O melhor pior espectáculo do mundo

Robot Restaurant

De Tóquio, uma pessoa traz um caleidoscópio de lembranças, uma variação filmíca que mistura motes à Kurosawa, Godzilla e Blade Runner, à Lost in Translation, manga e anime, um corrupio de imagens em movimento, um corrupio de muita gente em movimento, parecendo tudo em fast forward. Ora, exactamente essa sensação é resumida num espectáculo de uma hora que ainda nem acredito bem que vi e que não me sai da memória (ver Insónia em Tóquio…). É uma coisa. Um ovni. É o Robot Restaurant. É a histeria mais animada a que alguma vez assisti, é trash, é kitsch, é maluco. Não em vão, está nos tops online das atracções de Tóquio segundo os seus visitantes, embora não seja cena para qualquer espectador. Passo a tentar explicar, porque na verdade aquilo é quase inexplicável – felizmente tirei uns bonecos e uns vídeos que, apesar de me tremerem as mãos com as vibrações, espero que ajudem.

A emoção começa logo nas ruas em volta, uma daquelas zonas vibrantes de luz e desfiles infindáveis de gente. Estamos em Kabukichō, tradicional bairro da luz vermelha de Shinjuku, hoje em dia muito virado para o entretenimento geral e, como todos os bairros similares pelo mundo, hoje em dia centro de atracção para turistas, hipsters, viciados em doses várias da má vida (infelizmente, não tivemos agenda para inspeccionar os verdadeiros red ligth spots…). Entra-se na rua do Robot Restaurant – que, apesar do nome, é afamado pelo dito show e não pela comida, aliás nem comemos – e percebe-se logo quem manda ali. O espaço explode em luz e barulho (uma musiquinha repetida à exaustão), empregados mascarados (no caso em alusão ao Halloween, que por algum estranho motivo turístico se celebra ao longo de todo o mês de Outubro), bonecada mais ou menos robotizada. Só visto e ouvido:

Na casa à frente da sala de espectáculos vai-se buscar os bilhetes reservados (a bom preço:cerca de 70 euros, comprados online em sites com desconto). Entra-se então para a sala do show, num prédio que este projecto, que terá custado milhões e milhões de euros (fala-se em mais de 100 milhões, faz parte da lenda), partilha com outras atracções e bares mais, quis-nos parecer, “aluzvermelhados”.

A sala de espera é bar e restaurante e montra-aperitivo do que aí vem: toda ela brilha em espelhos e espécies de vitrais com dragões e raparigas. É quase preciso pôr os óculos de sol. Há espectáculos a cada hora, portanto uns que saem e outros que entram encontram-se por aqui. Quase cem por cento são turistas – o meu guia apontou uns três ou quatro japoneses numas centenas de pessoas. Quando é dado o sinal, a clientela do próximo show começa a descer escadas e mais escadas até atingir uma cave gigantesca onde o palco é uma passagem central e os espectadores ficam encadeirados dos dois lados, com paredes-vídeo a lançarem miríades de imagens. As luzes apagam-se. Um barulho infernal meio techno começa a dar de si no escuro. E de súbito grandes máquinas transportam tambores e músicos com cabeleiras e fatos ofuscantes. Toca de bater até mais não até tudo rebentar num carnaval imparável e nos tímpanos, com os palcos móveis dos músicos a andarem de um lado para o outro na sala, a luzes começarem a faiscar, pelos quatro cantos deste mundo e na nossa cabeça.

O que se segue é o mesmo contínuo de histeria, em quatro quadros diferentes com a participação de robots gigantes, dezenas de artistas, músicos, performers, dançarinos, o diabo a sete, lasers, LED, gritalhada, referências a lendas, a histórias e filmes, motas e todo o tipo de veículos, tudo ao molho e fé no anime. Nos intervalos, a feira popular continua com venda de pipocas, bebidas, brincadeiras. Os quadros apresentados tanto incluem lutas entre grandes robots malvados que vêm doutro planeta contra seres bonzinhos da terra e do mar como coreografias animadas de dançarinos vestidos de luzes, ninjas, deusas de cabelo azul, fadas cor de rosa, dominatrixes malvadas de cabedal, cavalos a cavalo, coelhos enraivecidos, deusas pop, robots robocop, ninfetas. Algo entre um Kabuki versão LSD e um thriller global, sendo que o show que aqui se mostra vai variando conforme a época e temporada (este era muito Halloween).

Há turistas de ar aparvalhado, de boca aberta de espanto, outros parecem quase ofendidos pelo ritmo infernal, outros a rir histéricos de vez em quando (caso cá do escriba), outros que, parecendo impávidos e serenos, estão como que em estado de choque. No palco, a coisa vai do Japão e anime para turista ver até ao… samba? Sabe Deus. Vai de tudo a todo o lado. A animadora puxa pelo público, há muita gente quase em delírio, posso garantir-vos.

Quando tudo termina, eu e o meu camarada saímos para a rua com expressões de alívio. Venho tão desconcertado como duas turistas que pareciam ter acabado de ver um filme de terror hilariante. “Então, que acharam?”, pergunto eu. “It’s craaazzzy”, respondem quase em uníssono. Seguem-se umas interjeições e umas tentativas de opinar, “É..”, “Bem..”, “Não sei como…”, “Hum…”. “É tão mau que é bom”, sai-se uma. “Mas pelo preço.. não sei, é…”. Compreendam-nos, acabamos de levar com uma droga forte nos sentidos e ninguém consegue raciocinar. “É capaz de ser o melhor pior espectáculo do mundo”, digo eu, que sou um poeta. “É isso! Sim! Sim!”. Riem-se e vão à sua vida, ainda cambaleando pela rua, soltando um último grito opinativo: “Mas quanto mais bebíamos melhor ia ficando o show!”.

A Fugas viajou a convite do Turismo do Japão

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