Conta-me histórias, Berlim

Berlim - Nelson Garrido

Comecem uma conversa com um habitante de Berlim sobre a cidade e o mais provável é que o termo mudança acabe por aparecer. A capital alemã está sempre a mudar, dir-lhe-ão. Há sempre alguma coisa nova a acontecer – um bar novo que abre, uma loja desconhecida que aparece subitamente na esquina familiar, um eléctrico que muda de rua para permitir uma ligação directa à estação de comboio, prédios económicos que são construídos “de emergência” (assim mesmo, foi como nos disseram), para albergar os milhares de pessoas que chegam à cidade sem capacidade para pagar as rendas praticadas. Qualquer coisa. Berlim é uma cidade antiga, voltada para os jovens e que não parece minimamente interessada em envelhecer.

Dá-se um passeio por Berlim – e pode ser a pé ou de bicicleta, que a cidade plana é amiga de quem gosta de mexer as pernas – e tudo o que lhe disseram revela-se verdadeiro. Um berlinense empedernido, habituado a calcorrear todos os caminhos da capital, acabará, mais cedo ou mais cedo, por se surpreender com alguma novidade acabada de chegar. É como se Berlim estivesse apostada em deixar-nos num estado permanente de surpresa. Toma lá, que com esta não contavas, diz-nos a cidade com uma gargalhada.

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E, se só estiver lá o tempo suficiente para ver os monumentos do costume (que nunca o são, porque também eles evoluem), como a Porta de Brandemburgo, o Reichstag ou os espaços que recordam o caído Muro de Berlim, não se preocupe, porque não há o risco de ter uma viagem sem surpresas.

Basta entrar no metro. Pode ser que lá esteja sentado um homem estátua, ainda completamente ataviado num fato cuja cor cinzenta se prolonga para todas as partes visíveis do seu corpo. E, quase de certeza (como ainda há pouco aconteceu) há-de estar um jovem estrategicamente colocado junto ao banco onde o homem pintado se sentou, a tentar, disfarçadamente, tirar uma selfie que inclua os dois.

Ou então, pode ir sossegadamente a contar as estações que ainda faltam para sair da carruagem, quando entram dois homens que em tudo pareceriam normais, não fosse um deles ter uma máscara de um animal a cobrir-lhe a cara – o que, claro, não o impede de continuar a conversar como se nada se passasse e até de cantar, se lhe der para isso.

Também pode acontecer que vá apenas a caminhar pela rua e, de repente, se depare com um mercado de velharias cheio de personagens difíceis de encontrar à porta lá de casa. Como a mulher vestida de azul forte e verde florescente, cuja indumentária não encaixa em coisa nenhuma, mas que não se parece importar minimamente com isso.

Berlim muda e, a cada passo, cativa novas personagens. Nós somos apenas mais uma, no meio de todas as histórias que a cidade tem para contar. E ela é generosa, não esconde nada. Conta lá outra história, Berlim. O que é que vais inventar a seguir?

Berlim - Nelson Garrido____________________________________________
Patrícia Carvalho e Nelson Garrido (fotografia) em Berlim

 

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