Da primeira Coca-Cola no país às Lajes de americanos “solteiros”

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Passar ao largo das Lajes, na ilha Terceira, é descobrir fronteiras invisíveis, marcadas implicitamente a tijolo. À esquerda, o lado português. À direita, a base norte-americana. Ali a freguesia portuguesa, com a igreja, o império, a escola, o centro recreativo, a mercearia. Acolá as vivendas americanas, os bairros com blocos habitacionais de cor amarela, com jardins comuns e parques infantis.

Na base das Lajes, ainda devem trabalhar “uns 500” militares americanos, “os solteiros”, conta Mário Rosa, da delegação regional de turismo e nosso guia na Terceira. “Os que tinham família cá já se foram todos embora, porque o governo americano deixou de lhes dar apoios para isso. Se quiserem ter cá a família tem de ser por conta deles.”

No final do mês passado, o Departamento de Defesa norte-americano parece ter colocado um ponto final definitivo na sua presença na ilha açoriana, afastando a hipótese de a base receber um centro de informações ou qualquer outro uso alternativo. E, apesar do Governo português “estar a completar” uma proposta de revisão do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os EUA sobre a Base das Lajes, por aqui já poucos acreditam que o futuro da Terceira passe pela presença dos militares americanos, ninguém tem esperança num regresso a um passado de (alguns) privilégios. Mas não há um terceirense “que queira que os americanos saiam daqui para fora”.

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“Primeiro porque já há grandes laços de amizade, depois pelos empregos que existem lá dentro e o acesso que tínhamos para [ir às] compras”. Até Janeiro, os locais podiam entrar na Base das Lajes através dos clubes portugueses de oficiais ou sargentos. Tinham apenas de se inscrever como sócios convidados. “Pagava-se 50€ por ano”, conta Mário. A partir daí, o acesso aos supermercados da base era livre, com produtos mais baratos (estão isentos de impostos e de taxas alfandegárias) e importados dos EUA.

“Uma das coisas que os locais gostavam muito era a manteiga, que vinha naqueles baldes grandes. É industrial, quase margarina mas tinha um bom sabor e era fácil de barrar”, recorda Mário. Na casa dos pais só havia daquela manteiga. “Por exemplo, o primeiro sítio em Portugal a ter Coca-Cola foi aqui. Foi a base a trazer-nos a Coca-Cola. Depois quando começou a haver no continente e chegou cá, já todos conheciam e esta era bem melhor, porque era a receita americana.”

Nos últimos meses, com a retirada da maioria dos militares norte-americanos, os supermercados “começaram a ter menos produtos” e “os clubes foram proibidos de fazer isto”. “Agora acabou-se.”

Mara Gonçalves (texto) e Nuno Ferreira Santos (fotos) viajam com o apoio da Direcção Regional de Turismo dos Açores

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5 comentários a Da primeira Coca-Cola no país às Lajes de americanos “solteiros”

  1. Ter acesso aos supermercados americanos só pelo facto de ser sócio de um clube português ao qual se pagava uma quota anual de 50 euros? Havia acesso sim ao chamado “Caça e pesca” onde tinham muitos produtos, desde roupa a artigos alimentares. Supermercados eram os trabalhadores e alguns familiares que lá podiam e podem entrar e comprar.

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  2. Ter acesso aos supermercados americanos por ser sócio de um clube e pagar anualmente 50 euros? Essa informação não me parece muito correta. Havia sim a possibilidade de entrar no chamado “Caça e pesca” que vendia algumas coisas mas não é um supermercado. Apenas os funcionários e alguns seus familiares entravam nos ditos supermercados.

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  3. Acesso aos supermercados da base era livre para os sócios dos clubes?
    Acesso apenas ao chamado “Caça e pesca”. Ou estarei errada?

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