À frente da catedral levantada do chão, a fábrica Outubro Vermelho inventa futuros

MOSCOVO RUSSIA

Ainda haveremos de parar na Catedral do Cristo Salvador, por um motivo especial: ver como uma catedral do séc. XIX, deitada abaixo por Estaline para construir um Palácio dos Sovietes – o que nunca aconteceu, a área foi usada para piscina pública –, foi reerguida das cinzas em toda a sua imensidão no final do séc. XX, igual à original, mais de 100 metros levantada do chão. Foi inaugurada no ano 2000 e é ver para crer.

A dois passos da catedral, há mais passado em transformação. Só tivemos tempo para dar um salto, cheirar o ar dos tempos e beber uma cerveja mas vale a pena passar a belíssima ponte pedestre chamada do Patriarca sobre o rio Moscovo, descer a primeira escadaria para a direita e entrar na “ilha” da antiga Fábrica de Chocolate Outubro Vermelho (Krasny Oktyabr, um ícone para gerações e gerações). No aterro de Bersenevskaya, a sua fachada de tijolos vermelhos e o seu antigo e doce logo nos ares chama-nos as atenções.

A fábrica saiu daqui há uma década e as instalações e armazéns têm vindo a ser renovados e recebem empresas, media, bares, restaurantes, ginásios, galerias. Mais cool ou mais hipster? Mais cultural, criativo, energético? Não sabemos e ficamos mesmo com pena de não termos tido mais tempo para descobrir.

Mas se der entretanto um salto a Moscovo, faça favor, tem aqui um sítio que vale mais que um salto para mais descobertas urbanas. Para mais e não em vão – nada em vão, decerto – fica aqui o Strelka, que se resume como o Instituto para Imaginar o Futuro, organização não-governamental que quer revolucionar a cultura urbana, a cidade, as cidades – arquitectura, design, media, urbanismo são as suas preces. Parece que é o Strelka que mexe os cordelinhos e serve de motor e atracção para a transformação desta ilha. Também tem um bar-esplanada de design prometedor. Mais até, porque isto anda tudo ligado, estando nós de partida para o rio Volga, não é que o nome do instituto também nos remete tanto para uma confluência do Volga com outro rio como para um extremo da ilha de Vasilyevsky, em São Petersburgo – também quer dizer outras coisas e é o nome de uma famosa cadelinha espacial soviética, mas isso são contas de outro rosário. Para mais, o Strelka também se dedica a estudar o Volga e as suas vidas e mutações.

Com pouco tempo entre mãos – esta é a paragem final antes de começarmos a fugir para o barco que nos levará a navegar para São Petersburgo -, sentamo-nos no Primitivo, restaurante e bar cercado de madeira e jardim vertical, e ficámos a beber uma cerveja enquanto observávamos dois trabalhadores a terminar as obras numa parede onde brilha o grafitti de um astronauta (Gagarin, espero). Garanto que fizemos um brinde a Moscovo e saiu tão natural como a nossa própria sede*.

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*E não é que o Primitivo, que é também bar de vinhos, tem uma longa carta onde até, vá lá, surge um vinho português? Só por curiosidade: um Dão Reserva de 2011 da Quinta dos Roques. Um luxo a 60 euros a garrafa.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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