Cartagena das Índias continua a ser uma jóia

Cartagena - Foto de Paulo Pimenta

Se fôssemos por meios terrestres, demoraríamos cerca de 20 horas a chegar de Bogotá a Cartagena das Índias. De avião levamos apenas 1h30 e o choque é brutal. Chegamos de noite e saímos para a pista com a roupa a colar-se ao corpo: como se tivéssemos entrado numa sauna. É hora, portanto, de despir a roupa de Bogotá porque em Cartagena das Índias chegamos às Caraíbas.

Umas Caraíbas cheias de história e de estórias, de lendas e de magia, de cor e de ritmo. A saída nocturna não nos permite ver a explosão colorida que todos esperam quando aqui chegam, mas somos brindados com o ambiente feérico proporcionado pelas luzes amarelas que povoam o casco amurallado, o centro histórico. Como diz o nome, estamos dentro do recinto guardado por 11 quilómetros de muralhas – não é um sítio museológico porque a vida pulsa aqui. A dos turistas e a da cidade, que tem aqui os seus principais serviços governamentais e administrativos.

Cartagena - Foto de Paulo Pimenta

Mas é noite, a cidade rumbea também por aqui. Há sempre música no ar, não sabemos bem de onde vem e não importa. Nas rondas das muralhas há grupos de amigos, alguns baluartes têm agora bares e restaurantes; cá em baixo transitamos entre ruas e ruelas, umas cheias de gente e outras mais desertas. A Praça de San Pedro Clave é uma das paragens obrigatórias, tutelada pela igreja do mesmo cujas paredes laterais servem de montra a vendedores de pinturas. O Museu de Arte Contemporânea, edifício branco e de madeira ao estilo colonial – como a maioria dos edifícios no centro histórico – quase passa despercebido perante “casona” amarela e branca que agora é restaurante diante dele e os passeantes detêm-se mais nas diversas esculturas que representam antigas actividades da cidade, que incluem jogar dominó e cartas. A Praça Aduana, onde se situa a alcadería desde tempos coloniais, é mais ponto de passagem e de fotos – enorme espaço coberto de tijoleira gasta – com a música a chegar do terraço de um hotel nas redondezas, e a noite agita-se à entrada da Praça dos Coches. Aqui há uma mistura de gente em esplanadas e nas arcadas de edifícios virados à muralha onde de dia se vendem doces (e por isso é chamada de Arcada dos Doces) e à noite é ponto de entrada para cafés típicos onde os corpos se balançam em ritmos frenéticos: da cumbia ao vallenato passando pelo mapalé e não nos perguntem qual é o quê porque continuamos sem conseguir distinguir.

Cartagena - Foto de Paulo Pimenta

A visita nocturna pela “jóia das Caraíbas” – não é só a arquitectura tem também a ver com mil e uma histórias de piratas (e de potências europeias, Portugal incluído) que a cobiçaram por ser ponto de passagem de todas as riquezas coloniais espanholas – segue por labirintos de ruas, onde nos deslumbramos com os edifícios característicos de varandas no primeiro andar (não poucas vezes debruadas a flores de tantas cores, como veremos), muitas vezes albergando cafés, restaurantes e lojas modernas, de design irrepreensível e (quase) sempre piscando o olho ao passado colonial, e praças mais ou menos cheias – na Santo Domingo (igreja a tutelar e a história do diabo que lhe entortou a torre), várias esplanadas preenchem o espaço onde uma “gorda” de Botero (“Figurada reclinada 92”) se exibe e a música é ao vivo, “són de Cuba”, saída de um café onde alguns pares rodopiam.

Na verdade, confessamos que a maior magia que sentimos nesta primeira noite é quando nos afastamos das zonas mais concorridas e nos deixamos envolver pela luz fugaz que tudo torna fantasmagórico, sobretudo quando escutamos os cascos dos cavalos que incansavelmente puxam coches pelas ruas empedradas. Não importa que haja perigo que os cavalos escorregarem nestas pedras tão gastas – fazem parte de Cartagena das Índias e ninguém os quer ver desaparecer.

Fora do centro histórico, a noite de Cartagena faz-se nas zonas modernas, Boca Grande sobretudo, arranha-céus a marcarem o ritmo de restaurantes, bares, discotecas. Faz-se também nas chivas, autocarros-bares-discotecas que vão percorrendo as ruas e parando de vez em quando para receber ou deixar noctívagos. Quando uma passa é impossível não nos darmos conta, mesmo que não vejamos as cores coloridas de que se pintam: a música sai massiva – é quase sempre vallenato, dizem-nos. Começam a rodar em ritmos mais calmos, com música ao vivo – os grupos vão passando de umas para outras – e acabam como pistas de dança. Não entramos em nenhuma, ficará para uma próxima.

Cartagena - Foto de Paulo Pimenta

______________________________________________________________
Andreia Mar­ques Pereira e Paulo Pimenta (fotos) via­jam pela Colôm­bia a con­vite da TAP

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>