“Ma’am, that’s so cute”

Quente, húmido, não tanto como esperava. O avião chegou com quase duas horas de atraso, já passava bastante da uma da manhã quando o comandante anunciou o início da aterragem e disse que estavam 24 graus. Pareciam mais quando pus o pé na rua já na companha do Diipac.

As primeiras impressões não são tudo, mas são alguma coisa e o Diipac vai ser sempre a primeira pessoa que falou comigo na Índia. Contou-me tudo o que entendeu contar e não foi pouco. Os turnos de 24 horas disponível para ser chamado pelo hotel, estar num quarto longe da mulher, dos pais e das duas filhas, não ter, aos 33 anos, dinheiro para poder dar-lhe a educação boa, na escola certa, nem para comprar os presentes que elas gostariam de receber. Estar longe da família logo por estes dias, durante o início do Diwali, o festival das luzes. “Hoje, há bocado, entre as 23h e a 1h a minha mãe levou a minha fotografia e eu fui abençoado sem lá estar.”

O Diipac chamou-me ma’am e claro que toda a gente me chama ma’am, a mim e a todas as ma’am que por aqui deve haver. Percebi com ele que tenho de estar mais concentrada para perceber tudo o que me dizem, dependendo do sotaque, claro, principalmente se estiver cansada. O Diipac fuma mas não tem dinheiro para cigarros e então fuma bidi, o tabaco enroladinho numa folha que experimentei pela primeira vez no Jesus, o restaurante goês de Lisboa, ainda ele não tinha ido de novo a Goa e regressado para reabrir noutra morada. Dois cêntimos de rupia compram 20 biris, da pior qualidade, hei-de descobrir; um maço de tabaco pode custar 50 ou 260 rupias, dependendo da marca e do lugar onde se compra. Os bidi são os cigarros dos pobres, na Índia fumam-se mais do que os outros e quando são da pior qualidade fazem ainda pior. Também podem ser cigarros naturais, com folha de tabaco e sem carbono, mas aí são caros. Um camarada fumador que encontro mais tarde diz-me que foi a pior coisa que já experimentou e tem medo de voltar a tentar.

Estava especialmente cansada e nem percebi metade dos sítios que o Diipac me disse que devia visitar em Deli. Claro que me deu o seu número de telefone e insistiu para lhe ligar. Eu não liguei (ainda) mas já o voltei a ver. Lembrava-se do meu nome. “Sofia, ma’am, such a cute, cute name, so many indian girls have it”. No segundo encontro, de manhã cedo, quando disse que ia a Varanasi, foi ele que não percebeu, isto às vezes funciona para os dois lados. Como eu lhe contei que costumo viajar em trabalho e calhou comentar que já passei pelo Afeganistão, achou que eu tinha dito o nome de um país qualquer esquisito. “Varanasia, Arabasia, Arasia”. Enfim, é verdade que me estava a levar de volta ao aeroporto. “Oh, ma’am, such a cute way you say Varanasi”.

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