«Amigo dame la mano»


E ao sexto dia o corpo parece realmente sucumbir à altitude. Subimos mais, estamos agora a uns 3800 metros, de frente para o lago Titicaca. Custa levantar da cama, respirar é uma tarefa que parece muito menos inata, a cabeça ondula, as pernas fraquejam. Talvez seja desta que precisemos de oxigénio.

Felizmente temos o chá e folhas de coca para mascar. Pode parecer lenda, mas connosco funciona. Em poucos minutos, vamos recuperando a forma, embora a respiração continue a exigir mais energia. Seja como for, já nos sentimos com forças para explorar o Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo e que o Peru partilha com a Bolívia.

Tinham-nos dito que quando abríssemos a janela do hotel de Puno onde nos alojámos a vista seria belíssima. Não nos encheu as medidas, temos de confessar – já vimos paisagens mais avassaladoras nestes dias de Peru. Fomos mudando de opinião à medida que a lancha cruzava as águas em direcção a uma das ilhas onde vivem os uros, um povo pré-inca. Ainda por cima, tinham saído furadas todas as previsões que apontavam para um frio terrível – a manhã acordou radiosa, o céu limpíssimo, o sol até mais quente do que seria desejável perante o nosso aprumo, que ia de gorro a cachecol e ainda luvas na mochila.

A luz da manhã reflecte-se nas águas calmas do lago, dourando os juncos que por aqui crescem sem freio – e que os uros usam e abusam para construir as suas ilhas flutuantes, que já vemos ali ao longe. Estas ilhas, umas 60 por estes dias, são uma das principais atracções do lago. Turista que ande por estas bandas não as passa à frente, embora haja quem desconfie que o que aqui se vê não passa de uma encenação de costumes que já lá vão.

O que nos contam é que aqui vivem em permanência umas 4000 pessoas, por norma organizadas em clãs familiares. Lançando mão das raízes do junco, que por aqui se chama totora, os locais constroem os alicerces das ilhas, sob os quais edificam depois as suas casas, também elas de totora. Aportamos a uma destas ilhas e somos recebidos por Amanda, Rosana e Ronald. Assim que pisamos Pankanita Corazón, não podemos deixar de sentir como os nossos pés se afundam suavamente na totora – e é justamente por este andar balanceado que os uros se denunciam quando vão a Puno.

Amanda, 27 anos, convida-nos para conhecer a casa que partilha com o marido – são recém-casados, não têm ainda filhos. Entramos e vemos apenas uma cama encostada a um canto e, em frente, um aparelho de rádio e televisão, cujos sinais aqui chegam graças à energia de um painel solar instalado na ilha. De resto, a casa de Amanda é apenas uma paleta de cores que vai do dourado da palha de totora ao verde-fluorescente e ao laranja das saias que tem penduradas em traves de madeira. Também aqui tem espanta-espíritos e tapetes que faz e vende aos turistas.

Faz parte do “tour” habitual visitar a escola. É para lá que vamos agora, a bordo de um típico barco de totora. É fácil deixarmo-nos impressionar: numa única sala de aula convivem meninos de idades bem díspares, descalços quase todos, fardas encardidas. Recebem-nos com uma canção que repetem em várias línguas: aymara primeiro, a língua-mãe dos uros; quechua depois; castelhano; inglês; francês; japonês. E quando cantam de novo – “Amigo dame la mano” – e nos distribuem abraços, temos que fazer um esforço para controlar as lágrimas.

Quem disse que isto é uma encenação?

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Sandra Silva Costa viaja a convite da Agência Abreu e da LAN

2 comentários a «Amigo dame la mano»

  1. Obrigada por me fazer reviver a viagem que fiz há quase 12 anos. Não há palavras que exprimem a emoção que se sente neste local, nem o aperto do coração ao vermos as condições de vida desta gente risonha e colorida. Pelo seu sentido relato vejo que nada mudou, mantém-se a certeza de que não é encenação. Parabéns!!

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  2. minha querida, escreves com tanta emoção que voltei à escola dos uros e até senti as mãozinhas de algumas daquelas crianças. Que feliz me sinto por teres participado desta viagem e poderes assim, de uma forma muito bonita, dizer aquilo que nós só conseguimos sentir.
    Beijinhos, Sandra! havemos de voltar a embarcar juntas!

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