Ela viu tudo em Hiroxima

Frágil, sinto-me frágil. Nós achamos sempre que somos fortes, parece que é sempre tudo para sempre. Mas depois isto acontece e tudo acaba, tudo desaparece. A beleza é destruída de repente. O ser humano não é muito forte. Acabei de sair do museu e o que sinto é isso, fragilidade. Temos que nos unir para que isto nunca mais aconteça no mundo.
(Rina Arai, 16 anos)

Rina, Hiroshima

Enquanto Rina fala, saída, como nós, do Museu e Memorial da Paz de Hiroxima, as expressões do rosto da minha guia japonesa denotam uma mescla de surpresa e emoção. Eu observo as duas enquanto as minhas perguntas são traduzidas para japonês e as respostas chegam daquele pequeno corpo em fato colegial que só deixa o movimento das mãos, do pescoço e do rosto grave ao ar livre. É com um nó na garganta que a minha tradutora me entrega as frases de Rina e é com o mesmo nó na garganta que as oiço e aponto. Rina, 16 anos, estudante do secundário em Kasukabe – a quase mil quilómetros daqui, perto de Tóquio -, acaba de fazer uma visita de estudo com os seus colegas ao enorme complexo que regista, reconstrói e mostra, imagem a imagem, o apocalipse nuclear de Hiroxima a 6 de Agosto de 1945, cidade-mártir com direito a uma entrada fatal na História como a primeira cidade do mundo a ser assassinada com uma bomba atómica, logo seguida de Nagasaki.

Como nós, Rina viu as fotografias que segundo a segundo mostram o cogumelo nuclear, a devastação absoluta que se seguiu, o horror de 80 mil mortos e dos milhares e milhares que nos meses e anos seguintes morreram pelas sequelas (mais de 200 mil, calcula-se), os corpos queimados, as dores que perduram (e perdurarão) para sempre. Pelo museu, o horror da História acompanha-se em vídeos, documentos, objectos, reconstituições, mapas pormenorizados, pedaços de paredes estilhaçadas, histórias pessoais, até manequins que, qual zombies, parecem querer caminhar pelo espaço com os corpos a arder. Não é um turismo do horror, é um turismo do conhecimento. A cidade não pode esquecer, o mundo não pode esquecer, Hiroxima não quer esquecer – e lembre-se que o nuclear e a guerra nuclear continuam agora e sempre na ordem do dia, até nas eleições americanas com um candidato a Presidente cujas opiniões sobre o nuclear têm feito o mundo estremecer. Hiroxima lembra o horror nuclear a cada passo, evocando sempre a paz e a defesa da abolição do armamento nuclear.

“Nunca mais” é a divisa. Por isso, um memorial e um museu, que sendo de memória nuclear, se chama da paz, com uma eterna chama a arder, monumentos pelos caídos, pelos heróis e voluntários, pela união entre os povos ou ruínas guardadas tal como a bomba as deixou. A mais emblemática é o Genbaku,  edifício tornado ícone do martírio e da cidade, um pavilhão de feiras e exposições comerciais que, embora descarnado, se manteve de pé após a bomba, com a sua cúpula esvaziada a erguer-se nos céus, o único e maior prédio a ficar de pé na zona. Todos os que estavam dentro dele morreram, a estrutura ficou. Como um corpo derretido cujo esqueleto permanece altivo.

Pela cidade, cada passo nosso traz essa memória – até porque o recente acidente nuclear de Fukushima, oficialmente controlado e a uns 1000km daqui, continua bem presente e dificilmente alguém o esquecerá.

Mas não se pense que Hiroxima vive nas ruínas do passado. Pelo contrário, vive no seu renascimento, na sua reconstrução das cinzas, na força da sobrevivência, na labuta dos dias, na esperança que enterra esse apocalipse no passado mesmo que, acredito, nunca seja esquecido. Já se passaram 71 anos desde que a bomba a matou. A vida, essa, continua. E o nosso dia de Outubro em Hiroxima, embora cinzento e chuvoso, não é feito de guerra. É feito, acima de tudo, de paz. Levantada do chão, é uma cidade vibrante, renovada, com mais de um milhão de habitantes a vivê-la.

