A arte está na rua e é do povo

Bogotá - Fotografia de Paulo Pimenta
Rapidamente se torna uma evidência: os grafittis são uma constante em Bogotá, brotam dos locais mais inesperados – desde edifícios (abandonados ou não) a muros de viadutos das principais avenidas da cidade. Lançam mensagens que vão da política ao meio ambiente, da violência doméstica ao feminismo, ou são “apenas” demonstrações de virtuosismo, mais ou menos lúdico, na criação de ilusões cénicas. 

É sábado à tarde, e numa dessas principais artérias da cidade, a caminho do aeroporto, a Avenida Circular, vemos grupos e grupos e grupos, numa extensão de muitas centenas de metros, a pintarem as paredes de betão armado. Eles próprios parecem um batalhão armado de latas de spray – junto a um dos grupos, um carro de polícia. “Mas devem estar apenas a pedir a identificação”, diz-nos uma bogotana, resumindo depois a mini-revolução que levou a que os grafittis ganhassem espaços oficiais nas paredes de Bogotá.

Bogotá - Fotografia de Paulo PimentaComeça com a morte, às mãos da polícia, de Diego Felipe Becerra, em 2011, quando pintava num viaduto – este acontecimento conduziu a uma política mais tolerante por parte do governo da cidade. O recentemente destituído presidente da câmara de Bogotá reconheceu então o grafitti como uma forma de expressão artística e cultural e delimitou as superfícies onde poderia ser praticado (o que significa que também delimitou as áreas off limits que, claro está, se tornaram nas mais apetecíveis). Bogotá tornou-se assim uma espécie de meca informal para o grafitti e aqui chegaram artistas de vários pontos do mundo, que têm ajudado a colorir a cidade (para além do seu centro histórico).

O segundo momento foi protagonizado por Justin Bieber, que no ano passado, após um concerto na cidade, decidiu ir pintar umas paredes. Fora dos limites permitidos e com escolta policial. A comunidade artística local rapidamente se mobilizou e convocou uma maratona de grafitti de 24 horas, na mesma passagem onde Bieber havia deixado a sua marca. Abordados pela polícia a justificação foi: “Se o Justin Bieber pode, por que não nós?”

Se a arte está nas ruas de Bogotá também está dentro de portas e são abundantes os museus na cidade, sobretudo na zona histórica, La Candelaria. Desses é impossível não falar do Museu Botero, situado numa residência colonial, mesmo em frente ao Centro Cultural Gabriel García Márquez, uns poucos metros acima do famoso café Juan Valdez. Não só porque Botero é “o” artista incontornável das últimas décadas de arte colombiana, conhecido pelo volume (excessivo) de massa corporal das suas personagens, mas porque o museu que leva o seu nome é gratuito. Inaugurado em 2000, museu foi constituído com o espólio que o artista doou. São 123 obras da sua autoria (entre pintura e escultura) e as restantes de grandes mestres. É assim que dos grafittis da rua os nossos olhos entram em casa e passeiam por Renoir, Degas, Monet, Picasso, Corot ou Bacon.

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Andreia Mar­ques Pereira e Paulo Pimenta (fotos) via­jam pela Colôm­bia a con­vite da TAP

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