O “gajo que anda” e o lenço das cerejas (Portela)

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Gosto de aeroportos. Como a Joana. Mais daqueles que conheço (como a Joana). Não é mais, é diferente, é outra coisa. Gosto de saber de cor o percurso mais rápido para ir de X a Z e ter a certeza do que vou encontrar pelo caminho, de saber que sei onde é o melhor e mais barato pequeno-almoço, a melhor Net, as tomadas perto das cadeiras boas, as melhores cadeiras para dormir, o caminho para a rua se não houver sala de fumo; gosto até de reconhecer mesas onde jantei, apercebi-me disto no outro dia, na Turquia; também sei sempre onde fiz compras de emergência (como aquele vestido em Barajas, depois de voar de Berlim com um febrão e de aterrar encharcada, o vestido era igual a um da MJ, como é que é possível). Às vezes, tenho saudades de aeroportos. Desta vez não tive. Foram 19 dias, menos umas horas. Estou na Portela a fumar. Gosto desta sala de fumo. Não tem varanda como a de Maputo ou um aeroporto que não vou dizer na Turquia, mais Palermo. Mas não é má.

Daqui a umas horas, Frankfurt, de tantas viagens mas agora quase nunca. Mais logo, Deli e isso vai ser bom. Como estar neste aeroporto mas melhor. Bom como só o desconhecido consegue ser. A Índia. Mundo novo para desbravar e desbundar. Estar aqui às 7h e sem ter ido à cama é especialmente bom por causa disso. Gosto de aeroportos, sempre. Mas ainda mais quando entro neles a saber que vou para longe que até pode ser perto, desde que seja novo e diferente, é longe. A Índia é longe. Sei-o bem. Imagino que vai estar aquela humidade das noites de Hudaida, no Mar Vermelho. Imagino mas não sei. Não há nada assim. Não dormi e sorrio para toda a gente. Para o taxista que não era muito simpático, para a senhora da farmácia, para os senhores e a senhora das malas, tanto para o senhor que me tirou um café Nespresso e me vendeu uma água e me desejou boa viagem, para esta gente toda aqui nesta sala de fumo.

Gosto mesmo de aeroportos. E das pessoas que encontro neles. São quase sempre simpáticas e é raro estarem maldispostas. Agora há sempre muitas a olhar para o teclado dos telefones, mas ainda há as que olham à volta como eu, a deixar parar os olhos umas nas noutras. Acho que é para confirmarmos que estamos todos bem-dispostos, contentes, por estarmos vivos. Viajar faz-nos isto e então não faz mal não ter dormido, comido, tomado banho, seja o que for. O senhor simpático que me tirou o café bem disse que a água estava fresca. Só de mexer não me pareceu. Agora que bebi, está mesmo fresca. Tão bom.

Estão três senhores da ANA a fumar e a conversar sobre um passageiro de cadeira de rodas mas “que anda”, “se o gajo anda”, “para um gajo que anda tiveste de tirar mais um lugar”, é isto e jogos de computador; mesmo ao lado deles, está um senhor careca e de óculos numa cadeira de rodas, de certeza que não anda, é estrangeiro e não percebe. E eles riem-se muito, nem parece que estão a falar de “um gajo que anda”, só dos jogos de computador.

A água está mesmo fresca, quase demasiado fresca. É do Luso e diz no rótulo: “Às vezes não percebo o que queres. Mas o que eu quero é ver-te feliz”. Dou um cigarro a um rapaz que ficou sem mortalhas. Afasto-me um bocadinho para um casal de namorados se esparramar à vontade. Acendo o segundo e último cigarro da manhã.

Agora, fiquei com frio. Talvez tenha sido a água ou a falta de sono. O que vale é ter aqui o lenço das cerejas que a Joana me ofereceu há tempos.

 

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