Ir ao Kremlin e não ver o Papa

MOSCOVO RUSSIA

Como o nosso hotel (e restaurante) em Moscovo é flutuante, andaremos do barco para a cidade e da cidade para o barco entre almoços, jantares e dormires até à partida pelo rio Volga fora. A grande viagem é a deslizar nas águas rumo a São Petersburgo mas, claro, estando em Moscovo, mesmo que de fugida há imperdíveis a ponderar. Infelizmente, há demasiados. Portanto, fazendo as contas ao tempo, dinheiros, geografias, é ir decidindo com o mínimo de frustração possível. Vamos ficando pelos básicos e uma ou outra escolha mais pessoal.

Se a Praça Vermelha é primordial, obviamente que ir a Moscovo e não ver o Kremlin… Aqui há uma surpresa para aqueles um pouco mais desatentos, habituados que estamos a pensar no Kremlin como sinónimo de presidência russa, algo como o Palácio de Belém. Não está mal visto mas o Kremlin, na verdade, é muito mais do que isso: é toda a cidadela do poder, a fortaleza (kreml) onde a cidade começou no séc. XII. Fogos e revoluções, imperialismos, fascismos, comunismos, democracias, ópios do povo, nada, nada fez o Kremlin em pó. Pelo contrário: é agora um símbolo ainda e sempre de poder mas que parece ultrapassar a mera existência terrena. É no Kremlin, não sei se é na terra.

Lá dentro (é preciso pagar bilhete para entrar no complexo) está a residência do presidente mas esta (também) mega-atracção turística é um extraordinário conjunto que soma mais de uma dúzia de catedrais, palácios (incluindo os do Patriarca, o líder ortodoxo, e os do Estado), torres, monumentos ou os adjacentes Jardins de Alexandre. Nota: há muitos operários e agentes de segurança no Kremlin mas há ainda muitos, muitos mais turistas.

Às 16h50, o sol parece ainda queimar nesta tarde de Junho. Passeamos pelo complexo (sempre são 250 mil m2 entre muralhas de 2o metros de altura) e, confesso, sempre a ver se por acaso aparece (o verdadeiro…) Putin de algum recanto. “Elena, e quando vamos visitar o Presidente?” A nossa guia sorri. “Deve estar a trabalhar, não tem tempo.” Está mais que visto que não vamos ver Putin. Mas, enquanto isso, vemos séculos de história, o epicentro do poder dos czares ao Estado soviético, passando pela igreja e o Estado actual. Todos os poderes parecem encontrar-se aqui.

Vamos cirandando entre o moderno e envidraçado Palácio do Estado – a construção mais moderna, ainda durante a URSS nos anos de 1960 como Palácio dos Congressos, que agora recebe espectáculos -, observando as 11 cúpulas que parecem fazer o Palácio de Terem, o Palácio do Patriarca (que é actualmente um museu de artes do séc. XVII), as igrejas e catedrais, o Arsenal (museu das riquezas dos czares). O Kremlin é acima de tudo religião e a sua arte e história mostram-se aqui em todo o esplendor, cada uma das catedrais mais impressionante do que a outra, entre a dimensão, as cúpulas, as paredes corridas a frescos. Da Catedral da Assumpção (cuja magnitude advém do séc. XIV, um luxo policromático e dourado onde o poder era coroado e os patriarcas da igreja eram enterrados) à Catedral da Anunciação ou do Arcanjo (onde os túmulos contam mil e uma histórias, incluindo a tomba levitada de Dmitri, o filho assassinado de Ivan O Terrível, considerado anjo e por isso não enterrado sob a terra).

Lá ao fundo, fica ainda o setecentista Grande Palácio do Kremlin, mas para aí não podemos virar. É dar um passo na direcção errada e um agente dá um berro ou um aviso sério. Turista segue caminho de turista, não vira para a residência oficial do Presidente. Podemos antes apreciar os jardins, cuidados ao detalhe – por isso víamos tantos jardineiros a cruzar o Kremlin, ou fazer a volta dos colossos, como O Maior Canhão do Mundo ou o Maior Sino do Mundo (ambos séc. XVI).

A visita sai curta e não temos tempo para cada uma das jóias que compõem o Kremlin (cada uma pode demorar muitas horas a ser percorrida, assinale-se). Saímos, sem glória sim, mas com um bom resumo do poder russo, para os adjacentes Jardins de Alexandre, que incluem passeios públicos, fontes ou um canal por onde se perfilam de entre as águas estátuas que evocam fábulas russas. Com o dia quente que está, passeiam-se famílias e há mesmo crianças a mergulhar por aqui para se refrescarem.

Se na outra muralha do Kremlin, à praça Vermelha, fica o túmulo de Lenine (e não só), aqui também se continuam a homenagear mortos e heróis caídos em combate, milhões deles até, porque aqui fica também o Túmulo do Soldado Desconhecido onde, desde a sua inauguração em 1967, arde uma chama em homenagem aos russos que morreram na Segunda Guerra Mundial. O corpo de um soldado anónimo está enterrado sob o monumento, vigiado por uma guarda de honra – vimos noutra passagem o render da guarda (às 13h) e é digna de ser acompanhada toda a cerimónia.

A nossa visita panorâmica por Moscovo ainda passará por ícones únicos, grande parte que só temos tempo de apreciar de fachada, do Teatro Bolshoi na praça dos teatros (onde permanece o último monumento a Karl Marx) ao Palácio dos Romanov, do Museu Pushkin ao parque Gorki ao assustadoramente sólido edifício do ex-KGB na praça de Lubyanka. Todo o centro de Moscovo (por Kitay Gorod e Sadovoye Koltso) é um sem-fim de opções.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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