O meu nome é Praça Vermelha

MOSCOVO RUSSIA

Há momentos de ignorância na vida de uma pessoa que só uma boa viagem altera. Por exemplo: estava de auricular enfiado no tímpano, a ouvir a nossa guia Elena, mestra russa que fala um espanhol impecável, quando assim fiquei a saber que Vermelha foi sempre a Praça. Sim, está aí pelos guias e wikis desta vida. Mas não tinha dado pelo detalhe: o nome actual data do século… XVII, Krasnaya. E Krasnaya derivará de krasny que “significava bonito mas que veio derivar também na palavra vermelho”.

Chegámos à praça no pico do sol e, além da desilusão de não poder cruzá-la – por causa dos tais arranjos da feira do livro -, é surpreendente a invasão turística. Quer-me parecer que chegámos no dia em que não só o Japão e a China acabaram de invadir a Praça Vermelha como trouxeram amigos turistas do mundo inteiro (até nós).
A Praça Vermelha, para além da sua imponência metafórica e visual, é, já e cada vez mais, rezam as lendas, um parque de diversões cercado de turistas por todos os lados (o delimitador Kremlin, e não só, segue o mesmo rumo, mas já lá vamos). A quantidade de pessoas com pauzinhos a tirar selfies na Krasnaya Ploshchad – ou, em versão Disney internacional, Red Square – é assustadora. Admitamos, quem resiste a pôr os pés aqui e não tirar uma foto (uma que seja)?
Por não se poder caminhar na praça, a massa turística é ainda mais colossal. Como estamos de visita panorâmica, vamos passeando pelos monumentos que a enquadram. De um lado a catedral de São Basílio parece lançar chamas coloridas para os céus com as suas cúpulas em forma de cebolas amarelas, verdes, azuis, multicolores, uma altaneira coroa dourada. No lado oposto frontal, o Museu Histórico do Estado (esse sim, num vermelho-vermelhão).

MOSCOVO RUSSIA

Na lateral, as galerias comerciais GUM, imponente série de galerias comerciais em luxo palaciano arquitectónico dos finais do séc. XIX, depois passadas a mercado soviético e, agora, a luxo palaciano de inícios do séc. XXI com centenas de lojas a cintilarem em branco, luz e dinheiro (todas as Hermès e Vuitton deste mundo estão aqui). Ali ao lado,  a Catedral de Kazan, destruída por Estaline e reconstruída no pós-sovietes.

Moscovo, Mausoléu de Lenine - Foto de Adriano Miranda
Com o tempo contado, escolhemos uma das “atracções”. À frente, no outro lado da praça, a sacrossanta sobriedade do mausoléu de Lenine, um gigantesco túmulo que se abre em negro ao nível do solo numa porta orfeíca encimada apenas pelo nome em russo do líder: Ленин. É difícil fazer esquecer o colorido da praça embora os responsáveis do mausoléu tentem. Como em praticamente todo o lado, para entrar (gratuitamente) é preciso passar por uma segurança suposta e electronicamente apertada e, desde logo, esperar numa longa bicha (que, abençoada, se esvai rapidamente). Convencidos os agentes de segurança, demorámos menos de um quarto de hora a circundar Lenine. A múmia, sob uma religiosa iluminação amarelada sobre o rosto, está no seu túmulo transparente no centro de uma sala a negro. Os visitantes devem contornar o túmulo sem parar. Temos alguns segundos para ver Lenine assim como que beatificado. A saída faz-se para outro espaço memorial, a necrópole da muralha do Kremlin onde se perfilam as homenagens póstumas a Estaline ou a Brejnev, mas também a dezenas de figuras da História do país e da URSS, de Gagarin a Gorki.
Claro que, se lhe acontecer, como a nós noutra ocasião, começar a serpentear pelas ruas em redor da Praça Vermelha e descobrir figuras históricas subitamente à sua frente, não se admire. A nós aconteceu-nos ver, subitamente, Lenine piscar o olho para Estaline. Este puxou do maço de notas e começou a estalar rublos entre os dedos. Ivan o Terrível, porém, há que dizê-lo com toda a frontalidade, é que controlava a cena toda, tenho quase a certeza. Havia algo no seu olhar. Especialmente quando mirava de soslaio para Putin e parecia trespassar-lhe as lentes dos óculos de sol. Ora passava-se isto tudo a dois passos da praça, revés Kremlin. Como pode um turista resistir?

MOSCOVO RUSSIA

 Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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