This is India

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Dormi muito mais do que contava, meio jet lag, meio cansaço genuíno e puro. O pequeno-almoço já acabou há umas horas, mas encontro no quarto duas bolsas de café e maneira de ferver água. Não faço ideia onde estou, só sei que é a auto-estrada do aeroporto, eu vim dali, o resto da cidade deve ficar para acolá, não sou eu nem sou ninguém se não sair daqui a pé, para dar um passeio. Hei-de chegar a algum lado, certo? Claro que sim.

Então, auto-estrada quer dizer que não há passeios (imagino que nem sempre há passeios quando não se está numa auto-estrada) e que há muito trânsito, um trânsito feito de grandes autocarros, camiões, carros de todas as dimensões, tuk-tuks de várias cores, muitas, muitas mas mesmo muitas motas e bastantes bicicletas. Já no caminho lembro-me que só quando entrei no carro do Diipac me veio à cabeça que aqui se conduz pela esquerda. Claro que sim. Só não me tinha ocorrido. Tento andar de frente para o trânsito, como mandam as regras e a lógica, mas quando viro à direita, depois de um grande cruzamento onde há um viaduto do qual nascem vias sobrepostas em altura, o espaço para mim começa a ser cada vez mais pequeno – e as ultrapassagens são tantas que às vezes não importa assim tanto estar de frente para o trânsito.

Esta estrada está cheia de quintas, pequenas propriedades de onde ocasionalmente saem camiões e, menos vezes, pessoas. Ainda vai demorar um bom bocado até chegar à civilização, enfim, a ruas com cafés e lojas e pessoas, muitas pessoas que não estejam em viaturas motorizadas ou só de duas rodas. Daqui a pouco já vai haver algumas pessoas nesta estrada, poucas, uma ou outra paragem de autocarro e alguns peões que saem das quintas, se cruzam comigo ou param por um pedaço e encostam a bicicleta ou a mota. Aqui e ali, uma banca de ovos cozidos, tomate e pão.


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Andar sem destino é das melhores coisas desta vida, ainda mais se for num lugar desconhecido. Mas tem os seus limites. Por exemplo, se ainda não fizemos nenhuma refeição o cansaço pode chegar mais depressa. Há terra na estrada e pó, aqui e ali alguma lama, mas em geral é fácil andar por aqui. Cheira bem por causa das quintas e nem se sente a poluição do trânsito, mas há trânsito, muito, e o barulho de mil buzinas em simultâneo e depois à vez, como se tocassem alguma música. Tendo em conta as milhares de viaturas que passam por mim e se desviam para não me acertar a cada cinco minutos, é até bastante fácil andar por aqui.

Eu sei reconhecer os sinais. Se dou por mim a deixar de sorrir para quem se cruza comigo, se me apercebo que já não sorrio perante situações em que o faria normalmente. Dicas para me avisar que a minha disposição pode estar a mudar, que a fome ou as dores nos pés ou o cansaço geral podem estar prestes a levar a melhor. Mau é ficar irritada. O pior que pode acontecer é ficar mesmo maldisposta. Sobrevivi ao primeiro passeio sem destino em Deli no meu primeiro dia na Índia. Andei quase quatro horas ao todo, talvez menos um bocadinho, com paragens para comer uma massa com vegetais (chawmeen vegetarian) e comprar bolachas, cigarros, uns sumos e água, em duas banquinhas diferentes (na primeira não havia maços, só cigarros avulso).

Quando estava quase a ficar irritada, parei e sentei-me numa espécie de muro perto de um senhor mais velho, também sentado, com um cão muito branco pela trela. Acendi um cigarro e deixei-me ficar a ver os carros e as pessoas. Passados uns dois minutos percebi que estava a metros do portão de uma escola e que os miúdos tinham espalhado a palavra e estavam a vir aos grupinhos espreitar para me ver. Quando estava quase a ficar com dores de estômago parei na primeira banca e bebi um sumo de maçã de pacote, coisa que nunca faço, mas me soube melhor do que muitos frutos frescos da vida. Logo a seguir, escolhi um sítio para comer e foi bem bom, comer e também estar sentada numa cadeira. Eram só duas mesas com quatro cadeiras cada e a minha companhia foi rodando, comecei com um casal jovem, acabei com um miúdo da escola a comer uma espécie de hambúrguer.

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Voltei pelo mesmo caminho com a certeza que não me ia perder. Senti-me pequena o tempo todo. Quando soube que o Luís J Santos ia ao Japão, disse-lhe que ia ser Big in Japan, que é algo que sei que ele é em qualquer lado mesmo quando fica muito pequenino (como a ouvir o que lhe disse a Rina, à saída do Museu e Memorial da Paz de Hiroxima). Quando soube que vinha à Índia imaginei que ia ser tudo grande e tudo muito. É mesmo. This is India. This is India. Passa-me esta frase pela cabeça frequentemente, acho que nem se costuma aplicar à Índia mas é só nisso que eu penso às vezes.

Sempre que viajo tento escolher um mote para fotografar, um tema para me orientar entre tudo o resto. Podem ser “esculturas eléctricas” em Havana (as instalações eléctricas escultóricas e perigosas nos prédios da cidade), os nomes das mikroletes (pequenos autocarros) em Díli; os vegetais e as frutas ou simplesmente todas as coisas que se vendem em mercados, por estarem sempre dispostos com tanto encanto (foi o que me aconteceu em Damasco e Alepo, há onze anos). Aqui percebi que comecei logo a fotografar os cartazes, sinais de trânsito, mupis de publicidade, pinturas a anunciar lojas ou marcas. Podiam ter sido os transportes, podiam ser as vacas nas ruas de Varanasi, também me ocorreram os motoristas, às vezes são dezenas, todos juntinhos à espera de quem transportam, entretêm-se em pequenos grupos, quando são três ou quatro podem juntar-se num dos carros a ver um filme. Não sei se este tema vai resistir ao resto da viagem. Para já, está a impor-se. This is India e eles têm de se esforçar por serem notados, fazem-no com pinturas ou cartazes incríveis a anunciarem dentistas, cuecas ou uma escola. This is India e eu sinto-me mesmo pequena. This is India e eu já percebi que vou gostar de andar por cá.

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