Ataque cardíaco de paz (Varanasi)

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Um dia, eu vou aproveitar Varanasi. Descer e subir degraus, perder-me em ruelas, voltar ao barco a remos mas agora com todo o tempo do mundo. Um dia, eu vou aproveitar Varanasi. De manhã cedo. À noite. Com todo o tempo do mundo para me deixar ficar a ouvir uma oração de olhos fechados, e depois outra vez, de olhos abertos, para ver o desfile dos corpos antes da cremação e a cremação, para ver só quem passa por mim de barco e ficar a observar a maravilha que é estes barcos todos a encaixarem-se uns nos outros junto às margens. Para me sentar nos degraus, neste e também naqueles, e ficar ali, quieta. Um dia eu vou ver tudo o que me apetecer em Varanasi como se o tempo tivesse parado para mim, só enquanto cá estiver. A todas as horas que me apeteça, sem horas porque as horas vão ter deixado de existir. Não vai ser hoje, nem amanhã.

Estou na Índia a convite do Ikea. Eu e outros jornalistas, num grupo com pessoas que trabalham em diferentes áreas da multinacional, da Austrália à Suécia. No início, nem somos muitos. Quatro pessoas Ikea e, para além de mim, duas jornalistas polacas, uma australiana e um belga, mais uma fotógrafa contratada para acompanhar a viagem. Em Varanasi, junta-se a nós uma indiana que não é daqui mas ficou daqui “por casamento”. Chama-se Dipti, sorri muito e faz de guia numa cidade que não é a sua (nem ela é guia, tradutora nem coisa nenhuma que se pareça, fundou uma cooperativa para ajudar mulheres que queiram trabalhar fora de casa). Estamos todos em Varanasi e a Dipti é o que de mais parecido temos com um guia. Há uma tarde para passear, acabo de descobrir, o trabalho só começa amanhã.

Vamos esquecer o Museu Sarnath (o museu arqueológico mais antigo da Índia). Ou o Stupa de Dhamekha (que vale muito a pena) dedicado a Lord Buddha, também em Sarnath, repleto de turistas e crentes indianos e com mais bancas a vender bugigangas em redor do que templos ou coisas para ver e visitar. Vamos até esquecer o caos do trânsito desta cidade, dizem que não há outra assim na Índia (se me disserem que não há outra com tantas vacas, nisso sim, eu acredito), Varanasi, “o caos pacífico”, diz a Dipti, porque quando se encontra a paz no meio do caos a paz é ainda mais especial, imagino eu. Vamos apenas concentrar-nos no que importa aqui. É qualquer coisa de muito maravilhoso e chama-se Ganges, o Ganges em Varanasi. A Dipti tem defeitos, mas decidiu que na metade de dia disponível que teríamos na cidade que a adoptou por casamento ia incluir uma pequena viagem de barco no Ganges. E só por isso tem de ser boa pessoa.

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A Dipti escolheu um barco a remos – também há a motor – e então é que decido que deve ser mesmo boa pessoa. Mas a quem é que passa pela cabeça meter-se num barco a motor, com o barulho do motor, aqui, logo aqui, onde se vem para encontrar a paz. Estava mesmo a anoitecer quando entrei no barco. À ida, andámos a bom ritmo, a corrente remava connosco. Não consigo encontrar as palavras certas para descrever a confusão que se viveu nos meus sentidos. Por um lado, os meus companheiros de viagem não paravam quietos, um tentava fotografar tudo o que mexesse, outra fazia mais ou menos o mesmo. Outras ensaiavam selfies em vários momentos e posições. Enfim, entre uns e outros acho que só me salvei eu e a Dipti. Mas a Dipti, claro, não se calou nem por um momento, o que até faz sentido; afinal, estava a descrever-nos tudo e a explicar o que víamos. Dipti, obrigada pelo esforço. A verdade é que preferia que tivesses explicado menos. Mas não faz mal. Tudo bem. A sério.

