Aterrar em Moscovo nos braços de Jesus

Sheremetievo

Moscovo, madrugada de 1 de Junho. Voo da KLM, vindo de Amesterdão, aterra na perfeição no maior aeroporto da capital russa. O relógio regista precisamente 1h35. Processamento rápido. Poucos minutos depois, Luís e Adriano, texto e fotos (excepto a de cima), cruzam sem problemas as portas da segurança.

“Portugal? Portugueses? Lisboa-Amesterdão-Moscovo?”, pergunta-nos um grande agente de segurança com um semblante que nos transporta para velhos filmes.

“Sim, sim, sim”.

Passagem garantida.

Cá fora, somos recebidos por dois braços que acalentam uma placa – uma daquelas que dá gosto ver quase às duas da manhã quando se cai de pára-quedas numa cidade absolutamente desconhecida e previamente carregada de estereótipos assustadores. “Sr. Luís Santos”, leio sob um sorriso. É o sorriso de Jesus.

No caso, um Jesus com um sotaque cubano que dá logo um calorzinho e traça na noite um arco histórico entre continentes, oceanos, décadas, políticas, vidas, enfim, acredito que pensem, como eu, que nem vale a pena prosseguir com redundâncias.

Portanto, Cuba recebe-nos na Rússia e leva-nos pela noite fora, pela estrada fora, para um absoluto desconhecido. Jesus é o nosso guia. Este de seu nome completo Jesús Piñera Caso. Ao seu lado, ao volante, um par de mãos russas. Alexey é silencioso e eficiente. Jesus habla todo o caminho para nos relaxar e informar. Vão levar-nos, a uma hora destas, para o nosso destino, um navio de cruzeiro num dos ancoradouros num dos portos de Moscovo. Tirando o facto de não saberem qual ancoradouro nem qual porto, tudo corre bem.

Até porque Jesus enche a noite e salva-nos do sono e do cansaço. Não demora um farelo a passar do resumo geográfico de Moscovo à História dos últimos 100 anos. São duas e pouco da manhã e 12 horas de viagem no corpo, metade delas a voar, metade em aeroportos, e uma voz cubana situa o nosso carro no exacto sítio onde as tropas soviéticas aniquilaram e fizeram retroceder as tropas nazis na batalha de Moscovo. Os nossos ossos – moídos, ainda assim – conseguem sentir um pozinho de rejubilação, de quase orgulho, de quase soerguer dos olhos semicerrados para os lugares invisíveis entre estradas para onde Jesus aponta.

Saímos da auto-estrada por onde correm carros como se fosse de dia e entramos numa estrada secundária. Bosque e árvores de segurança. Falsa entrada. Um agente informa que não, não estará por ali o nosso barco. Batalha perdida. Retrocedemos, voltamos a enfileirar forças, nova entrada, grades, agente, batalha vencida, o nosso barco está ali escondido.

Entre o sono e a vontade quase tenho pena de deixar Jesus, até porque só veio dar uma ajuda a vir buscar-nos, não o voltaremos a ver, é apenas um agent provocateur. Desconfio que este cubano tem muito para contar mas a noite e o cansaço interpõe-se.

Eu pergunto, para começar, defeito profissional:

Jesus, vive há muito em Moscovo?

Ele responde, às 2h30:

Vais à net, pões Jesus Piñera Caso e está lá tudo sobre mim.

Eu não pergunto mais nada. Fui agora à net, escrevi Jesus Piñera Caso. Posso garantir-lhes que estou muito arrependido de não ter perguntado mais nada a este hidrogeólogo nascido em Havana em 1950, cubano e espanhol, asturiano, que já foi professor universitário ou “limpiador nocturno de la cocina en un restaurante ruso“. Acontece-nos a todos numa viagem ou noutra, não é? A pessoa certa, o momento errado, o tempo a correr, no caso a noite a matar-nos. Ou a manhã.

“Vamos que está a amanhecer”, diz Jesus.

Amanhecer? Às duas e picos? Sim, tinhas esquecido as noites, no caso de Moscovo, mais ou menos brancas? O céu negro é já furado por clarezas. Depois de mais uma hora e tal perdida à espera de cama (houve por aqui umas confusões de quartos, transfers, até um casal que teve que safar-se por sua conta e risco vindo de taxi – isto é uma aventura), finalmente caio na cama.

São quatro da manhã. Abro ligeiramente a cortina. Lá fora é de dia. Noite em branco, Jesus.

Luís J. Santos (texto) e Adriano Miranda (fotos) viajam a convite da Agência Abreu

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