O Pico foi só nosso e isso ninguém nos tira

MRDSCF2422MRDSF0580MRDSF0536MRDSF0689Tínhamos ficado nas pernas, se bem se lembram. Descemos à Fajã de Santo Cristo e já adivinhávamos o que se seguiria. Sem surpresas, portanto, na última manhã em São Jorge acordámos como se um comboio nos tivesse passado por cima. Podíamos prever o pior, mas fizemos o que se faz nos Açores ao sair da cama e a disposição mudou de imediato: corremos para a janela, ainda nem eram 7h, e tivemos a nossa primeira imagem do Pico. E uma imagem como esta não se esquece: nevado no topo, um céu rosado de nascer do sol, uma pequena nuvem apenas a ajudar a compor a moldura.

A partir daqui, o dia só podia melhorar. Apanhámos o barco no cais das Velas e deixámos  São Jorge para trás. Para a frente é o caminho e a ilha do Pico também. Dizem-nos que o mar está de feição,  mas não temos grande alma de marinheiro e tememos ceder aos solavancos. Mesmo que tenhamos vontade de procurar resguardo na cabina interior, subimos ao deck 2, que nos garante uma travessia de ar livre, com vento forte na cara para afastar enjoos.

A travessia até à Madalena, a bordo do “Gilberto Mariano”, há-de demorar 1h20. Tempo suficiente para vermos golfinhos – ninguém lhes resiste e, mesmo com as pernas em estado calamitoso, arrastamo-nos para os ver; uma americana que aqui também viaja garante que já viu baleias nesta viagem. Não tivemos essa sorte, contentamo-nos com o que temos, e o que temos não é pouco. A imponente montanha do Pico, 2351 metros a dar corpo ao ponto mais alto de Portugal, deixa-se ver sem pudores e arranja-se para caber em todas as panorâmicas,  em todas as selfies, em todos os vídeos.MRDSCF2143 MRDSF0757

Passam poucos minutos das 11h30 e a vila da Madalena veste-se de sol à nossa chegada. Do Porto ao Cella Bar, na Barca, são uns três minutos de carro. Quando chegamos, percebemos que as fotos às vezes mentem. À  força de tanta imagem magnífica que já vimos deste lugar, até estávamos preparados para menos. Mas o enquadramento natural do Cella Bar, que recebeu um prémio de arquitectura atribuído pelo Arch Daily, é mais perfeito do que imagináramos. O mar tem um daqueles azuis impossíveis, turquesa aqui, petróleo ali, e contrasta com o negro das pedras que se espalham sem regra. Temos o Faial à frente dos olhos e a dança das gaivotas faz o resto. Vamos almoçar por aqui, e a comida também não é de somenos, mas contamos tudo depois.

Agora, pés ao caminho de novo. Espera-nos uma viagem aos mistérios da Terra, que nas Grutas das Torres se fazem de lava. Não sabíamos exactamente  ao que vínhamos, e quando percebemos por onde vamos andar voltamos a achar que não saímos daqui vivos. Vamos entrar no “maior tubo lávico conhecido em Portugal”, lê-se nos painéis Informativos, e isso quer dizer descer umas quantas escadas (ai as pernas!) e pisar solo para lá de irregular. MRDSCF2265Temos capacete na cabeça e uma lanterna cada um e lá vamos seguindo as instruções de Luís, um entusiástico guia que fala de vulcões com uma paixão mais costumeira nas lides futebolísticas. Explica que o vulcão que deu origem a este tubo se chama Cabeço Bravo, revela as diferenças entre os tipos de lava (de biscoitos, de lajido e encordoada) e conta que as únicas formas de vida que aqui vamos encontrar “são musgos e bactérias”. Uma turista indiana tira-nos as palavras da boca: “Há morcegos?”. Não. Respiremos de alívio.

Ao fim de 50 minutos, temos realmente ordem para respirar. Luís pede-nos para desligarmos as lanternas e aqui ficamos, de olhos abertos no breu, a sentir “a força da natureza”. É uma experiência interessante, mas, para nós, a força da natureza sente-se mais à superfície, quando voltamos a ver o Pico à luz de final da tarde. A caminho da Casa da Montanha, base para quem se lança à subida do ponto mais alto do país, temos uma visão comovente. O senhor António pára o carro mesmo no meio da estrada, uma risca de asfalto que corta campos verdejantes, e aqui está ele, como se fosse só nosso. Tem o mesmo chapéu de neve branco, nuvens nas encostas, o sol a incidir-lhe de lado. Sentimo-nos sozinhos aqui, nós e a montanha, tendo apenas as vacas como testemunhas de um instante que merece lágrimas.

Por momentos, o Pico foi só nosso e isso já ninguém nos tira.

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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