Do Topo aos Rosais, a coleccionar paisagens

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoAo cair do dia, na esplanada do Açor, com vista para a Igreja Matriz das Velas, consagrada a São Jorge – o padroeiro da ilha, com direito a festa rija daqui a dias, a 23 de Abril – , abrimos o bloco de notas e começamos a contar. Um, dois, três miradouros, quatro, cinco, seis fajãs, e se mais tempo houvesse mais postais haveria. Vamos a isso?

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoIlha de São Jorge - Manuel RobertoIlha de São Jorge - Manuel RobertoManadas, Fajã dos Cubres, miradouro das Pedras Brancas, mais o Topo e o respectivo ilhéu, para onde, juram a pés juntos Elisabete Alves, a nossa guia em São Jorge, e o senhor Ramiro, que nos transporta num carro azul para dentro dos segredos desta ilha verde, levam vacas “a nado”, a reboque de um barco. Custa-nos a acreditar, mas lá ao fundo, na ilhota rodeada de rochas negras, há de facto animais a pastar. Em São Jorge, um pouco como por todo o arquipélago dos Açores, qualquer centímetro quadrado de pasto é aproveitado para alimentar o gado bovino.

Continuemos para bingo: ali em baixo está a Fajã do Ouvidor, onde há bem pouco tempo foi gravada uma cena da novela Coração d’Ouro, transmitida pela SIC. E até ao Parque Florestal das Sete Fontes é mais um esticãozinho, mas antes ainda paramos no Pico da Velha. E finalmente estamos na Ponta dos Rosais, e com tudo isto já se acabou a ilha, 56 quilómetros de comprimento e oito de largura. O farol semi-abandonado empresta ao lugar uma atmosfera fantasmagórica: em 1980 um violento sismo matou 17 jorgenses, semeou a destruição e levou à desactivação de quase tudo o que aqui havia. Os faroleiros abandonaram a Ponta dos Rosais e o farol, esse, passou a funcionar à conta de painéis solares, explica Elisabete Alves.

Ignoramos os sinais de perigo que nos aconselham a não avançar e vamos, de novo, espreitar a paisagem. O Pico para um lado, o Faial para o outro, e o senhor Ramiro ainda nos aponta a direcção do Corvo e das Flores, essas ilhas que “já estão mais perto dos Estados Unidos do que de outra coisa”.
Já voltámos a perder-lhes a conta, mas hoje a nossa vida em São Jorge foi uma maratona de vistas. Guardamos a melhor para o fim, mas ainda assim não vamos contar tudo, porque nesta nossa volta às ilhas não jogamos todas as cartas de uma vez. Chegámos à serra do Topo às 10h30 e pusemos pés ao caminho. De uma altitude de 700 metros, fomos descendo, bem devagar, até ao nível do mar, serpenteando por dentro de uma paisagem de assombro, verde mais verde não deve haver. Urze, cedros, incenseiros, louro, um melro-preto aqui, um canário da terra acolá, vento gelado cá em cima, um sol esplendoroso mais daqui a pouco.

Ilha de São Jorge - Manuel RobertoUma cancela de madeira, outra mais à frente, é preciso fechá-las por causa das vacas – e agora percebemos a piada que nos contara o senhor Ramiro, que em São Jorge as vacas têm patas mais curtas que as outras, para se empoleirarem na encosta. A caminhada custa, é preciso estar constantemente a travar, e as chuvas dos últimos dias deixaram o trilho escorregadio. Ainda assim, prosseguimos de alma cheia. E quando, às 13h, já depois de termos passado por uma cascata incrível, chegamos à Fajã de Santo Cristo e vemos o mar a rebentar contra as pedras negras, temos um momento de redenção.

As pernas tremem-nos, e sabemos que amanhã ainda vai ser pior, mas o que é que isso importa agora? E o que importa saber que caminhámos quatro quilómetros para aqui chegar e que há outros quatro para sair daqui, não pelo mesmo caminho, mas até à Fajã dos Cubres? Não há cá carros, a única forma de entrar na fajã é a pé ou então de moto quatro, pelos Cubres. Não pensamos nisso por agora, basta-nos este quadro em que a natureza explode à nossa frente – e ainda nem sequer falámos das casinhas de pedra, dos muros a delimitar pastos, do silêncio que por aqui se sente, da lagoa onde se apanha uma espécie única de amêijoas. Até o vento que uiva de novo e nos gela até aos ossos combina com este cenário.

Na semana passada, assombrado com o que via no Caldeirão e no Corvo, o Luís J. Santos perguntava se se pode amar uma ilha. E uma fajã?

Ilha de São Jorge - Manuel Roberto

Sandra Silva Costa (texto) e Manuel Roberto (fotografia) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

______________________________________________________________________

Fugimos para as ilhas e andamos por aqui a contar tudo. Siga os viajantes da Fugas pelos Açores e pela Madeira. Também no Instagram @fugaspublico
Esta entrada foi publicada em Açores, Portugal com os tópicos . Guarde o href="http://blogues.publico.pt/emviagem/2016/04/14/do-topo-aos-rosais-a-coleccionar-paisagens/" title="Endereço para Do Topo aos Rosais, a coleccionar paisagens" rel="bookmark">endereço permamente.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>