Antes de Bogotá, La Candelária

Bogotá - Foto de Paulo Pimenta
Antes de Bogotá ser uma metrópole, antes da Colômbia ser país, houve a Candelária que se hoje é o bairro histórico da capital colombiana é porque foi o local escolhido pelos conquistadores para instalarem a cidade (1538). Abrigada junto à cordilheira oriental dos Andes, La Candelaria nem é sequer um bairro: é uma “localidad”, divisão administrativa de Bogotá (tem 17), com seis bairros. Por agora, falaremos de “bairro” que é histórico e é o centro do poder da cidade e do país: se numa rua encontrar barreiras militares, não se surpreenda, o palácio presidencial (Casa de Nariño) está aqui e o que lhe pedem militares quase imberbes e afáveis é apenas para abrir a bolsa e seguir como se nada fosse.

Poucas centenas de metros antes está a Praça Bolívar, o coração da cidade, com a catedral primaz e palácio episcopal, o Capitólio (sede do congresso), o edifício da câmara, o Palácio da Justiça (novo edifício depois da destruição do anterior, em 1985, em confrontos entre militares e guerrilha que tiveram um saldo de 350 mortos) – junto a este, num espaço recolhido da praça, “la Casa”, edifício modesto com varandas de madeira bem ao estilo colonial mas com a memória de ali se ter dado o grito de independência. Há um guerreiro pré-colombiano a exibir-se para turista ver, nas escadas da catedral, ao lado, vários grupos sentam-se nas longas escadarias e um duo feminino toca música brasileira, pelo meio do imenso terreiro passeia-se de skate e passeiam-se lamas entre grupos que parecem não ter pressa – os únicos confrontos aqui, agora, são com as pombas e a música que sai de uma banca de CD piratas.

É a subir que se ruma em busca das raízes da cidade, com os Andes à vista e os dois miradouros da cidade a seguirem-nos: Monserrate, o mais emblemático, de um lado, Guadalupe do outro, 3120 e 3300 metros de altitude, respectivamente . Ruas marginadas de edifícios coloniais, sobretudo, republicanos também, igrejas e antigos conventos, casas e mansões, coloridas ou brancas, portas pesadas de madeira, janelas com “portones” (gradeamentos de madeira trabalhada), varandas de madeira. Muitos museus (55, dizem-nos) dão a patine cultural à zona (destacam-se o do Ouro e o de Botero) e personagens históricas povoam estas ruas de lendas que agora convivem com vendedores ambulantes e comércio popular – entre algumas lojas de artesanato mais ou menos recomendáveis, algumas das quais com seleção de esmeraldas, a pedra preciosa nacional. Os restaurantes aqui têm um ambiente colonial, com decoração retro-kitsch, e comida que vai da colombiana à francesa.

Subindo, subindo, a Praceta do Chorro de Quevedo é o local onde foi instalada a primeira guarnição do que viria a transformar-se na cidade. Reconstruída à imagem do passado, incluindo a primeira igreja de Bogotá, é agora local de boémia, frequentado por estudantes, dada a localização próxima de algumas universidades. Daqui sai a Calle del Embudo, local onde se encontram muitas chicherías. “Sí, hay chicha” ou “Hoy chicha” são anúncios comuns, publicitando a bebida tradicional indígena à base de milho fermentado que foi proibida pelos espanhóis mas sobreviveu até hoje e é muito popular entre estudantes, mesmo que seja nas suas versões “coloridas” (com sabor a uvas, morangos, cerejas).

Bogotá cresceu muito para além da Candelária, ganhou cosmopolitismo e não deve nada a outras metrópoles desta zona do mundo. Encontramos bares e restaurantes arrojados, museus, galerias, lojas conceptuais, parques, as principais marcas mundiais – muitas estradas e ruas congestionadas, apesar do sistema de transportes “do milénio” (autocarros que funcionam com um sistema semelhante ao dos metros – que a cidade não possui). Mas para conhecer a cidade este deve continuar a ser o ponto zero: mistura as origens com o futuro que não perde de vista o passado.

Bogotá - Foto de Paulo Pimenta

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Andreia Mar­ques Pereira e Paulo Pimenta (fotos) via­jam pela Colôm­bia a con­vite da TAP

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