Teremos tempo para passear pelo seu “castelo” reconstruído como museu, de rir com samurais em versão pop a actuar para as fotos, de cruzar a cidade de eléctrico, de ver templos e museus, entrar num hotel-cápsula e ver os prédios high-tech, acelerar pelas montras de stands com automóveis incríveis (a propósito, a Mazda nasceu aqui e tem cá um museu) ou saborear a boa vida nesta cidade da ilha de Hondo, no delta do rio Ota, cruzada veneziamente por canais. Até para descansarmos as pernas numa esplanada ribeirinha a beber uma cerveja local enquanto vemos residentes, turistas e casais de namorados sorridentes a passearem a seu bel-prazer.

Temos mesmo tempo de encher a barriga de alegrias. Tanto ao almoço numa casa de okonomiyaki, estilo tradicional de comida rápida em pequenos recantos e onde a mesa central para todos é uma chapa quente na qual o chefe faz uma espécie de panquecas deliciosas, com vegetais, ovo frito, massas e o que mais se queira. Aqui, fui até repabtizado graças à simpatia esfuziante da dona (e dos restantes clientes): Me-me san. Algo como Senhor Olhos Grandes. A culpa foi da dona Hisashi, que, aos 82 anos, com o marido, dá comida e boa disposição ao seu pequeno restaurante baptizado com o nome do filho que é notoriamente o orgulho da família, Hiro Chan, “é professor! professor!”. “Olhem para esta cara linda, de bebé grande, olhem para estes olhos, grandes, grandes, lindos, me-me san, senhor olhos grandes”, traduziu-me a minha guia, rindo-se que nem uma perdida. Há que dizer que comparando com os cidadãos japoneses (e com praticamente todo o resto do mundo) os meus olhos são grandes (e, vá, lindos). Me-me san forever.

E ao jantar, mais alegrias, noutra casa tradicional, Izakaya, típico pub japonês, com reservados partilhados e, entre outras especialidades, carne de vaca Wagyu (uma das mais celebradas do mundo) por nós grelhada em chapa, ou lulinhas estufadas apetitosas, ou risottos e vegetais ao vapor e sopas de miso retemperadoras, cerveja e saké. E (perdoem-me) acima de tudo: um vinho alentejano tinto, tornado ainda mais especial por aparecer num anúncio na nossa mesa. A minha guia jurou que nada tinha a ver com o assunto. Mas imagine-se se numa noite de Outono um viajante alentejano pelo Japão descobre por coincidência um vinho da sua terra, mesmo que chamado de Porco Tinto, na sua mesa de Hiroxima. É um golpe de alma. Garanto que nunca, como em Hiroxima, por tudo o dito e visto, este alentejano ergueu um copo de vinho num “saúde!” com maior veemência.

Sim, em Hiroxima, nunca esquecemos, mesmo que seja uma eterna verdade, como se dizia no clássico filme Hiroxima, Meu Amor de Resnais, “Tu não viste nada em Hiroxima”. Sim, nunca esquecemos, mas celebramos sempre a vida. Se calhar até mais e mais verdadeiramente que noutros sítios. Porque se não vimos, há sempre uma voz vinda do fundo dos tempos, uma testemunha, mesmo que não presencial, que transporta no sangue a verdade partilhada que o mundo tem de ouvir. Uma e outra vez.

Frágil, sinto-me frágil. Nós achamos sempre que somos fortes, parece que é sempre tudo para sempre. Mas depois isto acontece e tudo acaba, tudo desaparece. A beleza é destruída de repente. O ser humano não é muito forte. Acabei de sair do museu e o que sinto é isso, fragilidade. Temos que nos unir para que isto nunca mais aconteça no mundo.
(Rina Arai, 16 anos)

 

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