Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga

GORITSI MOSTEIRO DE São Cirilo do LAGO BRANCO

Bateram as cinco da tarde no lago Ladoga. O navio Andrei Rublev, nos seus traços anos 1980 recauchutados, desliza lentamente na direcção do Báltico. Um imenso céu azul expande-se como um mar que de vez em quando ondula em nuvens brancas como cinema. Cruzamos o rio Svir, a cujas águas -… um momento, vou só espiar… -, diria, acastanhadas, já chegámos vindos do gigantesco Volga, o maior rio da Europa, e do Onega, lago tão grande que lhe chamam mar. O sol brilha no meu ecrã enquanto tento captar em letras a beleza monocórdica das verdes margens que nos cercam. Um verde contínuo, de bosques e arbustos baixos, entrecortados por canais ou braços de água, aqui mais prado, ali mais floresta cerrada. De vez em quando um vilarejo, umas casinhas de madeira, um barco ancorado, raramente, à excepção das paragens, avisto pessoas em terra.

À minha frente, turistas franceses viram as cadeiras para o sol e conversam sobre a Rússia e a França. Um senhor calvo, kispo azul, fala com trejeitos De Gaulle enquanto aponta os binóculos para a margem. “La naturequelque chose, “les russes“, quelque chose, oiço.

Nas notícias, diz-se que as tensões entre russos e os países da NATO estão a aumentar para os lados do Báltico. As notícias parecem ser velhas mas são de hoje. Mas as notícias estão muito longe do solário da coberta do 5.º piso do Andrei Rublev, barco com nome de pintor santo. O Báltico é que está muito perto, é já amanhã.

Indiferente às notícias, aos turistas e aos jornalistas, a passarada continua a esvoaçar, as gaivotas continuam a espairecer pelo navio a ver se apanham algum resto, a brisa continua suave, o sol continua a brilhar, o Andrei Rublev continua a pintar as suas ondas com uma lentidão zen.

O fotógrafo-videoman corre à coberta a chamar-nos, temos que ir todos: venham ver a vossa viagem, venham ver a vossa viagem, senhores e senhoras venham ver a vossa viagem (mas isto em francês). É o vídeo e são as fotos que muitos vão comprar e sobre a qual rios de tinta ainda irão correr (em papel e nos ecrãs da sua revista, claro está). Paro aqui a nossa conversa. Vou só espiar e já vos conto, até porque como tenho feito de turista sou capaz de aparecer e também preciso de ver se estou bem. Estão cá todos: franceses, espanhóis, russos, israelitas, alemães, belgas, americanos, noruegueses…, etc, etc, isto é um mundo, só em passageiros são umas 15 nacionalidades bem contadas. Claro que não faltam portugueses, somos oito, contados os dois espiões da Fugas.

O hino russo enche a sala, pelos janelões já não sei se é o rio se é o navio que se move, no ecrã começamos a surgir nós. Sim, lá estamos na Praça Vermelha, no Kremlin, nas catedrais, o inesquecível Metro estação a estação. Ah!, o momento mágico em que nos fizemos definitivamente à água e deixámos a cidade para trás. E fomos parando em atracções turísticas, preguiçando em catedrais únicas, sendo levados pelo turbilhão do novo turismo e pelo vento da História.

CRUZEIRO PELO RIO VOLGA RUSSIA

O campanário da igreja , as igrejas iconográficas de Uglich, a modista que desfila vestidos patrióticos na margem do rio como se falasse ao telemóvel com Fellini, a estátua da Mãe Volga que esvoaça sobre o rio, os grandes lagos, o mosteiro de Cyril-Belozersky e o pequeno Cyril que vende souvenirs na loja do avô, a ilha de Kizhi que é uma vírgula de terra no meio do maior lago da Europa e é património da Humanidade e das 200 pessoas que vivem e fazem esta ilha-museu natural e de madeira, o Eugeni que finge ser um carpinteiro do tempo dos czares e a Dasha que vende chocolates com um sorriso, o Dimitri que cuida de peles de javalis que parecem ursos, o Sergej que bate ferro e fogo no meio das águas em Mandrogi e a Tatiana que parece a Ninotchka da Greta Garbo, a Olga que fala espanhol com uma beleza incomensurável, a Darya que nos traz comida com um sorriso escrito por Tolstoy, o casal idoso que dança a Nikita no Volga. Os momentos são monumentos, como bem o sabiam os grandes das letras russas que nos ensinaram a escrever.

Os dias passaram como água, tão devagarinho mas recheados de tantas Rússias. “A Rússia tem destas coisas. Tanto se pode admirar um cosmonauta como uma casa feudal”, escreve o meu camarada Adriano Miranda no seu Facebook (uma pequena indiscrição, Adriano, mas crónica oblige).

O Adriano esteve há 35 anos na Rússia, tinha então 15 anos, veio com os avós. À visita à URSS, a essa primordial primeira viagem da sua vida, o Adriano deve muito, inclusive a compra da sua máquina fotográfica Kiev, que lhe mudou a vida. E eu devo ao Adriano um filme paralelo ao desta viagem, o que a tornou superlativamente superior a qualquer passeio turístico. “A minha avó caiu nas frenéticas e vertiginosas escadas do metro de Moscovo”, começa assim uma história do Adriano.

O que fica das viagens? Eu leio o Adriano, oiço-o, vejo nos seus olhos a viagem que estou a fazer, acabo agora mesmo de ver a primeira escolha de imagens (uma fotogaleria ainda com mais de uma centena, esperem para ver). Eu sou apenas um leitor da viagem do Adriano, tal como o leitor é da nossa e, neste exacto momento, os turistas são da sua própria num telefilme.

No ecrã, vejo o mesmo céu e água que nos circundam para lá das janelas, onde agora se reflectem rostos comovidos de turistas com a sua própria experiência revisitada. Aplaudem o seu filme, que termina subitamente. A memória não está completa, eles sabem-no bem, aplaudem até o que aí vem, a meca, o final desesperadamente feliz, São Petersburgo, a cidade que por três vezes mudou de nome, nunca de grandiosidade. Um monumento à memória, no final do rio, no princípio do mar.

Olho em frente. Andrei Rublev continua o seu lento deslizar. A memória continua.

RIO VOLGA RUSSIA

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