A “doença” de Manuel Serpa e o milagre do Pico

Vinha no Pico - Foto de Manuel RobertoManuel Goulart Serpa, 76 anos, recebe-nos na sua casa de São Mateus. Entramos para a sala repleta de bibelôs, molduras com retratos, naperons pousados nas mesas e nos sofás. Não começamos exactamente por uma pergunta. “Ouvimos dizer que é das pessoas que mais sabe do Pico, que é um apaixonado pela ilha.” Manuel Serpa põe logo os pontos nos ii. “Sou doente pelo Pico, é mais isso.”

Manuel Serpa - Foto de Manuel RobertoPico - Foto de Manuel RobertoManuel Goulart Serpa foi-nos apresentado como um dos principais responsáveis pela classificação da Paisagem da Cultura da Vinha do Pico, que obteve o selo da UNESCO em 2004 –  ao todo, são 987 hectares de área classificada. “O que está a acontecer neste momento no Pico é a recuperação de um passado que foi fabuloso”, contextualiza este ex-padre, ex-professor, ex-deputado regional que agora se identifica apenas “como picaroto”. As vinhas do Pico foram introduzidas ainda no século XV, não muito depois de chegarem à ilha os seus primeiros habitantes. “Os frades acompanharam o povoamento e trouxeram com eles os bacelos. Experimentaram-nos na pedra e conseguiram que medrassem. É este o milagre do Pico.”

À medida que se plantavam as vinhas, erguiam-se os muros de pedra negra que as delimitavam e que hoje dominam a paisagem de parte da ilha. “Esta é a maior urdidura de pedra que o homem alguma vez fez”, garante Manuel Serpa. Os currais, assim se chamam estes muros, protegiam a vinha do rocio do mar e a pedra “suportava o calor”, o que era fundamental na graduação do vinho. Com o passar dos séculos, os vinhos entraram numa fase de prosperidade,  sendo grande parte da produção dedicada à exportação. Chegaram inclusive à mesa dos czares. Até que, em meados do século XIX, a filoxera e o oídio destruíram praticamente tudo. “Ficou apenas uma bolsa de resistência, na Criação Velha, de vinho morangueiro, ou de cheiro, que, apesar de não ter muita qualidade, foi alimentando esta  economia”, explica Manuel Serpa, autor do livro “Da pedra se fez vinho”.

Pico - Foto de Manuel RobertoAté que, pelos anos 1960/70, “houve quem começasse a olhar para a paisagem e a avaliar a qualidade que o Verdelho ainda mantinha”. Entrou-se, então, numa fase de “preocupação de recuperar o que no passado tinha sido uma glória”. A replantação das castas Arinto, Verdelho e Terrantez é agora subsidiada e a recuperação dos antigos currais é um trabalho que parece interminável.

Manuel Serpa sugere-nos que o acompanhemos num curto passeio à ilha, para vermos no terreno do que estamos a falar. “Estão a ver estas manchas de vegetação? Aqui por baixo são currais. Já limpámos muito, mas estão a imaginar o que ainda falta, não?”. Estamos na Ginjeira, São Mateus. Olhamos em redor e o que vemos é de facto impressionante. Os currais, “antiquíssimos e centenários”, descem até ao mar, para cima a vista alcança um mar de verde onde se escondem outros. É como se esta ilha estivesse a ser escavada arqueologicamente para lhe descobrirem mais e mais tesouros.

Pico. rilheiras - Foto de Manuel RobertoJá esta manhã tínhamos tido uma introdução à Paisagem da Cultura da Vinha no Centro de Interpretação do Lajido, ponto de passagem obrigatório para quem quer saber mais sobre o vinho da ilha. Jessica Mendes fez-nos a visita guiada pelo alambique, mostrou-nos os rola-pipas, as rilheiras que ficaram marcadas para sempre na pedra vulcânica graças à passagem dos carros de bois que transportavam o vinho. A visita é muito interessante, mas ouvir Manuel Serpa falar da sua “doença” é impagável. Sente-se-lhe a paixão pela ilha na voz, em cada palavra. E é difícil resistir à tentação de citar todas as suas frases, bem como escolher uma para terminar este texto, que já vai longo.

Depois de vasculharmos o bloco de notas, elegemos esta, que combina com a ilha e com o autor. “O Pico é uma ilha de lutadores e esta é uma luta que nunca acaba.” Palavra de picaroto convicto. Pico. vista do mar do Cachorro - Foto de Manuel Roberto

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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