Um “açucareiro” no meio da estrada e Camões num forte

Há muitos marienses que assumem que a sua ilha, Santa Maria, não é a mais bonita do arquipélago dos Açores, mas poucos não defenderão as suas belezas até ao fim do mundo, se preciso for. A primeira ilha do arquipélago a ser descoberta tem algo de esquizofrenia.

Do avião vemos uma paisagem plana, seca, com clareiras em branco e o que parecem ser buracos (são-no, na realidade: poços escavados pelo homem sem necessidade de cimento ou qualquer outro tipo de vedante, dada a natureza argilosa do solo). Isto porque nos aproximamos vindos de oeste e o aeroporto fica deste lado da ilha. Porque do outro lado há montanhas, vales, ribeiros e verde que são verdes vários. É, explica Nelson Moura, vigilante da natureza, porque o lado ocidental é o mais antigo da ilha – idade vetusta de mais ou menos sete milhões de anos (por comparação, o Pico, por exemplo, tem 200 mil).

PP - 05 ABRIL 2016 - SANTA MARIA - ZONA DOS AMERICANOS

Há bem menos anos, um micro-segundo nesta história, os EUA estabeleceram uma base militar em Santa Maria – a II Guerra Mundial aproximava-se do fim – e saímos do aeroporto para uma minicidade quase fantasma (que inclui a que foi a maior sala do cinema do arquipélago), herança desses tempos. O estado de degradação é avançado, grande parte está abandonada, à espera de futuro depois de ter passado por várias mãos até ter chegado ao Governo Regional dos Açores.

Nesses tempos de militarização do aeroporto – base área – o “açucareiro” era uma espécie de posto fronteiriço, a “porta de armas” mesmo quando a base deixou de ser militar: um edifício que apresenta semelhanças com o topo de uma torre de controlo aéreo, branco e envidraçado a toda a volta, marcava a entrada em território português – entrar e sair exigia a apresentação de passaportes, mesmo por parte de funcionários marienses. Agora é mesmo apenas um “açucareiro”, como ficou popularmente conhecido, a fazer de rotunda entre o aeroporto e a Vila do Porto, a principal localidade de Santa Maria.

PP - 05 ABRIL 2016 - SANTA MARIA - ZONA DOS AMERICANOS AQUI ERA A FRONTEIRA POSTO DE CONTROL

Não há mistério no nome da vila, o terceiro assentamento populacional da ilha: tem porto e agora também uma marina. Do Forte de São Brás temos uma vista privilegiada sobre a zona. É aqui, em terraço rodeado de canhões, que a vila se precipita sobre o mar, encavalitada que está numa “lomba”, que tem contornos de falésia flanqueada por dois ribeiros no fundo de vales empinados – mas sempre delineados de muros de basalto.

Foi esta situação estratégica que levou à fundação da vila, porque a ilha foi desde cedo presa de piratas – há, aliás, uma “Rota de Corsários” em Santa Maria. Mas aqui no Forte de São Brás a memória que se guarda não é a de ataques: é a daqueles “que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Camões citado na base do monumento que homenageia os descobridores e povoadores dos Açores.

Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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