São oito da manhã, já desci o Ganges de barco, já vi o nascer do sol

macaco mjl

São oito da manhã, já desci o Ganges de barco, já vi o nascer do sol e já estou no terraço do hostel a tomar o pequeno-almoço com este macaco que me salta para a mesa quando estou distraída. Já lhe expliquei:

– Podes levar tudo menos os documentos e o tabaco.

Ontem fui a primeira a deitar-me, nove da noite e caí redonda, pela primeira vez dormi oito horas seguidas. Cinco e meia estava a pé. Agora estou aqui sozinha, ainda estão todos a dormir. Sozinha não, porque está aqui o macaco e estamos muito bem, sentados no topo de Varanasi e do Ganges. Ele fala pouco como eu. Mas assusta-me quando salta para a mesa e o senhor do hostel veio agora dizer-me para não estar assim tão sossegada, porque eles às vezes atacam.

Gostava muito de vos contar como é Varanasi, mas não consigo. Quando inventaram o verbo descrever, esqueceram-se da Índia. As ruas estreitas, nós esmagados contra a parede, primeiro passa uma mota, depois uma vaca que me abalroa, depois um morto a ser transportado até ao único sítio do Ganges onde os hindus acreditam ser possível parar o ciclo de reencarnações. Não se pode tirar fotografias no local das cremações. Também não saberia o que fotografar. As fogueiras? Os corpos embrulhados em pano cor-de-laranja e flores? As pessoas no rio? Não sei o que contar sobre esta cidade que os hindus dizem ser a mais antiga do mundo. Ontem pedi dois desejos. Duas vezes o mesmo. Estava cheia de sono, demorei algum tempo a perceber o processo: tocar no sino, três voltas ao templo, uma oração, mais não sei o quê. Fiz à minha maneira. Toquei o sino com tanta força que os senhores do templo até se riram. Depois toquei os sinos todos lá dentro, não era suposto. Mas assim é que se concretiza mesmo, expliquei-lhes. Depois puseram-me uma pulseira que não se pode tirar, tem de ser ela a cair com o tempo. Contrapus:

– No meu caso, não faz sentido. O meu desejo tem uma data limite. Pedi para acontecer uma coisa até dia x. Se não acontecer, corto-a.

Mas o senhor que me estava a fazer a oração ignorou o meu problema. O Ganges está cheio de desejos, de velas, de cânticos, de cerimónias. Queria fotografar as pessoas, os colares, as pinturas. Os sadhus. As mulheres a tomarem banho ao amanhecer. Mas nas minhas fotografias não se vê nada do que estou a ver. Agora, enquanto os outros ainda dormem, vou aproveitar para procurar o senhor do hostel que faz massagens. Ele faz-nos uma massagem, por meia dúzia de rupias, e em troca as pessoas fazem-lhe um desenho ou um texto. Ele tem um bloco cheio deles, outros estão espalhados aqui numa parede. Na verdade, eu não quero a massagem, quero é escrever-lhe um texto.

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