Depois das brumas, as lagoas

fogoForam quase quatro dias a invadir as entranhas e as beiras de São Miguel. Todos os dias de manhã, a pergunta para o senhor Fernando, o nosso motorista (nosso e de príncipes, mas isso é outra história). Ele, que todos os dias chega de Ginetes, já sabe que ela vem e pelo rosto já lhe percebemos a resposta: está “fechada” a Lagoa do Fogo, está “fechada” a Lagoa das Sete Cidades. Ou seja, estão cobertas de nevoeiro, as brumas açorianas que todos os dias vemos – no topo das montanhas e deslocando-se perante nós em tantos miradouros. Pelo sim, pelo não Sandra Soares, a nossa guia, consulta a SpotAzores (que tem também uma aplicação móvel que permite acesso a câmaras espalhadas por vários locais estratégicos de são Miguel) e todos os dias a confirmação – excepto uma vez, em que a Lagoa do Fogo tem a câmara inactiva: escuridão total. Assim, logo pela manhã delineávamos novos planos, sempre preparados para os alterar caso se abrisse uma clareira lá nos topos. Um dia chegamos a arriscar a Lagoa do Fogo: o nevoeiro chegou a deixar ver alguns tornos, vagos e misteriosos, por breves momentos; da água, nem vislumbre.

covoadaÉ assim que chegamos ao último dia. Manhã bem cedo e sem outra opção: vamos ou vamos, já sabíamos. Mas as notícias do senhor Fernando são boas e pomo-nos ao caminho com outro ânimo. A Lagoa do Fogo, a mais elusiva, diz Sandra, é o nosso primeiro destino. Chegamos a duvidar, nós de pouca fé, uma vez que subindo, em curvas e mais curvas, o nevoeiro ia fazendo as suas aparições. Somos os primeiros a chegar ao miradouro e o nevoeiro lá está, mas não cerrado. O manto leitoso dos outros dias deixa-se entranhar pelo sol e o cenário é glorioso, com uma luz quase etérea. Como as neblinas se movem rapidamente diante de nós sabemos que a qualquer momento a aparição pode deixar de o ser. O Paulo busca ângulos e ainda pensa seguir o casal de caminhantes que desce a colina – o destino será a praia, numa espécie de península. Parece longe, mas, dizem-nos, é meia-hora para lá e 50 minutos para cá (a subir nem todos os santos ajudam). Entretanto, chegam outros carros e quando o autocarro cheio de turistas estaciona já novamente a lagoa se escondeu quase por completo e não adianta saltar o muro de protecção e empoleirar-se pela colina para melhor espreitar. É hora de partir: a tranquilidade mágica que nos faz flutuar sobre a paisagem quebra-se, e esta, então, desaparece.

picodocarvaoSeguimos então para noroeste, para aquele canto do mapa onde a Lagoa das Sete Cidades está instalada rodeada de montanhas e de lendas. Com paragem por miradouros e mais lagoas. Um dos miradouros mais espectaculares é o da Grota do Diabo, com vista para três lagoas: Rasa, Santiago e Azul. A nossa primeira tentativa é frustrada pelo nevoeiro, pois claro. Vêmo-lo “correr” à nossa frente e nem chegamos ao cimo. Havemos de voltar, horas mais tarde, para completar a jornada: os vales profundos do caminho, gargantas verdejantes onde se faz parapente no Verão, acompanham-nos até ao final do caminho, uma “crista” na montanha e a vista panorâmica que nos tira o fôlego e, confessamos, nos comove. É impossível abraçar tanta beleza – que já foi convulsa e agora é idílica. Antes, a paragem no miradouro das Sete Cidades, as ruínas do Hotel Monte Palace como sentinela fantasmagórica e mais uma plataforma para fotógrafos. Aqui, o movimento é incessante e não faltam as carrinhas-banca de souvenirs. Daqui, a vista é a “tradicional” e o nevoeiro dá tréguas – só o sol mantém a timidez. E por isso, o verde e o azul das duas lagoas que aqui se encontram nem sempre se distinguem com a vivacidade dos postais. Temos lampejos dessa união feliz – e somos felizes também.

Não é sempre fácil, nós sentimo-lo na pele, ter acesso às maravilhas de S. Miguel. Os caprichos climáticos trocam-nos as voltas e temos de estar preparados para eles. É preciso paciência porque por detrás do nevoeiro estão sempre as recompensas. E essas são viagens de uma vida.setecidades

Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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