A grande aventura da arte no metro de Moscovo

MOSCOVO RUSSIA

São quase 23h quando a nossa guia, Lídia, conduz o grupo de turistas (e seremos uns 25) numa deambulação pelo Metro de Moscovo, outra das grandes atracções da cidade, ainda por cima económica, “fácil” (se guiada ou com muita, muita paciência e troca de sinais com agentes das estações) e fabulosa.

Uma aventura para qualquer pessoa que pense num metro tão célebre por ser uma série contínua de galerias de arte como por ser usado por milhões e milhões a alta velocidade, ter escadas rolantes quilométricas a pique e, para mais, com quase tudo apenas em cirílico, obrigando a uma descodificação contínua que por vezes se torna, admito, impossível. “Há já algumas no centro que têm tradução e há também intercomunicadores de apoio”, informa Lídia.

Como não é fácil, Lídia repete o sistema que vamos usar duas, três, quatro, vezes. Fala em inglês para todo o grupo e trata-nos por “dearest” a cada duas indicações. Regras, aprenda: Fixar exactamente a estação para que se vai e contar sempre o número exacto de paragens que faltam (como não dominamos russo nem o cirílico decidimos não confiar noutro sistema…).

É assim que entramos na primeira, Park Pobedy (no parque da Vitória). O grupo avança como uma manada com medo de passar um rio agitado durante uma migração. Pés na escada rolante e… descida vertiginosa durante longos minutos. Provavelmente, uma das mais longas escadas rolantes que já vi, o que é natural sendo a estação mais funda de Moscovo (e uma das mais fundas do mundo), 85m abaixo da superfície. Já as escadas rolantes perfazem 126m, 740 degraus. Mas esta, embora imponente, é novíssima, tendo aberto em 2003. Ainda assim segue-se o registo geral que celebrizou o metro moscovita: amplitude e muito mármore. E um mural dedicado a Kutuzov, o general que parou Napoleão.

Paragem seguinte: Kievskaya, um outro mundo, aqui palaciano, dos anos de 1950. Corredores infindáveis, galerias adornadas, lustres gigantes, pilares de mármore, nas paredes frescos com motivos ucranianos. A amizade entre Rússia e Ucrânia é o tema da estação: numa parede, um gigantesco mosaico celebra 300 anos de união entre as duas nações…

As carruagens mesmo agora seguem cheias e grande parte dos passageiros nem nos liga; já decerto habituados a estes turistas do metro, ocupam-se antes com telemóveis e derivados (o metro oferece rede wi-fi e boa). Segue-se na linha a estação de Smolenskaya, seguindo os anos de 1950, design sóbrio com sinais de poder e cerimoniais, paredes ornamentadas, mais mármore e granito, uma obra em relevo homenageia os soldados soviéticos.

O tempo corre contra nós e o passeio guiado tem final marcado por volta da meia-noite na Praça Vermelha. Por isso, saltemos para a Ploshchad’ Revolyutsii, que nos levará à Praça Vermelha. Esta vem do final dos anos de 1930 e é mais um extraordinário museu, perfilando-se estátuas de bronzes de figuras iconográficas da revolução soviética – o operário, o soldado…

Daqui vamos a caminhar para a Praça Vermelha, para espiá-la à noite e ver-lhes os traços luminosos. É tudo o que veremos, os traços. “Fecharam-nos a praça, não posso crer!”, lamenta-se Lídia. E porquê? “Acontece às vezes, fecham a praça, alguma visita ilustre, alguma segurança de Estado…” O certo é que caíram as grades e a praça encerrou de ponta a ponta. Fim de passeio.

No dia seguinte ainda haveremos de fazer a prova final do metro: sem guia. Bem acompanhados por dois casais portugueses que fazem o mesmo cruzeiro que nós, vamos os seis a caminho, tentando decifrar, do porto ao centro da cidade, o metro e as suas manhas. Bilhetes comprados, dúvidas esclarecidas, seguimos o sistema que no nosso caso é facilitado: é sempre a mesma linha (verde). Só temos de encontrar o comboio certo (igualmente fácil: é uma estação terminal a nossa) e sair na Teatralnaya.

Não é tão fácil quanto parece, porque russo e cirílico ainda nos confundem. Mas conseguimos chegar a bom porto. Para mais, a Teatralnaya, também dos anos de 1930, abre-se em mais uma peça de arte de tectos trabalhados, elegância ornamental, iluminação e temática teatral. No regresso, voltaremos a apostar no metro e até com mudança de linha (foi a partir da Biblioteka imeni Lenina, outra estação imponente dos anos 1930), desta feita, entre a pressa e a incerteza, recorrendo a muita linguagem gestual e perguntas de mapa na mão a quem encontramos pelo caminho. Pode ter sido sorte mas, verdade seja dita, só encontrámos gente prestável que nos apontou sempre para o bom caminho.

Moscovo está a ficar mais simpática ou foi só impressão?

Aliás, Moscovo costuma surgir sempre na frente dos tops das cidades mais inamistosas ou menos acolhedoras do mundo para os visitantes. No nosso caso, ou por sorte ou por acerto, realmente não tivemos essas experiência e nem me refiro a quem trabalhou directamente connosco – guias, etc: das perguntas nas ruas a cidadãos comuns ou a agentes de segurança, a pedidos de ajuda a funcionários, no metro, nos cafés, nos quiosques (excepção seja feita aos agentes de segurança do Kremlin e aos seus berros e apitos, mas isso deve fazer parte da imagem de marca  ainda assim, houve dois que deram o seu “da” a tirar uma fotografia turística com este seu escriba – eu juro que esperava ouvir um rotundo “niet”…).

Não demos por um grande, grande amor mas também não demos por falta de simpatia ou reacção, sequer por gélida indiferença. Muito pelo contrário. Em Moscovo, não dominando nós o russo, demos apenas pela falta do domínio do inglês (ou de outra língua de contacto) e de uma língua franca para além da gestual e pela nossa absoluta frustração frente a qualquer inscrição em cirílico com mais de três ou quatro letras, como burros a olhar para um palácio.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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