José e Inês, barretas e fechaduras. E um casamento de meio século

É, admito desde já, um casal irresistível. E verá como é quase impossível não concordar comigo. Venha daí ao Artesanato do Corvo, uma loja que é praticamente mais uma sala de visitas do casal Inês, anexa à casa onde vivem ali numa subida da vila da ilha. A dona Inês (sim, Inês Inês de seu nome) e o senhor José (Mendonça de Inês) já passaram os 80 há uns tempinhos e os tempos fazem-lhes fraquejar as pernas a ambos. Mas continuam fortes como sempre, nas mãos e nas vontades, as suas artes: este casal, com casamento de quase meio século, assina dois ex-líbris do Corvo. Ela as boinas (ou barretas, como diz), ele umas fechaduras de madeira tão simples quanto complexas.

Dona Ines Ines , artesa que faz os barretes tipicos da Ilha do Corvo , Acores . Corvo , 05 de Abril de 2016 . ©Enric Vives-Rubio

É de muletas mas com um sorriso rasgado que a dona Inês nos recebe. É autora-mor das mais célebres boinas do Corvo, muito graças ao documentário É na Terra, não é na Lua de Gonçalo Tocha, obra que regista a vida da ilha e tem corrido festivais por todo o mundo. Uma das mais marcantes sequências tem a dona Inês como foco: vai tecendo o fio da história enquanto cria uma barreta para o realizador (adivinhem quem já tem uma barreta parecida…). Apesar da “fama”, mantém a humildade e conta-nos a sua história sentada ao lado das estantes que mostram várias das suas criações artesanais – suas e da filha, Rosa, que lhe herdou o jeito e, depois do emprego, faz e ajuda a fazer boinas reais e em tamanho souvenir, além de outras peças.

“Eu não tenho categoria para falar, a minha escola é da vida”, diz-nos dona Inês, que começou a fazer a barreta do Corvo antes dos 20 anos porque o avô usava-a e “não queria outras barretas”. E só as de pala (“há outras com um feitio redondo”). Fez para o avô, depois mudou de vida, esteve muito tempo sem fazer até que o Turismo lhe pediu para representar o artesanato do Corvo, aí por 1986. Voltou a interessar-se e um dia até lhe apareceu um jovem realizador que decidiu filmá-la.

Um sorriso ainda maior brilha no rosto da dona Inês. “Pediu-me se podia fazer uma boina do princípio ao fim do filme. Foi fazer muita propaganda com o filme, tem ganho vários prémios e o filme é sobre o Corvo. Tem sido do estrangeiro e de Portugal, de toda a parte a pedirem-me boinas, tem sido incansável!”, diz-nos dona Inês, contando até que no Verão passado tinham lista de espera. Mas gosta de as fazer. “Tenho os ossos muito fraquinhos e tenho que ficar em casa, sempre me vou distraindo fazendo aquilo.”

Dona Ines Ines , artesa que faz os barretes tipicos da Ilha do Corvo , Acores . Corvo , 05 de Abril de 2016 . ©Enric Vives-Rubio

Barreta - Aqui usada pelo sr. Inácio, morador na ilha, pescador amador - @Enric Vives-RubioE ali estão as suas barretas, umas coloridas (“com outros padrões, para o gosto do turista”) e as clássicas, como a azul escura que Tocha usou em todas as entrevistas (e que o sr. Inácio, um morador da ilha que encontrámos mais tarde usa aqui na foto ao lado). “E gostou de se ver no filme, dona Inês?”. “Nã!”, diz, franzindo o sorriso. Rimo-nos todos enquanto ela remata “Já não sou pessoa de apresentação nem para os filmes.” Mas fica contente quando a reconhecem, “olha a senhora que faz as boinas!”, disse-lhe um dia destes um comissário de bordo da Sata. “Vê lá como eu estou conhecida pelo mundo inteiro!”.

Ao lado, o sr. José vai ouvindo a conversa enquanto agarra numa das suas fechaduras, tornadas também ícone do Corvo. Uma ironia sempre admirável, já que não se poderia arranjar melhor ícone para uma ilha onde se podem deixar (e deixam) sem problemas as portas abertas. Aos 85 anos, está neste exacto momento aborrecido porque a fechadura que agarrou da estante não funciona lá muito bem. Feitas de madeira, têm um sistema com uma pequena tranca e uma chave também de madeira à medida do cerre. Vêem-se pelas casas agrícolas e ainda por muitas casas pela ilha. “As primeiras que fiz foram para uma casa das Flores, aí em 1952.”

Depois continuou anos fora até que chegaram também ao destaque no mundo do artesanato dos Açores e ao Turismo. Sempre “as vendeu bem vendidas”, diz. “Uma vez veio cá uma senhora engenheira e dizia a fechadura não é boa, não funciona. Tinha a chave ao contrário!, e era ela engenheira.” Isto parece simples mas é complexo, certo, senhor José? “Isto ainda tem uma, duas, deixa cá ver, três, quatro, duas dentro, cinco seis, sete oito nove dez, onze! onze peças!”. E feitas com navalha para trabalharem bem.”  Cada uma demora um dia, foi “sempre” o tempo que lhe levou o trabalho. Continua a trabalhar todos os dias na sua oficina ao lado de casa.

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À noite voltaremos para ver dona Inês e as suas agulhas, de olho na novela da TVI – o canal filmou umas cenas da novela “Única Mulher” na ilha e anda toda a gente à espera do resultado. Encontrámo-la à volta do trabalho, pronta para mais umas fotografias do Enric.

Fechadura do sr. José Mendonça - @Enric Vives-RubioNo dia seguinte, voltaremos também a visitar o senhor José na sua oficina. Encontramo-lo sentado à bancada, distraído com a TV, mas recebe-nos como um profissional. Ao seu lado uma gaiola com um estranho e grande pássaro. “É um pinto!”, ri-se a bom rir. “Os pintos andavam a morrer todos duma doença e este sobreviveu, lembrei-me de o pôr aqui para guardá-lo.” O pinto parece que já se habituou a ser o pássaro da oficina do sr. José, que liga logo a sua máquina para furar mais uma peça de madeira enquanto o Enric começa a fotografá-lo. Tal como a mulher, o nosso artesão já está habituado à fama. Por um lado, sente-se que estranham toda esta atenção tão tarde na vida. Por outro, parecem senti-la como carinho, agora que, como os próprios nos dizem, já têm pouco tempo.

Mas as suas barretas e as suas fechaduras podem permanecer: há quem na vila saiba fazer as últimas (o Celestino, dizem-nos); e a filha do casal, Rosa, assegura as barretas (além de bordados e não só), tendo também já ensinado nove potenciais artesãs – para mais, Rosa garante também o Facebook do Artesanato do Corvo e um blogue onde mostra todas estas e outras artes.

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