Eu não encontrei a paz, mas às tantas a paz encontrou-me a mim. E então já nem ouvia a tua voz, Dipti, nem o som das vossas máquinas K. e P., nem os risos das vossas selfies, meninas. Acreditem se quiserem. Mas a certa altura fiquei só mesmo eu e o Ganges, o que é uma loucura porque o Ganges, este Ganges, são muitas pessoas e coisas a acontecer em simultâneo: gente sentada em escadarias que acabam em palácios, templos, edifícios que já abrigaram gente tida por divina de diferentes tipos e em diferentes tempos; escadas que não sei onde vão dar e, por agora, decido que não têm fim; os corpos a serem cremados, a música que ecoa por aqui e por ali, a oração ao Ganges e, logo a seguir, outra oração ao Ganges. O sol pôs-se e as luzes são irreais, o azul do céu é estranho, a outra margem quase só se adivinha, lá ao fundo, ao fundo, há luzes, muitas, mas na nossa margem a iluminação é escassa e faz-se tanto de lâmpadas como de velas e tudo isso é mesmo mágico. Há barcos que passam por mim com três ou quatro amigas a bordo, miúdas. Barcos cheios de gente como o meu ou até mais. Um barco enorme, gigante, com um casal e uma senhora mais velha só lá dentro. Os sons são incríveis também. Tudo isto é som, tudo isto é cor, tudo isto é ao mesmo tempo silêncio e por uns momentos paro mesmo de respirar. E fico só eu ali, eu e tudo o que se passa à minha volta.

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Lembro-me da primeira vez que fiz snorkelling, em Soqotora, uma ilha que calhou ser iemenita mas podia ser somali ou indiana. Foi ao acordar, disseram-me “vai” e eu fui, e ainda hoje acredito que tive um pequeno ataque cardíaco de tanta emoção. Não aguentei quase tempo nenhum, era demasiado tudo o que via e sentia.

Às vezes, de comoção, não sei se é o coração que me pára se são os pulmões que decidem descansar só um bocadinho. Só sei que é muito, tanto, e eu quase não aguento mas depois fica tudo bem. Tudo bem, não. Fica muito melhor, fica muito mais do que era antes, uns minutos antes, uns segundos apenas já chegam. Não fico outra, fico mais eu, uma eu melhorada ou, pelo menos, mais cheia e feliz, e isso é mesmo tudo. Varanasi e o Ganges foram um desses episódios. Acho que deixei de respirar antes mas só tive consciência disso quando o barco parou e eu subi para outro barco e depois ainda outro até me sentar e ser, por fim, uma entre os outros que ali estavam, sentados ou em pé, a ouvir a música e a oração. Dei por mim com um daqueles sorrisos especiais, que se plantam sem grande aviso no rosto, logo a seguir a uma destas paragens (cardíacas, respiratórias, eu sei lá, são ataques de emoção, é o que eu acho), e nem que eu tentasse desfazê-lo – o sorriso – sei que não seria capaz.

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O prazer era muito e foi injustamente interrompido. No meu barco, que eu já descartara, só esperava que se esquecessem de mim, havia quem quisesse regressar ao hotel por se ter esquecido do repelente e quem quisesse ir dali para uma loja de roupa que a Dipti conhece. No início, nem estava a perceber, acho que até a Dipti ficou confusa: vai haver música e mais uma oração, disse ela. Enfim, nem quis pensar muito nisso. No regresso, que demorou muito mais porque remávamos contra a corrente, voltei à minha bolha, eu estou em Varanasi, aqui no barco não há mais ninguém. Só na margem percebi que já se estava a planear um regresso relâmpago pela manhã. Uns queriam fotografar, há ioga nas escadarias maiores um bocado após o nascer do dia, outros queriam andar por ali. Pois, isso também eu. Mas o plano não era dos meus. Sair do hotel às 4h30 (isso ainda vá, apesar de não ter dormido na véspera), estrada, chegar, apanhar um barco (a motor!), meia hora e recomeçar o regresso a tempo de sairmos todos pelas 6h15, a hora de começar o programa oficial do dia. Não. Não, não quero. A sério, obrigada. Divirtam-se. Aproveitem.

Disseram que foi incrível, eu acredito mas não me importo. Na pior das hipóteses, atirava mesmo um deles ao Ganges. Na melhor, era tudo o que eu não queria. Antes guardar na memória da pele e dos sentidos todos aquele bocadinho em que a paz me encontrou. Um dia eu volto, Varanasi. Com tempo, sim? Com tanto tempo que vai ser sem tempo. Até já.

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2 comentários a Ataque cardíaco de paz (Varanasi)

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