Moscovo, cidade aberta (para obras)

Não estamos cá por políticas mas de visita por terra, por água e pelo povo. Alguém diz que não é de bom tom fazer perguntas políticas, por isso, para já, falemos politicamente apenas sobre o tempo: está um Verão de rachar!; esqueçam Moscovo gélida, esta é calorosa!; as temperaturas máximas sobem pouco acima dos 20ºC mas a sensação térmica chega aos 30ºC aqui e ali! (Aliás, se tudo correr bem, vamos ter uma semana toda ela quentinha). Isto é que vai ser um cruzeiro!
Exclamações à parte, o nosso navio, o Rublev, está ancorado nos arrabaldes da cidade, numa doca de Severny Rechnoy Vokzal, mais precisamente na Leningradskoe shosse, em Khimki. Mais simples: Porto Norte do canal de Moscovo, como quem vai pela estrada de Leninegrado. Nem de propósito, que a lógica russa continua funcional: é daqui que vamos navegar 1800km de Moscovo à antiga Leninegrado. São Petersburgo aguarda-nos na próxima semana mas até lá temos um plano de animação a bordo e de atracções em terra que só visto.
O nosso navio, de seu nome completo Andrei Rublev (homenageia o pintor pater daquelas imagens religiosas da inconografia ortodoxa russa), pertence a um gigante histórico da navegação russa, a Mosturflot, que também já comercializa em Portugal estas viagens que se querem relaxantes e só para gente anti-stress (deslizar a meio quilómetro por hora num rio não é para todos, há que ter coragem).
É, por isso, que cedo de manhã – lembram-se decerto de como à chegada fomos salvos por Jesus e caímos na cama já de dia -, sem pregar olho (sublinhar psicologicamente), entramos no autocarro que nos vai dar uma prometida “excursión panorámica por la ciudad de Moscú” – não se admire, isto vai continuar tudo em espanhol, porque o nosso grupo de turistas é uma união ibérica, a coroa está com Madrid e a língua oficial é o castelhano.
1160_blogue - obras
É assim que levamos a primeira impressão de Moscovo, entre um bafo quente e um bafo de… obras. Obras. Obras. E, um pouco mais além… Sim. A capital russa é a capital das obras. A nossa guia, Elena, vai apontando para a esquerda, onde se parte e reparte o estádio do Dínamo de Moscovo, para estradas e avenidas, para passeios a serem repavimentados, para o centro histórico, para a frente do Teatro Bolshoi e para as portas da Praça Vermelha. Para onde quer que olhemos: obras. Obras. Obras. Haverá muitas razões políticas mas como está muito calor lembremos, desde já, uma tão redonda que é evidente: daqui a dois anos, o Mundial de Futebol é na Rússia (por acaso, o estádio do Dínamo até ficou fora da lista de campos oficiais do evento).
O programa da nossa viagem dá, na prática, dia e meio para passear em Moscovo. Um tempo algo aflitivo para uma megalópole com tanto para ver. Mas, ei, a verdadeira viagem é pelo rio, mais logo. Portanto, teremos que consciencializar-nos: vamos ter uma sucessão de visitas panorâmicas à cidade, o que já dará, pelo menos, para senti-la.
O passeio começa, assim, por uma visita guiada pelo incrível trânsito de uma cidade que, garante-nos Elena, “não pára, é 24h por dia, há muita coisa que funciona dia e noite sem parar”. Durante uma hora e meia vamo-nos adentrando em Moscovo, enfileirados em engarrafamentos causados especialmente pelas obras, o que, nota-se claramente, janela de carro a janela de carro, não alegra os moscovitas.
Elena vai contando História e histórias para ocupar o tempo aos turistas. Enquanto os mongóis invadem Moscovo, nós atascamo-nos num engarrafamento memorável. Pelo caminho, um desfile de grandes carros de grandes marcas, decerto frustrados porque não podem dar o ar da sua aceleradela e se vêem condenados à velocidade do nosso minibus. Num mundo cirílico, que para mim é grego, vou apontando referências internacionais para melhor nos situarmos: McDonalds, Coca-Cola, Café Beverly Hills, Glenfields, Braciiolini, Meat Stop, Massimo Dutti et al. Isto já não é novidade para ninguém, certo?
Por fim, atingimos a nossa meca desta manhã: Praça Vermelha. Surpresa! Está ladeada de obras! Melhor ainda, também está, ela própria, em obras – se bem que, no caso, aparentemente temporárias: está a ser instalada a feira do livro, stand a stand, palco a palco, estando toda (toda…) a praça ocupada pela estrutura e gradeamento da obra da feira. Acredite, não é coisa de postal ilustrado. Por outro lado, acredite, é quase mais bonito: é coisa da realidade.
Mesmo sem pregar olho, arregalo os olhos para esta praça do mundo, epicentro de tanto e de tudo. Enquanto lanço um olhar para catedral e igrejas, outro para museu e galerias comerciais, um catrapiscar solar para o mausoléu de Lenine e outro olhar de soslaio para o Kremlin, vou circundando as grades da emergente feira do livro. “Os moscovitas adoram fazer tudo na Praça Vermelha”, vai-nos dizendo Elena. “Tudo tem de acontecer aqui.”
Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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