Ver Moscovo sob outras luzes

MOSCOVO RUSSIA

À noite, somos levados pela Lídia de autocarro pela noite de Moscovo. A ideia é mostrar-nos a cidade que tantos temem sob uma outra perspectiva ainda mais feérica, numa encenação que esconde partes e sublinha a luz tragédias, alegrias, esperanças e, claro, muito betão, muito vidro, muito mármore, muito granito.

Ora uma tour Moscow by Night, assim só pelo nome, pode enganar. Mas no nosso caso não há ilusões: a massa dos turistas é formada por casais com uma média etária que rondará os 70 anos. É uma slow Moscow by slow Night. O que permite ir apreciando os postais nocturnos da capital moscovita, que, realmente, como nos dizia Elena no início, não parece parar.

O trânsito parece ainda na mesma quantidade mas ter triplicado de velocidade. Prédios e mais prédios, modernos, antigos, modernos soviéticos, antigos russos, cintilam em luz. Ao longe, o recorte da zona financeira, ultramoderna área com edifícios infinitos e envidraçados que recortam um skyline entre à americana e à Dubai – rezam as crónicas que o projecto deste business district não está a correr bem mas não fomos lá ver.

As fachadas iluminadas, com linhas palacianas sublinhadas e cúpulas de igrejas a tornarem a noite ainda mais policromática, desfilam como se a cidade se tivesse vestido para sair à noite. Se Moscovo fosse uma pessoa diria que não lhe falta uma certa vaidade e que parece estar a tentar não só cuidá-la como reinventá-la, com um blush de passado aqui, um batom moderno ali, um ar dos tempos pelos ombros caídos. Haverá muitas zonas escuras e semiescuras nesta Grande Moscovo de 10 milhões de habitantes mas aos nossos olhos, em turismo toca-e-foge, nada disso surge.

O nosso destino: colina de Poklonnaya, área do Museu Central da Grande Guerra Patriótica (a 2GM para a Rússia). Toda a área, que se eleva sobre a cidade, está cenicamente iluminada. O museu perfila-se em galerias abertas e oferece uma vista de tirar o fôlego: para Moscovo e para a história. Isto é para não esquecer e para evidenciar na permanência os feitos do passado, por isso, estamos aos pés do cavalo de São Jorge que mata o dragão na base de um obelisco. É o Obelisco da Vitória que se ergue em luz para os céus nos seus 141,8 metros, 1 metro por cada dia que a URSS esteve na guerra. Tem forma de baioneta e lá no alto, a 100 metros, esvoaça como que saída do obelisco uma estátua de 25 toneladas de bronze da deusa da vitória, Nika, rodeada de anjos que tocam as suas trompetes da glória da nação.

Uma obra escultórica de engenharia impressionante: basta saber que com tudo isto ali se mantém de pé há duas décadas. Sim, esse é o detalhe: foi inaugurada em 1995 sob a égide de Ieltsin. Entre o obelisco e o museu arde uma chama eterna e, lá muito ao fundo, após uma longa abertura que deixa todo o espaço ao obelisco, avista-se uma alameda de chamas vermelhas a ondular (são fontes que lançam água vermelha ao ar, água sangue memorial).

Um pouco mais à frente está um outro monumento que também vinca o passado no presente: um monumento aos heróis da Grande Guerra. Na noite, destaca-se a figura de uma estátua singular em homenagem ao soldado russo. Outro detalhe: é o primeiro monumento similar e foi inaugurada por Putin no âmbito das cerimónias do 100.º aniversário da Grande Guerra, há menos de dois anos.

Tal como toda a cidade, a zona aqui também parece em obras, mas estas são para mais um evento. Enquanto pela longa avenida-autoestrada Kutuzovsky a noite é continuamente cruzada por aparentes provas de F1 urbana, aqui, no parque da Vitória, colocam-se as instalações centrais das celebrações do Dia da Rússia, que está quase aí: é a 12 de Junho, dia que marca a declaração de “independência” da Rússia em 1992 da URSS.

São as voltas dos tempos. Antes de descermos para as profundezas, levamos no olhar o gigantesco e iluminado relógio de flores criado num braço verde do parque, onde também se escreve, a flor vermelha, Mockba. As flores marcam a hora e é tempo de mergulharmos no metro. Mas já lá vamos.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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