– A Maria João está apaixonada

– A Maria João está apaixonada.
Tiro os phones.
– Eu? Porquê?
– Porque estás sempre a escrever mensagens.
– Não são mensagens, são notas.
Há quem tire fotografias, eu tiro notas. É a minha forma de registar o mundo. À nossa frente temos 12 horas de viagem de comboio que acabaram por ser mais de 14. Dá para tudo: para escrever isto, para ler, ouvir música, conversar, dormir. Fomos num comboio com quatro classes: uma sem reservas de lugar e ventoinhas, que estava à pinha; a nossa, com camas e ventoinhas; outra já com ar condicionado; e uma última também com ar condicionado mas menos camas. 14 horas e meia num comboio na Índia são 14 horas e meia num comboio na Índia. Vou contar só as partes em que nos rimos, o ventinho que entrava pelas janelas, o comboio a parar às vezes, nós a querermos sair para fumar e o polícia ao nosso lado a aconselhar-nos:
– Fumem na casa-de-banho. Lá fora não.
As aldeias a surgirem na janela do comboio pela manhã, um homem a pedalar sozinho de bicicleta no meio dos campos. Nova Deli tinha ficado para trás, ao longe, embora na realidade eu nunca tenha conseguido ver Nova Deli ao longe, com tanta poluição não se vê. Quando estava a escrever isto, ainda faltava a noite toda até Varanasi, onde, como noutros sítios que não nas grandes cidades, se namora às escondidas, às vezes de cara tapada. Uma forma de respirar debaixo de casamentos arranjados. Agora, no terraço do hostel a olhar para o Ganges pela primeira vez, a primeira coisa que vejo são as notícias tristes sobre os jornais em Portugal.

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