This is India – versão Bollywood (em Deli)

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Nas primeiras horas acordada em Deli cansei-me a andar, mas sabia que o sono ia demorar – afinal, dormi muito mais do que o habitual logo que cheguei. Como tinha de acordar cedo e já andara sem destino, decidi que a noite seria passada a escrever umas coisas que trazia em atraso. Despachar pendentes para me livrar deles e não pensar mais nisso. Ora, eu fumo. E quando posso fumar enquanto escrevo escrevo mais depressa. Ora, o meu quarto não tem janela mas o hotel tem um jardim e é preciso explorá-lo. Na verdade, como descubro em meia dúzia de passos, o hotel tem dois jardins separados, é descer umas escadas e depois decidir, um fica para a esquerda, o outro para a direita. Chegada ao fundo das escadas, torna-se óbvio para que jardim me vou dirigir. E começa a ficar claro que trouxe o computador ao ombro para nada; há uma festa no jardim e parece muito, mesmo muito animada.

Sim, antes de completar 24 horas na Índia dei por mim a crashar uma festa Bollywood, uma festa a propósito da estreia de um filme que era ainda uma homenagem a uma cantora em particular. Tudo no jardim do meu hotel, o tal sem grande piada na auto-estrada do aeroporto, lembram-se? Festa a rodos, bares feitos com claquetes como cenário em fundo, um palco, muita gente a dançar ao pé do palco e em cima do palco. Muita gente a dançar sem parar, ou quase (às vezes param para falar ao telefone, que é coisa que já percebi que por aqui se faz mesmo em qualquer parte e a qualquer momento, é quando calha, esteja o mundo a cair ou não, esteja quem estiver e passe-se o que se passar). Muitas, mesmo muitas mesas redondas bem postas mas com pouca gente sentada nas cadeiras à volta. Um ou outro já dorme, cabeça sobre a mesa, suspeito que adormeceu de beber.

Numa sala imediatamente antes do jardim, com vidro em vez de paredes, há toda a comida que eu queira experimentar e mais ainda. A sério, não dá para acreditar. A inveja de qualquer casamento português (eu sei, eu sei, não sou a maior especialista em casamentos, não tenho culpa, a responsabilidade é dos meus amigos, mas em miúda os meus avós paternos arrastaram-me para muitos, ainda me lembro). Algumas dezenas de pessoas comem, os casais mais velhos, um ou outro jovem vem de vez em quando encher um prato ou apanhar um nan ou roti que são feitos ali, numa mesa já do lado de fora da sala, numa espécie de terraço que dá acesso ao jardim. Mas a maioria das pessoas que está nesta festa nunca se afasta da pista de dança mais do que os metros necessários para alcançar um dos três bares disponíveis ou as mesas laterais repletas de garrafas de água pequenas (250 ml, acho que estou a ficar viciada nestas garrafas; para mim, que ando sempre com uma garrafa atrás, para ir enchendo durante o dia, são perfeitas, ou quase, cabem em mais malas, não em todas, mas em muitas mais), recarregar os copos e refrescar a sede e a cabeça. Muitos nunca param nem para beber, só abrandam quando a música abranda e voltam a acelerar quando é isso que pede a melodia ou a cantoria.

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Passado algum tempo percebo que entre as pessoas mais velhas, as que comem, é que estão as estrelas. Às tantas vem um senhor com ar de ser o gerente do hotel, acompanhado por mais uns quantos, e põem-se em fila para cumprimentar uma senhora especialmente bem arranjada, e depois mais umas quantas. As estrelas, as estrelas que eu não faço ideia quem sejam. Podia investigar, mas prefiro não interferir. Estar aqui já é bem bom, perfeito mesmo.

Não sei se se pode chamar cliché a uma coisa que nunca aconteceu aos meus amigos que já vieram várias vezes à Índia. Mando uma fotografia a uma amiga que cá esteve cinco semanas, em duas viagens. “Nunca vi indianos tão ocidentalizados enquanto aí estive. E tu nem há um dia chegaste…” Enfim, as reacções foram variadas o suficiente. A verdade é que eu crashei uma festa de Bollywood no meu primeiro dia. Comi tudo o que me apeteceu, bebi muita água que a noite estava quente mas o que mais fiz foi mesmo deixar-me ficar a ver, a rir com os grupinhos de rapazes e raparigas, com as suas interacções, com a maneira como se desafiam uns aos outros para dançarem de forma mais ousada ou vistosa. Escolhi a minha miúda favorita e nos vídeos percebe-se qual era. Fiquei a torcer para que se divertisse mais do que os outros todos. Escolhi o meu miúdo preferido mas depois ele subiu a uma cadeira e arrependi-me, ofereci-me uma segunda oportunidade e depois escolhi outro que foi dançar para o pé do grupo de amigas da minha favorita e tem a camisola completamente encharcada. Homens a dançar sem vergonha é coisa que eu muito prezo (sempre tive amigos incapazes de o fazer, incluindo alguns namorados), não há muita margem para se ser mais desavergonhado do que isto.

Às tantas, também percebi que isto tudo estava, obviamente a ser… filmado. Com tanta cor e animação, demorei a olhar para o centro do jardim, onde estava erguida uma megacabine de som (uma espécie de PA multifunções), só que tinha mesmo uma equipa de filmagem lá em cima, uns senhores sentadinhos atrás do tripé. De vez em quando, alguém ia ao meio da pista de câmara ao ombro. Mas eu mal dei por estas movimentações.

Ver gente a divertir-se à séria pode ser mesmo muito divertido. Especialmente se isto é a Índia e eu acabei de cá chegar. Bollywood sem fazer nada por isso? Sem sequer pôr um pé em Bombaim? Sem sair do hotel? Comida e diversão de graça, com fotografias e vídeos e muitos, muitos sorrisos de brinde? Check; check; check. Sim, sim, sim. Não sei se é de mim ou da Índia. Não sei nem quero saber. Só sei que me estou a divertir à grande e sem esforço. This is India e eu estou mesmo a adorar.

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