A A. e o M. vêm comigo

Há alguns anos disseram-me que assim que chego a um lugar diferente mudo, parece que se nota na voz ao telefone, por exemplo (agora já nunca falo ao telefone com ninguém, a não ser em trabalho). Eu sei que é fácil sentir-me em casa depressa, não aconteceu em todo o lado, mas quase. E há pessoas que por isso me sentem a ficar mais longe, à medida que vão crescendo os dias. Eu gosto de me sentir em casa depressa, do conforto de me sentir segura nas ruas, nos transportes, da facilidade que costumo ter em conversar com pessoas mesmo quando quase não temos vocabulário em comum. Sei que desligo com facilidade dos problemas que deixo em casa, não que desapareçam, o que acontece é passarem a ocupar outro lugar, um pouco mais nublado e não tão à mão, e também fico contente por isso. O mais certo é os problemas continuarem no seu sítio quando eu voltar. E eu vou voltar, isso é mesmo certo. Mas também trago comigo as pessoas, de certa maneira. Ou vou mandando emails, por exemplo, a partilhar experiências com algumas. Ou penso nelas, em várias pessoas e em grupos de pessoas, mais ou menos por razões do momento ou outras.

Desta vez, sabia que ia trazer a A. comigo de uma maneira especial. No início deste ano, andava eu especialmente em baixo, e a A. pediu-me para a ajudar a planear uma viagem à Índia, uma viagem especial, para completar a sua formação em ioga e poder, um dia, tornar-se ela própria formadora, mestre. Não sou especialista, mas comecei a investigar e claro que ia ajudá-la. Porque adoro planear viagens, e a A. lembrou-se de me pedir por isso, e também porque a A. me fez este pedido porque eu não estava bem e ela queria distrair-me, dar-me algo bom em que pensar.

Não é assim tão fácil. Como já me confirmou por aqui a Ulrika, que é sueca e fez um retiro de ioga de um mês há dez anos nos arredores de Kerala, no Sul da Índia, “há muitos esquemas, em zonas com mais turistas, ainda mais, é preciso ter cuidado”. Enfim, agora é a A. que não está bem. Vai ficar, mas agora não está, não está mesmo nada bem. E apercebi-me durante o meu primeiro passeio sem destino que a vou trazer muito em permanência comigo. Já tinha decidido que ia escrever-lhe mais emails do que a outras pessoas, para ela ir vivendo um bocadinho disto. A A. já não fala em vir à Índia, mas eu sei que um dia ainda vai fazer a viagem, com retiro e tudo. Já não deve é acontecer para o ano, como ela planeava. Enfim, esta viagem é dela, também, e muito. Já sabia que ia ser, mas agora que cá estou, agora que a viagem começou realmente, penso tanto nela que percebi que esta é quase uma viagem a duas. Depois conto-lhe só a ela a conversa toda sobre retiros de ioga por cá com a Ulrika. Tirei notas e tudo, para a A., enquanto ouvia na cabeça o The Book of Love, do Peter Gabriel (também já ouvi sem ser só na cabeça, entretanto), que é uma canção que me lembra sempre a A. feliz.

A andar sem destino também me apercebi que o M. me vai fazer companhia, não como a A., de outra maneira. Acho que foi por me ter pedido uma carta ou um postal e me ter dado a morada. Há tanto tempo que não escrevo cartas nem mando postais enquanto viajo. E costumava fazer tanto isso. Há amigas de quem guardo imensos postais – espero que elas também guardem alguns dos meus. Costumava escrever a várias, à minha mãe também. E não precisava de pedir a morada a ninguém, ou sabia de cor ou já tinha sempre comigo num caderninho. Desta vez, por causa do M., já pedi a morada a várias amigas. Com uma já troquei muitos postais há muitos anos, com outras menos mas alguns, com as outras vai ser a primeira vez. Em dois casos, quero é escrever aos filhos delas, mas não lhes disse. Só lhes pedi as moradas. Depois tenho de agradecer ao M. por me ter pedido uma carta ou um postal.

Fotos: Stupa de Dhamek, nos arredores de Varanasi. Estes stupas são pré-budismo, locais onde os ascetas eram enterrados sentados; em redor, há umas bases de pedra onde os seguidores de Buda se sentam para o celebrar

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