O queijo da Paula, 17 anos

PP - 06 ABRIL 2016 - AÇORES -VALE SECO PAULA A PRODUZIR QUEIJO

Entre as fumarolas das Furnas, o mais visível e impressionante exemplo do vulcanismo residual neste que é um dos três vulcões activos dos Açores, entre o cheiro a enxofre que inunda a atmosfera, há pequenas fontes termais, com bica, cada qual com as suas características particulares. A uma delas, a de água azeda, Paula Rego, foi buscar o ingrediente especial para o seu queijo. “Fiz testes com algumas águas”, explica, “duas” [busca confirmação no pai, Carlos Rego], e esta foi a que deu melhores resultados”. Fala com alguma timidez, o que não é de todo surpreendente: Paula, ou Cristina, como lhe chama o pai, tem 17 anos, frequenta o 10.º ano da Escola Básica e Secundária da Povoação, a sede do município.

Em Novembro de 2014 – parece-lhe já há muito tempo – teve, com o pai, a ideia de dar uma mais-valia ao seu produto. A família é criadora de gado: tem cem vitelas (“as geishas”) e quase o mesmo número de vacas leiteiras. E foi o problema das quotas leiteiras que pôs Carlos Rego a pensar no futuro e Paula a pensar no queijo. “Não tínhamos experiência nenhuma”, recorda Paula, “começámos do zero: como pasteurizar o leite, encher…” Tiveram a ajuda de um engenheiro amigo e de outras pessoas. “Aqui nunca se sabe tudo. Um sabe isto, outro aquilo.” Paula ouviu daqui, aprendeu dali e desenvolveu o seu queijo – ou melhor, queijos.

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Encontramos pai e filha na fábrica que ainda está em fase de conclusão (“acho que no final da próxima semana está pronta, já estamos a montar a câmara de cura”), no centro das Furnas, ao final da tarde. Paula vem directamente da escola, mas rapidamente fazemos os poucos quilómetros que separam a povoação da exploração da família, em plena Lagoa Seca. “Na última erupção, em 1630, a lagoa [das Furnas] mudou para onde está agora. Mas a água que cai aqui não sai, já chegámos a ter 10 hectares de terra submersa”, explica Carlos Rego. Estamos, portanto, rodeados de vales verdes, pastagens em baixo, criptomérias mais acima e somos recebido pelo Rex, o labrador da família, patos, gansos e muitos gatos.

É numa cozinha de apoio à exploração que se fez o “laboratório” onde Paula experimentou, experimentou até chegar à receita final – “agora é só aprofundar”. No frigorífico de cura estão exemplares dos produtos: o queijo original tem a companhia do queijo de orégão, tomilho e alho, vêm todos em três tamanhos (250 gramas, 500 gramas e um quilo) e três estádios de cura (o amanteigado, o de meia cura e o curado). O curado será a aposta menor, explica Carlos. “Se o de meia cura não se vender todo, prolongamos a cura e temos o curado.” Nos sabores, o de orégão é muito apreciado, os de tomilho e de alho registam opiniões radicais. “Já estávamos à espera.”

Apesar de ainda não estarem a ser vendidos, já foram apresentados oficialmente na Exposição de Camélias das Furnas e alguns até já viajaram para outros países, na mala de turistas “que têm restaurantes, bares”. Por aqui, já há restaurantes e hotéis que querem incluir na sua oferta este Queijo Furnense, que vai ter ponto de venda nas caldeiras, “toda a gente passa por lá”.

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E o que se segue? Paula Rego sabe que no final do secundário vai fazer formações, “curtas, intensivas” (até porque não consegue estar muito tempo afastada deste seu mundo), na França, Suíça, Holanda, tudo países onde a produção de queijo está muito desenvolvida. Por enquanto, vai lançar-se na produção a sério, vai continuar a ir à escola e a fazer a ordenha depois – ao fim-de-semana também de manhã, às 5h. “Já o faço desde pequena, desde os seis anos.” Nessa altura, apenas ao fim-de-semana, a partir do 6.º ano, diariamente. Ela e o irmão, Paulo, dois anos mais velho que agora ganha responsabilidades extra com o gado – anda por aqui, sem parar e em pouco há-de começar a ordenha.

“Tive problemas com os professores”, conta Carlos, “que consideravam exploração infantil. Mas eles sempre quiseram vir. Ainda hoje o maior castigo que lhes posso dar é dizer que não podem ir às vacas”. Lembra que, quando Paula tinha 10 anos e o irmão 12, esteve internado no hospital e foram eles que controlaram tudo na exploração. “A mãe trazia-os e eles tratavam de tudo.” Isso, “andar nas vacas”, continua, não impediu o filho de estar no Parlamento dos Jovens pela sua escola, “agora vai à próxima fase”, e de Paula estar a criar um negócio. Já as duas filhas mais novas, de 10 e 12 anos, não querem nada com as vacas, diz, por isso não vêm – a de 12, porém, já mostra o mesmo espírito empreendedor dos irmãos e criou um sabonete de camélias e argila no âmbito de um programa de empreendedorismo jovem na escola.

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Os mais velhos, apesar de as coisas terem mudado, “agora já fazem noitadas”, sabem que “podem não ter hora para chegar mas têm para sair, às 5h”, diz o pai, rindo-se. “Nunca falham.” Paula confirma. E não quer outra coisa. “Faço isto desde pequena, já estou habituada, não mexe muito comigo. E agora, com o queijo, ainda estou mais feliz, fui eu que o criei.” O pai, que já investiu cem mil euros no projecto – “não pedimos subsídios se não só em 2018 teríamos queijo”, ironiza – não tem dúvidas que “isto é para o futuro”. “É cada vez mais difícil arranjar emprego… Já parece anedota, excesso de currículo para ter emprego.”

Aqui, já tem tudo planeado: o Paulo trata das vacas, a Paula ficará mais com o queijo – tudo em família: o leite vai directamente para a fábrica. E sobrará muito: produzem-se 2700 litros por dia, Paula vai trabalhar 500 litros por dia. Mas vai ficar por aqui. “Quero agarrar a oportunidade para fazer mais”. Os planos já estão delineados. Abrir uma confeitaria ao lado da fábrica para servir o próprio iogurte e gelados – mas isso também só depois de terminar o secundário, vai ser o seu projecto final, a Prova de Aptidão Profissional. Na escola, os colegas já lhe pedem emprego, revela, entre risos. “Têm muito orgulho em mim.”

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Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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