O transe do infinito

2A duas horas do último olho de sol, Essaouira é um manto de areia em transe. Conta-se o sexto dia do Ramadão. Os corpos mantêm o hábito na mira mas ainda penam sob o sol, curvados dentro de carrinhos de mão, medidos em sombras de palmeira, sobre redes de pesca, extintos ao lado de bicicletas. “O jejum limpa-nos o corpo”, diz Mohammed, para logo esclarecer: “Somos todos Mohammed.” Sempre que nos olha – desses fósforos densos que tem no rosto – parece ver com clareza, sem o ruído do estômago, com a secura do espírito. Prepara um thé à la menthe atrás de uma cortina de azul desbotado, no seu pequeno café junto ao souk Jdid. “Deitamos o chá para o copo uma vez, duas vezes, três… as necessárias, até que atinja a harmonia.” Naquele instante, o chá não passa de objecto líquido com folhas de hortelã amorfas. Mohammed não beberá.

1Sabemos que daqui a minutos, os corpos ainda leves parecerão outros, enérgicos na caça do que estará para acontecer. Depois da terceira oração, de as mãos terem tocado o chão para sentirem a direcção do mundo, as barracas agitar-se-ão de fruta, vender-se-ão todos os chebakia por perto, homens rápidos far-se-ão às ruas para preparar a hora em que o sol se deita sobre o mar, voltando o sabor do coração à boca. “Diz-se que o ramadão serve para que possamos dar o verdadeiro valor ao que Deus nos dá”, entende Mohammed, o segundo. E sabemos que as casas serão toalhas brancas estendidas em comunhão, decoradas com pirâmides de sésamo e amendoins em taças de cerâmica. Imaginamos Mohammed a verter chá em copos rendilhados – duas e três vezes –, a prometer salpicos aos tecidos da família, a rir com a primeira tâmara.

O dia em que o transe volta a soar inteiro das mesquitas está prestes a cair no mar e tornam-se negras as Ilhas Púrpuras frente à cidade, a minutos do último toque do jejum. Já não dançam ao ouvido as mãos douradas de Dably, que nos contara antes, sentado sobre o seu banco de couro, que oceano era aquele, de ondas doces como a grafia árabe: “Éramos como um grande portão. Ao porto de Essaouira chegavam os escravos da África negra, que nos trouxeram muitos sons, ritmos que não tínhamos. Trouxeram o que faziam com a música para aguentar o trabalho duro ao sol.” Dably terá agora os braços envoltos nos irmãos e irmãs e só amanhã voltará ao gambri (instrumento de cordas descendente do pescoço de camelos e de intestinos de cabra) para deixar cumprir a suspensão da alma na música Gnawa (não vai à mesquita durante o dia, para não deixar sem música a loja de discos).

Assim que o ouvimos através de uma porta da Medina, percebemos que ritual era aquele, que deixava ver o tempo passar mesmo com os olhos cerrados. Mas Dably julgou melhor explicar o Gnawa com o peso da globalização: “Quando o Jimmy Hendrix esteve cá, nos anos de 1970, tocou com o grande músico Abdrahman Paco, a quem chamava de ‘médico dos espíritos’, porque embora o Hendrix tocasse como poucos, bastavam 60 segundos ao Abdrahman Paco para pôr toda a gente em transe…” E mesmo com Paco já sob a terra quente, o transe continuará, acredita-se em Essaouira. “Insh’Allah”, dizemos nós.

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Rute Barbedo (textos e fotos) viaja a convite do Turismo de Marrocos

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