagem, todos se riem, mas eu sei que me vão doer as costas depois disto. Com ou sem cinto, à frente ou atrás, experimento mas vai dar ao mesmo. Enfim, vai correr tudo bem. Eu não vim para aqui para estar parada.

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Vamos visitar uma das fábricas que nasceu como cooperativa apoiada pelo projecto de Dipti, a indiana que se mudou para Varanasi quando casou e que fez de guia na chegada deste grupo Ikea. “Vamos ser recebidos por um dos amigos do Ikea”, dissera Annika, que é sueca e trabalha na empresa que me convidou para visitar campos de algodão e unidades de produção têxtil que são seus fornecedores. Era Dipti, a amiga. Na fábrica onde chegamos fazem-se as roupas que toda a gente menos eu e o jornalista belga compraram na véspera, numa loja em Varanasi, a dez minutos a pé do Ganges, e também lençóis, cortinas, colchas que se vendem em todo o mundo nas lojas Ikea. Aqui só trabalham mulheres – ou quase, descobriremos em breve.

Elas estão à nossa espera em fila e recebem-nos com o ritual muito habitual, uma pinta vermelha na testa, um colar de calêndulas, muitos sorrisos de boas-vindas. Demora até estarmos todos sentados em cima de tecidos de diferentes padrões abertos no chão (as máquinas de costura foram encostadas às paredes na sala principal da fábrica, para arranjar espaço ao centro). Todos nos apresentamos, nós e elas, e há muitos, muitos risinhos. Ou com aquilo que nós dizemos ou com o que uma delas diz. Por exemplo, a Acha, que é a faz-tudo cá do sítio, descreve-se como “a patroa” e garante, depois de se apresentar, que um dia em que não apareça “o trabalho não se faz”.

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Algumas parecem tão novas, dir-se-ia não terem mais de 13, 14 anos, vá. Mas não, garantem, uma tem 17, as outras são todas mais velhas. A maioria é casada e mãe, uma ou outra ainda não tem noivo. Mas tal como as casadas tiveram quase todas de enfrentar maridos, família e vizinhos para conseguirem estar aqui, a trabalhar, as solteiras não imaginam deixar de vir para a fábrica quando casarem. Começar a trabalhar mudou tudo. Só uma é que já trabalhava fora de casa antes. Para todas as outras, o primeiro emprego com ordenado foi este. Vêm de manhã de riquexó, uma ou outra de bicicleta ou à boleia com os maridos, de mota. Vêm de aldeias aqui mais ou menos perto. Deixam os filhos com os sogros, na maioria. Algumas com uma vizinha. Os mais crescidos vão para a escola e regressam a casa, onde esperam pelos pais. Enfim, nós sabemos como é, mas temos infantários. Por aqui, também há aulas extra-horário, explicações quase sempre, e, por isso, há miúdos que passam quase tanto tempo fora de casa como os pais que trabalham.

Quase todas decidiram começar a trabalhar por ser aqui, neste ambiente, com outras mulheres, que ouviram falar em sessões de esclarecimento ou de formação, algumas foram a sessões de treino noutras cidades, antes de ganharem coragem para se empregar a tempo inteiro. Há uma que fugiu literalmente da família para estar três dias fora, a aprender a costurar, depois acabou por bater o pé e agora está aqui. A outra o marido deixou de falar e até saiu de casa e da terra, durante uns bons meses; depois voltou e agora até faz tapetes e ela ajuda. Quase todas decidiram começar a trabalhar porque queriam poder pagar uma escola melhor aos filhos, vesti-los melhor, alimentá-los com tudo o que possam querer, dar-lhes brinquedos, permitir que continuem a estudar até à universidade, que ambicionem outra vida, lá longe, às vezes, na cidade. Ser pai e mãe é o mesmo, em todo o lado. Não têm grandes sonhos para si próprias. E aos filhos só desejam “uma vida boa”.

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Há um homem entre nós. Quer dizer, na verdade há dois, mas um fomos nós que trouxemos, trabalha para o Ikea. Uma das suecas chama-nos e vamos perceber o que está o outro homem aqui a fazer. Trabalha cá, com a mulher; também é motorista de camiões, mas está cá todos os dias, de segunda a sábado. Baixinho, como a mulher, franzino, franzino como a mulher não é, explica que já que a mulher se empregou aqui também veio, queria “garantir que o negócio corria bem, que a fábrica não fechava passado uns meses” e que prosperava. Diz que não se incomoda nada de trabalhar entre mulheres, mesmo sendo o único. “A principal diferença é a linguagem. Na estrada oiço muitas palavras feias, aqui fala-se de outra maneira. É muito melhor. Respeitam-me, o ambiente é bom”, diz. E nós a imaginar como será o seu quotidiano, entre miúdas e mulheres danadas para a conversa.

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Neelam e Premmath têm dois filhos e o dinheiro da fábrica é para a sua educação. Quem ainda não tem filhos, gasta o dinheiro com as suas coisas, compra roupa aos irmãos mais novos, dá uma parte aos pais, uma ou outra poupa qualquer coisa. “Poupar? Poupar para quê?”. A Meena ofereceu uma mota ao marido e isso mudou tudo. O marido dela é o que faz tapetes. Perguntamos-lhe se recorda o que fez com o primeiro salário. “Paguei a inscrição da escola para a minha filha”, conta – tem três filhas. Sunita, que está com ela e connosco na salinha que é de descanso e hoje faz de espaço para umas conversas mais tranquilas, sorri o tempo todo e tudo nela brilha a cada sorriso. Tem o marido com mais habilitações de todas, é delegado de propaganda médica, mas foi um dos que mais se opôs à sua decisão de trabalhar. Quem lhe valeu foram os sogros, que apoiaram a sua decisão (têm uma filha que trabalha também).

Sunita tem qualquer coisa de diferente, parece ter, pelo menos. É especialmente bonita, sim, mas há outras bem bonitas e arranjadas, como ela. Hoje é domingo, dia de descanso, e quem veio fê-lo para nos receber e falar connosco, não é roupa de trabalho, esta. Agora que já ganhou dinheiro suficiente para o que precisava, roupas, coisas de mulher, garantir que contribuiu para a educação dos filhos, Sunita tem outros planos. “Tinha parado de estudar para casar, no 11.º ano, e recomecei. Acabei o liceu”, explica. “Depois, vou para a universidade.” Sunita também se lembra do que fez com o primeiro salário. “Comprei uns brincos”, diz, a rir, não de vergonha, talvez por ter uma resposta tão diferente da que deu a sua colega.

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“Aqui, vive-se completamente. Em casa há regras. Aqui, falamos alto, rimos. Só temos uma vida. Já comprometi muito, agora não comprometo mais. E sei que consigo fazer. Se eu não estiver pronta, amanhã os meus filhos também não vão estar.” E agora, Sunita? “Quero entrar em Artes e Humanidades.” Com algum objectivo – não é que seja obrigatório – em mente? “Não sei para quê, quero fazer esse curso.” Muito bem. “Desde que estou aqui a trabalhar acredito que tudo é possível.”

Sunita tem um sorriso de possibilidades infinitas, deve ser daí que lhe vem este brilho todo. Daqui a umas horas, a jornalista australiana que a entrevistou comigo vai dizer que “estas mulheres são muito despojadas, tudo o que ganham é a pensar nos filhos”. E eu só vou conseguir pensar nos brincos da Sunita, dourados como o seu rosto, e lembrar-me do seu sorriso e sorrir eu mesma, em silêncio.

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